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PaulistanaSP

O conto dos descarados

Era uma vez um reino muito grande e bonito. Sua diversidade de gentes, culturas e natureza era admirada no mundo todo. Mas há séculos esse reino era governado por um grupo de autodeclarados nobres, que de nobreza não entendiam nada. Eles desprezavam seus súditos e as riquezas daquelas terras, das quais se apropriavam desavergonhadamente achando que eram infinitas. Para manter o povo calado, mentiam. Diziam que destruir era desenvolver, que desregular era cuidar. Como se não bastasse, quando alguma voz se levantava para chamar a atenção para o que acontecia, esses detentores do poder se uniam para escorraçar a voz dissonante. Se essa voz fosse de uma mulher, tanto pior. A falta de compostura e escrúpulos era tanta que eram incapazes de medir as atitudes, até mesmo para disfarçar suas reais intenções. Embrenhados em representar seus asseclas e manter seus privilégios, perderam a noção do que é decoro, mas também do que é lógico. Diante de ameaças, que não eram pragas de bruxos ou falsos profetas, mas sabedoria empírica e científica, preferiram ignorar. Mais do que isso, sentiam-se tão poderosos que planejavam desarmar o reino para poderem abocanhar mais e mais dos recursos sem medir consequências. ** O fim desta história é incerto. Aguardamos a próxima temporada. Parte dos fãs está atônita e indignada. Espera que alguma heroína ou herói se apresente para acabar com a festa nefasta e salvar o reino. Outros fãs, afeitos a um pouco mais de realismo, gostariam de ver os súditos se mobilizarem para impedir a destruição do patrimônio que é de todos. Não sabem, porém, se querem apenas assistir ou participar dos episódios e se responsabilizar pelos resultados. Como em todas as sagas, há, ainda, os que torcem para que tudo continue como está e que o circo pegue fogo. Esquecem (ou fingem não ver), estes e os nobres dirigentes, que também estão sob a lona.

Prefiro falar com gente de verdade

Gostaria de ser atendida por humanos inteligentes e não por inteligência artificial, sobretudo quando quero marcar um exame. Podem me dizer que a tecnologia vai se aperfeiçoar, espero que sim, mas, por enquanto, nada como um ser biológico pensante como interlocutor, para o qual possa explicar o que preciso. Marcar meu checkup anual costumava ser algo bem simples. Ligava para um laboratório, apertava o número para falar com o atendente, ditava os exames que precisava e ele agendava todos, normalmente no mesmo dia e na mesma unidade. Atualmente, a tarefa se tornou um ato de paciência sem garantia de sucesso. Na verdade, esqueça o telefone. Você vai ter que ouvir uma infinidade de perguntas, digitar um número idem de respostas e digitar seus dados. Quando chegar a hora de falar com alguém de carne e osso, passará a ouvir a famosa musiquinha até cair a ligação. Será obrigado a agendar via site. No site, será instruído a fotografar seus exames e terá que preencher novamente seus dados (CPF, plano de saúde), às vezes os nomes dos exames, quando a máquina não conseguir ler. Em alguns laboratórios, essa fase já foi tão complicada, com muitas voltas e mal-entendidos, que você já desistiu. Em outros, vão te encaminhar para um Whatsapp para “completar” o atendimento. Isso significa começar tudo de novo, com uma atendente (sempre com nome de mulher) digital. “Ela” vai te pedir tudo novamente: dados, fotos dos exames, todos os dados do seu plano de saúde E a foto da carteirinha do plano de saúde, que já tem todos os dados solicitados. Depois disso, a “atendente” vai pedir para você escolher uma unidade do laboratório e marcar alguns dos exames que você pediu, aqueles que ela entendeu o que é ou os que têm na unidade que você solicitou. Se você tiver alguma dúvida e perguntar algo fora do protocolo, vai começar tudo novamente. Depois dos exames marcados, você recebe por e-mail a confirmação – se tiver sorte (a depender do laboratório) vem a relação de exames efetivamente agendados – e as instruções para o preparo. Alguns pedem para você confirmar o agendamento via e-mail e/ou whatsapp. Quando você, finalmente, chega ao laboratório no dia marcado, pega uma senha para ser atendido. Nesse momento, normalmente, também pedem seus dados, que serão novamente solicitados quando chegar sua vez no guichê. Lá chegando (talvez seja apenas azar meu, mas acontece sempre), descobre que alguns dos exames não foram agendados, porque não estavam escritos exatamente como a atendente virtual entende. Na última vez que passei por isso, ainda descobri que o pedido da mamografia precisava ter um código de diagnóstico médico para ser aceito por meu plano de saúde. Já é um absurdo a necessidade de explicações para um exame que se deve ser feito anualmente como rotina – se eu for falar dos planos de saúde, melhor escrever um livro. Mas, se enviei os pedidos médicos mais de uma vez para o laboratório, um humaninho possivelmente teria me alertado disso e eu não teria que ficar mais uma hora no laboratório aguardando minha médica poder me reenviar o pedido médico. E olhe que ela conseguiu. Estou rabugenta? Estou. Muito. E poderia ficar aqui reclamando um dia inteiro. Sei que a promessa é que a IA vai ficar mais inteligente, mas prefiro pensar que logo, logo, as empresas vão fazer propaganda dizendo “venha para cá e fale com gente de verdade”. Eu vou correndo.

