PaulistanaSP

Pedestres, se virem!

Dirigia meu carro hoje pela manhã quando uma senhorinha de bengala apareceu vindo em minha direção subindo a ladeira pelo meio da rua. Meu primeiro pensamento foi se a mulher estava querendo que alguém fizesse um strike nela. Mas parei o carro, aguardei a passagem do veículo que subia na mão contrária e passei ao lado dela. Logo depois, olhei pelo retrovisor e a vi chegar ao ponto de ônibus e se sentar no banquinho. Automaticamente, desviei o olhar para a calçada ao lado e me deparei com uma trilha estreita, formada por degraus irregulares e tortos, esburacada, com postes e árvores com raízes aparentes no caminho. Se aquela ladeira seria desanimadora para mim, imagine para alguém que depende de uma bengala. Carrinho de bebê ou cadeira de rodas, então, não teriam a mínima viabilidade. Mirei a rua asfaltada onde trafegava e, por pior que seja o asfalto paulistano, era uma via regular, recém-recapeada (para as eleições do ano passado), sem obstáculos que não fossem as lombadas feitas para que os automóveis, construídos para andar a até mais de 200 km/h, não se empolguem demais. Apesar de estreitas para a passagem de ônibus e caminhões, as ruas do meu bairro permitem estacionamento nos dois lados, o que só não acontece em entradas de garagem (mais uma vez para os carros) e para a privatização das ruas pelos restaurantes, que aumentam sua área para além da calçada, dificultando ainda mais a vida do pedestre, que ainda precisa desviar de garçons, pessoas esperando lugar e, às vezes, mesas e cadeiras. É comum ver pedestres andando pelo meio da rua para além dos puxadinhos dos bares. Pensei, então, nas ciclovias, que pegam parte de algumas ruas da redondeza e, aí sim, o estacionamento é proibido. Sou muito a favor das ciclovias, mas muitas delas são usadas por pedestres – pelos mesmos motivos da senhora de bengala – também expostos ao perigo. Mais do que as ladeiras, acredito que a preferência para usar o carro até para micropercursos, como ir à padaria na esquina, para quem pode, é a falta de calçadas minimamente decentes. Fico imaginando em que momento nos perdemos da civilidade para achar que pedestres não importam? Será que um dia isso vai mudar?