Uma peça de teatro aonde você vai sem saber quem será o ator que interpretará o texto. Essa é a proposta de “Coro dos solitários, ou Sonhamos ser Robinson Crusoé”, da Cia de Teatro Acidental. No espetáculo, duas atrizes e dois atores começam em cena, mas, tal qual o Robison Crusoé de Daniel Dafoe, sofrem um naufrágio e apenas um sobreviverá e chegará à ilha deserta. Para saber qual deles será, é realizado um sorteio ao vivo. À medida que seus números vão saindo, os demais se retiram de cena deixando o último no palco. Sozinho.

Nesta condição, o náufrago da vez começa sua conversa com o público e consigo mesmo sobre sua solidão, e a de todos nós. A solidão de estar sozinho e a de estar em multidão. Aquela que reconhecemos e a que fingimos não reparar. Saímos do espetáculo nos sentindo um pouco Robinson Crusoé.
Essa percepção é forte a ponto de minha filha e eu passamos todo o caminho de volta do teatro conversando sobre o que assistimos: desejamos companhia, mas não temos paciência para entender o outro; tememos o outro, mas precisamos dele; ficamos seguros e em paz conosco mesmo, mas somente por pouco tempo.
O texto do espetáculo é do ator e dramaturgo Artur Kon, meu amigo de pós-graduação no Vera Cruz. Por isso, eu já havia lido uma versão dele na nossa oficina. Infelizmente, Artur não foi o sorteado da vez para interpretá-lo, mas a experiência com outro ator foi tão boa quanto.
O espetáculo ainda estará em cartaz neste final de semana, de quinta a sábado, às 19h e às 20h30, e domingo, às 18h e às 19h30, no TUSP Butantã, na USP. E é gratuito. Recomendo muito.
P.S. – Acabei de ler o artigo “O que esperamos do amor?”, da coletânea Felicidade Ordinária, da Vera Iaconelli, que dialoga com o tema da peça ao abordar a projeção que colocamos no outro como responsável por nossa felicidade e capaz de apaziguar nosso vazio: “Acreditar que nossa solidão estrutural pode ser aplacada pela presença do amante é outra fantasia que o amor insiste em contrariar. Em nossa época, o amor teria a vocação de ser apenas a contingente e fugaz trégua na incontornável solidão humana. A mim, soa suficientemente bom”. E, se a solidão é inexorável, saibamos ser sós.