A luta contra os dinossauros do Antropoceno

Aprendi na série Os Dinossauros, na Netflix, que as árvores ficaram cada vez mais altas no período Jurássico para poderem sobreviver à fome dos dinossauros, cujos pescoços aumentavam quase na mesma proporção. Imagino que, se não fosse esse quase, teriam acabado as árvores e os dinossauros sem precisar de asteroide. Em São Paulo, os prédios sofrem o mesmo fenômeno: crescem aos céus no ritmo da fome das incorporadoras que dominam território. Meu medo é chegarmos ao ponto de dependermos de um cometa descontrolado para salvar a cidade. Fico imaginando os documentários das espécies que nos sucederão, contando a história de uma megalópole que começou com pequenas ocas indígenas ao redor de seus rios. As ocas, presentes há milênios, não sobreviveram à competição com as novas edificações, que começaram em taipa de pilão e foram “evoluindo” até os poderosos concreto armado, aço e vidro. As condições favoráveis, feitas a partir de armas, violência e capitalismo selvagem, fizeram a cidade crescer inicialmente na horizontal. Quando se achava que o crescimento populacional avassalador pelo qual passou no século XX arrefecia e a urbanização finalmente traria beleza e qualidade de vida aos moradores, eis que a especulação imobiliária reagiu. Tal qual um Tyrannosaurus rex, o ser mais temido do Jurássico, a especulação imobiliária do Antropoceno decidiu que tudo o que havia sido construído até então seria substituído, não tinha valor. Passou a comer tudo o que via pela frente e a transformar o que já era uma paisagem hostil em apocalipse, sem sol, sem respiro, sem história. Na selva de pedra, porém, nem sempre são os mais fortes que vencem. Ainda na série sobre os dinos, vi que os esses seres majestosos surgiram como inofensivos animaizinhos, parecidos com uma galinha bem pequena. No entanto, na briga com os poderosos répteis gigantes, se mostraram mais adaptados aos desafios que a Terra de então colocava aos seus habitantes, e depois puderam evoluir e dominá-la. Ainda não sei o final do documentário do futuro, apenas torço para ser menos catastrófico.
Metrô ao lado de casa é sonho de paulistana ingênua

Fui surpreendida, no início deste ano, com equipamentos e equipes do Metrô circulando aqui por perto de casa, na Vila Madalena. Achei estranho, pois já temos metrô por aqui, a Estação Vila Madalena, da linha Verde, a menos de um quilômetro de distância, pouco para os padrões paulistanos. Mas eis que o burburinho no bairro começou e recebi um abaixo assinado contra a construção de uma Estação Girassol, da futura Linha 20-Rosa, planejada para conectar a Lapa (Zona Oeste) ao ABC Paulista (Santo André/São Bernardo), com cerca de 32,6 km e 24 estações. A dita Estação Girassol ficaria a um quarteirão do meu prédio e possível de ser vista da janela (está na foto). Minha primeira reação foi achar que abaixo assinado contra metrô é coisa de “gente diferenciada”, como já vimos acontecer em Higienópolis, por exemplo. Em um mundo ideal, seria maravilhoso ter uma estação de metrô tão pertinho. Apesar de próxima, preciso enfrentar ladeiras e um escadão para chegar à Estação Vila Madalena. Não é o melhor dos mundos. Apesar de não concordar com todos os argumentos dos proponentes do movimento – a Vila Madalena já é gentrificada e não é mais o bairro residencial para o qual me mudei há quase 30 anos –, há razões para os moradores nos preocuparmos com o projeto. Entre os argumentos do abaixo assinado, estão a especulação imobiliária e a construção de prédios altíssimos, como prevê o Plano Diretor para um raio de 700 metros a partir das estações de metrô. No final da rua Harmonia, onde moro, por exemplo, não existe mais casas ou sol, foi tudo ocupado por apartamentos de preços exorbitantes, parte deles enormes e destinados a milionários e parte minúsculos, os quais acredito serem destinados a aluguéis temporários (precisa ser muito trouxa para pagar quase R$ 1 milhão para viver em menos de 30 metros quadrados). Apenas o interesse privado em expandir esse raio construtivo para a parte central do bairro justifica o atual traçado. Segundo o abaixo assinado (e as matérias mais antigas sobre esse projeto), as estações eram programadas para locais com avenidas mais largas, como a Pedroso de Moraes e a São Gualter, onde, aliás, a especulação imobiliária já chegou com tudo e mais um pouco. Apesar dessa luta inglória contra a especulação e a descaracterização de São Paulo ser uma causa que me mobiliza (vou voltar a este assunto brevemente), obras do metrô me fazem tremer também por outro motivo: a obra em si. Segundo informações do Metrô, a Linha Rosa tem previsão de início de obras em 2028 e começo de operações em 2035. Como é tradição neste tipo de projeto, esta última data é conto da carochinha. Quem mora nas redondezas da construção da Linha 6-Laranja, em Higienópolis, Perdizes e Pompeia, que o diga. As obras próximas ao Estádio do Pacaembu começaram há dez anos e fico imaginando a tristeza dos donos das casas ao redor. A tradição na cidade é anunciar e inaugurar obras umas mil vezes, de preferência em ano eleitoral, até que as estações sejam efetivamente postas em operação, bem aos pouquinhos, estação por estação, em incontáveis eleições. Não sei como funciona este zoneamento de exceção perto de estações de metrô, mas se o início das obras já liberar geral, pra que mesmo precisa de pressa na construção da linha? Quem sabe meus futuros netinhos se beneficiem da nova estação.
Que 2025 seja fresco!