Conceição Evaristo traz prazer e incômodo na leitura de Ponciá Vicêncio

Ponciá Vicêncio foi minha primeira leitura de Conceição Evaristo e me trouxe, simultaneamente, duas sensações: uma de prazer, pelo texto conciso e, mesmo assim, poético da autora, que nos faz devorar a obra de um fôlego só; e outra de incômodo, ao seguir uma história de tristezas em série, que Evaristo não economiza. Desde o início, quando Ponciá, mesmo um bebê de colo, se recorda do enterro do avô e, mais tarde, imita seu jeito de andar, a autora anuncia um presságio inexorável no destino da menina. Destino esse que se cumpre, na pobreza persistente ao migrar para a cidade grande em busca de oportunidades, nos sete abortos, na falta de notícias da família, na violência do companheiro e, finalmente, nas ausências predestinadas desde a infância. Conceição Evaristo, em suas escrevivências, como denomina, faz de Ponciá e sua família um microcosmo desse erro de nascença brasileiro, forjado na violência da escravidão e enfrentado tão timidamente como sociedade ao longo dos últimos cento e poucos anos, que deixa pouca margem para sonhar. A começar pela questão agrária e relações de trabalho ainda coloniais e intocáveis, escancaradas no nome da vila e no sobrenome da família Vicêncio. E nos reflexos desse modus operandi também na cidade, onde o trabalho doméstico e braçal, praticamente a única opção dessas pessoas, não é nada melhor. No final, porém, quando tudo leva à mais absoluta desesperança, parece que Evaristo busca, no fundo da alma, uma luz no fim desse túnel praticamente impossível de atravessar. A partir de decisões inusitadas (a mãe ir para a cidade, o irmão não fazer justiça com as próprias mãos, Ponciá – mesmo sem força nenhuma – decidir voltar para sua terra) e encontros mais inusitados ainda, vemos a família de repente unida e voltando junta para casa. Mãe e filhos prontos para recomeçar, apesar de uma realidade sem novidades, contando apenas consigo mesmos e com a herança da memória dos seus.

