Um bem de todos nós
Tive nesta semana uma grata surpresa ao receber o livro infantil Água, do ilustrador indiano Subhash Vyam, publicado pela FTD. Além das ilustrações muitos bonitas e da história comovente, que se passa na Índia, mas poderia tranquilamente ser de milhares de brasileiros, tenho uma pequena participação na publicação, pois fui convidada para fazer um posfácio contextualizando para os pequenos leitores daqui a questão da água no mundo e no nosso país. A obra parte da narrativa oral em híndi do artista, recontada em inglês por Gita Wolf e traduzida por Claudio Alves Marcondes para o português. A narrativa, baseada na vida do autor, conta sobre sua infância em uma aldeia pobre onde a escassez de água determinava a dinâmica da comunidade. Depois, foi para a cidade para estudar e trabalhar e se surpreendeu que, também lá, apesar de toda estrutura e do desperdício com seu uso, muitas vezes a água também faltava na torneira. Sem perder o vínculo com a aldeia natal, descobriu em uma de suas visitas que a construção de uma barragem poderá inundar o vilarejo, desalojar a população e destruir seu modo de vida. Toda a narrativa leva a uma reflexão sobre como nos relacionamos e fazemos uso da natureza. Ao ponderar sobre o estilo devida de seus conterrâneos, percebe que na aldeia “sempre fomos muito modestos para satisfazer as nossas necessidades. Claro que gostaríamos de algum desenvolvimento, mas não de modo a prejudicar o lugar em que vivemos”. E conclui: “Não, o problema que estamos enfrentando não foi causado por nada que a gente tenha feito – na verdade, é um problema que surgiu por causa da ganância da cidade. Não de todas as pessoas que moram na cidade, mas das ricas e poderosas que, para alcançarem o que desejam, não se importam com as consequências de seus atos”. Tudo muito lindo, poético e claro.
Mineração, consumo e estupro
Fazer sinapses é uma atividade difícil, às vezes, parece que tentamos forçar a barra ou, mais comum, sermos muito radicais. Ontem, no meio desta semana triste, quando a Amazônia arde por obra de ruralistas, madeireiros e mineradores – e, com certeza, não por iniciativa de ONGs, como quer convencer a galera o presidente do Brasil -, ouvi o médico congolês Denis Mukwege, Prêmio Nobel da Paz de 2018, no ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento. Denis Mukwege, no Fronteiras do Pensamento Mukwege ficou conhecido por sua atuação em prol das mulheres que são estupradas como estratégia de guerra nos conflitos que já deixaram mais de 6 milhões de mortos na República Democrática do Congo (RPC). Segundo o médico, os estupros coletivos, cometidos de maneiras diversas conforme o grupo, são uma forma barata de humilhar e destruir comunidades, forçando seus habitantes a deixar suas terras. O motivo da violência é o controle sobre as minas de tantalina, minério utilizado na maioria dos aparelhos eletrônicos portáteis, do qual o país detém 80% das reservas mundiais. Não é preciso ser gênio para concluir que, a cada vez que compramos um novo celular ou notebook, estamos sendo cúmplices desses estupros. Para quem gosta de trocar de aparelho como quem troca de roupa, a cada vez que a câmara fotográfica aumenta um pixel, a culpa é maior (pode me xingar, mas é verdade). Infelizmente, as mineradoras usam táticas tão ignóbeis quanto aqui no Brasil, seja colocando a população em risco com suas barragens mal feitas, seja cooptando os dirigentes do país e incentivando a invasão de terras indígenas para tomar posse de seu subsolo. Se isso acontece às custas de vidas indígenas e das florestas brasileiras, não é uma questão que parece ganhar corações de mentes. Aliás, em se tratando de Amazônia, precisamos saber que também o nosso bifinho de cada dia colabora, e muito, para as cenas deprimentes de fogo na mata que temos visto na TV e também da janela de nossas casas aqui no sul-sudeste, nas chuvas engrossadas pela fumaça que veio do norte. Essas sinapses são desagradáveis, mas necessárias se – e somente se – quisermos mudar essa inversão de valores que tomou conta da humanidade e que banaliza o mal, como disse o Prêmio Nobel à plateia que foi vê-lo aqui em São Paulo. Mukwege decidiu ser médico para combater a mortalidade infantil em seu país, mas descobriu que a mortalidade materna era uma tragédia ainda maior, com mulheres já chegando quase mortas ao hospital. Diante disso, resolveu ir para a França e se especializar em ginecologia. Na volta, o hospital onde trabalhava em Lemera, no leste do país, foi atacado e 35 pacientes mortos. Fugiu para Bukadu onde fundou, em 1999, o Hospital de Panzi. A ideia era atuar na saúde da mulher, realizar partos, mas a primeira paciente que apareceu foi uma vítima de estupro, com extrema violência. Contou que, apesar do choque, acreditou que fosse um caso isolado, mas as vítimas não pararam mais de chegar. São dez casos, em média, por dia, incluindo bebês com meses de vida a senhoras octagenárias. “O corpo da mulher virou uma arma de guerra para destruir as comunidades, uma arma largamente utilizada em vários lugares do mundo, como Colômbia, Iraque, Sudão do Sul, Síria”, disse. Por seu trabalho e suas críticas às grandes empresas mineradoras – “que sabem que esses são minerais de sangue, obtidos pelo martírio das mulheres e a destruição de seus órgãos genitais” -, Mukwege já foi alvo de seis atentados. Em um deles, em sua casa, em 2012, seu segurança foi morto e ele resolveu se refugiar no exterior. No entanto, logo voltou ao país, por conta do apelo das mulheres a quem tinha ajudado, que juntaram dinheiro para a passagem de volta vendendo frutas e verduras. As maiores críticas, o médico reserva à comunidade internacional, que faz vistas grossas para o que acontece na República Democrática do Congo por interesses econômicos. Segundo ele, somente a igualdade de gênero fará com que as mulheres tenham dignidade e paz. Para tanto, é preciso que seja uma campanha global e que esses crimes sejam punidos, inclusive como crimes de guerra. “As mulheres não podem combater esse mal sozinhas como têm feito até agora. É hora dos homens se tornarem aliados-chave para a igualdade entre os sexos. Não podemos enfrentar os desafios da humanidade – pobreza, desigualdade, clima – sem a presença igualitária das mulheres. Não há mais lugar para o modelo da masculinidade patriarcal”, disse Mukwege. E exortou: “Um mundo 50/50 é possível e está ao nosso alcance. A dominação de 50% não vai garantir nossa sobrevivência”.
