Apocalipse nos Trópicos é uma ode para que ele não aconteça

O documentário Apocalipse nos Trópicos, da cineasta Petra Costa, está sendo exibido na Netflix e merece ser visto. O filme não emociona tanto quanto Democracia em Vertigem, de 2019, que foi indicado ao Oscar e ao qual assisti às lágrimas, talvez porque estamos mais cascudos aos absurdos naturalizados desde então, mas é um ótimo retrato do crescimento dos evangélicos na política brasileira e seu papel na ascensão da extrema direita no país e de Bolsonaro à presidência, além da tentativa de golpe de estado de 8 de janeiro de 2023. Costa faz do pastor Malafaia seu personagem emblemático. Falastrão, ele explica que seu principal objetivo é ter o poder terreno mesmo, ou seja, Brasília, e que não mede esforços para tanto. Fala de Bolsonaro quase como um subordinado seu. É engraçada uma cena em que o ex-presidente discursa e Malafaia, ao seu lado no palanque, vai falando labialmente as palavras junto com ele, como faria um “ponto” no teatro. Poderia ser divertida também, mas absolutamente não é, a entrevista com uma senhora na Bahia que diz gostar muito das políticas do Lula, que ele fez muita coisa para a população, mas que não votaria nele porque ele era do Candomblé e isso era inadmissível. Quando perguntada sobre de onde tirou a informação, ela mostra o celular. Me chamou a atenção, ainda, a forma articulada de funcionamento da bancada evangélica no Congresso Nacional. Dizer que a cineasta generaliza os evangélicos é pueril diante das cenas que mostram como eles acham muito natural transformar o legislativo brasileiro em quintal de suas crenças. Estado laico para eles não representa nada. O alinhamento da bancada da Bíblia com a da Bala fica bem claro sobretudo nos comícios. Me deixou intrigada também a obsessão que os evangélicos têm com o aborto: a primeira coisa a ser combatida no mundo em todos os discursos. Alguém precisa dizer pra eles que mentir descaradamente na internet ou nos palanques, assediar, estuprar e bater em mulheres, deixar crianças abandonadas nas ruas, deixar pessoas morrerem sem atendimento médico e ainda debochar dos doentes é um caminho muito mais certeiro para o inferno, seja lá o que for isso, do que ajudar uma menina violentada a ter alguma chance de futuro ou uma mulher adulta decidir o que fazer com o próprio corpo. O que mais me espanta, porém, vendo o documentário, me lembrando dos quatro terríveis anos do governo Bolsonaro – principalmente durante a pandemia – e em todos os noticiários diários desde então, é como alguém consegue votar em uma pessoa que não consegue formular uma frase coerente como começo, meio e fim.
Cadê a cura pra ultramacho?

Disse o novo (de novo) presidente do Estados Unidos que, naquele país, a partir de agora, só existem dois sexos. Na minha humilde opinião, ele esqueceu de um, que não é exclusividade dos EUA, é mundialmente disseminado, mas infelizmente pouco combatido: o ultramacho. O fato de ser tão persistente na sociedade, mesmo nas mais evoluídas, indica que talvez tenha algum componente genético, embora o gatilho cultural (todas as religiões monoteístas costumam valorizá-lo bastante) seja fundamental. Prevalecem nos grupos de direita, são quase a totalidade nos de extrema-direita, onde desde criancinha são doutrinados ou recebem algum remedinho em suas mamadeirinhas de piroquxnhas, não sei. Mas aparecem também entre ditos esquerdistas, onde são conhecidos como esquerdomachos. Estes, ao contrário dos demais, não se reconhecem na comunidade, ficam no armário a maior parte do tempo, mas não enganam ninguém. A maior característica dos humanos desta tipificação sexual, além da preferência por piadas infames, armas, guerras e similares, é a incapacidade de amar e até de enxergar mulheres, de qualquer gênero, como da mesma espécie. Eles até gostam delas, como os demais gostam de pizza, por exemplo. Gostam do cheiro, da aparência, do sabor. Gostam de se gabar de quem come a melhor pizza, às vezes a compartilham pra provar seu ponto ou generosidade. Quando esfria um pouquinho, jogam fora. Eles também gostam de conversar e dar palpites sobre as pizzas uns dos outros, sobre a preparação e formas de descarte. O problema é que querem dominar o mundo. Querem aliciar SEU FILHO para que seja um deles. Desejam que todos os humanos que nasçam com uma protuberância e duas bolinhas entre as perninhas sejam doutrinados desde bebês para ser como eles. Os poucos que se incomodam com esse impulso, sobretudo os que vivem em ambientes majoritariamente intolerantes a eles, atualmente costumam se conter, alguns se afirmam publicamente curados. Até o momento, porém, não existe tratamento comprovado pra ultramacho. Não conheço pastores, padres, psicólogos ou coaches tentando o intento. Quem salvará nossos meninos?