Quando instalaram câmeras nos elevadores do meu prédio –
e olha que fomos pioneiros! – a diversão dos meus filhos era ficar fazendo
micagem pra elas. Mesmo bem pequenos, eles se sentiram agredidos por serem
vigiados e esta era uma forma de protestar. O tempo passou e hoje acredito que
praticamente não haja elevadores sem câmeras, flagrando briga de vizinhos e
esposa fugindo com marido em pedaços guardados em malas. Na maior parte do
tempo, porém, continuo achando que apenas ajudam os porteiros a passar o tempo
e se divertir com as inevitáveis indiscrições das pessoas que, acostumadas com
o treco, esquecem que ele está lá.
e olha que fomos pioneiros! – a diversão dos meus filhos era ficar fazendo
micagem pra elas. Mesmo bem pequenos, eles se sentiram agredidos por serem
vigiados e esta era uma forma de protestar. O tempo passou e hoje acredito que
praticamente não haja elevadores sem câmeras, flagrando briga de vizinhos e
esposa fugindo com marido em pedaços guardados em malas. Na maior parte do
tempo, porém, continuo achando que apenas ajudam os porteiros a passar o tempo
e se divertir com as inevitáveis indiscrições das pessoas que, acostumadas com
o treco, esquecem que ele está lá.
As câmaras passaram a fazer parte de nossas vidas também
do lado de fora dos prédios e, justiça seja feita, têm ajudado a reconhecer
ladrões, brigões e motoristas bêbados ou imprudentes soltos por aí. Também
estão em lojas, restaurantes e quase todo espaço público que podemos imaginar.
Como bandido não é bobo, a tendência é que cada vez menos exemplares da espécie
se arrisquem por aí sem um capacete, boné, óculos e tudo o que servir para disfarçá-los.
Mais uma vez, sobrará para nós, pobres mortais comuns, cuidarmos o que fazemos
com nossas mãos, rostos e qualquer outra parte comprometedora achando que
estamos sós ou não sendo observados.
do lado de fora dos prédios e, justiça seja feita, têm ajudado a reconhecer
ladrões, brigões e motoristas bêbados ou imprudentes soltos por aí. Também
estão em lojas, restaurantes e quase todo espaço público que podemos imaginar.
Como bandido não é bobo, a tendência é que cada vez menos exemplares da espécie
se arrisquem por aí sem um capacete, boné, óculos e tudo o que servir para disfarçá-los.
Mais uma vez, sobrará para nós, pobres mortais comuns, cuidarmos o que fazemos
com nossas mãos, rostos e qualquer outra parte comprometedora achando que
estamos sós ou não sendo observados.
O problema é que a sanha do Grande Irmão não tem limites.
Nesta semana, um dos assuntos na cidade foi a instalação de câmaras nas classes
do Colégio Rio Branco. Alunos indignados se manifestaram e, veja só, levaram
suspensão. A diretora, muito cândida, explicou que as câmaras estão nas classes
por motivo de segurança (contra o que?). Na Folha, opiniões de educadores
contra (ufa!) e a favor(!). Para chegarmos ao 1984 de George Orwell (com quase
30 anos de atraso), só falta as câmeras serem instaladas dentro de nossas casas.
Nesta semana, um dos assuntos na cidade foi a instalação de câmaras nas classes
do Colégio Rio Branco. Alunos indignados se manifestaram e, veja só, levaram
suspensão. A diretora, muito cândida, explicou que as câmaras estão nas classes
por motivo de segurança (contra o que?). Na Folha, opiniões de educadores
contra (ufa!) e a favor(!). Para chegarmos ao 1984 de George Orwell (com quase
30 anos de atraso), só falta as câmeras serem instaladas dentro de nossas casas.
Não consigo achar que isso é normal, mesmo no mundo
violento em que vivemos (será que é mesmo mais violento do que em outras épocas?).
Com certeza, se fosse na escola dos meus filhos, eu reclamaria. Prefiro
discutir com eles, na mesa do jantar, se o professor foi injusto na bronca, se
a observação do colega foi bulling, se colar é uma coisa legal, do que ter a
confirmação de qualquer uma dessas coisas através de uma câmera. A dúvida e a
controvérsia são partes da vida e do crescimento. Se as pessoas que estamos
formando só se comportarem porque estão sendo filmadas, é porque não estão
sendo formadas corretamente.
violento em que vivemos (será que é mesmo mais violento do que em outras épocas?).
Com certeza, se fosse na escola dos meus filhos, eu reclamaria. Prefiro
discutir com eles, na mesa do jantar, se o professor foi injusto na bronca, se
a observação do colega foi bulling, se colar é uma coisa legal, do que ter a
confirmação de qualquer uma dessas coisas através de uma câmera. A dúvida e a
controvérsia são partes da vida e do crescimento. Se as pessoas que estamos
formando só se comportarem porque estão sendo filmadas, é porque não estão
sendo formadas corretamente.