Pular para o conteúdo principal

PaulistanaSP

Presente fajuto

Em uma festa no final do ano, recebi na saída uma tradicional sacolinha de brindes, daquelas com revistas velhas e papeizinhos variados. Entre eles, um cartão de uma loja chamada Madame Valentine que trazia a frase “venha nos fazer uma visita e ganhe um gift exclusivo da marca”. Como uma das lojas fica no Shopping Villa Lobos, que costumo frequentar, guardei o dito cujo na bolsa. Não achei que fosse ganhar um dos caros itens da loja, claro, mas um brinde simpático. Ao apresentar o cartão à balconista, achei que ela não soubesse ler, pois ficou olhando para ele um tempo infinito com cara de quem viu algo de outro mundo. Depois de um tempo bastante desconfortável, sorriu e disse que precisava consultar a gerente. Esta, também passou um tempo enorme lendo a pequena frase e analisando o cartão da propaganda (me passou pela cabeça que estava duvidando de sua autenticidade).  Depois, disse que não sabia nada a respeito, me perguntou “onde eu havia conseguido aquilo” (ela sabia do evento!), e queria que eu deixasse meus dados para ela poder entrar em contato. Não deixei e, é obvio, não pretendo entrar novamente nesta loja. Difícil entender a falha de comunicação e sensibilidade de quem faz esse tipo de pseudopromoção ou publicidade. Considero este um caso extremo, mas já cansei de ver promoções onde o brinde sempre “acabou de acabar”, ou onde para ganhar o brinde precisa do cupom mais um pagamento (que é o valor do brinde) ou que pede que se junte pontos -possíveis apenas para quem resolver comprar a loja toda – para ganhar algo totalmente irrelevante. Mais do que marketing mal feito, é um desrespeito com o consumidor.

Tempo

Mudanças climáticas à parte, quando chega o final do ano sabemos o tipo de verão que teremos. No ano passado, chuvoso e ameno (para o meu gosto, frio!); neste, quentíssimo e, por enquanto, não tão chuvoso. Traduzindo: tem feito um calorão e este é o assunto obrigatório do paulistano da hora que levanta até deitar para dormir (se conseguir, pois ar condicionado e ventilador não costumam ser artigos de primeira necessidade por aqui e poucos os têm em casa). Falar do tempo é tão compulsivo que chego a acreditar que, se não houvesse alteração de temperatura e umidade, não teríamos como puxar uma conversa. As subidas e descidas nos elevadores, as várias esperas – do carro no estacionamento ou do ônibus/metrô/trem nas estações, da fila do banco, da consulta médica – seriam um tédio solitário. Talvez isso não valha para a nova geração que enterra a cara em seus equipamentos eletrônicos e para quem tanto faz se houver um tsunami do lado de fora. O assunto também é ótimo quando não queremos complicação. Se encontramos aquele chato que já vem com lamentações ou histórias desinteressantes e intermináveis, podemos encompridar a conversa sobre o tempo à exaustão! Uma chuva ou uma noite quente tem que render até termos a certeza de podermos nos despedir sem traumas. O mesmo vale para casais brigados em uma refeição que pode parecer infinita ou prestes a terminar em fogo. Também é bom para fim de ano, quando se está sem assunto, mas com saudade de escrever no blog…

