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PaulistanaSP

Obra de ficção

Atenção: este é um diálogo hipotético. Uma obra de ficção. – Boa tarde! O senhor é o administrador do Parque Villa-Lobos? – Sim, no que posso ajudá-lo? – Eu gostaria de usar o parque para fazer algumas coisinhas e queria saber o que é possível. – Meu amigo, não trabalhamos com limites, mas com os trocadinhos que pingam. Dependendo do valor, pode fazer o que quiser. – Posso instalar máquinas, totens e equipamentos? Vender qualquer coisa? – Pode. – Ah! Muito bom. Posso cercar qualquer área do parque e fazer as obras que precisar? – Com certeza. – Mesmo obras permanentes e sublocadas? – Mesmo estas. – E tem alguma regra sobre como seriam os equipamentos, destinação de locais, datas possíveis, padronização, paisagismo? – Nada, apenas é desejável que escreva alguma placa que contenha palavras como “verde”, “sustentável”, “sustentabilidade”, “natureza”, “bem-estar”, qualquer coisa dessas. Mas não é obrigatório. – E os frequentadores do parque não acham ruim, não protestam? Tenho acompanhado o que está acontecendo no Parque da Água Branca e fico um pouco receoso. – Não se preocupe, o pessoal aqui não é tão radical e esquerdopata como os de lá. – Ufa! Mas alguma parte do pagamento vai para os equipamentos do próprio parque, como manter os espelhos d’água da biblioteca, reabrir o Circuito das Árvores ou restaurar e colocar em funcionamento o orquidário? Isso pode encarecer o projeto. – Imagina, o povo que frequenta este parque nem percebe que esses equipamentos existem. Aqui podemos fazer tudo o que quisermos. Dá para reservar parte do estacionamento, cobrar entrada de tudo, circular com caminhões dentro do parque na hora que precisar. Nossos eleitores nos autorizam e não estão nem aí para essas bobagens de paisagismo, arborização e sossego, que é coisa de vagabundo, não de patriota. – Que maravilha! Vai ser um prazer fazer negócio com gestores tão responsáveis e visionários. Circuito das Árvores: fechado!

O conto dos descarados

Era uma vez um reino muito grande e bonito. Sua diversidade de gentes, culturas e natureza era admirada no mundo todo. Mas há séculos esse reino era governado por um grupo de autodeclarados nobres, que de nobreza não entendiam nada. Eles desprezavam seus súditos e as riquezas daquelas terras, das quais se apropriavam desavergonhadamente achando que eram infinitas. Para manter o povo calado, mentiam. Diziam que destruir era desenvolver, que desregular era cuidar. Como se não bastasse, quando alguma voz se levantava para chamar a atenção para o que acontecia, esses detentores do poder se uniam para escorraçar a voz dissonante. Se essa voz fosse de uma mulher, tanto pior. A falta de compostura e escrúpulos era tanta que eram incapazes de medir as atitudes, até mesmo para disfarçar suas reais intenções. Embrenhados em representar seus asseclas e manter seus privilégios, perderam a noção do que é decoro, mas também do que é lógico. Diante de ameaças, que não eram pragas de bruxos ou falsos profetas, mas sabedoria empírica e científica, preferiram ignorar. Mais do que isso, sentiam-se tão poderosos que planejavam desarmar o reino para poderem abocanhar mais e mais dos recursos sem medir consequências. ** O fim desta história é incerto. Aguardamos a próxima temporada. Parte dos fãs está atônita e indignada. Espera que alguma heroína ou herói se apresente para acabar com a festa nefasta e salvar o reino. Outros fãs, afeitos a um pouco mais de realismo, gostariam de ver os súditos se mobilizarem para impedir a destruição do patrimônio que é de todos. Não sabem, porém, se querem apenas assistir ou participar dos episódios e se responsabilizar pelos resultados. Como em todas as sagas, há, ainda, os que torcem para que tudo continue como está e que o circo pegue fogo. Esquecem (ou fingem não ver), estes e os nobres dirigentes, que também estão sob a lona.

