Precisamos falar sobre os homens, sobretudo os jovens

A vida das mulheres mais jovens, inacreditavelmente, parece ser mais difícil do que as da minha geração. Pelo menos no que se refere a relacionamentos. Como rabeira dos baby boomers e início da geração X, tínhamos que lutar por espaços e enfrentar um machismo brutal, mas achávamos que caminhávamos para a frente, a situação só tinha a melhorar. Fomos ensinadas a não nos expormos demais e a achar natural ter jornada dupla e chefes homens. Sempre nos vimos como uma geração de transição. As mulheres mais jovens, porém, cresceram para ser livres, competir com os homens de igual para igual e ter relacionamentos sexuais e sentimentais também igualitários. Muitas delas não devem nem ter a malícia de identificar perigo quando ele se apresenta. Educamos as mulheres e esquecemos de educar os homens (será que são educáveis?). Me assusta essa onda conservadora. Fiquei chocada com a pesquisa mostrando que homens da Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) são os que mais concordam com visões tradicionais sobre o comportamento de homens e mulheres na sociedade. Tenho duas filhas nesta faixa etária e as criei para enfrentarem os homens, andarem livremente e como e com quem quiserem. Assistir as cenas mostradas ontem nas redes sociais e telejornais de homens “treinando” para encarar um não feminino na base da violência me embrulhou o estômago. São desta geração os quatro estupradores de Copacabana. Realizada pela Ipsos em parceria com o Instituto Global de Liderança Feminina do King’s College London, a pesquisa mostra que um terço dos homens jovens acha que o homem deve ter a palavra final (bem mais do que as gerações mais velhas), a mesma porcentagem afirma que a esposa deve sempre obedecer ao marido. Sentem-se intimidados com mulheres bem-sucedidas e acreditam que “mulher de verdade” nunca deve dar o primeiro passo. Não é um fenômeno brasileiro, a pesquisa foi realizada com 23 mil pessoas em 29 países, incluindo Brasil, Reino Unido, Estados Unidos, Índia, Alemanha, Austrália, Turquia e Japão. É um fenômeno da internet globalizada e sem controle, mas tenho dificuldade em aceitar essa falta de discernimento que tem produzido homens revoltados e violentos – os Red Pill (ou “pílula vermelha”), tão bem retratados na minissérie Adolescência. Pensar que as mulheres, como gênero, evoluíram tão mais do que os homens é triste. Perder privilégios é difícil, mas os jovens já deveriam estar saindo de fábrica mais adaptados. Não é que mostram os dados.