Tietê despejado

Notícias dão conta que a Prefeitura deu prazo até 16 de novembro para o Clube de Regatas Tietê deixar sua sede na av. Santos Dumont com Marginal Tietê. Não tenho como avaliar se a medida é justa ou não, afinal o espaço é público e o clube é privado (ou pelo menos privativo para seus sócios). Isso não impede que sinta uma tristeza profunda pelo lugar em que passei os melhores momentos de minha infância e adolescência. Ser sócio de um clube em São Paulo é uma maneira de pertencer a uma comunidade, ter um lugar para ir quando não se tem nenhum lugar para ir. Isso era verdade absoluta para quem crescia na Zona Norte nos anos 1970, quando o único parque era o Horto Florestal (e ficava longe) e as praças eram praticamente inexistentes (aliás, não sei se a situação mudou muito, apesar do Parque da Juventude…). Tudo bem, a rua ainda era uma alternativa, mas o aumento do movimento de carros já fazia as mães preferirem os filhos em casa vendo televisão. Quem podia ‘ter’ um clube, era um privilegiado. E, na ZN daquela época, esses privilegiados frequentavam o Acre, o Esperia ou, como eu, o Tietê. Na minha memória de menina, o Tietê era praticamente uma cidade, com suas múltiplas piscinas, quadras, vestiários, restaurantes (tudo no plural) e uma praça (a única que eu conhecia). Foi lá que aprendi a nadar, a tentar fazer ginástica olímpica, a andar de skate. Também era o lugar onde encontrava minha turma, que era a turma da piscina, em contraponto à turma do tênis, do hóquei, do basquete, do vôlei, do futebol. Ser da turma da piscina não significava ser da equipe de natação, era apenas o local onde nos encontrávamos e passávamos nosso tempo livre tomando sol e papeando. Mesmo não praticando nenhum esporte a sério, era muito bacana saber que as possibilidades eram quase infinitas: havia lugar para praticar atletismo, jogar bocha, esgrima, judô, ginástica, boliche e até tiro. Além da escolinha que funcionava ali, tinha sempre algum campeonato movimentando o lugar. E havia as domingueiras! Estas eram o ponto alto e encerramento obrigatório do final de semana (e motivo da maior parte dos assuntos durante o resto do tempo). Havia uma competição entre os clubes para ter a melhor domingueira e esse posto variava bastante, principalmente quando se programavam shows de cantores e bandas da moda, inclusive internacionais. Era o momento onde exibíamos nossas melhores roupas e coreografias (afinal era época de discoteca!), exaustivamente ensaiadas durante a semana. Era onde começaram e terminavam os namoros (‘ficar’ ainda não era de bom tom). Sei pelos meus pais, que também não frequentam o Tietê há alguns anos, mas pagam a mensalidade para “ajudar”, que o clube não vai bem das pernas faz tempo. E, independentemente do resultado da pendenga judicial, ficaria feliz em saber que o espaço será bem usado. Se não com a volta das regatas ao rio que lhe deu nome e lhe foi apartado pela poluição e pela Marginal, pelo menos com uma destinação que possibilite a outros jovens utilizar equipamentos ainda tão raros na cidade dos shopping centers e das academias de ginástica fechadas, tecnológicas e sufocantes.

A USP vai desaparecer…

O alerta veio do meu marido, André, outro dia quando olhava pela janela do quarto: “Você viu o novo prédio que estão construindo? A USP vai sumir da nossa visão…” Mesmo tendo precedentes, a notícia me entristeceu. É a última réstia de horizonte do alto do meu décimo quarto andar na Vila Madalena. Em uma cidade onde a especulação imobiliária expulsa moradores e incrementa o trânsito sem dó nem piedade, falar sobre direito à paisagem parece conto da carochinha. Já sei que a única coisa a fazer é me conformar. No apartamento que morei antes deste, na Água Fria (bairro da Zona Norte na parte alta de Santana), em cinco anos vi uma panorâmica de 180º – que ia da Zona Leste ao Pico do Jaraguá – desaparecer atrás de três edifícios. Primeiro sumiu o Anhembi e o Centro, junto com nossa privacidade, a partir dali sujeita à sacada do prédio em frente. Logo depois, foi a vez da Zona Leste e sua imensa planície sumirem do mapa. O pico da Jaraguá desapareceu duas semanas antes de nos mudarmos (em um prédio que ainda prometia subir muito além dos 11 andares onde eu morava). Neste fim de semana, li no jornal matéria sobre o mesmo problema em relação ao vão livre do Masp (FSP, 21/10/2012). Segundo a reportagem, a manutenção da vista para a Serra da Cantareira foi uma exigência do doador do terreno, engenheiro Joaquim Eugênio de Lima, à prefeitura. Já muito comprometido, porém, o mirante a partir do vão livre do museu deve dar adeus ao horizonte da Serra com a construção de mais um edifício que sobe no que ainda havia sobrado de paisagem. Possivelmente, se vivesse hoje, o engenheiro que idealizou a avenida Paulista no século XIX e dá nome a uma de suas transversais teria se rendido à realidade e também estaria  projetando prédios cada vez mais altos, que dão o tom do skyline sufocante que caracteriza a cidade.

