Pular para o conteúdo principal

PaulistanaSP

Escassez global de água já é realidade

Quando Marussia Whately e eu fechávamos nosso livro sobre água em 2016, ainda sob o impacto da crise hídrica no Estado de São Paulo em 2015, discutimos muito o título da obra. Será que O Século da Escassez era trágico demais? Mesmo que nossas pesquisas mostrassem ser para esse lugar que caminhávamos, queríamos acreditar ser possível evitar, ou pelo menos retardar, o que se avizinhava. Acabamos mantendo a ideia original, mas incluímos como subtítulo do livro, lançado pela Editora Claro Enigma/Companhia da Letras, a frase “uma nova cultura de cuidado com a água: impasses e desafios”. Terminamos o texto com um apelo ao leitor: “A todos nós cabem, em primeiro lugar, nos informar e discutir o assunto, cobrar ações dos nossos governantes e assumir com eles o desafio de garantir um futuro seguro e sustentável para a água, porque sem ela não existe futuro”. Passados dez anos, e com as represas que abastecem São Paulo em seu pior nível desde a crise de 2015, vemos que nosso título não tinha nada de sensacionalista. Acaba de ser lançado, pelo Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (ONU), o relatório Falência Hídrica Global, segundo o qual o abastecimento de água no mundo entrou numa era de falência, após décadas de uso excessivo, poluição e perturbações causadas pelas mudanças climáticas. Conforme o estudo, muitos sistemas hidrológicos importantes ao redor do mundo chegaram num ponto sem volta, em que o volume de água extraída é muito maior que a reposição natural. Cruzar essa linha significa que aquíferos, lagos e zonas úmidas não podem mais ser restaurados. O diretor do Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde, Kaveh Madani, disse que “muitos sistemas hídricos essenciais já estão em colapso”. A situação afeta áreas responsáveis por quase metade da produção global de alimentos.  Falando a jornalistas em Nova Iorque, ele afirmou que se a humanidade continuar a lidar com essa falta como uma crise temporária e soluções de curto prazo, “o dano ecológico só vai se aprofundar, alimentando conflitos sociais”.

Qual o destino das nossas incríveis praias de falésia?

Pelo segundo ano consecutivo, passei férias em praias de falésias. No verão passado, estive em Pipa, no Rio Grande do Norte, e neste, em Arraial d’Ajuda, em Porto Seguro, Bahia. Descontando o desafio das escadarias e ladeiras diárias para chegar ao mar, estou encantada com estas formações. Opressivos à primeira vista, os paredões revelam uma variedade de cores e formas, às vezes até parecendo desenhadas, suas camadas expostas a nos lembrar quão mínimos somos diante da antiguidade do mundo. Passei horas e horas a observá-los em longas caminhadas ou em demorados banhos de mar. As falésias são um companheiro de viagem, um plus em qualquer praia, ainda mais quando terminam em piscinas naturais mutantes conforme as marés. Aliás, como ficam comumente em litorais com praias estreitas e em contato direto com o mar, nos obrigam a buscar informações sobre as tábuas de maré, para não correr riscos de não poder voltar de uma caminhada ou não ter onde sentar-se na praia. Definitivamente, esse não é um costume sudestino, e dá um ar de aventura a um passeio comezinho. Esses paredões rochosos espetaculares, esculpidos a partir da erosão causada pelo mar, chuvas e ventos durante milhões de anos, no entanto, são formações geológicas frágeis, que podem desmoronar a qualquer momento, sobretudo pela erosão na base pelas ondas. Difícil não pensar em riscos à essas paisagens tão procuradas do Nordeste brasileiro, sobretudo no Ceará, Rio Grande do Norte, Alagoas e Bahia, com o aumento do nível do mar e os eventos extremos das mudanças climáticas. Em Arraial, dá para perceber que a maré já sobe mais, deixando a faixa de areia mais estreita. Em Pipa, passar de uma praia para a outra ficou bastante difícil. Caminhos antes naturalmente feitos pelos veranistas a pé, hoje só são possíveis por pouquíssimo tempo na maré mais baixa. Sem falar no perigo de deslizamentos repentinos, como o que aconteceu em 2020, quando um casal e seu bebê morreram soterrados. Temos que nos adaptar ao colapso climático e muito há para se fazer, para que as cidades continuem habitáveis, para que as construções sejam feitas para resistir, para que consigamos frear as emissões o quanto antes. Sobre as lindas praias de falésias, porém, o futuro é bastantes incerto.

