Apesar de não ser uma leitura fácil, Um Dia Vou Escrever Sobre Este Lugar, de Binyavanga Wainaina, é um dos livros mais interessantes que já li sobre a África, possivelmente por ser escrito por um africano negro de classe média, com uma realidade não muito diferente de qualquer morador de classe média de país em desenvolvimento, como o Brasil. A maior parte das obras literárias que tive acesso sobre o continente e de autores africanos são de escritores brancos (como como Mia Couto e Isabela Figueiredo) ou mulheres com experiências extremas – de mutilação, guerras (como Ayaan Hirsi Ali). Infelizmente, até agora li apenas ensaios da Chimamanda Ngozi Adichieainda, autora citada pelo próprio Wainaina.
Binyavanga conta suas memórias em uma estrutura de tempo linear e, apesar de escrever a partir do futuro, a maior parte da narrativa é presentificada, sobretudo a primeira parte, relativa à infância e à adolescência, revivida pelo autor sem contextualização. Tudo é trazido sob o ponto de vista do cotidiano da criança e, depois, do adolescente:
“Tenho sete anos de idade, e ainda não sei por que todo mundo parece saber o que está fazendo ou por que está fazendo”. “Ela é a estrela da classe. É 1978, e todos frequentamos a escola de ensino fundamental Lena Moi Primary School”. “É período de recesso escolar e está frio. Julho”.(pág. 9)

Mesmo partindo de episódios familiares, as grandes questões do autor estão divididas em todo o livro entre o que é pessoal e o que é histórico, cultural e político em seu país e em toda a África, em como o contexto influencia sua existência e como reage a ele. Esta parece ser uma intenção clara já a partir do título de suas memórias, Ainda Vou Escrever Sobre Este LUGAR.
Mas Wainaina não tem compromisso com o esclarecimento das circunstâncias para quem não está familiarizado com elas. Na maior parte do texto, essa falta de explicações ou o uso de palavras em vários idiomas não faz falta. Em alguns casos, ficamos mesmo sem entender, o que não diminui a vontade de continuar a leitura.
Aliás, é muito interessante ver, em toda a primeira parte, que ocupa praticamente metade do livro, questões políticas apresentadas como uma criança que ouviu a história em casa contaria:
“O Presidente Moi não vem de uma família importante. Ele era só um professor de ensino fundamental antes de entrar para a política. Ele está sempre sendo humilhado.”
Dessa maneira, a vida cotidiana de um menino de uma família de classe média do Quênia se desenrola entre a escola e a família em um contexto de eterna instabilidade política de um país recém-saído do colonialismo. Mesmo assim, o Quênia é descrito como um país privilegiado e líder daquela parte da África, ao contrário de Uganda, terra natal de sua mãe, assombrada por Idi Amim Dada, ditador sanguinário e cruel, do qual Bynyavanga não precisa trazer detalhes, porque faz parte do imaginário global, pelo menos de quem acompanhava o noticiário dos anos 1970.
Na página 49, temos um ótimo exemplo desse ponto de vista:
“Olha! Olha o Michael Jackson se movendo como se não quebrasse. Tentamos dançar como ele.”
“Baba nos acorda esta manhã e conta que houve um golpe de Estado (…) Há tiroteios por todo o Quênia (…) Muitas mulheres são estupradas. Há toques de recolher, por meses, e prisões (…).”
“O Quênia não é Uganda. O Quênia tem grandes estradas e ferrovias e edifícios altos, ciência e tecnologia, pesquisa e grandes aviões (…). À tarde, o golpe é derrubado e milhares são mortos. Nairóbi tem cadáveres por todos os lados.”
Embora linear, como mencionei antes, a narrativa tem mudanças de temas e tons, podendo ser dividida em outras três partes após a infância e adolescência no Quênia: a crise existencial (na África do Sul e no Quênia), a descoberta da vontade de ser escritor (na África do Sul e no Quênia) e o escritor reconhecido (África e Estados Unidos).
Durante a adolescência e em todo o restante do livro, o autor deixa pistas não apenas do seu desconforto com questões políticas, mas também de uma inquietação e inadequação interior, que só revela ao final, quando conta aos pais já falecidos, em sua imaginação, que é homossexual. A sexualidade é uma questão mal resolvida que perpassa o livro sem ser manifestada e que parece não ser totalmente resolvida durante a vida de Binyavanga.
Wainaina também descortina ao longo do texto a hierarquização em um país dividido em tribos e línguas diferentes, no qual o equilíbrio de forças é frágil e muda rapidamente a depender de quem está no poder. O autor se movimenta nessa miríade de povos e línguas sem preocupação de explicar termos, costumes etc., e vamos atrás tentando assimilar o que, parece, nem ele entende totalmente.