Um olhar feminino sobre a incipiente república brasileira
Parece incrível, mas somente neste ano tomei conhecimento da existência da escritora brasileira Júlia Lopes de Almeida. Um dos autores mais lidos em sua época – final do século XIX e início do XX -, ela foi apagada do quadro dos fundadores da Academia Brasileira de Letras (ABL), após ser anunciada como uma das participantes, e também, até bem pouco tempo, da história da literatura no país. Me pergunto quantas mais mulheres tiveram suas obras e atuações nas mais diversas áreas esquecidas, propositalmente, apenas por serem do sexo feminino. Instigada por conhecer mais sobre Júlia, cujo marido – o poeta português, dizem que medíocre, Filinto de Almeida – assumiu a cadeira que seria dela e era chamado nas rodas intelectuais de imortal consorte, indiquei seu livro A Falência para o encontro mensal do Círculo Feminino de Leitura (CFL), que aconteceu na minha casa em julho. E ela não decepcionou. Mulherada pirando com Júlia de Almeida. Publicado originalmente em 1901, o romance é um retrato realista da sociedade brasileira logo após a abolição dos escravos e proclamação da república – sobretudo de sua elite econômica. Infelizmente, o livro é também bem atual. Conta a história da família do imigrante português Francisco Theodoro, que enriqueceu com o comércio do café, mas acaba falido por ter caído na lábia de um especulador. A questão do livro, porém, não é exatamente essa e sim as relações entre as pessoas, a começar pela protagonista, esposa do empresário e amante de um médico refinado que praticamente faz parte da família. O que diferencia o olhar de Julia é não ter a visão idealizada ou misógina da mulher. Ao contrário de Capitu, a personagem símbolo de Machado de Assis, seu contemporâneo – e possivelmente um dos censores de sua entrada na ABL –, sua Camila não é dissimulada nem punida pelo autor por conta apenas de suspeitas. É uma mulher do seu tempo, que casa por interesse, por ser a única alternativa possível de ascensão para uma mulher pobre, bonita e inteligente. Corresponde totalmente ao que espera dela o marido, a quem dedica um afeto verdadeiro, apesar do descrédito da sociedade, sobretudo quando da falência e posterior suicídio do esposo. Aliás, é nesse momento de tragédia, que os aparentes sentimentalismo e superficialidade que rondam o mundo feminino, cercado de receitas, moda, fofocas e recepções, dá lugar a força e determinação, ao contrário da fraqueza de caráter e covardia dos personagens masculinos. Enquanto o filho mimado se casa com uma ricaça, deixando a mãe e as irmãs se virarem, o pai se mata por vergonha, largando a família na mão, e o amante confessa que não pode se casar por ter abandonado uma esposa à mingua por suspeita de traição, as mulheres dão a volta por cima e vão à luta: desde a empregada – típica “criada da casa”, quase escrava, mas “da família” -, à sobrinha agregada, à filha mocinha que vai dar aulas de música, até a madame, que assume a educação das filhas pequenas e as rédeas da família e manda o amante cínico passear – nenhuma fica de mimimi. No CFL, amamos todas elas. Escrito em um tom realista, mas sem abrir mão de uma linguagem poética e lúdica, o livro nos permite viajar no tempo, inclusive nas palavras que já não conhecemos o sentido e precisam de saborosas notas de rodapé explicativas. Fiz um quiz com parte delas e nos divertimos tentando adivinhar o que queriam dizer fora do contexto do livro. Mas a autora também nos faz pensar em quão pouco (e se) avançamos nesses pouco mais de cem anos de república, como nas meditações de Francisco Theodoro, o homem “de bem”, após ser abatido pela ganância e ambição: “No fim, havia de aparecer a justiça punindo as ambições e as vaidades destes tempos e destes homens doidos, quando, depois de tudo consumado, não houvesse nada a refazer, mas tudo a criar. A pulsação do seu sangue alvoroçado dava-lhe a percepção fantástica de que o Brasil seria arrastado vertiginosamente pela maldade de uns, a ignorância de outros e a ambição de todos, em voragens abertas pela política amaldiçoada”. Já a beira da decisão irrefutável de tirar a própria vida, o empresário falido reconhece a importância dos valores que sempre desprezou (ah se ele pudesse deixar esse legado aos seus semelhantes porvindouros): “Era pois também certo que a inteligência e a instrução valiam alguma coisa”.
