
Acaba de ser publicado na revista Cadernos de Pesquisa da Escola da Cidade (edição 17) um artigo da minha filha Adriana. Resumo do TCC em Arquitetura, é resultado de sua pesquisa sobre a vida do avô arquiteto, que ela não conheceu – só esteve com ele uma vez, aos seis meses de idade. Em “A trajetória de um arquiteto comum: dimensões da prática de Alfredo Porto Alegre (1939-1999)”, ela busca abarcar o campo profissional de sua atuação na arquitetura e urbanismo entre meados dos anos 1960 e 1999, quando faleceu.
Em que pese meu orgulho de ver um artigo da minha filha aceito em uma revista acadêmica, acredito que preservar memórias, sejam pessoais, familiares, de uma profissão, de um povo ou país é uma atividade pouco usual na nossa cultura. Essa falta parece ajudar a distorcer fatos, trazer de volta posicionamentos controversos, vestidos com roupas trocadas. Além disso, costumamos valorizar apenas as histórias daqueles que foram incomuns, que ficaram famosos, dificultando a compreensão de como nossa sociedade foi realmente construída. Por isso sua pesquisa é importante.
Nessa investigação, apesar da narrativa trazer as realizações profissionais do meu sogro, a discussão não diz respeito unicamente ao resgate de sua história, “mas sim a uma tentativa de preencher lacunas historiográficas dos arquitetos ‘comuns’ que não pertencem aos cânones da arquitetura moderna do século XX”. No final das contas, como Adriana mostra, nenhuma trajetória é comum.
No artigo, ela apresenta a pluralidade profissional do avô, passando pela sua atuação como arquiteto assalariado, a especialização em arquitetura
hospitalar, o trabalho no funcionalismo público e, em paralelo, seu engajamento
em instituições de representação profissional, como o Conselho Regional
de Engenharia e Agronomia (Crea), do qual foi o mais jovem presidente no Rio Grande do Sul; o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) e o Sindicato dos Arquitetos do Rio Grande do Sul, do qual foi um dos fundadores, em plena ditadura militar. Em sua pesquisa, que envolveu visitas a diversos órgãos e arquivos, além de entrevistas com pessoas da vida familiar e profissional do avô, ela ajuda a contar um pouco da história da arquitetura brasileira e constrói um vínculo pessoal com alguém que teria uma profunda afinidade se a finitude precoce não tivesse interrompido essa possibilidade.
