PaulistanaSP

Qual o destino das nossas incríveis praias de falésia?

Pelo segundo ano consecutivo, passei férias em praias de falésias. No verão passado, estive em Pipa, no Rio Grande do Norte, e neste, em Arraial d’Ajuda, em Porto Seguro, Bahia. Descontando o desafio das escadarias e ladeiras diárias para chegar ao mar, estou encantada com estas formações. Opressivos à primeira vista, os paredões revelam uma variedade de cores e formas, às vezes até parecendo desenhadas, suas camadas expostas a nos lembrar quão mínimos somos diante da antiguidade do mundo. Passei horas e horas a observá-los em longas caminhadas ou em demorados banhos de mar. As falésias são um companheiro de viagem, um plus em qualquer praia, ainda mais quando terminam em piscinas naturais mutantes conforme as marés. Aliás, como ficam comumente em litorais com praias estreitas e em contato direto com o mar, nos obrigam a buscar informações sobre as tábuas de maré, para não correr riscos de não poder voltar de uma caminhada ou não ter onde sentar-se na praia. Definitivamente, esse não é um costume sudestino, e dá um ar de aventura a um passeio comezinho. Esses paredões rochosos espetaculares, esculpidos a partir da erosão causada pelo mar, chuvas e ventos durante milhões de anos, no entanto, são formações geológicas frágeis, que podem desmoronar a qualquer momento, sobretudo pela erosão na base pelas ondas. Difícil não pensar em riscos à essas paisagens tão procuradas do Nordeste brasileiro, sobretudo no Ceará, Rio Grande do Norte, Alagoas e Bahia, com o aumento do nível do mar e os eventos extremos das mudanças climáticas. Em Arraial, dá para perceber que a maré já sobe mais, deixando a faixa de areia mais estreita. Em Pipa, passar de uma praia para a outra ficou bastante difícil. Caminhos antes naturalmente feitos pelos veranistas a pé, hoje só são possíveis por pouquíssimo tempo na maré mais baixa. Sem falar no perigo de deslizamentos repentinos, como o que aconteceu em 2020, quando um casal e seu bebê morreram soterrados. Temos que nos adaptar ao colapso climático e muito há para se fazer, para que as cidades continuem habitáveis, para que as construções sejam feitas para resistir, para que consigamos frear as emissões o quanto antes. Sobre as lindas praias de falésias, porém, o futuro é bastantes incerto.

Férias com Hercule Poirot

Quando estou de férias, gosto de tirar alguns dias para não pensar. Então deixo Hercule Poirot pensar por mim. Levar Agatha Christie na bagagem é diversão certa se deixo de lado meu anacronismo em relação a questões como feminismo, racismo, colonialismo etc., essas coisas que pouca gente presta atenção, mas sou boba o suficiente para ficar reparando e fazendo malabarismos para não estragar o prazer de quase tudo o que leio. Não nas férias! Costumo me tornar uma pessoa normal nessa época. Neste ano, levei comigo Morte no Nilo, mas poderia ser qualquer um: Assassinato no Expresso Oriente, Cai o Pano, Morte na Mesopotâmia, o Natal de Poirot. Quando quero uma protagonista mulher, opto por um dos títulos onde a heroína é a detetive amadora Miss Marple, como Um Corpo na Biblioteca ou Crime no Hotel Bertram. Não tenho a mínima ideia de onde a escritora britânica tirava tanta imaginação e como conseguiu escrever tantos livros.  O importante, se quiser embarcar na aventura, é saber, desde o início, que não adianta queimar neurônios para seguir as pistas dos crimes (sempre envolvendo assassinatos), pois a lógica dos acontecimentos só estará acessível aos detetives de Christie. Relaxe, aproveite as intrigas e as reviravoltas mirabolantes para se divertir entre um mergulho e outro no mar, um gole de água de coco ou caipirinha, um cochilo e outro na rede, ou seja lá o que estiver fazendo. Neste Morte no Nilo, um grupo de ricaços e picaretas de várias estirpes fazem um cruzeiro pelo rio egípcio quando a jovem milionária Linnet Doyle, em lua de mel, é assassinada. Nem preciso dizer que todo mundo naquele barco tinha motivos para querer vê-la morta e, para minha sorte e azar do assassino, Hercule Poirot estava a bordo. Felizmente, ainda pra mim, minhas férias foram bem mais tranquilas do que as do esnobe detetive belga.