Sobre a diversidade do DNA brasileiro

Aquilo que vemos nas ruas e em nossas famílias agora foi apresentado cientificamente. Publicado na revista Sciense na semana passada, o estudo Genoma de Referência Brasileiro mostrou que o país tem a maior diversidade genética do mundo. O levantamento, realizado pela USP e financiado pelo Ministério da Saúde, sequenciou, pela primeira vez de forma completa de em larga escala, o DNA de 2,7 mil brasileiros de todas as regiões, incluindo comunidades urbanas, rurais, ribeirinhas e indígenas, e encontrou 8,7 milhões de variações genéticas inéditas. Um dos principais objetivos do estudo é obter dados de saúde da população para pesquisas médicas mais específicas para o Brasil. Foram encontrados marcados de doenças como hipertensão, obesidade, colesterol alto, malária, hepatite, tuberculose, salmonelose e leishmaniose. O mais interessante da pesquisa, porém, foi evidenciar o processo de miscigenação ocorrido ao longo de 500 anos de história do país, a partir da chegada dos colonizadores europeus, tendo como base o genoma de seus habitantes. A ancestralidade brasileira mostra vestígios genéticos de povos indígenas exterminados durante a colonização e combinações e genomas africanos formados apenas no Brasil, como consequência direta do tráfico de escravizados. Diferenças entre as heranças genéticas maternas e paternas indicam que brasileiros têm linhagem paterna europeia e linhagem materna indígena e africana, comprovando a violência sexual contra as mulheres como fator preponderante na formação do povo brasileiro. Ainda comprovando o que vemos intuitivamente, a pesquisa mostrou a prevalência de genes indígenas na região Norte, africanos no Nordeste, e europeus no Sul e no Sudeste. O estudo apontou também uma tendência de “acasalamento seletivo”, ou seja, que as gerações mais recentes tendem a ter filhos dentro do mesmo grupo étnico. Na média, os indivíduos analisados apresentam em torno de 60% de ancestralidade europeia, 27% africana e 13% indígena nativa, esta última maior do que era esperado. Há, ainda, 1% de ancestralidade asiática. Não sei vocês, mas, para mim, confirmar que o Brasil tem uma diversidade humana tão rica quanto sua biodiversidade geral foi motivo de satisfação. Nossa genética reflete a riqueza cultural do país, motivo de orgulho e possibilidades. Por mais que nossa história não seja lá muito edificante, o resultado nos irmana: somos todos fruto de miscigenação. Esta colcha de retalhos genética, cuja história oficial tentou encobrir durante muito tempo, faz com que muitos brasileiros não consigam saber exatamente sua origem. Eu mesma, sei que tenho dois terços de ancestralidade europeia recente. Do restante, só um teste de DNA para comprovar. Uma hora mato a curiosidade e faço um teste. Meu marido, que tem o lado paterno da família bem mapeado, mesmo sendo gaúcho, é descendente do cacique Tibiriçá e do casal Potira e João Ramalho, ascendentes de grande parte dos paulistas chamados quatrocentões. Brinco com meus filhos me referindo ao líder indígena como vovô Tibiriçá. Parece engraçado, mas não é. Afinal, ninguém aqui acha que Potira se apaixonou pelo português degredado Ramalho, que deveria ser mais velho que o pai dela e o qual, diz sua biografia, provavelmente se “casou” também com outras filhas de Tibiriçá.

