Saudade de descer ladeira de carrinho de rolimã

Fazia muitos anos que eu não via carrinhos de rolimã. Eles fizeram parte da minha infância. Morava em uma rua sem saída com uma ladeira suave, o suficiente para os carrinhos deslizarem sem que perdêssemos o controle. A descida terminava em uma esquina com muito pouco movimento. Não havia portões em vilas. Podíamos virar e descer ainda um pouco mais ou seguir em frente na mesma rua até o carrinho parar. Nunca tive um carrinho só meu. Ninguém dava carrinhos de rolimã para meninas naquela época. Pegava emprestado dos meninos da rua e do meu irmão. Um tio fez um pra ele todo vermelho, com uma cadeirinha com encosto. Era lindo! Mas eu precisava contar com a boa vontade do dono para usar. Pelo que me lembro, eu era a única menina da rua que andava de rolimã. Devia ter entre cinco e seis anos. Alguém tinha um bem grandão e descíamos uns cinco empilhados nele. Normalmente, eu por cima deles. Às vezes, saía toda ralada, mas fazia parte da brincadeira. Não participava das corridas, porque aí já era demais pra mim, os garotos enlouqueciam e minha competitividade não chegava a tanto. Aliás, nunca chegou. Depois que mudamos da vila, tenho a impressão de ter usado o rolimã vermelho algumas vezes, mas a nova rua tinha uma ladeira mais íngreme e um maior movimento de carros. Minha mãe acabou com a alegria. Não sei que fim deu ao possante. Nunca mais andei de rolimã. No início do mês, fui ao Museu do Ipiranga e, ao passear pelo Parque Independência, me deparei com uma ladeira repleta desses carrinhos, com pessoas de todas as idades pilotando. Fiquei encantada, pois achava que não existiam mais em São Paulo. Apesar de placas proibindo o aluguel, deu pra perceber que são apenas proforma. Lamentei estar de saia. Fiquei com vontade de voltar ao parque e tentar alugar um, mesmo sem a certeza de ainda ter coragem de me aventurar na descida. Museu A visita ao museu também foi uma ótima surpresa. A última vez que estive lá foi algumas semanas antes de ser fechado por conta de vazamentos e permanecer alguns anos à espera de reforma. Embora tenha demorado, a reformulação o deixou mais interessante como museu histórico, com a tentativa de trazer uma versão um pouco menos parcial do que a da elite branca a qual representava. Com explicações sobre o sentido do que está representado nos quadros e objetos expostos, o museu deixa claro que são um ponto de vista da história. Há, ainda, a intensão de ilustrar o modo de vida do brasileiro comum dos primórdios da colonização até os dias atuais, dando representatividade às diferentes culturas e etnias do país. Para além disso, o prédio continua bonito e imponente. Imagino seu impacto ao ser construído no final do século 19, em local tão remoto quanto era o Ipiranga. Sem planejar, estive lá no primeiro domingo do mês e descobri que, neste dia, mensalmente, a entrada é gratuita. Fica a dica.
Nostalgia de uma cidade que não conheci

Descobrir algum dos poucos vestígios do que foi a região que hoje é esta floresta de prédios, em constante adensamento, dá uma espécie de nostalgia do que nunca vivi, mesmo que São Paulo tenha mais que dobrado de tamanho nestes meus pouco mais de meio século de vida. Um desses locais fica a dez minutos da minha casa e, até a semana passada, eu nunca tinha ouvido falar de sua existência. Achei a Casa do Bandeirante em uma dessas listas de lugares para conhecer na cidade, às quais sempre me surpreendem, ainda mais quando não é algo novo. Para os tão ignorantes quanto eu, é um museu e fica no Butantã, a poucos metros da Marginal Pinheiros, no centro de uma pracinha bucólica chamada Monteiro Lobato, cercada de árvores e casas no estilo Cia. City, características de áreas nobres como Jardins, Alto de Pinheiros, Alto da Lapa e o próprio Butantã. Quando fui visitar, estacionei em frente e, durante todo o tempo que permaneci por lá, apenas funcionários circulavam pelo parque bem cuidado, com banheiros, playground para crianças, árvores enormes e tranquilas alamedas, que terminam em uma casa com paredes feitas de taipa de pilão construída possivelmente no início do século 17. Lá dentro, chamam a atenção a grossura das paredes, o pé-direito alto e as grandes janelas, que deixam a casa bastante fresca, mesmo com o calorão lá fora. Há exposições sobre espécies botânicas da região e fotos antigas dos rios Pinheiros e Tietê. O nome remete ao primeiro proprietário conhecido da propriedade, o bandeirante português Afonso Sardinha, que guerreou com os índios para poder garimpar ouro no Pico do Jaraguá. Pelo visto, os indígenas devem ter sido mais resistentes que ele, pois permanecem no local até hoje. Agora quem cobiça suas terras são as construtoras. Na época de Sardinha, aquelas paragens eram conhecidas por Uvatantan e a propriedade como Ubatatá, termo tupi que significa “terra dura”. Os bens do bandeirante foram doados aos jesuítas e, após sua expulsão do país, em 1759, a área foi leiloada e teve vários proprietários até ser comprada por Eugênio Vieira Medeiros, em 1875. A Cia. City de São Paulo comprou o imóvel em 1912 e o doou ao município, em 1944. A casa, então, era conhecida como “Casa Velha do Butantã”, e já tinha chamado a atenção de personalidades como Mario de Andrade e o arquiteto Luis Saia, que conduziu seu restauro quando foi transformada em museu, na época do IV Centenário de São Paulo. Consta que a casa ficava às margens do Pinheiros, hoje retificado e reduzido a um canal fedorento de concreto entre as pistas da marginal. Em que pese a virulência dos bandeirantes de então, dá para sentir nostalgia dessa São Paulo desconhecida, não?