Dois mil de vinte e cinco era para ser um ano tranquilinho. Não temos eleição, copa do mundo, olimpíadas. Há bastantes feriados e o carnaval é no começo de março, ampliando o verão. Mas é por aí começam os problemas, pois não foi só o verão, mas tudo ficou mais quente. Quente de verdade, e não apenas pelo fogo que queima a Califórnia e que, no ano passado, queimou o Cerrado, o Pantanal, a Amazônia e a Mata Atlântica por aqui. Com mais de 1,5º C de temperatura média no planeta, o índice que esperávamos evitar, o fogo deve seguir firme e forte dando as caras neste ano. Assim como as chuvas, que costumavam fechar o verão em março, mas, agora, quem sabe quando e onde vão aparecer. Ou se recusar a aparecer. Passei as últimas duas semanas em um paraíso à beira mar – a Praia de Pipa, no Rio Grande do Norte -, onde o tempo ainda é previsível e perfeito para o lazer, entre 25 e 30 graus, e a chuva, quando cai, é pouca e suave nesta época do ano. As praias são limpas, (quase) sem plásticos, (quase) sem caixas de som, bênçãos as quais estava desacostumada. Mas não existe mais refúgio isolado no mundo. A especulação imobiliária já corre solta, à força de gringos que trazem recursos, baratos pra eles e bem-vindos para a população local. As criações de camarão comem o mangue, também na mesma pegada de progresso que destrói a proteção do que lá tem de melhor e mais garantido. Embora nada mais seja garantido de verdade. Moradores e, principalmente, os que dependem o turismo, veem o nível do mar aumentando e a faixa de areia aproveitável abaixo das maravilhosas falésias cada vez menor. É preciso consultar a tabua de marés para escolher o intervalo de tempo, mais curto a cada ano, para caminhar entre as praias, uma das melhores atrações locais. Nada que tenha me impedido de relaxar e abstrair que o Trump vai assumir na segunda-feira com promessas hitlerianas para o mundo, que as big techs perderam de vez o pouco pudor que fingiam ter e as fake news sobre o PIX escancararam o que vem pela frente. Para quem gosta de viver e deste planeta como eu, aconselho muita meditação, calma e uma disposição otimista para a luta. Sejamos serenos e bem-humorados, sem usar óculos cor-de-rosa, por favor, porque excesso de tolerância com a insanidade e falta de realismo não vão nos tirar do buraco. Sei que estou um pouco atrasada, mas Feliz Ano Novo, que seja fresco pra todo mundo!