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Dia da Água deveria ser feriado

Se tem uma data que deveria ser feriado é o Dia Mundial da Água (23 de março). Não estou sugerindo a criação de mais um feriado nacional – embora não tenha nada contra… -, apenas gostaria que se desse a devida importância ao tema. Vivo em uma cidade onde perdemos quase totalmente o vínculo com ela, nossos rios estão poluídos, cercados de carros ou enterrados, na maior parte, para os mesmos carros passarem. Nossa água vem encanada e privatizada, ou seja, serve ao lucro de poucos, que podem decidir quem recebe e quando. E no país que concentra mais de 12% das águas doces superficiais do planeta, com rios sensacionais como o Amazonas, Tocantins, São Francisco e Paraná, entre milhares de outros, é desalentador pensar que 6,6 milhões de domicílios não recebem água regularmente, que 32 milhões de brasileiros (mais de 15% da população) não têm acesso a água tratada e 91,3 milhões não têm esgotamento sanitário. Ou seja, os dejetos vão direto para os rios e o oceano. Pensar que comecei minha caminhada de ativista ambiental nos anos 1980 pedindo a despoluição do rio Tietê, que continua cortando São Paulo emporcalhado, é bem triste. Sempre faltam recursos para o saneamento ambiental por aqui. Tudo avança lentamente, enquanto a poluição e as mudanças climáticas estão gritando que não há mais tempo para firula, é preciso agir. E, quando opino contra a privatização da água, sempre há dados a me deixar mais indignada. Vi um levantamento da Agência Pública de que 50 empresas tem o direito de utilizar 5,2 trilhões de litros de água anualmente, quantidade suficiente para abastecer quase 50% da população brasileira no mesmo período. São empresas do agronegócio, sulcroalcooleiras, de papel e celulose, principalmente, que usam a água sem pagar. Ou seja, ela é privatizada só para a população. A situação é grave, mas há soluções. O Instituto Água e Saneamento (IAS) acaba de completar a série de publicações que abordam os desafios e apresentam soluções para o saneamento básico a partir da crise climática. São quatro volumes, dos quais participei da produção de três: Adapação e Saneamento, Chuvas e Águas Urbanas, Água de Beber e Água, Esgoto e Higiene (WASH). Os conteúdos incluem temas como drenagem urbana, manejo das águas pluviais, garantia de água potável, além das relações entre saneamento, dignidade humana e saúde pública. Estão disponíveis para download no site do IAS.