Minhas leituras: Mafalda – nesta família não há chefes

Adoro quadrinhos. E adoro a Mafalda. Na Feira do Livro em junho passado, a editora WMF Martins Fontes resolveu homenagear a personagem símbolo do cartunista argentino Quino e muita gente aproveitou para tirar uma foto ao lado de simpática e ácida menina, inclusive eu. Me entusiasmei e aproveitei para comprar uma das seleções de tirinhas da protagonista: Mafalda – nesta família não há chefes. A edição conta com apresentação da psicanalista e escritora Vera Iaconelli. Produzidas nos anos 1960, as tirinhas conseguem manter o humor e até a atualidade apesar do anacronismo de muitas situações, como a mãe dona de casa de Mafalda e os pais de seus amiguinhos que poderiam hoje ser denunciados por bater e humilhar seus rebentos. Para quem é quase contemporânea da personagem, porém, é impossível não se identificar com as situações apresentadas. Apesar dos papeis muito definidos, como diz o título do livro, na casa de Mafalda não há chefes e é divertido ver seus pais lidar com as observações adultas e irônicas de sua filha e, na segunda metade, do filho bebê. A pertinência das observações de mundo de Mafalda, muitas vezes metafóricas, como sua preocupação com o Globo Terrestre de enfeite enquanto saem de férias, podem hoje ser acompanhadas nas redes sociais, o que é um privilégio em tempos de doutrinação conservadora, hoje mais explicitada. Há uns dez anos, visitei a famosa livraria El Ateneo Grand Splendid, em Buenos Aires, e perguntei onde poderia encontrar os livros da Mafalda, achando que deveria haver uma sessão inteira para ela. O vendedor me olhou ainda na fase exploratória como se não soubesse sobre o que eu estava falando e disse que não tinha nada. Não me convenci e encontrei, na sessão de quadrinhos infantis, apenas um título da personagem mais famosa do país. Será que na Argentina de agora seria mais fácil encontrar?