Barulho onipresente

O bem mais precioso para um paulistano é o silêncio, embora tenhamos apenas uma vaga ideia do que ele seja. Mesmo os maiores exercícios de abstração são insuficientes para lembrar o que pode ser isso. O barulho, por vezes (como agora) ensurdecedor, é como um metrônomo a nos manter no ritmo que a cidade impõe, mesmo que seja parado no trânsito ou tentando dormir. Daqui do meu espaço de trabalho, por exemplo, tenho da janela uma visão rara de árvores e jardim. Estou longe da rua e o ambiente é tranquilo e ideal para pensar. Mas… há uma obra nos fundos. Desde que me instalei no local, há dez meses, um prédio enormemente desproporcional ao entorno está sendo erguido e dá uma sensação de vertigem a quem se aventura na horta do quintal. O barulho, porém, é ininterrupto, sinfônico, onipresente. A metrópole tem som e cheiro. Sentada no café da Casa das Rosas outro dia, curtia o burburinho das pessoas conversando nas outras mesas, o tipo de som gostoso para embalar um café. De repente, um cheiro de diesel me trouxe à realidade e o ouvido me deu a certeza: não estava viajando, estava em plena Paulista e o agradável jardim tinha como pano de fundo um inconfundível gerador. Este odor de combustível queimado misturado ao barulho de motor, aliás, é a verdadeira identidade de São Paulo. Você pode estar em casa de madrugada, em um templo, na academia de ginástica (com fone de ouvido e tudo) e basta apenas se concentrar um pouco que lá estão eles: cheiro e som. Um dos meus locais favoritos na cidade, o Parque Villa Lobos, vizinho da Marginal Pinheiros, é um exemplo acabado disso. É preciso muita concentração para distinguir o canto dos pássaros e o perfume das árvores que, com o passar dos anos, vão finalmente deixando o antigo aterro com bosques moldados para nos fazer quase esquecer o que está do lado de fora. Quase…

Pobres árvores

Vida de árvore paulistana não é fácil. Não bastasse terem de se submeter às necessidades da fiação, que as condenam a uma vida de mutiladas, e das calçadas, que deixam suas raízes cimentadas, elas ainda são sempre consideradas obstáculos – seja aos pedestres nas mesmas calçadas, seja às inúmeras obras públicas e empreendimentos imobiliários. O importante é que, seja qual for o motivo, elas sempre levam a pior. Até quando são “esquecidas”, elas se tornam um objeto bizarro. Em uma nova avenida que está sendo construída no Morumbi, a empreiteira contratada pela prefeitura asfaltou a via com 20 árvores no meio (FSP, 3/10/2012, p. C8)! A justificativa é que a própria prefeitura não autorizou ainda a retirada das árvores. Mesmo não aberta oficialmente, a avenida já vem sendo usada por motoqueiros para fugir do trânsito. Se algum acidente ocorrer, todo mundo já sabe de quem será a culpa: da árvore. É essa também a percepção quando árvores debilitadas (por fios, falta de espaço para as raízes e bichadas, por falta de manutenção) caem em cima de carros e pedestres durante a época das chuvas. Com todos os problemas, porém, o que seria de nós, habitantes desse caos, se não houvesse o refresco colorido das árvores nesta selva cinza? Com certeza, estaríamos ainda mais sufocados de calor e poluição (do ar e visual). Aliás, até o que nossas árvores têm de mais lindo – estarem quase sempre floridas – é sinal de problema. Há estudos que mostram que uma árvore debilitada dá muitas flores porque sabe que não terá vida longa e precisa se reproduzir rapidamente. No último Dia da Árvore (21/10), fui ao lançamento da campanha Veteranas de Guerra (http://www.veteranasdeguerra.org/), da SOS Mata Atlântica, que encontrou 20 árvores centenárias para homenagear na cidade. Em que pese o filme da campanha, que parece um videogame de uma violência exagerada para o meu gosto, a intenção é muito legal. O trabalho de garimpagem do biólogo Ricardo Cardim foi primoroso, assim como a apresentação, em que mostrou a relação de muitos bairros paulistanos com suas árvores, como o Bosque da Saúde e o Cambuci, este último o nome de uma árvore frutífera a qual ele garantiu que, há dois séculos, estava presente na maior parte dos pomares da cidade. E eu que nunca na vida vi (e muito menos experimentei) um cambuci, mesmo tendo crescido numa São Paulo onde ainda havia quintais com árvores frutíferas, como mangueiras, goiabeiras e jabuticabeiras… Melhor parar por aqui, se não vão me enquadrar também na categoria “matusalém” e em extinção…