Limpeza urbana é bom para o turista e a cidade

Manaus tinha tudo para ser uma cidade incrível. Fica às margens de um dos rios mais lindos do mundo, o Negro, e é o local onde ele se encontra com o Solimões formando o rio Amazonas de um jeito único, correndo juntos uma grande distância sem que suas águas se misturem. Eu fiquei boquiaberta quando vi o fenômeno na primeira vez que cheguei de avião à cidade. Além disso, é cercada pela floresta amazônica, o que dispensa comentários, e cortada por uma infinidade de córregos ou igarapés. Tem um centro histórico com um bonito conjunto arquitetônico do tempo da Borracha, com o Teatro Amazonas como a joia da coroa. Pelo menos uma bela praia de rio, a Ponta Negra. Uma culinária original e saborosa. É a maior metrópole no Norte do país, com mais de 2 milhões de habitantes, por onde não se chega por estradas, apenas pela água ou pelo ar. Poderia ficar enumerando outras coisas extraordinárias sobre a cidade, mas é impossível visitar Manaus e abstrair o tanto de lixo que se espalha pelas ruas, praças e rios manauaras. Por mais que se tente não olhar, o volume de resíduos por todo o canto chama o olhar do turista e se torna tema de conversas entre as pessoas, pelo menos no grupo de todo o Brasil com o qual eu estava, nesta última estada na cidade. Não sei dizer o que pensam os estrangeiros que chegam ali. A falta de saneamento básico não é um privilégio manauara, é um flagelo brasileiro. Segundo o Ranking do Saneamento 2024, publicado pelo Instituto Trata Brasil, que avalia os serviços básicos das 100 maiores cidades do país, Manaus ocupa a 86ª posição, figurando entre os 20 municípios com os piores índices. Atualmente, mais de 1,5 milhão de manauaras não têm acesso à coleta de esgoto, e apenas 21,8% do esgoto gerado na cidade é tratado. Pouca gente associa, porém, os resíduos urbanos entre os quatro pilares do saneamento básico: água tratada, esgotamento sanitário, drenagem urbana e coleta e tratamento de resíduos sólidos. Considero os resíduos sólidos como a sala de visitas de uma cidade. Todo o saneamento é importante, mas o lixo espalhado é o mais visível e, me parece, o mais fácil de resolver. Quando um rato morto permanece todo um fim de semana na esquina mais turística de uma cidade (em frente ao teatro Amazonas em sua época de óperas e a um restaurante), há algo que precisa ser pensado. A cidade padece ainda de uma característica forte brasileira, que é reabilitar espaços fazendo grandes obras sem pensar em sua manutenção. Ano passado, Manaus inaugurou uma parte do que chama de programa de recuperação de seu centro histórico. O complexo conta com o mirante Lúcia Almeida, largo de São Vicente, casarão Thiago de Mello e Píer Turístico. O mirante é o principal atrativo do local e conta com piso transparente para dar a sensação de que estamos andando sobre o rio Negro. O problema é que ao olhar para baixo, há mais lixo boiando no rio do que água. Nada disso quer dizer que não gostei ou não recomendo a visita a Manaus. Apenas a considero um exemplo da falta de visão de oportunidades que vejo nas cidades brasileiras. Tanto em termos de potencial turístico e econômico quando em prevenção às mudanças climáticas. Imagina uma enchente em Manaus, como a de 2021, com aquele tanto de resíduos espalhados com a maior parte da população vivendo em palafitas. Desastres climáticos, como seca, estiagem e excesso de chuvas, causaram perdas de R$ 732,2 bilhões entre 2013 e 2024 às cidades brasileiras, segundo um levantamento da Confederação Nacional dos Municípios. Só no ano passado, as tragédias climáticas causaram um impacto negativo de R$ 92,6 bilhões. Em 12 anos, 95% dos municípios do país já foram atingidos ao menos uma vez por algum tipo de desastre. Nesse período, mais de 5 milhões de pessoas ficaram desalojadas, 1 milhão desabrigadas e quase 3 mil morreram. É por isso que falar sobre saneamento básico não é uma questão estética, para turista ver, mas essencial para a própria existência das cidades nos tempos que vêm por aí.

Saudade de descer ladeira de carrinho de rolimã

Fazia muitos anos que eu não via carrinhos de rolimã. Eles fizeram parte da minha infância. Morava em uma rua sem saída com uma ladeira suave, o suficiente para os carrinhos deslizarem sem que perdêssemos o controle. A descida terminava em uma esquina com muito pouco movimento. Não havia portões em vilas. Podíamos virar e descer ainda um pouco mais ou seguir em frente na mesma rua até o carrinho parar. Nunca tive um carrinho só meu. Ninguém dava carrinhos de rolimã para meninas naquela época. Pegava emprestado dos meninos da rua e do meu irmão. Um tio fez um pra ele todo vermelho, com uma cadeirinha com encosto. Era lindo! Mas eu precisava contar com a boa vontade do dono para usar. Pelo que me lembro, eu era a única menina da rua que andava de rolimã. Devia ter entre cinco e seis anos. Alguém tinha um bem grandão e descíamos uns cinco empilhados nele. Normalmente, eu por cima deles. Às vezes, saía toda ralada, mas fazia parte da brincadeira. Não participava das corridas, porque aí já era demais pra mim, os garotos enlouqueciam e minha competitividade não chegava a tanto. Aliás, nunca chegou. Depois que mudamos da vila, tenho a impressão de ter usado o rolimã vermelho algumas vezes, mas a nova rua tinha uma ladeira mais íngreme e um maior movimento de carros. Minha mãe acabou com a alegria. Não sei que fim deu ao possante. Nunca mais andei de rolimã. No início do mês, fui ao Museu do Ipiranga e, ao passear pelo Parque Independência, me deparei com uma ladeira repleta desses carrinhos, com pessoas de todas as idades pilotando. Fiquei encantada, pois achava que não existiam mais em São Paulo. Apesar de placas proibindo o aluguel, deu pra perceber que são apenas proforma. Lamentei estar de saia. Fiquei com vontade de voltar ao parque e tentar alugar um, mesmo sem a certeza de ainda ter coragem de me aventurar na descida. Museu A visita ao museu também foi uma ótima surpresa. A última vez que estive lá foi algumas semanas antes de ser fechado por conta de vazamentos e permanecer alguns anos à espera de reforma. Embora tenha demorado, a reformulação o deixou mais interessante como museu histórico, com a tentativa de trazer uma versão um pouco menos parcial do que a da elite branca a qual representava. Com explicações sobre o sentido do que está representado nos quadros e objetos expostos, o museu deixa claro que são um ponto de vista da história. Há, ainda, a intensão de ilustrar o modo de vida do brasileiro comum dos primórdios da colonização até os dias atuais, dando representatividade às diferentes culturas e etnias do país. Para além disso, o prédio continua bonito e imponente. Imagino seu impacto ao ser construído no final do século 19, em local tão remoto quanto era o Ipiranga. Sem planejar, estive lá no primeiro domingo do mês e descobri que, neste dia, mensalmente, a entrada é gratuita. Fica a dica.

