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Que estamos todos cansados não é novidade. Para o filósofo coreano radicado na Alemanha, Byung-Chul Han, porém, a Sociedade do Cansaço (Editora Vozes) é um mal devido ao excesso de positividade dos nossos tempos, é causa as doenças mentais que nos afligem, como a depressão e o burnout. Em seu livro, Han defende que o humano do século 20 era um sujeito imunológico, atacado de fora para dentro (um patrão roubando direitos, um estado repressor), o que o mobilizava a ativar suas defesas. Hoje, sofremos por nossa própria conta, tipo uma doença autoimune, para a qual não existe imunorreação. Estamos sujeitos a uma violência neural que “não parte de uma negatividade estranha ao sistema. É antes uma violência sistêmica, isto é, uma violência imanente ao sistema”.

Não é que os problemas do século 20 tenham sido resolvidos e criamos novos, sobretudo em países periféricos, como ainda somos. Eles se sobrepõem e agora não poupam ninguém. Vivemos em uma sociedade do trabalho, na qual o próprio senhor se transformou num escravo do trabalho. Nessa sociedade coercitiva, cada um carrega consigo seu campo de trabalho. A especificidade agora é que somos ao mesmo tempo prisioneiro e vigia, vítima e agressor. Assim, acabamos explorando a nós mesmos. Qualquer referência à epidemia de empreendedorismo uberizado não é mera coincidência.

Para o filósofo (e ele me lembrou em certa medida Ailton Krenak), a perda da capacidade contemplativa é corresponsável pela histeria e nervosismo da sociedade ativa moderna. A vida contemplativa pressupõe um fazer soberano, que sabe dizer não, o que traz mais ação do que qualquer hiperatividade, que seria um sintoma de esgotamento espiritual. “É uma ilusão acreditar que quanto mais ativos nos tornamos tanto mais livres seríamos”.

Viramos uma sociedade “pacífica”. Não sabemos reivindicar. Segundo Han, no empuxo da aceleração geral e da hiperatividade, desaprendemos também a ira, que cede lugar à irritação, a qual não produz nenhuma mudança decisiva. Irritamo-nos por causa do inevitável. A irritação está para a ira como o medo está para a angústia. Contrariamente ao medo que se refere a um objeto determinado, a angústia atinge e abala toda a existência.

O excesso da elevação do desempenho leva a um infarto da alma (ou, como no meu caso recente, um AVC real). A potência negativa, defende Han, é a do não fazer, que me lembrou o princípio central do taoísmo, como está dito no Tao-te ching: o livro do caminho e da virtude, escrito há cerca de 2.500 anos. “A inspiração do cansaço diz menos o que se deve fazer do que aquilo que pode ser deixado de lado”, sugere o filósofo. “Falta-nos o tempo intermediário, um tempo sem trabalho, um tempo lúdico, um tempo de paz.”

Esgotamento

 Segundo Byung-Chul Han, não é que o sujeito narcisista da sociedade do desempenho não queira chegar a uma meta e descansar, mas a coação de desempenho o obriga a produzir cada vez mais. Assim, nunca alcança o ponto de repouso da gratificação. “Vive constantemente num sentimento de carência e culpa” e “está cansado de tanta exigência de ter iniciativas”.

O sistema capitalista mudou o registro da exploração exterior para a exploração própria, a fim de acelerar o processo. Transformado em empreendedor de si mesmo, esse sujeito virou um escravo de si mesmo. Por isso está esgotado.

A violência sistemática da sociedade de desempenho mora no elemento psicológico e não no econômico ou político. A preocupação por uma boa vida dá lugar à histeria pela sobrevivência. Para o filósofo, a sociedade de desempenho “está despida de toda transcendência, porque foi reduzida à imanência da vida, que deve ser prolongada a qualquer custo e com todos os meios. A saúde é elevada à nova deusa.”

Han conclui que vivemos numa época desprovida de festividade e celebração, o que nos deixa sem qualquer relação com o divino, já que festas e rituais abrem um acesso ao divino. “Os deuses nada produzem. Eles tampouco trabalham. Talvez devêssemos reconquistar aquela divindade, aquela festividade divina, em vez de continuarmos sendo escravos do trabalho e do desempenho.” Como Ailton Krenak, em seu livro A Vida Não É Útil, o coreano sugere que precisamos de uma nova forma de vida, onde o tempo da celebração não desapareça em prol do tempo do trabalho.

“Hoje edifícios de trabalho e salas de estar estão todos misturados. Com isso torna-se possível haver trabalho em qualquer lugar e a qualquer hora. (…) Nós nos transformamos em zumbis saudáveis e fitness, zumbis do desempenho e do botox.” Por isso, conclama ao final do livro:

“O neoliberalismo é um terrorismo do capital e do capitalismo financeiro. Hoje, há que se profanar o trabalho, a produção, o capital, o tempo de trabalho, transformando-os em tempo de jogo e de festa. Hoje em dia, as coisas só começam a ter valor quando são vistas e expostas, quando chamam a atenção. Nos expomos no Facebook, e com isso nos transformamos em mercadoria. O hipercapitalismo atual dissolve totalmente a existência humana numa rede de relação comerciais. As coisas superpovoam céu e terra. Esse universo-mercadoria não é mais apropriado para se morar. Já é hora de transformar essa casa mercantil novamente numa moradia, numa casa de festas, onde valha mesmo a pena viver.”

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