Paz e sustentabilidade por meio da espiritualidade

Mais uma vez no Brasil, desta vez para participar da COP30, em Belém, a líder espiritual indiana Jayanti Kirpalani fará uma palestra no Sesc Santana, em São Paulo, no dia 27 de novembro, com o tema “Fazendo escolhas que cuidam de nós mesmos e do planeta”. Na ocasião, ela será entrevistada pela jornalista Darlene Menconi, produtora de conteúdo sobre resiliência climática e pesquisadora em cidades inteligentes e sustentáveis. Diretora administrativa adjunta da Brahma Kumaris (BK), maior organização espiritual do mundo liderada por mulheres, Sister Jayanti, como é conhecida, esteve no país em 2019, quando a entrevistei para o blog Mulheres Ativistas, do portal Conexão Planeta. Líder espiritual e professora há mais de 50 anos, é pioneira na defesa do cuidado com a terra a partir de uma base espiritual. Para ela, o materialismo e o consumismo afastaram o ser humano da natureza, que passou de lugar sagrado em todas as culturas, para algo a ser explorado. O resultado mais visível atualmente são as mudanças climáticas causadas por esse estilo de vida. Representante da Brahma Kumaris na Organização das Nações Unidas (ONU) desde 1982 e nas conferências anuais do clima desde 2009, a indiana procura inserir princípios espirituais nas mesas de discussão de políticos, economistas, líderes empresariais e cientistas. Veja a entrevista em https://conexaoplaneta.com.br/blog/jayanti-kirpalani-paz-e-sustentabilidade-por-meio-da-espiritualidade/ ou abaixo. A palestra no Sesc Santana começa às 19 horas de sexta-feira. A entrada franca, mas é necessário retirar ingresso pelo link https://www.sescsp.org.br/programacao/fazendo-escolhas-que-cuidam-de-nos-mesmos-e-do-planeta/ ou no dia do evento no local, a partir das 18 horas. – Como foi o seu despertar para a espiritualidade? Embora não tenha perdido meu contato com a Índia, onde ia com a família para passar férias desde nossa mudança para a Inglaterra, aos 19 anos, em 1968, resolvi passar mais tempo no país, conhecer mais sobre nossa cultura. Minha mãe já tinha contato com a Brahma Kumaris e procurei um dos seus centros de meditação atrás de algo que me ajudasse a tomar melhores decisões na vida. Passei seis meses estudando e buscando meu desenvolvimento pessoal. Lá, encontrei o fundador da organização, Brahma Baba, que me perguntou o que eu queria dizer ao mundo. Naquele momento, soube que minha vontade era ser uma professora espiritual e inspirar pessoas. E essa foi minha jornada. Em janeiro de 1969, Baba faleceu e foi um momento de virada para a organização, quando duas mulheres passaram a ser as dirigentes. Isso foi possível porque, desde que a Brahma Kumaris foi criada, em 1937, existia a visão clara que, se quiséssemos um mundo de paz, precisávamos de igualdade entre os gêneros. Por isso, sempre houve treinamento de mulheres, como os que participei, para ser líderes. Essa postura era revolucionária na época na Índia e no mundo todo. – Você foi a primeira pessoa a levar a Brahma Kumaris para fora da Índia? Sim. Em 1969, voltei para Londres pensando em iniciar as atividades da organização para a Europa. Passei dois anos fazendo contatos com várias organizações até que, em 1971, uma delegação da Brahma Kumaris foi até lá para apresentar sua filosofia para a comunidade ocidental e fundamos o primeiro Centro de Meditação fora da Índia. Em 1981, estávamos em 30 países com nossa filosofia de paz individual e mundial. Em 1986, quando coordenávamos atividades do Ano Internacional da Paz, da ONU, criamos em Londres o primeiro escritório internacional, do qual sou dirigente, para agilizar a comunicação entre os países. Hoje, estamos em todos os continentes. – Qual a afinidade entre a Brahma Kumaris e a ONU? Somos filiados à ONU como uma organização não-governamental. Nosso propósito é a paz, o que também é a meta das Nações Unidas, por isso estamos conectados. Um ano antes do Ano Internacional da Paz, em 1985, houve o Festival Live Aid, para arredar recursos para a combater a fome na África. Vimos que as pessoas queriam doar mais do que dinheiro. Queríamos pedir algo mais valioso e as convidamos a doar tempo, minutos para orar, meditar ou ter pensamentos puros pela paz. Uma escola que decidisse dedicar três minutos de uma assembleia com mil alunos para isso, representaria três mil minutos de pensamento pela paz. O Projeto Mensageiro da Paz surgiu daí. Era uma técnica simples para tornar as pessoas perceptivas de que podem fazer algo pela paz no mundo. A meta era que começassem a ter pensamentos pacíficos para experimentar a paz que existe em cada ser humano e iniciassem uma jornada em direção à paz. Chegamos a bilhões de minutos pela causa, em 60 países diferentes. Com esse projeto ganhamos vários reconhecimentos da ONU e fomos considerados a entidade sem fins lucrativos que mais atuou pela causa naquele ano. A partir dali, passamos a desenvolver vários programas junto à ONU para mulheres, idosos, saúde, desenvolvimento sustentável. Nos últimos anos, estamos conectados com o tema de mudanças climáticas. – A campanha pela paz teve continuidade? A ONU se interessou pelo nosso trabalho e pediu que continuássemos com ele, o que resultou no Projeto de Cooperação Global por um Mundo Melhor, que durou de 1988 a 1991 e chegou a reunir 128 países. Nele, perguntávamos para as pessoas: qual a sua visão para um mundo melhor? Como vê os relacionamentos nesse mundo? Como se vê nele? Quais os passos práticos que você pode dar para tornar esse mundo melhor uma realidade? Cada um podia fazer o que quisesse. Por exemplo, uma família na Grécia tomou a decisão de pegar um cômodo da casa para ser uma zona livre de queixas. Engraxates mirins do Brasil, que brigavam muito entre eles, resolveram que iriam cooperar, emprestando seus equipamentos, como escovas, uns aos outros. – Por que a Brahma Kumaris se envolveu tão fortemente com as mudanças climáticas? Trabalhamos junto à ONU com o propósito de mostrar que existe uma dimensão espiritual em todas as pessoas. Mas a consciência humana criou uma forma materialista de viver. Nos tornamos uma sociedade consumista. Materialismo e consumismo nos distanciam da natureza. A espiritualidade nos lembra que a natureza é algo sagrado, por isso é