1984

Quando instalaram câmeras nos elevadores do meu prédio – e olha que fomos pioneiros! – a diversão dos meus filhos era ficar fazendo micagem pra elas. Mesmo bem pequenos, eles se sentiram agredidos por serem vigiados e esta era uma forma de protestar. O tempo passou e hoje acredito que praticamente não haja elevadores sem câmeras, flagrando briga de vizinhos e esposa fugindo com marido em pedaços guardados em malas. Na maior parte do tempo, porém, continuo achando que apenas ajudam os porteiros a passar o tempo e se divertir com as inevitáveis indiscrições das pessoas que, acostumadas com o treco, esquecem que ele está lá. As câmaras passaram a fazer parte de nossas vidas também do lado de fora dos prédios e, justiça seja feita, têm ajudado a reconhecer ladrões, brigões e motoristas bêbados ou imprudentes soltos por aí. Também estão em lojas, restaurantes e quase todo espaço público que podemos imaginar. Como bandido não é bobo, a tendência é que cada vez menos exemplares da espécie se arrisquem por aí sem um capacete, boné, óculos e tudo o que servir para disfarçá-los. Mais uma vez, sobrará para nós, pobres mortais comuns, cuidarmos o que fazemos com nossas mãos, rostos e qualquer outra parte comprometedora achando que estamos sós ou não sendo observados. O problema é que a sanha do Grande Irmão não tem limites. Nesta semana, um dos assuntos na cidade foi a instalação de câmaras nas classes do Colégio Rio Branco. Alunos indignados se manifestaram e, veja só, levaram suspensão. A diretora, muito cândida, explicou que as câmaras estão nas classes por motivo de segurança (contra o que?). Na Folha, opiniões de educadores contra (ufa!) e a favor(!). Para chegarmos ao 1984 de George Orwell (com quase 30 anos de atraso), só falta as câmeras serem instaladas dentro de nossas casas. Não consigo achar que isso é normal, mesmo no mundo violento em que vivemos (será que é mesmo mais violento do que em outras épocas?). Com certeza, se fosse na escola dos meus filhos, eu reclamaria. Prefiro discutir com eles, na mesa do jantar, se o professor foi injusto na bronca, se a observação do colega foi bulling, se colar é uma coisa legal, do que ter a confirmação de qualquer uma dessas coisas através de uma câmera. A dúvida e a controvérsia são partes da vida e do crescimento. Se as pessoas que estamos formando só se comportarem porque estão sendo filmadas, é porque não estão sendo formadas corretamente.

Vamos ficar um dia sem carro?