A questão da língua é uma constante, e é difícil saber quais ele domina mais ou menos: é falante de inglês e Swahili, a língua oficial do Quênia (e em outros países africanos), mas compreende também o idioma paterno, Gikuro, que parece ser uma das etnias dominantes, enquanto salienta não entender o dialeto da mãe. Deixa claro que ser um africano é ser, no mínimo, bilíngue:
“Há algumas semanas, li Decolonising the Mind, de Ngüri wa Thiong’o. É ilegal e foi emocionante, e eu tinha prometido voltar para minha própria língua. Inglês é a língua do colonizador.”
Outra característica do autor, que vai ficando mais aparente conforme amadurece é a ironia. Um exemplo é quando Wainaina aborda a imagem da África fora dela e o termo diversidade, ao falar sobre os formulários para bolsas de estudo no exterior, nas quais se prega o “clube Modelo da ONU” e os “Shows da Unesco sobre as crianças do mundo”. E termina dizendo: “Quero fazer diversidade”.
A partir do capítulo 13, quando Binyavanga vai para a universidade em Joanesburgo, há uma mudança no foco narrativo. A marcação deixa de ser apenas no presente: “Quando nos conhecemos, ele me perguntou qual era meu nome no rap. Eu não sabia.” A partir daí, presente, passado e futuro se mesclam à narrativa. “Um dia, o dia em que o apartheid estiver morto, o dia em que o mundo for justo e igualitário, e todos aqueles que assistem vídeos de R&B tiverem acesso igual para representar esses sons para o mundo, Kofi estará entre os selecionados.”
A cantora sul-africana Brenda Fassie é uma das personagens mais interessantes desta fase, um ícone admirado pelo autor, como se fosse uma metáfora da própria África, com seu grande talento, vontade de acertar e mudar a situação, mas impedida pela realidade, com a vida estraçalhada pelas drogas. O autor se identifica e é difícil não intuir um paralelo com sua própria existência nesta fase juvenil, cursando uma universidade na qual não via sentido, sem encontrar um propósito que o motivasse:
“Finalmente, assistimos televisão e sacudimos a cabeça. Brenda está acabada. Bêbada e incoerente, não aparece para apresentações. Há rumores de que está viciada em crack, que aterrissou em Joanesburgo, devastando bairros inteiros.”
A terceira fase começa a partir do capítulo 21, quando o autor começa a ter clareza de que quer ser escritor:
“Estou começando a anotar meus pensamentos, a escrever esses momentos. É quando tudo está feito e faço o que faço melhor”.
A partir daí, vemos sua volta para a África do Sul para terminar a faculdade, o que não se concretiza, e o retorno para seu país natal com a morte da mãe.
Há várias questões apenas insinuadas na narrativa de Binyavanga, como a maior dificuldade das mulheres de saírem da condição de submissão. Suas irmãs estudam (Ciru é sempre descrita como genial), mas acabam sendo mães solteiras e ficando presas à rede familiar. O irmão se casa e progride. Aparentemente, os homens quenianos (africanos?) não querem se relacionar com mulheres com maior formação. Essa situação é abordada mais diretamente em sua conversa com Suzannah (pág. 181), queniana jovem que gostaria de ir para a universidade, mas preferia se casar com um homem mais velho. “Os homens mais velhos são bons. Se você os alimenta e lhes dá um filho, ele deixam você em paz.”
O autor não perde o tom irônico nem quando começa a ser reconhecido como escritor:
“Cresci com pessoas cujas vidas desciam dos satélites da televisão e passavam por nós. Pessoas No Caminho do Sucesso. Nós seguimos: todos tentando passar pelo funil para além do qual salários de nível internacional são oferecidos. Somos ameaçados, a cada minuto, pelo fracasso, se questionarmos o caminho das pedras da certeza que nos é apresentada, se não formos fluentes na moda da MTV e de Londres e Nova York.” (pág. 222)
Ao tornar-se escritor de sucesso (a partir do capítulo 27, após ganhar o Caine Prize), seu relato passa a ser mais jornalístico. Quando começa a viajar pela África, Europa e Estados Unidos, o enfoque no neocolonialismo é intensificado:
“Oh, ouvi falar do seu trabalho. Eu trabalho para a União Europeia Humanitária Alguma Coisas. Quero fazer um livro sobre o Sudão, sobre a doença do sono no Sudão.”
O autor vai para o Sudão, mas seu texto é recusado por trazer questões políticas, por não estar “de acordo com a política da EU”.
“Começo a entender por que tão pouca boa literatura é produzida no Quênia. O talento é desperdiçado em edu-tretenimento financiado por doadores e panfletos para conscientização por sete mil dólares cada. Não complique as coisas e você será bem pago.”
Binyavanga Wainaina morreu em 2019, o que é uma pena, pois poderia escrever ainda sobre muitos lugares.