Uma de minhas leituras mais interessantes no ano passado foi Coisa de Rico, do Michel Alcoforado. A maior bizarrice do livro é a existência em si dos milionários e a concentração de renda no país. Se abstraímos esta parte, o livro é muito divertido, sobretudo por nos mostrar a obsessão dessa classe por exclusividade e sua dificuldade em estar sempre dentro dos códigos dos muitos ricos para se manter pertencente.
Passando férias em Porto Seguro, no sul da Bahia, uma das mecas dos ricos paulistas e mineiros, é impossível não pensar na antropologia do Alcoforado. Primeiro porque se um rico ou aspirante a rico ler este texto, de cara ficará indignado por eu falar Porto Seguro, que é o nome do município e a localidade frequentada por adolescentes e humanos mortais (leia-se classe média). Milionários frequentam condomínios e praias praticamente fechadas de Trancoso. Nem pelas estradas eles passam, o trânsito de helicópteros parece a chegada do Aeroporto de Congonhas que vejo aqui de casa.
Fiquei em Arraial d’Ajuda, que é o destino intermediário. Tem um centrinho charmoso em volta da rua Mucugê e praias deliciosas, caríssimas para o padrão da maioria dos brasileiros (pra sentar nas barracas precisa desembolsar entre R$ 100 e R$ 200 por pessoa), mas lotadas. Muito rico deve ter urticária até quando voa por cima.

Quem quiser ver na prática como essas divisões de classe funcionam, porém, o melhor é ir ao Quadrado, a simulação de uma vila litorânea tradicional, que funciona como o centrinho de Trancoso. Vale a pena a visita também porque é lindíssimo, sobretudo ao anoitecer, quando ainda é possível enxergar a praia do alto da falésia enquanto as luzinhas dos restaurantes e lojas começam a acender.
Apenas uma voltinha ao redor do campo de futebol que delimita o quadrado do nome é suficiente para entender o lugar. Aparentemente, o campo de futebol foi o que restou para a população local e a molecada efetivamente joga bola por lá. O lado da entrada é formado por uma feirinha. O povão não passa dali. No outro extremo, há a praia, a vista, alguns ambulantes e a igrejinha. Os outros dois lados do quadrado são formados por restaurantes e lojas descoladas, onde está o mais interessante: os dois lados são praticamente iguais, a diferença é que os restaurantes à esquerda de quem chega são muito mais caros do que os da direita.
Quando estivemos lá, fomos metidos e escolhemos o que achamos mais bonito do lado esquerdo. Gringos e turistas normais como nós, ocupavam as mesinhas do lado de fora, onde o clima praiano é o charme. Deu para perceber que os habituês passavam direto para o lado de dentro, mais privê e sofisticado. Soubemos por um dos garçons, que o dono possui vários outros restaurantes ali mesmo, mas tem um bufê que serve o condomínio chique ali pertinho.
O restaurante era caro como os restaurantes bem caros de São Paulo, com carta de vinho começando quase nos R$ 300 e terminando nem precisa dizer onde. Mas nos 15 dias que fiquei na cidade, foi o único vinho branco que me serviram quente. A lagosta estava borrachuda e tive uma diarreia terrível durante a noite. Isso que dá não ficar no seu lugar.
