Vamos comprar um poeta

Fomos convidadas, em nosso mais recente encontro do Círculo Feminino de Leitura (CFL), a entrar em um mundo distópico no qual tudo é avaliado por sua utilidade, entendida basicamente por seu valor econômico. Neste lugar, poetas – e artistas em geral – são considerados supérfluos e comprados como se fossem pets para entretenimento familiar. Imbuídas de toda nossa “inutilidade”, algumas de nós foram com roupas “patrocinadas”, como a Claudia, toda de branco, com apoio Omo, ou minhas pantufas Pé Quente Bradesco. Nada na recepção preparada pela Edna era “inutilista”, como tudo o que não é numerável é definido no romance Vamos Comprar um Poeta, do autor português Afonso Cruz. Logo descobrirmos que nossos nomes foram reduzidos a letras e números que precisavam ser decifrados para acharmos nossos lugares à mesa. As iguarias servidas também apresentavam etiquetas explicativas: bacalhau (R$ 130,00 o quilo, “melhor apertar o cinto”); crispes de shitake importados (100g o pote, 10g por pessoa); queijo provolone (uma fatia, 30g, 100 calorias). Tudo estava catalogado, até nosso livro do mês, que pesava 13,3g. Antes de começarmos a reunião, deixamos nas caras umas das outras “um ou dois miligramas de saliva, ou beijos, se quiserem ser poéticos”, como elucidou a protagonista do livro, sem nome como, aliás, todos que aparecem na história. Fizemos isso, porque “dizem que é bom transacionarmos afetos, liga as pessoas e gera uma espécie de lucro que, não sendo um lucro de qualidade, já que não é material e não é redutível a números ou dedutível nos impostos ou gerador de renda, há quem acredite – é uma questão de fé -, que pode trazer dividendos.” Nivia foi transgressora nessa realidade não tão diferente assim da nossa, e apareceu vestida de poeta. Com isso, ganhou a prerrogativa de ser a primeira a apresentar seu talento “inutilista”, como nos pediu a anfitriã. Declamou um poema feito especialmente para a ocasião. Depois dela, as demais mostramos desenhos e pinturas, cantamos canções e lemos contos produzidos por nós como demonstrações do quando ter poesia na vida é essencial para nos tornarmos humanos. Conhecemos ali versões até então escondidas de algumas de nós, alargando a janela por onde vemos o mundo, como nos ensinou o poeta comprado e depois abandonado pela família na obra de Afonso Cruz. Felizmente, no CFL, concordamos com a descoberta da protagonista de que “a cultura não se gasta. Quanto mais se usa, mais se tem”. E a criatividade também. Pode ser até que tenhamos exagerado, ao fazer um poema coletivo a partir de trechos do livro escritos em frente aos lugares de cada uma à mesa: “O mar é tão grande Que o bico dos pássaros leva às costas O horizonte na margem do olhar. Um segundo, uma eternidade Com pessoas constantemente receosas para ver o mar Além do infinito que desenhou um sorriso.” Francamente…
Culinária pode ser central para saborear um livro

Cada encontro do Círculo Feminino de Leitura (CFL) tem uma característica especial que fica gravada em nossa memória coletiva. Neste “Fique Comigo”, de Ayòbámi Adébáyò, será a culinária nigeriana e sua indiscutível relação com os sabores que a África presenteou ao Brasil que ficará conosco por mais tempo. A partir das pesquisas da Neise, nossa anfitriã do mês, sobre os ingredientes e pratos citados na obra, mergulhamos em bolinhos de feijão que por aqui viraram o acarajé; usos múltiplos do inhame, tubérculo tão importante para os povos iorubá, etnia dos principais personagens do livro, quando a mandioca é para nós; e descobrimos que o quindim e o pavê de amendoim não têm origem em Portugal, mas na África. Esse