
Vários dias se passaram e não sai da minha cabeça as cenas da reportagem sobre o estupro de uma mulher em Paranaguá, na qual uma câmera mostra a vítima tentando se segurar em uma parede até ser arrastada pelo agressor a um banheiro de um posto de gasolina desativado. Segundo a matéria, a câmera a registrou dizendo NÃO pelo menos onze vezes, mesmo só capturando som quando está de frente para a cena.
Assistir ao estuprador dizendo cinicamente para a delegada que a mulher dizia NÃO para fazer charme é de embrulhar o estômago de qualquer pessoa normal. O aflitivo, no entanto, é ser cada vez mais difícil saber o que é normal, em um mundo em que, mesmo quando o estupro é praticamente filmado, um juiz negue duas vezes a prisão do agressor. Ele só foi detido após a apelação do Ministério Público. Desnecessário dizer que, caso não houvesse gravação, o mais provável é que as autoridades não acreditassem na versão da mulher e tudo ficaria por isso mesmo.
O caso do jogador de futebol Daniel Alves, cuja condenação de estupro foi anulada na Espanha, é prova de que não é um problema apenas do Brasil. Já é difícil entender o que move homens a estuprarem mulheres. Pior: muitas vezes suas próprias esposas, namoradas, filhas. O descrédito que a palavra feminina tem como depoente, porém, é o maior incentivo para os criminosos.
Dói ser mulher e pensar que o que aconteceu com as mulheres em Paranaguá e na Espanha está ocorrendo neste exato momento em vai saber quantos lugares no mundo, e poderia ser uma de minhas filhas naquela situação.
Contra essa indignidade, nós mulheres precisamos não somente ocupar mais espaços de voz e poder, mas contar com posicionamentos mais incisivos dos homens que não compactuam com isso. As estatísticas e as imagens mostram que não têm sido feito o suficiente.