Uma por TODAS e TODAS por uma
Cheguei ao Círculo de Confiança entre Mulheres, que chamamos carinhosamente de TODAS, por um convite via Facebook, curtido por minha amiga Rachel Añón. Vivia uma fase particularmente triste, com a situação política neste início de 2019, onde confiar era o que mais queria e menos estava conseguindo. Na reunião introdutória, fiquei sabendo da proposta e de cara percebi que muitas das mulheres ali presentes dividiam angústias parecidas com as minhas. Por isso, aceitei o convite das três facilitadoras para participar das dez reuniões quinzenais, que estão em curso. O formato um pouco formal e regrado dos encontros me assustou no início, mas a força dessas vinte e poucas mulheres que formaram o grupo quebraram meu ceticismo de pessoa que desconfia e se sente um tanto desconfortável com tudo o que não é puramente intelectual. Hoje, aguardo ansiosa nossas reuniões. Mulheres juntas são como flores: melhoram o mundo. É o que fazemos lá? Em primeiro lugar, cuidamos umas das outras por algumas horinhas: levamos lanches, fazemos caixinha – para o caso de alguma precisar de ajuda para chegar ao encontro -, nos abraçamos, ouvimos e somos ouvidas, participamos – a convite das facilitadoras – de atividades lúdicas para pensar em temas que normalmente nos inquietam: amor, sexto, dinheiro, relacionamentos, trabalho. E participamos do círculo, onde cada uma, individualmente, pode entrar e dividir alguma questão pessoal com o grupo. Pode ter ou não relação com o tema do encontro, algo que a esteja angustiando, um acontecimento do dia, um insight, uma realização. Pode ser um depoimento curtinho, de um minuto, ou algo mais complexo, que pode ser seguido – a partir do consentimento de quem está se expondo -, de uma vivência proposta pelas facilitadoras e de “espelhos” das demais participantes da roda. Esse último é uma devolutiva sem conselhos ou julgamentos. Apenas a impressão que aquela fala causou em quem quis “espelhar”. Parece singelo, mas é muito intenso, e acredito que tem o potencial de mudar a vida de algumas das pessoas que participam. As trocas têm ficado mais profundas, à medida que nos conhecemos melhor e conseguimos alguma intimidade. Algumas somos mais participativas, outras mais tímidas, mas o envolvimento tem sido crescente. Voltando ao que me motivou a participar – a luta incessante que tenho travado para me autoconhecer, entender minhas motivações, níveis de tolerância e decepções em série com meu país e com pessoas (algumas muito próximas) -, esse espaço tem sido um alento, uma rede de proteção contra a solidão. Minha busca me levou também para outros caminhos, que incluem terapia, aproximação com a literatura – como leitora e escritora -, e estudo, muito estudo. Tenho dito aos próximos que sou hoje uma pessoa diferente, menos otimista, mais seletiva, porém, com uma autoestima bem mais elevada. O TODAS é parte dessa mudança.
Com os incas, aprendi que distopias acontecem
Sempre quis conhecer Machu Picchu pela incrível beleza da cidadela, mas pouco sabia do império inca, além do fato de ter se estendido por grande parte da costa oeste do continente sul-americano e ter desaparecido com a chegada dos espanhóis. Descobrir que o Peru é um país inca – ou pelo menos o estado de Cusco com certeza o é -, foi uma surpresa. Encontrei uma população preocupada em recuperar todos os aspectos de sua cultura usurpada há 500 anos pelos conquistadores europeus e rever cada pedacinho de sua história. Machu Picchu, a joia que os espanhóis não acharam. O que ouvi de guias, motoristas, vendedores, artesão, garçons e todas as pessoas com que tive contato é uma versão ainda impensável no Brasil, país onde seus habitantes originais foram praticamente exterminados e os poucos que resistiram ainda precisam lutar por seu reconhecimento e, no momento, por garantia de vida. Lá, a população majoritariamente de descendência índia tem mais facilidade em se identificar com aquela terra e enxergar os efeitos da colonização. No Peru, cada ruína encontrada – algumas recentemente – e seus diversos museus vêm escancarando uma civilização milenar, formada por uma sucessão de povos nativos, que foi se aperfeiçoando ao longo do tempo, a partir de tecnologia e beleza, e chegou ao auge justamente cerca de 200 anos antes dos espanhóis aportarem por lá, com o domínio inca. Nesse curto espaço de tempo, construíram cidades lindas e funcionais, cortaram o império de estradas, desenvolveram uma agricultura poderosa. Mais da metade do que comemos hoje vem de lá. Aliás, sem as plantas domesticadas e desenvolvidas pelos povos americanos, não teríamos tido revolução industrial. A grande pergunta, cuja resposta é cheia de versões, é como esse povo, que contava na época da invasão com uma população de 12 milhões de pessoas, foi tão facilmente subjugado por um punhado de espanhóis selvagens atrás principalmente de metais preciosos? Colaborou para isso o fato de, na época, o imperador anterior ter dividido o império