Minhas leituras: O Segredo de Espinosa

Deus ou a natureza. Ou, melhor dizendo, Deus é a natureza. Esta formulação tornou Bento de Espinosa um herege em sua época, por ser considerado ateu, o que o filósofo sempre negou. A mim, iluminou algo que eu intuía. Não preciso mais me considerar ateia. Não sem motivo, este pensador do século 19 é um dos precursores do Iluminismo e ferrenho defensor da liberdade de expressão e do uso da razão contra a superstição. O romance O Segredo de Espinosa, do autor moçambicano José Rodrigues dos Santos (Editora Planeta), é baseado na biografia do filósofo judeu de origem portuguesa nascido nos Países Baixos, Bento de Espinosa. Considerado um gênio na comunidade judia de Amsterdã (seus pais eram imigrantes fugidos da inquisição em Portugal) e cotado para ser um grande líder religioso, acabou sendo expulso ainda muito jovem de sua comunidade após passar por um cherem, o equivalente judeu da inquisição. Entre as ideias heréticas de Espinosa estavam que a Bíblia foi escrita por homens comuns e que o povo judeu não tinha nada de especial em relação aos demais povos. Embora ficcionado, o romance traz nas falas do filósofo toda a construção de seu pensamento, que continua inovador, sobretudo nestes tempos em que a humanidade parece regredir à época onde a superstição estava à frente da razão. Para Espinosa, Deus é o universo e, por isso, infinito. Os humanos são parte dele, assim como todo o restante da natureza. O filósofo chocou até seus contemporâneos, como Thomas Hobbes, ao sustentar que milagres não existiam porque a natureza não atua fora de suas regras. Essa afirmação o levou também à conclusão de que não existe o livre-arbítrio, pois tudo está ligado a causas e efeitos da natureza. O grande desafio, disse Espinosa, é criar uma ética em um mundo sem livre-arbítrio, no qual a liberdade é “a de compreender o meu comportamento e, através dessa compreensão, libertar-me das paixões e passar a usar a razão”. Sem um Deus que vá te castigar ou promessa de uma vida no além, ser ético significa buscar a alegria no amor e na generosidade, pois quem se diz crente, mas só pratica a virtude movido por medo ou interesse, não é um verdadeiro crente.
Minhas leituras: De Onde Eles Vêm

Todo começo de ano, somos inundados com um festival de inutilidades, ignorância e até crimes ao vivo no Big Brother Brasil. Mesmo quem não assiste, como é o meu caso, é só abrir qualquer rede social e lá estão os comentários do dia. Nesta edição, já vimos desinformação rasgada sobre o Bolsa Família, homem expondo a esposa grávida e o mesmo sujeito cometendo crime de assédio sexual. Enquanto estava de férias, na semana passada, um outro assunto do BBB me chamou a atenção: duas integrantes conversavam sobre cotas raciais e, pelo que entendi, uma branca defendia as cotas, por conta de reparação histórica, e a outra, negra, dizia que brancos e negros têm a mesma capacidade de raciocínio e, presume-se, era contra as cotas. Confundir capacidade de raciocínio com passar no vestibular é, no mínimo, ingenuidade. Acontece que vi os comentários sobre este assunto enquanto terminava de ler De Onde Eles Vêm (Companhia das Letras), de Jefferson Tenório, mesmo autor de O Avesso da Pele, um dos melhores romances brasileiros sobre o racismo estrutural no país, que lhe rendeu o Prêmio Jabuti. Neste outro romance, o autor volta ao tema, dessa vez sob a perspectiva justamente das cotas raciais na universidade. Seus personagens são pobres, periféricos, excluídos … e negros que tiveram acesso à universidade pelo sistema de cotas raciais. Acompanhamos especialmente Joaquim, jovem órfão, desempregado e responsável por cuidar da avó doente, tentando se manter no curso de Letras e se enquadrar na faculdade, enquanto falta dinheiro até para pegar o ônibus da cidade dormitório onde vive até Porto Alegre, onde estuda. O romance se passa em meados dos anos 2000, quando as cotas estavam ainda no início e os alunos beneficiados começavam a se organizar para criar uma rede de apoio e enfrentar os preconceitos. Lendo o livro de Tenório, fica claro como as cotas são necessárias, embora insuficientes, para acabar com a desigualdade absurda que vigora em todo o Brasil. No ano passado, estive em Porto Alegre para a formatura da minha sobrinha, na mesma Universidade Federal do Rio Grande do Sul que é cenário do livro. Foi a primeira vez que assisti a uma formatura onde havia paridade de alunos negros e brancos. Eram formandos de Psicologia e Serviço Social e me emocionei ao ver muitos deles dizer serem os primeiros da família a completar um curso superior e dedicarem seus diplomas a mães e pais que lutaram a vida toda sem conseguir ascender dos trabalhos da base da pirâmide aos quais grande parte da população negra é aprisionada. Viva as cotas!