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O ano em que fui livre

Quando nasci, morávamos em um pequeno apartamento de um quarto na Bela Vista perto do trabalho dos meus pais, que saíam cedo e só voltavam no fim da tarde. Era cuidada por uma babá. Dessa época, apenas flashs, fotos e o que me contaram compõem o que tenho por lembranças. Até que, aos cinco anos, por um daqueles arranjos familiares inusitados, nos mudamos para a casa dos meus avós, que foram morar com meu tio Luís, na casa que ele havia comprado para viver após seu casamento, o qual ainda levaria um ano para acontecer. Oficialmente, meus pais também tinham comprado um apartamento, em Santana, perto da casa dos meus avós, mas a entrega atrasou. Assim, como eu estava na idade de ir para a escola e já queriam estar no novo bairro, houve essa dança das cadeiras e acabei naquela casa (que anos depois descobri não ser enorme), em uma rua sem saída repleta de crianças e possibilidades. Era uma casa térrea, com jardim de rosas e azaleias na frente, canteiros com horta e árvores frutíferas ao longo dos corredores laterais, e dois quintais nos fundos: o primeiro mais funcional, com área de serviço e varais logo na saída da cozinha e, subindo uma escada, outro destinado a vasos, cacarecos que não se tinha onde por e, muito importante, um portão de acesso tanto ao escadão, que levava à avenida lá em cima, como ao terreno baldio ao lado, propriedade da tia Mariquinha, irmã de minha avó. Com frente para a vila, a casa e o terreno eram parte da divisão de uma antiga chácara dos tempos em que a urbanização tomava forma naquelas bandas remotas da cidade e imigrantes, como meus bisavós, faziam a passagem da vida rural que trouxeram da Itália para a urbana em uma São Paulo ainda provinciana. A parte mais alta e nobre da propriedade, de frente para a avenida, foi destinada ao filho homem e abrigava as casas de meu tio-avô e de seu filho. Era 1970, ano em que o Brasil seria tricampeão de futebol e política era assunto proibido em reuniões familiares – não que eu soubesse algo sobre isso. Assim que mudamos, minha mãe deixou seu trabalho e foi o melhor acontecimento para mim até então, mesmo que hoje, se pudesse escolher, teria dito a ela para não fazer isso, pois o custo em longo prazo seria cruel. Na época, porém, significou ter à disposição a melhor mãe da rua. Minha mãe era jovem, cheia de energia e parecia estar em uma colônia de férias com suas crianças – eu e meu irmão um ano mais novo. Era a única que se dava com todas as outras mães, o que fazia da nossa casa um território que todas as crianças podiam frequentar e, eu e meu irmão, os únicos que podiam circular livremente pela rua e por todas as casas da vizinhança. Tenho certeza de que minha mãe sabia onde estávamos e o que estávamos fazendo, mas, em minhas recordações, era eu quem estava no controle. Não faço ideia de porque aquela mulherada brigava, mas presenciei cenas memoráveis de trocas de gentilezas a plenos pulmões no meio da rua ou por cima dos muros das casas. Era um mundo um tanto complicado para minha pouca idade, mas tenho o tabuleiro ainda nítido na memória: a mãe de Ísis e Ozires, que moravam em frente de casa, era rompida com os pais de Luci e Leandro, que viviam ao nosso lado. Estes trabalhavam fora o dia todo e os filhos não podiam sair para a rua ou falar com as crianças da frente. A mãe dos gêmeos (Davi e Douglas), que eu nunca consegui distinguir, era às vezes amiga e outras inimiga mortal da mãe de Bira e Téo, e protagonizavam os melhores espetáculos públicos, com berros e ameaças, acredito que por brigas entre os meninos, que faziam as pazes antes das mães acabarem a discussão. A mãe do Márcio era metida. Trabalhava fora e não gostava que o filho se misturasse com os demais, mas, como ele passava o dia com a avó, podia circular livremente desde que se recolhesse antes da mãe voltar. Ainda havia a Lia, que passava os dias fora (na casa da avó?) e só aparecia nos finais de semana, às vezes com uma legião de primas. E a Rose, que não podia sair, mas morava em uma casa com uma floresta nos fundos e um pai que passava o dia falando no rádio amador. No final da rua, havia um morro com uma trilha que levava à casa da Marli, com um grande jardim de frente para avenida, e vizinha à  de meus primos, que eram um pouco mais velhos, mas, de vez em quando, desciam o escadão e se juntavam a nós. Na prática, a rua em si era território dos meninos, mas eu não percebia isso. Era a única menina a participar de todas as brincadeiras de pega-pega, esconde-esconde, guerras de mamona e a ter meu próprio carrinho de rolimã, feito por meu avô, com o qual descia a ladeira suave da vila, normalmente com mais dois ou três caronas a bordo. Às vezes, porém, a molecada resolvia jogar futebol. Na verdade, muito mais vezes do que eu gostaria. Não é que não me deixassem jogar, mas as peladas nunca me seduziram. Nessas horas, ia bater nas portas das meninas: amarelinha com a Marli, bonecas com a Ísis ou a Luci – nunca com as duas juntas -, aventuras mirabolantes na floresta da Rose, se bem que seu pai e o rádio amador fossem um tanto assustadores. E havia os melhores momentos de todos, quando todo mundo ia à minha casa, que, como disse antes, era território neutro ao qual todas as crianças tinham, em algum momento, autorização para frequentar. Era um mundo vasto, a única casa da rua que podia ser contornada pelos dois lados e ainda tinha o único acesso ao terreno baldio da minha tia-avó, que era nosso fornecedor