A primeira vez que vi cenas de correntão derrubando floresta era na Mata Atlântica, em meados dos anos 1990, numa época em que ainda não existia uma lei específica para o bioma. Trabalhava na Rede de ONGs da Mata Atlântica e tentávamos denunciar aquilo que nos parecia um crime hediondo, além de proteger os ambientalistas locais, que viviam sob ameaças. A cena me chocou, nunca tinha imaginado ser possível tratar uma floresta tão majestosa como se fosse joguinho de carta de baralho tombando.
Pra quem não sabe, o correntão é o método mais cruel de desmatamento, com o uso de uma corrente grossa entre dois tratores, derrubando tudo pelo que passa, sem poupar uma árvore ou dar chance aos animais que estão no caminho de fugir. Pode devastar 10 campos de futebol por dia.

Em meados de 2010, foi a vez de assistir pessoalmente, árvores nativas da Amazônia sendo cortadas, quando fui conhecer o projeto de manejo florestal da Ecolog, em Rondônia, para escrever sobre a experiência. O resultado é o livro Explorar para Preservar, no qual conto a aventura do empresário Fabio Albuquerque em sua tentativa de salvar, via manejo, uma das últimas grandes florestas de Porto Velho.
Acostumada até então a visitar apenas áreas conservadas da Amazônia, percorrer os 250 quilômetros da BR-364, ao longo do que foi a ferrovia Madeira-Mamoré, até a fazenda da Ecolog, foi uma experiência intensa, mesmo quando teoricamente se está preparado para o que se vai ver. Ao longo de todo o trajeto já não exista floresta. Em alguns pontos, me sentia no Velho Oeste de dois séculos atrás retratado em filmes estadunidenses. Criação de gado, em pastos pobres onde não se teve nem a preocupação de retirar os esqueletos das árvores carbonizadas na abertura da área, era a paisagem dominante. Ao fundo, matas empobrecidas e abertas, parecendo esperar a vez de também serem derrubadas.
O cenário mudava quando entrávamos nos 30 mil hectares de matas nativas da Ecolog. Mas, mesmo dentro daquela situação controlada de manejo certificado, na qual poucas árvores são selecionadas para corte, é uma sensação terrível ouvir e ver uma árvore centenária tombar. Mesmo ainda acreditando na possibilidade do corte seletivo, espero não repetir da experiência. Por isso ver o correntão em ação, mesmo nos vídeos da internet, é um pesadelo.
Atualmente, essa prática ainda tem sido registrada na Amazônia e é alvo de uma campanha de organizações da sociedade civil, que criaram uma petição online para que o PL 5.288/2020, que proíbe essa prática no país, seja aprovado no Congresso Nacional. Quem quiser saber um pouco mais sobre o assunto, veja neste post do André Trigueiro em https://www.instagram.com/reel/DJUIlpJNTRm/.