A Moça Sem Rosto, por duas moças com tudo de bom

Beleza e leveza caminham juntas em A Moça Sem Rosto – Uma jornada de possibilidades, livro da poetisa (entre tantas outras coisas, como ela se define) Sandra Quinteiro e da ilustradora (também multiatividades) Juliana Cardozo, editado pelo selo Afins, que acaba de ser lançado. A obra é uma jornada poética de autodescoberta. Uma fábula contada em versos e imagens sobre a busca pelo essencial, o encontro consigo e com o mundo ao redor. Difícil dizer o que emociona mais, se as palavras ou os desenhos que as inundam de significados. Tive a alegria de ser convidada por essas duas amigas artistas para fazer a Apresentação do livro, que reproduzo aqui como um convite para que leiam o livro e conheçam os trabalhos das autoras: “Foi ao redor de uma fogueira, em uma noite de aconchego no Germinar, formação da qual a Sandra Quinteiro é uma das idealizadoras, que a ouvi declamar A Moça Sem Rosto. E ali, naquele clima de comunhão, tive o privilégio de assistir ao nascimento da ideia deste projeto de coautoria com a Juliana Cardozo, que reflete o talento das duas artistas. Conheci a Sandra em um Fórum de Confiança entre Mulheres e logo me identifiquei com seu jeito ao mesmo tempo gentil e firme em suas colocações. Foi ela quem primeiro me apresentou a antroposofia, a filosofia que norteia sua procura constante por um conhecimento profundo do ser humano, da natureza e do universo. Mais tarde, descobri a poetisa e declamadora, que sempre me emociona, e a facilitadora com quem mergulhei em um mundo mais sábio, tolerante e diverso, onde o autoconhecimento me fez entender um pouco mais sobre mim mesma e sobre o mundo. Participando do Germinar, também conheci a Ju, companheira de caronas e papos sobre a busca de novos caminhos profissionais e como criar impacto na sociedade. E uma ilustradora com a sensibilidade à altura da escrita da Sandra. Versos e traços integrados, presenteando beleza e despertando os sentidos.”