mergulho gastronômico foi o pano de fundo da discussão de uma trama folhetinesca regada a tradições ancestrais ainda fortemente presentes na cultura de vários países africanos: a poligamia, o poder das hierarquias familiares sobre as vidas individuais, a necessidade imprescindível de deixar descendência e o julgamento moral sobre a mulher que não cumpre essa função. Todo esse peso cai sobre as cabeças do casal Yejide e Akin. Eles se conhecem e apaixonam na faculdade e logo se casam, com o compromisso de não se render aos costumes, sobretudo à poligamia, uma exigência de Yejide para embarcar na relação. Todas as promessas desmoronam quando os anos passam e ela não engravida, levando a família a impor uma nova esposa a Akin. A partir desse acontecimento arrebatador, a vida da empresária e cabelereira Yejide se torna uma montanha-russa de tragédias e reviravoltas, que incluem uma interminável gravidez psicológica. A turbulência familiar de Yejide e Akin acontece em meio à desordem política e social da própria Nigéria dos anos 1980, acontecimentos que se misturam na história, potencializando o enredo. Em “Fique Comigo”, a autora nos faz deparar com a subjugação da mulher por costumes que anulam (ou quase) as possibilidades de sororidade. Mesmo a heroína Yejide transfere a maior parte de sua revolta às outras mulheres e não aos homens que se “beneficiam” dessas tradições. O que não quer dizer que a vida dos homens seja mais fácil ou feliz. O que sobressai, porém, são as traições revestidas de amor, a capacidade de se reerguer a partir das decepções e do luto, e de enfrentar sentimentos universais de amor e perdão.
Conceição Evaristo traz prazer e incômodo na leitura de Ponciá Vicêncio

Ponciá Vicêncio foi minha primeira leitura de Conceição Evaristo e me trouxe, simultaneamente, duas sensações: uma de prazer, pelo texto conciso e, mesmo assim, poético da autora, que nos faz devorar a obra de um fôlego só; e outra de incômodo, ao seguir uma história de tristezas em série, que Evaristo não economiza. Desde o início, quando Ponciá, mesmo um bebê de colo, se recorda do enterro do avô e, mais tarde, imita seu jeito de andar, a autora anuncia um presságio inexorável no destino da menina. Destino esse que se cumpre, na pobreza persistente ao migrar para a cidade grande em busca de oportunidades, nos sete abortos, na falta de notícias da família, na violência do companheiro e, finalmente, nas ausências predestinadas desde a infância. Conceição Evaristo, em suas escrevivências, como denomina, faz de Ponciá e sua família um microcosmo desse erro de nascença brasileiro, forjado na violência da escravidão e enfrentado tão timidamente como sociedade ao longo dos últimos cento e poucos anos, que deixa pouca margem para sonhar. A começar pela questão agrária e relações de trabalho ainda coloniais e intocáveis, escancaradas no nome da vila e no sobrenome da família Vicêncio. E nos reflexos desse modus operandi também na cidade, onde o trabalho doméstico e braçal, praticamente a única opção dessas pessoas, não é nada melhor. No final, porém, quando tudo leva à mais absoluta desesperança, parece que Evaristo busca, no fundo da alma, uma luz no fim desse túnel praticamente impossível de atravessar. A partir de decisões inusitadas (a mãe ir para a cidade, o irmão não fazer justiça com as próprias mãos, Ponciá – mesmo sem força nenhuma – decidir voltar para sua terra) e encontros mais inusitados ainda, vemos a família de repente unida e voltando junta para casa. Mãe e filhos prontos para recomeçar, apesar de uma realidade sem novidades, contando apenas consigo mesmos e com a herança da memória dos seus.