A entrada quase inimaginável de novos carros no trânsito paulistano já faz com que sábados tenham picos de congestionamento. Daqui a pouco, teremos que ter rodízio também aos finais de semana! Tudo isso para comentar que neste próximo sábado será 22 de setembro, que é o Dia Mundial Sem Carro. Da última vez que data caiu neste dia, esperei conseguir reparar nas ruas da cidade algum indício de que as pessoas estavam aderindo à data, visto que durante a semana realmente é mais difícil cumprir compromissos com as dificuldades já conhecidas de deslocamento na cidade. Naquela ocasião, não me lembro há quantos anos exatamente (uns 4 ou 5?), fomos a pé para o clube e, sinceramente, não vi diferença nenhuma, já que o trânsito ainda costumava ser tranquilo nesse dia da semana. Agora, na era das bikes e das ciclovias de passeio, pode ser que a história seja diferente: a prefeitura já anunciou que as ciclovias dominicais estarão funcionando também no sábado. Será que teremos a oportunidade de um sábado sem congestionamentos? Até gostaria, mas não estou preparada para abdicar do automóvel particular no dia a dia. Seria praticamente inviável me locomover para o escritório, escola e atividades dos filhos (sou também mãetorista), supermercado e afins (sou também dona de casa) dependendo de condução. Em meu favor, afirmo que é tudo pertinho e um lugar é caminho do outro. Passo entre meia hora e 40 minutos no trânsito diariamente. De condução, calculo que seriam necessárias umas três horas para fazer tudo isso. Para ir da minha casa à escola das crianças, por exemplo, são de 5 a 10 minutos de carro (a depender do movimento na rua). De ônibus, seria necessário andar uns 20 minutos e tomar dois ônibus para chegar lá. Não é racional. Mas procuro ir a pé a todos os locais possíveis, mesmo enfrentando as terríveis calçadas da cidade, e uso o metrô sempre que meu trajeto possa ser feito através dele. Nesse caso, é sempre mais rápido e mais barato (estacionamento em São Paulo, quando existe, é um verdadeiro assalto). Nos finais de semana, é até gostoso usar o metrô, que normalmente é “vazio”, mas com muita gente interessante. Para marcar este Dia Mundial Sem Carro, está programado o evento Praia na Paulista, entre 9 e 18 horas na Praça do Ciclista (que é o espaço de canteiro central da avenida Paulista entre as ruas Bela Cintra e Consolação). Entidades ambientalistas devem fazer atividades por lá. O Instituto Vitae Civilis e o Instituto de Defesa do Consumidor vão relançar a campanha Clima & Consumo e convidar os passantes a pendurar ideias para melhorar a mobilidade na cidade em um grande varal, que será fotografado e publicado na internet. A Fundação SOS Mata Atlântica aproveita o evento para comemorar também o Dia da Árvore (que acontece na sexta-feira, dia 21), distribuindo mudas, e com uma exposição do Dia do Tietê, que também é 22 de setembro. É uma pena que esse conjunto de datas (todas elas tão fundamentais para os habitantes desta metrópole) sejam tão pouco divulgadas. Eu, muito possivelmente, não estarei na cidade neste dia, mas não vou usar meu carro de jeito nenhum. Talvez, até plante uma árvore, e ficarei torcendo para que tenhamos um momento real de reflexão sobre o que esperamos e o que podemos fazer por nossa cidade.

