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“Se deus me chamar eu vou” é o terceiro romance que leio de Mariana Salomão Carrara, e a versatilidade da autora é o que mais gostei. Neste livro, a narradora é uma menina entre onze e doze anos escrevendo um livro/diário sobre o ano que está vivendo e transmite muita credibilidade. Aliás, mais credibilidade até do que a árvore e os objetos que contam a história em “A árvore mais sozinha do mundo”, em que pese o fato de não termos nenhuma ideia de como falariam uma árvore, um espelho, um carro e um uniforme de pulverização de veneno. Em “Não Fossem as Sílabas de Sábado”, a narradora é uma mulher adulta, cujo marido é morto por um vizinho que se joga da janela. Ainda é o meu preferido, mas ainda preciso ler “É Sempre a Hora da Nossa Morte Amém”, cuja protagonista, pelo que li, é uma septuagenária com problemas de memória.

Mesmo que não tenha nenhuma metáfora ou pornografia embutida nos problemas de bullying sofridos por Maria Carmem e o trisal vivido por seus pais e o consultor Leonardo, a maneira como a narradora de “Se deus me chamar eu vou” encara seu cotidiano me lembrou “O Caderno Rosa de Lori Lamby”, o diário da menina prostituída pelo pai de Hilda Hilst. Naquela obra, a autora brincava com o mercado editorial, Lori representando o autor, agenciado pelo editor/pai cafetão.

O que me remeteu a Hilst, no caso da adolescente de Carrara, é o jeito direto de Maria Carmem tratar seus dramas, reconhecendo inclusive preferir o bullying à indiferença dos colegas e a inveja do amor a três dos pais em relação a ela, que se acredita incapaz de um dia ter um namorado. É um relato, mais do que tudo, sobre solidão. Para ler de um fôlego só.

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