Carta ao narrador do romance Memórias do Subsolo, de Dostoiévski

Caro Homem do Subsolo, Você não me conhece, mas como lavou sua alma em público, eu te conheço um pouco. Aliás, conheço várias pessoas parecidas com você, e olha que 100 anos separam o seu nascimento (mesmo que aos 40 anos) do meu. Vivo mais de 150 anos à sua frente, e sou obrigada a concordar com sua insatisfação com o gênero humano. Esse tempo que nos aparta só fez reforçar sua tese sobre não sabermos fazer boas escolhas, nem para o coletivo, nem para nós mesmos. Temos hoje uma lista enorme para acrescentar às suas queixas: duas guerras mundiais com crueldades inimagináveis e, apesar disso, várias guerras inexplicáveis correndo soltas. Para piorar, agora, todos participamos delas, pelo menos olhando as terríveis imagens em tempo real. Além disso, temos um planeta devastado por nossas atividades. Neste momento, por causa delas, ocorre a mais rápida extinção em massa de espécies da história do planeta e mudanças climáticas agravam a situação de precariedade e violência inerente aos humanos. Não temos freios, tampouco motivos para otimismo. Você também é um vanguardista. Seu individualismo e, ao mesmo tempo, sua presunção de ser visto a qualquer custo (hoje diríamos “falem mal, mas falem de mim”) são muito modernos. Atualmente, pouquíssimos somos diferentes disso. O filme O Mundo Depois de Nós, da Netflix é um exemplo disso ao terminar com uma menininha – que passou a história toda tentando ser ouvida, sem sucesso -, diante do fim do mundo, escolhendo assistir sozinha a uma série boba de televisão. Tenho certeza de que esta seria sua opção também, mesmo que você não saiba o que é um filme, a Netflix, nem que os acontecimentos por aqui, agora, não têm repercussão por mais de alguns dias. Sua reação às questões inerentes à nossa espécie, porém, me parecem equivocadas e ignóbeis (aliás, termo que pessoas como você adoram usar). Não que você seja único, como quer demonstrar. Todos nós, em alguns momentos, temos esse comportamento vil, que inclui exercer pequenos poderes para prejudicar e constranger pessoas, apenas para nos vingar da própria mediocridade da existência. Alguns, porém, escolhem lutar contra esse instinto que nos trouxe até aqui. Não é uma escolha fácil, mas a que torna nossa permanência suportável (e a das demais pessoas também). Gosto das justificativas dadas para essa escolha por duas pessoas que admiro muito. O líder indígena e pensador Ailton Krenak, em seu livro Ideias para Adiar o Fim do Mundo, aborda a raridade da existência, no universo, de um planeta que possibilitou a vida e de estarmos aqui. Defende que fomos convidados para uma festa cósmica improvável e, somente por isso, devemos ser gratos e fazer nosso melhor. Nurit Bensusan, bióloga e escritora, me salvou de sucumbir à desesperança, durante os anos nefastos de extrema direita e covid juntas que assolaram o Brasil, com sua tese sobre o imperativo ético. Para Nurit, é esse imperativo ético que nos faz continuar a fazer o que achamos certo, mesmo sabendo o quão poucos resultados (às vezes nenhum) terão nossas ações. Para pessoas ressentidas como você, essas ideias podem parecer pueris, mas garanto que tornam a vida mais leve e nossa breve passagem por aqui pelo menos um pouco gratificante. Nem sempre é simples, em alguns momentos parece mesmo impossível. Qualquer página de jornal está aí para não me deixar mentir. Precisa ser um propósito diário, mas, mesmo assim, acredito que valha a pena. O contrário disso é amargor e solidão. Aliás, é a lembrança da solidão que me faz ter certeza de estar certa ao escolher a leveza. Além de você, conheci recentemente um outro personagem/autor, mais contemporâneo, com esse tipo de irritação gratuita (ou, pelo menos, exagerada). Em Derrubar Árvores, Uma Irritação, de Thomas Bernhard, o narrador é tão pernóstico em relação aos demais personagens que vomitei antes de terminar a leitura. Ao destilar sua baixa estima por todos os demais, o personagem exala tanta infelicidade, que ela irradia para quem está ao seu lado na história ou apenas lendo o livro. Embora o título do livro não tenha ligação direta com o tema, pensei naqueles que derrubam árvores (e garimpam e grilam terras e perseguem mulheres e índios e negros e pobres e gays) somente para aplacar sua insatisfação de estar no mundo e tornar a vida de tantos insuportável, em um looping difícil de interromper. A cada dia, ao me levantar da cama, me exercito para não ser como estas pessoas, me esforço em suavizar minha reação ao que é mau, sem me tornar alienada ou desiludida contumaz. Como já disse, não é fácil, mas acho que você também deveria tentar. Abraço, Maura
Como seria reescrever a própria vida?