em dois para contemplar seus dois filhos. Como um deles não se conformou, estavam em uma guerra fraticida e não deram muita bola, em um primeiro momento, para os estranhos que chegaram. Como ouro e prata não tinham valor econômico para os incas, não identificaram perigo no interesse excessivo dos visitantes por ele. Também não tinham o costume, pelo que percebi, de destruir a cultura dos povos que conquistavam, mas agregá-las. Por isso não esperavam que os recém-chegados quisessem exterminar tudo o que construíram. Some-se a isso o fato dos espanhóis terem armas de fogo, cavalos e terem passado 400 anos desenvolvendo estratégias para expulsar seus invasores locais (os árabes) e de terem desembarcado com uma miríade de doenças nunca vistas no novo continente, e começamos a ter uma ideia do que aconteceu. O que me ficou dessa história ainda por ser totalmente desvendada é que a humanidade não anda para frente e o que se tem pode ser perdido em um piscar de olhos e, às vezes, sem muita explicação. Para ajudar, levei para ler na viagem, inadvertidamente, o romance Senhor das Moscas, de William Golding. Nele, um avião com um bando de meninos ingleses, entre os seis e os doze anos, que estava sendo levado não se sabe para onde durante a Segunda Guerra, cai em uma ilha tropical e eles ficam ali por sua própria conta (possivelmente, o piloto morreu). A partir daí, o autor mostra como, em um período que deve ter sido de alguns meses, eles vão da colaboração inicial, para disputas de poder até cair na selvageria total. Dos únicos três garotos que parecem perceber o que está acontecendo, dois são assassinados pelos demais e o último só não o foi porque, no último minuto, são encontrados por um navio. Isso depois dos meninos, para encontrar o fugitivo (cujo crime era querer que mantivessem uma fogueira para serem achados), terem colocado fogo em toda a ilha para encontrá-lo, possivelmente acabando com as árvores frutíferas que até então os alimentara. Voltar para a casa e ao noticiário rotineiro depois dessas experiências não me trouxe uma boa sensação, embora tenha me ajudado a entender o que parece ser um transe coletivo que se apossou da maior parte dos brasileiros, que aceita passivamente (ou festivamente) o desmonte de tudo o que tínhamos de civilizado. Tanto a saga dos incas como a dos meninos de Golding me mostraram que distopias acontecem na ficção, mas também na vida real.
Amianto deveria ser discussão encerrada
Deixei o pudor de lado e assumo meu lado chata de galocha. Em um mundo cada vez mais idiotizado, onde quem olha o copo meio vazio é destinado à marginalização, estou me encaminhando pra lá. Me desculpem os felizes de plantão, mas o copo do Brasil está meio vazio e está furado. São tantos os absurdos e retrocessos, que ficar colecionando limões para fazer limonada vai acabar afogando todo mundo. Dos descalabros mais óbvios, do tipo armar a população e deixar criancinhas a voar soltas nos carros, todos os neopoderosos tiram da cartola pacotes de maldades menos populares, mas também nocivos, que podem passar desapercebidos no tsunami de incêndios que a sociedade civil organizada – ou, em bom português, que pensa – tem que apagar. Fibra de amianto: imagina ela no seu pulmão! Uma desses pacotes, que parecem não morrer nunca, é a volta da discussão para a liberação da produção de amianto, encabeçada por políticos de Goiás, onde fica a mina finalmente fechada em 2017, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) proibiu a produção, comercialização e uso desse minério cancerígeno no Brasil. Esse é um assunto que me toca, por ter acompanhado, como repórter da Agência Estado, no início dos anos 2000, a luta dos doentes e familiares dos mortos em consequência desse produto nefasto para que fosse banido do país. Na época, a causa dessas pessoas foi abraçada pela auditora-fiscal do Trabalho Fernanda Giannase, que comprou a briga e, por conta de seu trabalho destemido – chegou a receber ameaças inclusive envolvendo seus familiares – já recebeu vários prêmios nacionais e internacionais. Naquele iniciozinho de século, a luta era para proibir o amianto estado a estado, já que a proibição nacional era quase impossível. Hoje, os defensores, pelo que vi dando uma pesquisada, pois não acompanhei mais o assunto, visam ao mercado asiático – maior consumidor de amianto atualmente, já que na Europa e em boa parte dos países ele é proibido. E por que é proibido? Porque causa uma diversidade de doenças para quem o aspira, entre elas asbestose, placas pleurais, mesotelioma e câncer de pulmão. E aí está o cinismo de seus defensores. Enquanto está inerte em caixas d’água, como revestimento de paredes ou em telhas, ele realmente não faz mal. Todos os doentes que entrevistei se contaminaram nas minas ou eram familiares de mineiros. Seu pó é tão nocivo que adoece até quem simplesmente lava uma roupa suja com ele. Controlar o descarte de todo o amianto que já foi usado já me parece um desafio imenso. Para