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PaulistanaSP

Bombardeios reais por redes sociais

Participei neste final de semana, pela segunda vez, do Festival Piauí de Jornalismo, um evento para jornalistas e para quem gosta de jornalismo. Com o tema No Olho do Furacão – diretores de redação em tempos de tormenta, passaram por lá convidados de quatro continentes. Em comum, relatos de perseguições, guerras, exílios e persistência, em um tempo no qual a extrema-direita avança em todo o mundo (apenas 80 anos passados da Segunda Guerra Mundial, com nazismo, holocausto e bomba atômica) e a verdade se tornou uma questão de opinião pessoal. Diretores de redações de veículos da Venezuela e El Salvador, Luz Mely Reyer (Efecto Cocuyo) e Carlos Dada (El Faro), forçados a deixar seus países, contaram como fazem para continuar mantendo seus veículos em funcionamento. A ucraniana Olga Fudenko, do Kyiv Independent, falou sobre o dia a dia dos jornalistas de seu país trabalhando em plena guerra. Entre estes e outros depoimentos, me tocou muito a do estadunidense Jeffrey Goldberg, da revista The Atlantic. Mesmo que essa história tenha repercutido muito na época, março de 2025, lembrar disso há poucas semanas das nossas eleições me deixou desanimada com o futuro da democracia.   Para quem não lembra, o editor-chefe da revista The Atlantic foi incluído por engano em um grupo de bate-papo no aplicativo criptografado Signal (um tipo de WhatsApp mais difícil de rastrear) por altos funcionários do governo de Donald Trump. Alguém que o jornalista diz não saber quem foi adicionou acidentalmente o número de Goldberg a um grupo restrito que incluía autoridades de alto escalão, como o vice-presidente J.D. Vance, o secretário de Estado Marco Rubio e o secretário de Defesa Pete Hegseth. O grupo discutia detalhes operacionais, alvos e o cronograma de ataques militares iminentes dos Estados Unidos contra os rebeldes houthis no Iêmen. O fato era tão surreal que Goldberg achou que era uma armadilha e acompanhou a troca de mensagens em tempo real por cerca de 15 dias até que, em um sábado de manhã, chegando ao supermercado, leu no grupo que os ataques começariam em duas horas. Os participantes comemoravam com muitos emojis de força, corações e bombas. Duas horas depois, quando o Iêmen foi efetivamente atacado, teve certeza de que o grupo era real. Saber que um bombardeio, que implica na morte de pessoas, é discutido em uma rede social já é bizarro o suficiente. O fato de alguém ser incluído “por engano”, colocando em risco também os soldados do próprio país invasor, demonstra um desprezo pelas vidas de seus próprios conterrâneos. Mas não ter acontecido nada após a divulgação do fato na imprensa me deixa estarrecida. Parece causo de filme satírico, mas aconteceu na maior potência militar do mundo, cujo hobby do presidente é ameaçar qualquer país que não faça exatamente o que ele quer. Pior, muita gente está achando bom.