A nova praia de paulistano

Há muito que ouvimos que praia de paulistano é shopping center. Não que seja mentira, já que os guapos não param de ser inaugurados nos quatro cantos da cidade e, que eu saiba, só ficam vazios os que a prefeitura interdita. Mas, de uns tempos pra cá, um novo programa nos têm atraído. E quanto mais atrai, mais se propaga e provoca outra mania paulistana: as filas. Refiro-me aos múltiplos eventos culturais que se chegam à cidade. É tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que os finais de semana têm sido curtos para poder acompanhar pelo menos uma parte do que se gostaria. Como para referendar isso, no início do mês, São Paulo foi incluída entre as 12 principais cidades culturais do mundo, em um relatório encomendado pela prefeitura de Londres que avaliou 60 indicativos nas áreas de literatura, cinema, artes, visuais, espetáculos entre outros. Se já nos aprazíamos de ser capital gastronômica do país (até restaurante entre os melhores do mundo nós temos!), também podemos assistir a musicais bem produzidos sem ir pra Londres ou Nova York e (melhor) sem entender inglês. Mas o que mais gosto mesmo são as exposições. E não me importo em pegar filas, pois elas significam que outras mostras virão. Recentemente, enfrentei três horas com galhardia para ver os impressionistas no CCBB, espaço que não conhecia e agora vai fazer parte do meu roteiro. No MASP, que ia muito de vez em quando, mal acabei de ver Modigliani, já tenho que voltar para ver Caravaggio. Na Pinacoteca, pude conhecer o venezuelano Carlos Cruz-Diez, na retrospectiva que mais me emocionou nos últimos tempos. Dá vontade de dizer até para as pessoas na rua não deixarem de passar por lá. Sem falar na Bienal de São Paulo, Adriana Varejão, Ligia Clark… E acervos como o do Museu Afro Brasil, que adoro entrar para dar uma namoradinha quando vou ao Ibirapuera. O melhor dessas exposições é que – ao contrário dos bons restaurantes, grandes shows e espetáculos de dança e teatro, que também adoro – são bem baratinhos ou gratuitos, conforme o local ou o dia da semana. Grande parte desses locais são também acessíveis por metrô, que é um meio de transporte superconfortável aos finais de semana. Melhor que isso, só se tivéssemos também uma prainha de verdade.