completar, nesta época onde mentiras e fatos se misturam com desfaçatez, se publica (https://congressoemfoco.uol.com.br/saude/entenda-porque-senadores-lutam-para-liberar-o-amianto-no-brasil/) sem questionar o depoimento, por exemplo, do senador Vanderlei Cardoso (PP-GO) dizendo este absurdo: “Eu já tenho 56 anos de idade e tomo água de caixa d´água, desde criança, de amianto. Morei muito tempo debaixo de telha de amianto e nunca tive problema”. Eu também!!! Esse senhor saber muito bem qual é o problema real desse minério, que pode ser facilmente substituído por outros materiais em rigorosamente tudo para o qual é utilizado. Um exemplo pungente dos riscos envolvidos no uso do amianto é o World Trade Center de Nova York, derrubado no 11 de setembro de 2001. Nessa época, como eu cobria o tema, me ligaram para contar que grande parte do pó liberado pela queda dos prédios derrubados pelos terroristas era de amianto, que revestia todas as paredes do complexo, ironicamente para proteger contra o fogo. Cheguei até a fazer uma nota sobre isso, que se perdeu diante daquela tragédia sem tamanho. Mas eis que, algum tempo depois, vemos manchetes como esta: “Pulverização do WTC liberou substâncias nocivas em Manhattan; mais policiais morreram por poeira do que diretamente nos ataques”. Em 2011, Jerry J. Borg, que morreu em 15 de dezembro de 2010 depois de adoecer por conta da inalação do amianto liberado na queda das torres, foi reconhecido como a vítima 2.753 dos ataques. Bem, para os que acham que é pouco para proibir que se crie alguns empregos e alguns pouquíssimos ganhem muito dinheiro, só tenho a lamentar. Sou mesmo chata de galocha.
Cidade de São Paulo aprova política de segurança hídrica
O momento político é tão desalentador que, quando temos uma boa notícia, dá até medo de comentar e alguém da turma dos neoempoderados da brigada do “vamos acabar com tudo que há de civilizado no país” se entusiasmar e pegar mais uma causa para detonar. Ainda mais na Semana do Meio Ambiente – por isso vamos nos benzer antes. Mas o fato é que, na última sexta-feira (31/5), a prefeitura de São Paulo sancionou a lei que institui a Política Municipal de Segurança Hídrica. Rio Pinheiros, aquele eternamente na fila de despoluição. Tudo bem que é, ainda, apenas um documento, mas sinaliza em uma direção de avanço significativo. E é resultado de uma iniciativa da sociedade: a campanha Vote pela Água, da Aliança da Água, lançada durante a eleição municipal de 2016. Para quem não sabe ou não se lembra, a Aliança foi formada durante a crise da água de 2014, quando a cidade de São Paulo quase entrou em colapso de abastecimento por conta da seca severa, que praticamente zerou a capacidade de armazenamento do Sistema Cantareira, principal manancial da metrópole. Na época, um grupo de organizações e pessoas se juntou para tentar encontrar alternativas e mobilizar a população para a importância de se adotar uma postura de cuidado com água de forma sistêmica e integrada, capaz de garantir proteção à população sobretudo em situações extremas, de secas e enchentes, que têm se tornado cada vez mais constantes com a mudança do clima. Apenas um parênteses: mudar os “termostatos” de lugar não está entre as medidas sugeridas. A capacidade de engajamento da Aliança da Água, que somou iniciativas de inúmeras entidades associadas a ela, foi fundamental para que São Paulo enfrentasse o perigo iminente e seu sucesso garantiu a continuidade da mobilização. Um de seus resultados foi uma proposta de projeto de lei que embute um conceito, relativamente novo, de segurança hídrica. O uso desse termo vem crescendo nos últimos anos, impulsionado, entre outros fatores, pela declaração da ONU, em 2010, do acesso à água e ao saneamento como direito humano. A conceito de segurança hídrica, presente na nova lei, compreende três dimensões que devem ser pensadas na gestão da água: social (direito à água e ao saneamento); econômico (uso de bem comum, insumo para atividades econômicas); ambiental (limites naturais, esgotamento de recursos, eventos climáticos extremos e menos previsibilidade). À administração municipal, ainda podemos dar o crédito de ter acrescendo à proposta da Aliança a criação de uma instância específica para tratar as questões que têm relação com a água, o que será fundamental na integração das políticas e ações relacionadas ao tema. Além disso, a lei prevê maior participação do município na gestão e planejamento dos serviços de saneamento (água, esgoto, drenagem e resíduos) e a construção, de forma participativa, de indicadores de segurança hídrica. Um dos resultados práticos que podem vir da nova legislação é São Paulo, a cidade, liderar o processo de recuperação do Rio Pinheiros, que está quase inteiro dentro do município. Importante salientar que essa é uma política inédita, que poderá inspirar outras cidades a fazer o mesmo. À sociedade mobilizada, cabe agora cobrar e participar da regulamentação da lei e da sua implantação.
