Nostalgia de uma cidade que não conheci

Descobrir algum dos poucos vestígios do que foi a região que hoje é esta floresta de prédios, em constante adensamento, dá uma espécie de nostalgia do que nunca vivi, mesmo que São Paulo tenha mais que dobrado de tamanho nestes meus pouco mais de meio século de vida. Um desses locais fica a dez minutos da minha casa e, até a semana passada, eu nunca tinha ouvido falar de sua existência. Achei a Casa do Bandeirante em uma dessas listas de lugares para conhecer na cidade, às quais sempre me surpreendem, ainda mais quando não é algo novo. Para os tão ignorantes quanto eu, é um museu e fica no Butantã, a poucos metros da Marginal Pinheiros, no centro de uma pracinha bucólica chamada Monteiro Lobato, cercada de árvores e casas no estilo Cia. City, características de áreas nobres como Jardins, Alto de Pinheiros, Alto da Lapa e o próprio Butantã. Quando fui visitar, estacionei em frente e, durante todo o tempo que permaneci por lá, apenas funcionários circulavam pelo parque bem cuidado, com banheiros, playground para crianças, árvores enormes e tranquilas alamedas, que terminam em uma casa com paredes feitas de taipa de pilão construída possivelmente no início do século 17. Lá dentro, chamam a atenção a grossura das paredes, o pé-direito alto e as grandes janelas, que deixam a casa bastante fresca, mesmo com o calorão lá fora. Há exposições sobre espécies botânicas da região e fotos antigas dos rios Pinheiros e Tietê. O nome remete ao primeiro proprietário conhecido da propriedade, o bandeirante português Afonso Sardinha, que guerreou com os índios para poder garimpar ouro no Pico do Jaraguá. Pelo visto, os indígenas devem ter sido mais resistentes que ele, pois permanecem no local até hoje. Agora quem cobiça suas terras são as construtoras. Na época de Sardinha, aquelas paragens eram conhecidas por Uvatantan e a propriedade como Ubatatá, termo tupi que significa “terra dura”. Os bens do bandeirante foram doados aos jesuítas e, após sua expulsão do país, em 1759, a área foi leiloada e teve vários proprietários até ser comprada por Eugênio Vieira Medeiros, em 1875. A Cia. City de São Paulo comprou o imóvel em 1912 e o doou ao município, em 1944. A casa, então, era conhecida como “Casa Velha do Butantã”, e já tinha chamado a atenção de personalidades como Mario de Andrade e o arquiteto Luis Saia, que conduziu seu restauro quando foi transformada em museu, na época do IV Centenário de São Paulo. Consta que a casa ficava às margens do Pinheiros, hoje retificado e reduzido a um canal fedorento de concreto entre as pistas da marginal. Em que pese a virulência dos bandeirantes de então, dá para sentir nostalgia dessa São Paulo desconhecida, não?
O paradoxo das motos em São Paulo

Se existe um tema sem solução fácil é a proliferação de motos em São Paulo. O novo capítulo sobre o imbróglio é a implantação pelos aplicativos de transporte de mototáxis à revelia da proibição municipal. A modalidade foi disponibilizada, com enorme sucesso entre os usuários, nas áreas fora do centro expandido, ou seja, nas áreas periféricas, onde o sistema de transporte é mais precário. Desde que ouvi a notícia fiquei me perguntando o que poderia dizer para uma pessoa que leva horas para ir e vir de qualquer lugar, em um trânsito caótico, dentro de ônibus, metrô e trem lotados e caros, que a convença de que a opção de ganhar um tempo precioso a um custo mais barato é uma má escolha. Sob o ponto de vista de segurança, será que caminhar o equivalente a dois a três pontos de ônibus à noite na volta do trabalho é mais seguro do que na garupa de uma moto? E pegar um ônibus, que pode demorar bastante pelo mesmo preço da moto, é vantajoso? O tema é difícil para o cidadão, ainda mais que seu bem-estar não está em discussão entre as partes dessa briga de foice. Os aplicativos querem lucrar e o prefeito (não se iludam) está preocupado com a concorrência para os ônibus, não com a segurança da população. Caso contrário, Ricardo Nunes não esperaria quatro anos à frente da prefeitura para se dar conta que as motos são um perigo fora de controle. Os acidentes e mortes de motoqueiros só fazem crescer nos últimos anos e seus condutores parecem ter sido liberados totalmente de seguir normas mínimas de trânsito: parar em semáforos vermelhos, não entrar na contramão ou fazer conversões proibidas, não ultrapassar pela direita, dar prioridade aos pedestres e toda a lista de regras do Detran. Sob a desculpa de que motoboys precisam trabalhar e que a cidade pararia sem os entregadores, autoridades se abstêm de fiscalizar e a população já entregou pra deus. Por que tanto escândalo por causa dos mototáxis? Quer dizer que sou a favor deste tipo de transporte? Absolutamente não. Individualmente, pode ser interessante para o usuário, desde que assuma os riscos de um veículo cujo para-choque é seu próprio corpo. O problema é que a implantação de mototáxis tende a aumentar o número de motos na cidade, sem diminuir o número de automóveis, o que significa que deve crescer, sim, a quantidade de acidentes. Com isso, há vários impactos coletivos a serem considerados – a sobrecarga do sistema de saúde é o mais óbvio. Cada acidente de moto, porém, provoca congestionamento, prejudicando todo mundo que está circulando em ônibus e automóveis, diminuindo a qualidade de vida de seus usuários. E a poluição já excessiva da cidade. Ou seja, mototáxis não melhoram o trânsito e aumentam as emissões na cidade, com consequências para a saúde e para as mudanças climáticas. Mais uma vez, o interesse privado das empresas e dos usuários, mesmo que justificado neste último caso, é colocado em primeiro lugar em detrimento da coletividade. Ao invés de brigar com os aplicativos de transporte, o prefeito poderia investir esforços em criar alternativas reais para as motos: sistema de transporte barato, quiçá gratuito, além de seguro e sustentável. E fiscalizar se as motos cumprem as leis de trânsito mais do que se carregam alguém na garupa.