Correntão ainda assombra Amazônia

A primeira vez que vi cenas de correntão derrubando floresta era na Mata Atlântica, em meados dos anos 1990, numa época em que ainda não existia uma lei específica para o bioma. Trabalhava na Rede de ONGs da Mata Atlântica e tentávamos denunciar aquilo que nos parecia um crime hediondo, além de proteger os ambientalistas locais, que viviam sob ameaças. A cena me chocou, nunca tinha imaginado ser possível tratar uma floresta tão majestosa como se fosse joguinho de carta de baralho tombando. Pra quem não sabe, o correntão é o método mais cruel de desmatamento, com o uso de uma corrente grossa entre dois tratores, derrubando tudo pelo que passa, sem poupar uma árvore ou dar chance aos animais que estão no caminho de fugir. Pode devastar 10 campos de futebol por dia. Em meados de 2010, foi a vez de assistir pessoalmente, árvores nativas da Amazônia sendo cortadas, quando fui conhecer o projeto de manejo florestal da Ecolog, em Rondônia, para escrever sobre a experiência. O resultado é o livro Explorar para Preservar, no qual conto a aventura do empresário Fabio Albuquerque em sua tentativa de salvar, via manejo, uma das últimas grandes florestas de Porto Velho. Acostumada até então a visitar apenas áreas conservadas da Amazônia, percorrer os 250 quilômetros da BR-364, ao longo do que foi a ferrovia Madeira-Mamoré, até a fazenda da Ecolog, foi uma experiência intensa, mesmo quando teoricamente se está preparado para o que se vai ver. Ao longo de todo o trajeto já não exista floresta. Em alguns pontos, me sentia no Velho Oeste de dois séculos atrás retratado em filmes estadunidenses. Criação de gado, em pastos pobres onde não se teve nem a preocupação de retirar os esqueletos das árvores carbonizadas na abertura da área, era a paisagem dominante. Ao fundo, matas empobrecidas e abertas, parecendo esperar a vez de também serem derrubadas. O cenário mudava quando entrávamos nos 30 mil hectares de matas nativas da Ecolog. Mas, mesmo dentro daquela situação controlada de manejo certificado, na qual poucas árvores são selecionadas para corte, é uma sensação terrível ouvir e ver uma árvore centenária tombar. Mesmo ainda acreditando na possibilidade do corte seletivo, espero não repetir da experiência. Por isso ver o correntão em ação, mesmo nos vídeos da internet, é um pesadelo. Atualmente, essa prática ainda tem sido registrada na Amazônia e é alvo de uma campanha de organizações da sociedade civil, que criaram uma petição online para que o PL 5.288/2020, que proíbe essa prática no país, seja aprovado no Congresso Nacional. Quem quiser saber um pouco mais sobre o assunto, veja neste post do André Trigueiro em https://www.instagram.com/reel/DJUIlpJNTRm/.

Tietar não é preciso, mas é legal!

A imensidão das águas do Rio Negro e suas ilhas de florestas alagadas me proporcionaram uma das experiências mais incríveis da vida. E não estou falando de estar na Amazônica, que sempre me emociona pela biodiversidade, cultura e gentes, mas de passar algum tempo junto de escritoras das quais sou fã, poder ouvi-las, conversar com elas e me permitir até tietar um pouquinho. Está aí uma vantagem de envelhecer: perder o excesso de compostura que me impediam de me aproximar de pessoas que admirava por medo de incomodar e vergonha de me mostrar. Participar da expedição Navegar é Preciso era um sonho acalentado há anos, que se tornou imperativo diante da seleção de autores anunciados. Iniciativa da Livraria da Vila, a viagem junta leitores apaixonados, isolados por quatro dias em um navio (sem internet), para trocar ideias e afetos com seus escritores favoritos, enquanto se embrenham em uma das paisagens mais lindas e remotas do país. Todos no mesmo barco (desculpem, não resisti ao lugar comum), fingimos ser super natural fazermos passeios, refeições, nadar e dançar com aqueles cuja intimidade só tínhamos por meio de seus personagens ou pensamentos que dividiram conosco através de seus livros. Descobri que Socorro Acioli é uma das criaturas mais divertidas e com as tiradas mais espirituosas que já conheci. Merecia um programa de entrevistas na televisão (#ficaadica). Mariana Salomão Carrara é uma amigona de suas amigas, daquelas que todo mundo quer ter. Eliane Marques é firme e aguerrida, mas um doce de pessoa e uma dançarina e tanto. Vera Iaconelli tem uma família linda, com filhas tão bacanas quanto ela. Zelia Duncan é tão simpática e gente boa quanto eu imaginava. E o Jeferson Tenório é menos sério do que achei na conferência que assisti no Instituto Vera Cruz e um paizão daqueles de emocionar. Não saí de lá best friend forever de nenhum deles como prometi para minhas amigas, mas os admirando um tantinho mais. Conheci, ainda, entre os viajantes, pessoas com muita coisa em comum, que espero levar para sempre. E trouxe uma vontade de, quem sabe, repetir a dose em uma próxima oportunidade.