Mulheres poderosas
Valorizar o protagonismo feminino sempre esteve na minha pauta, mas ultimamente tornou-se uma obsessão. Enquanto a atuação feminina não for fortemente valorizada para além dos limites do lar, o risco da sociedade embarcar em retrocessos bancados por machos inconformados em perder privilégios ou por mulheres que veem Jesus na goiabeira ou têm outros problemas que as impede de ter sororidade – não consigo entender o motivo – são grandes. Nem sei ao certo o que posso fazer nesse sentido, mas o primeiro passo é conhecer e divulgar, dentro das minhas possibilidades, o trabalho de mulheres que estão fazendo diferença nesta nossa combalida sociedade. Há um mês participo do Todas – Círculo de Confiança entre Mulheres, no qual tenho conhecido mulheres muito interessantes e decididas a compartilhar suas experiências. Nos últimos dias, também tive o privilégio de presenciar alguns eventos que me deixaram otimista não apenas sobre o quanto as mulheres têm feito – já que acredito que sempre fizeram -, mas o quanto estão conscientes da importância que sua atuação têm para todas as demais. Um deles foi a primeira conferência da temporada 2019 da iniciativa Fronteiras do Pensamento, que trouxe a moçambicana Graça Machel. Esposa de dois dos mais importantes presidentes africanos da história, de países diferentes, ela nunca se colocou em suas sombras, sendo uma das mais importantes políticas e ativistas daquele continente, com um trabalho reconhecido mundialmente em favor da infância e das mulheres. Incrível o simbolismo de ver aquela mulher africana, negra e poderosa falando sobre o respeito pela dignidade humana para aquela plateia, como sempre, lotada de brasileiros brancos de classe média alta. Difícil apenas saber se mais alguém ali se sentia tão constrangida quanto eu com a situação, em um país com 50% de população negra. Machel fez faculdade em Portugal e, de volta a seu país, lutou com a Frente de Libertação de Moçambique durante a Luta Armada da Libertação Nacional. Em 1976, casou-se com Samora Machel, o primeiro presidente do país, e participou do governo como ministra da Educação e Cultura por 14 anos. Continuou sua atuação política após a morte do marido, em 1986, e, em 1990, foi nomeada pela Organização das Nações Unidas para o Estudo do Impacto dos Conflitos Armados na Infância. Por esse trabalho, recebeu em 1995 a Medalha Nansen da ONU. Entre as suas condecorações estão o Prêmio Kora Lifetime Achievement, o World Prize for Integrated Development e a WHO Gold Medal, mais alta honraria da Organização Mundial de Saúde. Em 1998, casou-se com Nelson Mandela, o primeiro presidente negro da África do Sul, de quem é hoje viúva. Defensora da valorização das comunidades, em 2010, fundou a Graça Machel Trust, organização que auxilia mulheres empreendedoras no continente africano. Também integra o The Elders, grupo que reúne grandes líderes globais. Aos brasileiros que procuram os sentidos da vida, tema das conferências neste ano, Graça aconselhou cuidar da infância, sobretudo garantindo para as crianças um mundo melhor, com menos desigualdades raciais e de gênero, e um meio ambiente saudável. Feminismo no meio ambiente Érika Guimarães no Viva a Mata. Outra grata surpresa foi um dos eventos programados pela SOS Mata Atlântica para o Viva a Mata, ciclo de atividades que marcam o mês da Mata Atlântica. Pela primeira vez, nestes muitos anos de ativismo ambiental, vi um evento voltado a ressaltar o protagonismo feminino. Cinco convidadas contaram suas experiências que vão muito além do trabalho, mas estendem-se pela maneira com que levam suas vidas, buscando o bem-viver não apenas na sustentabilidade, mas também na valorização de seu lugar de fala feminino. A apresentadora Fernanda Cortez, criadora da plataforma Menos 1 Lixo e defensora da ONU Meio Ambiente Brasil na Campanha Mares Limpos, contou como sua inquietação com a indústria da moda, área em que atuava, a levou a uma mudança profissional e a fazer da sustentabilidade um estilo de vida. A socióloga Luciana Sonck, fundadora da Projeto 225, empresa de consultoria na área de desafios socioambientais e políticas públicas, e criadora da Butique Sustentável, iniciativa de reeducação no consumo de moda, defendeu que, embora a agenda ambiental seja mais do que um agenda feminista, mas uma agenda pela vida, a questão de gênero precisa ser ressaltada, já que 70% dos que sofrem com problemas ambientais são mulheres e meninas. A arquiteta e urbanista Luciana Travassos, professora da Universidade Federal do ABC e doutora em Ciência