Limpeza urbana é bom para o turista e a cidade

Manaus tinha tudo para ser uma cidade incrível. Fica às margens de um dos rios mais lindos do mundo, o Negro, e é o local onde ele se encontra com o Solimões formando o rio Amazonas de um jeito único, correndo juntos uma grande distância sem que suas águas se misturem. Eu fiquei boquiaberta quando vi o fenômeno na primeira vez que cheguei de avião à cidade. Além disso, é cercada pela floresta amazônica, o que dispensa comentários, e cortada por uma infinidade de córregos ou igarapés. Tem um centro histórico com um bonito conjunto arquitetônico do tempo da Borracha, com o Teatro Amazonas como a joia da coroa. Pelo menos uma bela praia de rio, a Ponta Negra. Uma culinária original e saborosa. É a maior metrópole no Norte do país, com mais de 2 milhões de habitantes, por onde não se chega por estradas, apenas pela água ou pelo ar. Poderia ficar enumerando outras coisas extraordinárias sobre a cidade, mas é impossível visitar Manaus e abstrair o tanto de lixo que se espalha pelas ruas, praças e rios manauaras. Por mais que se tente não olhar, o volume de resíduos por todo o canto chama o olhar do turista e se torna tema de conversas entre as pessoas, pelo menos no grupo de todo o Brasil com o qual eu estava, nesta última estada na cidade. Não sei dizer o que pensam os estrangeiros que chegam ali. A falta de saneamento básico não é um privilégio manauara, é um flagelo brasileiro. Segundo o Ranking do Saneamento 2024, publicado pelo Instituto Trata Brasil, que avalia os serviços básicos das 100 maiores cidades do país, Manaus ocupa a 86ª posição, figurando entre os 20 municípios com os piores índices. Atualmente, mais de 1,5 milhão de manauaras não têm acesso à coleta de esgoto, e apenas 21,8% do esgoto gerado na cidade é tratado. Pouca gente associa, porém, os resíduos urbanos entre os quatro pilares do saneamento básico: água tratada, esgotamento sanitário, drenagem urbana e coleta e tratamento de resíduos sólidos. Considero os resíduos sólidos como a sala de visitas de uma cidade. Todo o saneamento é importante, mas o lixo espalhado é o mais visível e, me parece, o mais fácil de resolver. Quando um rato morto permanece todo um fim de semana na esquina mais turística de uma cidade (em frente ao teatro Amazonas em sua época de óperas e a um restaurante), há algo que precisa ser pensado. A cidade padece ainda de uma característica forte brasileira, que é reabilitar espaços fazendo grandes obras sem pensar em sua manutenção. Ano passado, Manaus inaugurou uma parte do que chama de programa de recuperação de seu centro histórico. O complexo conta com o mirante Lúcia Almeida, largo de São Vicente, casarão Thiago de Mello e Píer Turístico. O mirante é o principal atrativo do local e conta com piso transparente para dar a sensação de que estamos andando sobre o rio Negro. O problema é que ao olhar para baixo, há mais lixo boiando no rio do que água. Nada disso quer dizer que não gostei ou não recomendo a visita a Manaus. Apenas a considero um exemplo da falta de visão de oportunidades que vejo nas cidades brasileiras. Tanto em termos de potencial turístico e econômico quando em prevenção às mudanças climáticas. Imagina uma enchente em Manaus, como a de 2021, com aquele tanto de resíduos espalhados com a maior parte da população vivendo em palafitas. Desastres climáticos, como seca, estiagem e excesso de chuvas, causaram perdas de R$ 732,2 bilhões entre 2013 e 2024 às cidades brasileiras, segundo um levantamento da Confederação Nacional dos Municípios. Só no ano passado, as tragédias climáticas causaram um impacto negativo de R$ 92,6 bilhões. Em 12 anos, 95% dos municípios do país já foram atingidos ao menos uma vez por algum tipo de desastre. Nesse período, mais de 5 milhões de pessoas ficaram desalojadas, 1 milhão desabrigadas e quase 3 mil morreram. É por isso que falar sobre saneamento básico não é uma questão estética, para turista ver, mas essencial para a própria existência das cidades nos tempos que vêm por aí.