Carta ao narrador do romance Memórias do Subsolo, de Dostoiévski

Caro Homem do Subsolo, Você não me conhece, mas como lavou sua alma em público, eu te conheço um pouco. Aliás, conheço várias pessoas parecidas com você, e olha que 100 anos separam o seu nascimento (mesmo que aos 40 anos) do meu. Vivo mais de 150 anos à sua frente, e sou obrigada a concordar com sua insatisfação com o gênero humano. Esse tempo que nos aparta só fez reforçar sua tese sobre não sabermos fazer boas escolhas, nem para o coletivo, nem para nós mesmos. Temos hoje uma lista enorme para acrescentar às suas queixas: duas guerras mundiais com crueldades inimagináveis e, apesar disso, várias guerras inexplicáveis correndo soltas. Para piorar, agora, todos participamos delas, pelo menos olhando as terríveis imagens em tempo real. Além disso, temos um planeta devastado por nossas atividades. Neste momento, por causa delas, ocorre a mais rápida extinção em massa de espécies da história do planeta e mudanças climáticas agravam a situação de precariedade e violência inerente aos humanos. Não temos freios, tampouco motivos para otimismo. Você também é um vanguardista. Seu individualismo e, ao mesmo tempo, sua presunção de ser visto a qualquer custo (hoje diríamos “falem mal, mas falem de mim”) são muito modernos. Atualmente, pouquíssimos somos diferentes disso. O filme O Mundo Depois de Nós, da Netflix é um exemplo disso ao terminar com uma menininha – que passou a história toda tentando ser ouvida, sem sucesso -, diante do fim do mundo, escolhendo assistir sozinha a uma série boba de televisão. Tenho certeza de que esta seria sua opção também, mesmo que você não saiba o que é um filme, a Netflix, nem que os acontecimentos por aqui, agora, não têm repercussão por mais de alguns dias. Sua reação às questões inerentes à nossa espécie, porém, me parecem equivocadas e ignóbeis (aliás, termo que pessoas como você adoram usar). Não que você seja único, como quer demonstrar. Todos nós, em alguns momentos, temos esse comportamento vil, que inclui exercer pequenos poderes para prejudicar e constranger pessoas, apenas para nos vingar da própria mediocridade da existência. Alguns, porém, escolhem lutar contra esse instinto que nos trouxe até aqui. Não é uma escolha fácil, mas a que torna nossa permanência suportável (e a das demais pessoas também). Gosto das justificativas dadas para essa escolha por duas pessoas que admiro muito. O líder indígena e pensador Ailton Krenak, em seu livro Ideias para Adiar o Fim do Mundo, aborda a raridade da existência, no universo, de um planeta que possibilitou a vida e de estarmos aqui. Defende que fomos convidados para uma festa cósmica improvável e, somente por isso, devemos ser gratos e fazer nosso melhor. Nurit Bensusan, bióloga e escritora, me salvou de sucumbir à desesperança, durante os anos nefastos de extrema direita e covid juntas que assolaram o Brasil, com sua tese sobre o imperativo ético. Para Nurit, é esse imperativo ético que nos faz continuar a fazer o que achamos certo, mesmo sabendo o quão poucos resultados (às vezes nenhum) terão nossas ações. Para pessoas ressentidas como você, essas ideias podem parecer pueris, mas garanto que tornam a vida mais leve e nossa breve passagem por aqui pelo menos um pouco gratificante. Nem sempre é simples, em alguns momentos parece mesmo impossível. Qualquer página de jornal está aí para não me deixar mentir. Precisa ser um propósito diário, mas, mesmo assim, acredito que valha a pena. O contrário disso é amargor e solidão. Aliás, é a lembrança da solidão que me faz ter certeza de estar certa ao escolher a leveza. Além de você, conheci recentemente um outro personagem/autor, mais contemporâneo, com esse tipo de irritação gratuita (ou, pelo menos, exagerada). Em Derrubar Árvores, Uma Irritação, de Thomas Bernhard, o narrador é tão pernóstico em relação aos demais personagens que vomitei antes de terminar a leitura. Ao destilar sua baixa estima por todos os demais, o personagem exala tanta infelicidade, que ela irradia para quem está ao seu lado na história ou apenas lendo o livro. Embora o título do livro não tenha ligação direta com o tema, pensei naqueles que derrubam árvores (e garimpam e grilam terras e perseguem mulheres e índios e negros e pobres e gays) somente para aplacar sua insatisfação de estar no mundo e tornar a vida de tantos insuportável, em um looping difícil de interromper. A cada dia, ao me levantar da cama, me exercito para não ser como estas pessoas, me esforço em suavizar minha reação ao que é mau, sem me tornar alienada ou desiludida contumaz. Como já disse, não é fácil, mas acho que você também deveria tentar. Abraço, Maura