Ambiental, contou que passou a perceber a importância da presença feminina nas lutas ambientais trabalhando em campo, em projetos ligados às desigualdades espaciais e rios urbanos, ao ver que a maior parte de quem atua nas questões coletivas são mulheres. Mariana Belmont, jornalista e ativista política, integrante do movimento Ocupa Política – parceirona também na Aliança da Água – também ressaltou, a partir da experiência de quem nasceu em Parelheiros, no extremo da cidade de São Paulo, que os movimentos por moradia, ambiental e negro são puxados por mulheres. Mas também mostrou a importância de se olhar a cidade a partir da periferia e não apenas dos centros elitizados. A fotógrafa Marina Klink contou como transformou sua relação com a natureza, a partir de viagens a locais remotos do planeta, em nova profissão – abandonou a produção de eventos para se tornar fotógrafa e palestrante –, tornando seu trabalho uma causa que mobiliza toda a sua família, que incluí três filhas e o marido famoso, o navegador Amyr Klink. O mais bacana dessa conversa, que foi capitaneada pela bióloga Érika Guimarães, coordenadora de áreas protegidas da SOS Mata Atlântica e supermilitante de causas feministas, foi ver que o evento estava cheio de mulheres jovens e questionadoras, preocupadas em garantir o protagonismo feminino, mas também que esse protagonismo tenha diversidade racial e social. Continuarei a abordar o tema…
Desci do salto
Ganhei minha primeira sandália de salto alto aos 14 anos para o casamento de uma prima. Foi amor à primeira vista. Eu e os saltos altos sempre nos complementamos. Ele, exercendo seu poder sobre mim, obrigando que me equilibrasse em seu cume, e eu fazendo dele uma muleta contra minha insegurança e falta de altura. A eficácia sempre foi duvidosa, já que a alcunha de baixinha nunca me abandonou, ao contrário, virou minha marca registrada. De acessório para festas, rapidamente os saltos altos começaram a ganhar meu dia a dia e, já aos 17 anos, lembro de vibrar quando lançaram um tênis com salto. Me afeiçoei tanto ao modelo, que cheguei a deprimir quando a moda, tão desconfortável quando a média dos anos 1980, se evaporou como chegou. Ter um trabalho agitado, que me obriga ir de um lugar ao outro constantemente, nunca me intimidou. Aos poucos, os sapatos de salto alto foram dominando meu guarda-roupa, cada vez maiores, cada vez mais finos. Os anabelas e as plataformas tornaram-se minhas rasteirinhas, para ocasiões informais. Chegou ao ponto de até meus havaianas serem altos – tenho amigas que se divertem com isso até hoje. O fato de minhas panturrilhas terem ficado encurtadas e minha postura projetada pra frente tampouco me incomodou. A solução que encontrei, quando um ortopedista me alertou para o fato, foi não voltar mais lá. Quando passei a ter episódios de exaustão em grandes caminhadas, como em viagens em que era obrigada a colocar tênis ou sapatos baixos, um sinal de alerta se acendeu, mas preferi passar a levar calçados mais altos para revezar e descansar pés e pernas. Sempre me orgulhei de dançar uma noite inteira com salto agulha e terminar a noitada pleníssima. Jamais me rendi ao chinelinho no meio da festa, cultivando um certo desprezo para as fracas que preferiam até se arriscar ficando descalças. Além de manter uma indignação genuína pela ironia do destino, que privilegia as altas até nessas ocasiões. Nos dias normais, saltitam em sapatos baixinhos e continuam maiores do que eu. Nas festas, por calçarem sapatos maiores, podem se dar ao luxo de saltos altíssimos, tipo 15 centímetros, enquanto eu, com míseros pés 34, simplesmente não andaria com nada maior do que 12. Mas depois de 40 anos de convívio, nossa relação se desgastou. Percebi que estar nas alturas estava limitando minha vida quando passei a sentir uma vontade cada vez maior de caminhar e me locomover sem carro. Botinhas e sandálias com pouco salto definitivamente combinam mais com as calçadas íngremes, tortas e esburacadas do meu bairro, ou da minha cidade. Meus novos preferidos. Não foi de repente nem litigiosamente, mas comecei a achar que tênis combinavam mais com o tipo de roupa que passei a gostar de vestir e os caminhos que escolhi percorrer. Radical em mais aspectos do que gostaria, neste tenho sido leve, vou aos poucos. Substituo os saltos agulhas à medida que renovo meus sapatos. O processo é lento porque também resolvi comprar menos, só o necessário. Às vezes, sinto saudade e me elevo alguns centímetros sem culpa. Mas estou ficando seletiva. O futuro desse relacionamento só o tempo dirá.