Culto à misoginia*

Travestido de estiloso e moderno, por trazer pseudoinovações (Guimarães Rosa foi bem mais eficiente, já que usar só caixa baixa não é exatamente um grande achado estilístico), o livro “o remorso de baltazar serapião”, de Valter Hugo Mãe, é um culto à misoginia. O autor tenta disfarçar o intento, ao mostrar a vida como dura e sem sentido para todos os personagens, mas o prazer com que descreve (em primeira pessoa, através de seu bronco personagem) os atributos físicos, fisiológicos e intelectuais femininos da forma mais torpe que já vi na literatura é inegável (nem Nelson Rodrigues conseguiu chegar perto, coitado!). O livro é premiado e elogiado por Saramago etc., mas curiosamente não encontrei uma resenha sequer escrita por mulher. Todos os elogios citam a misoginia do texto, mas parecem ter caído na armadilha de ser esta mais uma das dores do mundo e não “A” fonte de inspiração do livro, cuja centralidade na vaca não deixa dúvidas. Um exemplo, que parece chegar perto da questão, é a crítica de Sérgio Rodrigues, que conclui: “(…) o remorso de baltazar serapião se torna mais forte e mais incômodo quando a misoginia visceral do mundo que retrata, exposta com brutalidade na paulatina subtração física a que os maridos submetem as mulheres, parece se infiltrar no tecido narrativo. Ao perder a voz, aquela voz feminina que “vinha das caldeiras fundas onde só o diabo e gente a arder tinham destino”, como anuncia o narrador já na primeira frase, a mulher finalmente se entrega ao amor do homem. É tarde: tudo já deu em nada, a humanidade perdeu. De pé só resta Sarga, a vaca, com sua inútil compaixão.” A misoginia é constante na história da humanidade. Ela está presente na bíblia judaica e em cartinhas do Novo Testamento (apenas Jesus Cristo parece não ter comungado dela), e se perpetua através dos tempos nos cintos de castidade, mutilações de clitóris, burcas, prostituição e afins. Ela compraz os homens desde que o mundo é mundo. Isso por si só já é um grande problema, mas poderia ser aos poucos extirpado se a outra metade da humanidade (que na verdade é a maioria – só no Brasil somos 6 milhões a mais) não compactuasse voluntária e contentemente com ele. Acredito que isso pode não ter sido sempre verdade (e ainda não o seja para todas as culturas), mas é fato inequívoco na sociedade Ocidental. Vejamos. Somos menores (parece que 15% na média) e mais fracas fisicamente do que os homens. Só aí, já há uma desvantagem enorme, que fez ao longo de milênios as mulheres se sujeitarem a machos que as defendessem e sustentassem (essa vantagem competitiva do sexo masculino foi fundamental na hora de caçar mamutes ou carregar a cria e pertences em longas caminhadas – lembrem-se, que a cada passo dado por um homem, uma mulher dá praticamente 1,5 – façam as contas no final de um dia caminhando quilômetros e quilômetros…). Essa relação de poder se perpetua no tempo através de religião e força (vide Oriente Médio, regimes tribais africanos). Mas não é o que acontece no Ocidente, onde as mulheres finalmente se rebelaram, queimaram seus sutiãs (espartilhos? cintos de castidade?), ganharam o direito de eleger e de mandar (temos aqui mesmo a terceira mulher mais poderosa do mundo – estaria ela também na lista dos humanos mais poderosos?) e de fazer sexo com quem quiserem (viva a pílula!). No entanto, estamos, de livre e espontânea vontade, ficando apenas com a pior parte dessas conquistas. Lutamos, enfrentando muita resistência, pelo direito de estudar e entrar no mercado de trabalho remunerado (já que mulher nunca ficou um dia sem trabalhar – e olha que puxar água de poço e lavar roupa no rio é trabalho braçal tão duro quanto carregar pedra). Passado o susto, porém, os homens se tranquilizaram: “elas não deixaram de cuidar de nossos filhos, da nossa casa, da nossa comida e de fazer sexo quando tivermos vontade. E, ainda por cima, tiraram de nossos ombros a responsabilidade de garantir o sustento da prole se quisermos perpetuar nossos genes. Podem fazer isso sozinhas, nos permitindo ficar apensas com a parte boa. De agora em diante, se falta provento à família, a responsabilidade, no mínimo, é compartilhada (em troca, podemos, de vez em quando, trocar uma fralda, que não mata ninguém).” Mas o ódio a esse ser que pode se virar sozinho só fez aumentar: agora os homens ganharam novos direitos, como o de contar as piores piadas e fazer os mais grosseiros comentários não apenas entre eles, mas na frente delas (mesmo que sejam pequenas mulheres em formação) e de justificar suas grosserias como o preço a pagar pela “liberdade” e “igualdade” conquistadas. Até aí, volto a dizer, nenhuma surpresa… A gota d’água é ver as próprias mulheres se submeterem a carregar o mundo nas costas – com suas duplas jornadas – e ainda buscarem a submissão sexual. Ler um livro como “o remorso de baltazar serapião” deveria ser uma ofensa tão grande quanto ler o artigo do Luiz Felipe Pondé, na Folha desta semana, defendendo que mulher gosta de apanhar e este é o mundo real. Mais triste ainda é ver que ele justifica isso citando o sucesso do livro Cinquenta Tons de Cinza, escrito por uma mulher e idolatrado por elas mesmas. Que recado estamos enviando para nossos homens? Pior do que tudo isso, é ver mulheres se mutilando e exibindo a prova publicamente: em seus rostos, seus seios e, agora, em suas genitálias, para poder melhor se submeter à competitividade por um macho (para sustentá-las? para humilhá-las?). Não me admira ver adolescentes bulímicas e se cortando com giletes. Comportamentos semelhantes são infinitamente incomuns em indivíduos do sexo masculino, que, sabemos porquê, são muito mais felizes com a própria existência. No suplemente Equilíbrio (da Folha) nesta mesma semana do artigo do Pondé, além da matéria de capa “Costura íntima” sobre as plásticas de vagina, há um artigo dizendo que, para muitas mulheres, o sexo se tornou uma obrigação e