PaulistanaSP

Acabei de fazer uma reforma em meu apartamento em que uma parede foi derrubada. Foi a terceira nas quase três décadas em que moro aqui. Em todas elas, tive o cuidado de prevenir minha vizinha de porta e pedir desculpas, sem fazer mais nada. Não passou pela minha cabeça fazer o mesmo com os vizinhos de cima e de baixo. Viajei ou fui para a chácara durante os períodos críticos.

Entendo que prevenir os demais afetados não iria fazer a menor diferença na experiência que intuía ser ruim, mas pelo menos seria um agrado, como dizer eu me importo com o desconforto que vou te causar. Fica aqui um mea-culpa tardio de alguém que está para enlouquecer com a reforma do apartamento acima do meu.

Meu apartamento em obras em janeiro: pobres vizinhos!

Eu sabia que meus vizinhos fariam esta grande reforma, pois no prédio se comentava que havia sido adiada por conta de um acidente sofrido por um dos moradores do apartamento. Vi a mudança deles sair, pois precisam ficar fora para as obras e sei que têm todo o direito de mexer em seu imóvel, tanto quanto eu tenho no meu. Nada disso minimiza a sensação de permanecer oito horas por dia com pessoas martelando na minha cabeça.

Esta é daquelas situações da qual ninguém tem culpa, consequência do nosso jeito de viver empilhado uns sobre os outros, em uma cidade já barulhenta o suficiente. Além dos carros, motos e ônibus na rua, aqui ainda temos música e conversas durante a noite, afinal moro em um bairro boêmio. E uma marmoraria ao lado, a qual me acostumei a abstrair, assim como a diversidade de obras no edifício. Com quase 30 anos de construção, as reformas são necessárias. Vários dos moradores que se mudaram quando o prédio ficou pronto e criou filhos por aqui, como eu e meu vizinho de cima, estamos readaptando nossas casas para a nova situação de ninho vazio.

O resultado, porém, é que minha rotina nesta semana, e sabe-se lá até quando, é lidar com britadeira, marteladas e outros barulhos indecifráveis, que parecem dobrar o tamanho da minha cabeça e reverberar por cada centímetro do meu corpo, que algumas vezes, inconscientemente, se encolhe a espera de que algo caia sobre ele.

Enquanto minha capacidade de me concentrar no trabalho e meu estoque de dipirona desaparecem, penso em resiliência e leveza, sem muito sucesso. Imagino o número de paulistanos que convivem com grandes obras ao lado de casa, nesse frenesi imobiliário da cidade, e me arrepio. Contem com minha solidariedade.

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