O que você faria se pudesse voltar atrás nas diversas decisões que tomou ao longo da vida, vivenciar seu presente a partir dessa mudança e escolher entre a vida que tem hoje ou uma das alternativas possíveis? Essa é a premissa de A Biblioteca da Meia-noite, de Matt Haig, livro do mês do Círculo Feminino de Leitura (CFL). Na narrativa, a protagonista Nora tenta o suicídio e permanece em uma espécie de purgatório, ou multiverso, no qual experimenta várias das vidas possíveis que poderia ter tido. Mesmo sendo um tanto previsível e ter um quê de autoajuda disfarçada, é um texto gostoso de ler, como uma minissérie de televisão. Aliás, parece que logo o enredo se transformará nisso mesmo. Para quem não quer esperar e prefere uma leitura leve, apesar da temática pesada, o livro inspira a pensarmos em nossas próprias escolhas e as consequências imaginadas e imprevistas de diferentes decisões. O mais interessante, na minha opinião, é que somos muito bons em fantasiar o futuro brilhante que teríamos em caso de opções alternativas em nosso passado, mas dificilmente incluímos na conta o que aconteceria com o resto do mundo, sobretudo as pessoas próximas, por causa disso. Aquele tal “efeito borboleta”. Por exemplo, se tivéssemos terminado o namoro antes de nos casarmos, qual seria o futuro do nosso/a parceiro/a ou como seria o mundo sem os nossos filhos, pois, mesmo que tivéssemos filhos, não seriam “esses” filhos. Ou se tivéssemos aceitado aquele trabalho do outro lado do mundo ao invés de ficar para cuidar da nossa mãe velhinha. O que teria acontecido com ela? Esses foram dilemas que a personagem de Haig enfrentou e sobre os quais nos dedicamos a especular no CFL, na maior parte das vezes confirmando que gostamos de nossas escolhas, mesmo que às vezes as questionemos em alguns momentos. A vida vivida é sempre um presente construído pelo acaso, pelas nossas opções e pelas oportunidades dadas. Imaginar que podemos direcioná-la exatamente como queremos é, no mínimo, ingenuidade.
Férias com Hercule Poirot

Quando estou de férias, gosto de tirar alguns dias para não pensar. Então deixo Hercule Poirot pensar por mim. Levar Agatha Christie na bagagem é diversão certa se deixo de lado meu anacronismo em relação a questões como feminismo, racismo, colonialismo etc., essas coisas que pouca gente presta atenção, mas sou boba o suficiente para ficar reparando e fazendo malabarismos para não estragar o prazer de quase tudo o que leio. Não nas férias! Costumo me tornar uma pessoa normal nessa época. Neste ano, levei comigo Morte no Nilo, mas poderia ser qualquer um: Assassinato no Expresso Oriente, Cai o Pano, Morte na Mesopotâmia, o Natal de Poirot. Quando quero uma protagonista mulher, opto por um dos títulos onde a heroína é a detetive amadora Miss Marple, como Um Corpo na Biblioteca ou Crime no Hotel Bertram. Não tenho a mínima ideia de onde a escritora britânica tirava tanta imaginação e como conseguiu escrever tantos livros. O importante, se quiser embarcar na aventura, é saber, desde o início, que não adianta queimar neurônios para seguir as pistas dos crimes (sempre envolvendo assassinatos), pois a lógica dos acontecimentos só estará acessível aos detetives de Christie. Relaxe, aproveite as intrigas e as reviravoltas mirabolantes para se divertir entre um mergulho e outro no mar, um gole de água de coco ou caipirinha, um cochilo e outro na rede, ou seja lá o que estiver fazendo. Neste Morte no Nilo, um grupo de ricaços e picaretas de várias estirpes fazem um cruzeiro pelo rio egípcio quando a jovem milionária Linnet Doyle, em lua de mel, é assassinada. Nem preciso dizer que todo mundo naquele barco tinha motivos para querer vê-la morta e, para minha sorte e azar do assassino, Hercule Poirot estava a bordo. Felizmente, ainda pra mim, minhas férias foram bem mais tranquilas do que as do esnobe detetive belga.