O paradoxo das motos em São Paulo

motos

Se existe um tema sem solução fácil é a proliferação de motos em São Paulo. O novo capítulo sobre o imbróglio é a implantação pelos aplicativos de transporte de mototáxis à revelia da proibição municipal. A modalidade foi disponibilizada, com enorme sucesso entre os usuários, nas áreas fora do centro expandido, ou seja, nas áreas periféricas, onde o sistema de transporte é mais precário. Desde que ouvi a notícia fiquei me perguntando o que poderia dizer para uma pessoa que leva horas para ir e vir de qualquer lugar, em um trânsito caótico, dentro de ônibus, metrô e trem lotados e caros, que a convença de que a opção de ganhar um tempo precioso a um custo mais barato é uma má escolha. Sob o ponto de vista de segurança, será que caminhar o equivalente a dois a três pontos de ônibus à noite na volta do trabalho é mais seguro do que na garupa de uma moto? E pegar um ônibus, que pode demorar bastante pelo mesmo preço da moto, é vantajoso? O tema é difícil para o cidadão, ainda mais que seu bem-estar não está em discussão entre as partes dessa briga de foice. Os aplicativos querem lucrar e o prefeito (não se iludam) está preocupado com a concorrência para os ônibus, não com a segurança da população. Caso contrário, Ricardo Nunes não esperaria quatro anos à frente da prefeitura para se dar conta que as motos são um perigo fora de controle.  Os acidentes e mortes de motoqueiros só fazem crescer nos últimos anos e seus condutores parecem ter sido liberados totalmente de seguir normas mínimas de trânsito: parar em semáforos vermelhos, não entrar na contramão ou fazer conversões proibidas, não ultrapassar pela direita, dar prioridade aos pedestres e toda a lista de regras do Detran. Sob a desculpa de que motoboys precisam trabalhar e que a cidade pararia sem os entregadores, autoridades se abstêm de fiscalizar e a população já entregou pra deus. Por que tanto escândalo por causa dos mototáxis? Quer dizer que sou a favor deste tipo de transporte? Absolutamente não. Individualmente, pode ser interessante para o usuário, desde que assuma os riscos de um veículo cujo para-choque é seu próprio corpo. O problema é que a implantação de mototáxis tende a aumentar o número de motos na cidade, sem diminuir o número de automóveis, o que significa que deve crescer, sim, a quantidade de acidentes.  Com isso, há vários impactos coletivos a serem considerados – a sobrecarga do sistema de saúde é o mais óbvio. Cada acidente de moto, porém, provoca congestionamento, prejudicando todo mundo que está circulando em ônibus e automóveis, diminuindo a qualidade de vida de seus usuários. E a poluição já excessiva da cidade. Ou seja, mototáxis não melhoram o trânsito e aumentam as emissões na cidade, com consequências para a saúde e para as mudanças climáticas. Mais uma vez, o interesse privado das empresas e dos usuários, mesmo que justificado neste último caso, é colocado em primeiro lugar em detrimento da coletividade. Ao invés de brigar com os aplicativos de transporte, o prefeito poderia investir esforços em criar alternativas reais para as motos: sistema de transporte barato, quiçá gratuito, além de seguro e sustentável. E fiscalizar se as motos cumprem as leis de trânsito mais do que se carregam alguém na garupa.

Que 2025 seja fresco!

Dois mil de vinte e cinco era para ser um ano tranquilinho. Não temos eleição, copa do mundo, olimpíadas. Há bastantes feriados e o carnaval é no começo de março, ampliando o verão. Mas é por aí começam os problemas, pois não foi só o verão, mas tudo ficou mais quente. Quente de verdade, e não apenas pelo fogo que queima a Califórnia e que, no ano passado, queimou o Cerrado, o Pantanal, a Amazônia e a Mata Atlântica por aqui. Com mais de 1,5º C de temperatura média no planeta, o índice que esperávamos evitar, o fogo deve seguir firme e forte dando as caras neste ano. Assim como as chuvas, que costumavam fechar o verão em março, mas, agora, quem sabe quando e onde vão aparecer. Ou se recusar a aparecer.  Passei as últimas duas semanas em um paraíso à beira mar – a Praia de Pipa, no Rio Grande do Norte -, onde o tempo ainda é previsível e perfeito para o lazer, entre 25 e 30 graus, e a chuva, quando cai, é pouca e suave nesta época do ano. As praias são limpas, (quase) sem plásticos, (quase) sem caixas de som, bênçãos as quais estava desacostumada. Mas não existe mais refúgio isolado no mundo. A especulação imobiliária já corre solta, à força de gringos que trazem recursos, baratos pra eles e bem-vindos para a população local. As criações de camarão comem o mangue, também na mesma pegada de progresso que destrói a proteção do que lá tem de melhor e mais garantido. Embora nada mais seja garantido de verdade. Moradores e, principalmente, os que dependem o turismo, veem o nível do mar aumentando e a faixa de areia aproveitável abaixo das maravilhosas falésias cada vez menor. É preciso consultar a tabua de marés para escolher o intervalo de tempo, mais curto a cada ano, para caminhar entre as praias, uma das melhores atrações locais.  Nada que tenha me impedido de relaxar e abstrair que o Trump vai assumir na segunda-feira com promessas hitlerianas para o mundo, que as big techs perderam de vez o pouco pudor que fingiam ter e as fake news sobre o PIX escancararam o que vem pela frente. Para quem gosta de viver e deste planeta como eu, aconselho muita meditação, calma e uma disposição otimista para a luta. Sejamos serenos e bem-humorados, sem usar óculos cor-de-rosa, por favor, porque excesso de tolerância com a insanidade e falta de realismo não vão nos tirar do buraco. Sei que estou um pouco atrasada, mas Feliz Ano Novo, que seja fresco pra todo mundo!