Uma louca sem medo de divertir com ótimas reflexões
A Louca da Casa, da escritora espanhola Rosa Montero, é um livro difícil de definir e delicioso de ler. Parece ser um romance autobiográfico, porém não é bem isso. Pode ser também um ensaio, mas qual é o tema? Literatura, feminismo, criatividade? Tudo isso e mais um pouco. E muito humor, que nos transforma nas “loucas do livro” ao nos brindar com diferentes versões sobre um mesmo acontecimento, ligado a um romance de juventude com um famoso ator de Hollywood. Lembrei da sensação de ler Tia Julia e o Escrevinhador, de Mario Vargas Llosa. Não deve ser à toa que o elogio do grande escritor à obra esteja na capa do livro, editado pela Harper Collins. A obra foi o tema da reunião mensal do nosso Círculo Feminino de Leitura (CFL) e nos arrebatou com a originalidade com que trata de temas que nos são caros. CFL com A Louca da Casa. Seja quando conta suas estripulias juvenis ou quando divaga sobre as motivações e agruras da vida de romancista, nos oferecendo casos (estes, garante, sempre verdadeiros) de autores conhecidos, Rosa traz discussões profundas sobre o que move o escritor e a condição feminina. Sobre esta última, começa lembrando que não é uma futilidade o fato de que, quando todos os homens escrevem “homem”, mulheres têm que aprender a ler também “mulher”. O papel da mulher na literatura é um dos temas centrais da obra. Montero lembra que, “embora as coisas tenham melhorado muito, o feminino continua sendo o lado escuro da lua”. Conta sobre um livro de Paul Theroux, no qual compara irmãos escritores e se esquece de citar que os mais célebres dessa categoria são irmãs, as Bronté, que nem eram duas, mas três. E exorta os leitores homens a se identificarem com as protagonistas mulheres, “da mesma maneira que nós nos identificamos com os protagonistas masculinos”, ressaltando que “essa flexibilidade do olhar nos tornará a todos mais sábios e livres”. Mesmo que só tenha mencionado a palavra feminista uma vez, para dizer que, embora seja pouco precisa, resume séculos de lutas para mudar “uma situação aberrante”, garante que a usa com orgulho. E todo o seu texto comprova isso. Discordo sutilmente apenas quando Montero critica mulheres que estudam a produção literária feminina como “cultura feminina”, que pode não ser um conceito universal, mas existe. A própria autora reconhece isso quando lembra que muitas obras antigas anônimas possivelmente têm por traz uma escritora que não podia se revelar (outras usaram pseudônimos masculinos) e afirma que “a mulher criadora foi levada a mimetizar o olhar masculino”. Oras, se há um olhar masculino, também há um feminino. E Rosa parece saber muito bem disso, ao divagar que, se homens menstruassem, a literatura “estaria cheia de metáforas do sangue”, que estão à espera de serem criadas pelas escritoras finalmente libertas. Um dos capítulos mais saborosos, porém, trata das mulheres de escritores, no qual é impossível não lembrar de Glenn Close, no filme A Esposa. Coadjuvantes que faziam tudo por seus reconhecidos maridos, na maior parte das vezes, acabaram com má fama. Entre os exemplos, Mercedes, mulher de Garcia Márquez, conhecida como “a leoa que o guarda”. Ou Fanny Vandegrift, mulher de Robert Louis Stevenson (autor de A ilha do tesouro e O médico e o monstro), cuja reputação era de “velha bruxa”. No entanto, além de cuidar de sua carreira, sabe-se que reescreveu suas obras mais famosas. Quando viúva, casou-se, aos 23 anos, com “um rapaz esperto e bonito de 23 anos”, com o qual viveu por onze anos até sua morte. Ou seja, ser chamada de bruxa tem mais a ver com o machismo histórico contra a mulher. O exemplo mais saboroso, porém, é o de Sonia Tolstoi que, segundo Montero, aguentou por 48 anos o “energúmeno” do Leon Tolstoi, passando a limpo todos os seus escritos e convivendo com suas depressões e delírios, que o transformaram em guru que pregava a abstinência sexual e a pobreza absoluta, sem deixar de engravidar a mulher ou abrir mão da vida confortável em sua fazenda. No entanto, a fama de maluca ficou com Sonia, que reclamava que o marido só dava ouvidos a Tchertkov, um jovem com quem, ao que tudo indica, teve um relacionamento, no mínimo, platônico. Com a morte do escritor, Sonia “deixou de ser louca”, administrou a fazenda da família, escreveu suas memórias e ainda processou Tcheftkov para recuperar a propriedade dos papéis de Tolstoi – e ganhou. Mas esse é apenas um dos recortes do livro, que discute fundamentalmente o processo de criação do escritor, seus medos, vaidades, compulsões, criatividade e contradições. Sobre estas últimas, Rosa lembra que Zola, que me deixou com febre quando li Germinal pela crueza de sua denúncia ao capitalismo, se recusou a assinar um manifesto de apoio a Oscar Wilde, condenado a dois anos de cadeia só por ser homossexual. Ou Victor Klemperer, judeu alemão célebre pela sua reflexão sobre a linguagem do Terceiro Reich de Hitler, do qual foi vítima, mostrando como “as palavras, quando mentem lambuzadas de sentimentalismo, podem ser letais como as balas de um assassino”, tornando todos os totalitarismos parecidos, também escreveu, antes da guerra: “uma civilização tão clara e tão grande não encontrei na Espanha em lugar nenhum. Aqui na Itália, o Renascimento continua vivo, aqui ele está livre de qualquer mistura africana. Aqui reina o fascismo? E o que importa isso? A Itália é um país de cultura, é o berço da cultura europeia e essa cultura vive; a Espanha, pelo contrário, pouco tem a ver com a Europa”. Ou seja, se não tivesse vivido na pele os horrores do nazismo, será que teria se preocupado em denunciar seus horrores? Com muita leveza, a autora nos mostra que os escritores não precisam ser coerentes, e na maior parte das vezes não o são, já que o pensamento racional e a consciência do eu destroçam a criatividade. Para ela, ser um romancista é não ter medo de visitar todos os mundos possíveis e alguns impossíveis. Não são,