A COP e a mudança para Marte

A crise climática tem ocupado maior espaço nas mídias e na boca do povo nestes dias de COP 30 acontecendo no Brasil. No noticiário, porém, o que prevalece são a presença de autoridades e celebridades, manifestações populares, perrengues relacionados à produção do evento e hospedagem de milhares de pessoas na cidade amazônica e discussões, na maior parte incompreensíveis, sobre acordos e promessas de financiamento. Fica uma sensação de que, ao invés de esclarecimento e adesão à causa, as pessoas acabam de bode do assunto. Isso acontece porque a conferência anual das partes (ou países signatários) da Convenção do Clima é um espaço para os representantes dos países retificarem coisas que foram negociadas ao longo do ano, enquanto ambientalistas e cientistas tentam dar visibilidade às pautas climáticas e lobistas do setor petroleiro vender a imagem de que são bacanas enquanto tentam melar tudo. Mesmo pra quem está acostumado a seguir o assunto rotineiramente, é muito difícil acompanhar para onde a banda vai tocar. Como meros mortais, sem poder de influenciar o que acontece em Belém, poderíamos aproveitar o ensejo para nos inteirarmos do tema e sabermos o que podemos fazer, no nosso dia a dia, para ajudar a conter a tragédia que se avizinha se deixarmos tudo apenas nas mãos do entourage da COP e dos negacionistas das mudanças climáticas. Uma boa fonte para tanto é o livro Mude ou Mude-se para Marte – Um empurrãozinho para uma vida com hábitos mais sustentáveis, da jornalista Giane Gatti, lançado no finalzinho do ano passado. O título entrega o que está dentro de forma bem-humorada. O mais bacana, porém, é a capacidade da autora de abordar temas tão indigestos com uma linguagem simples e deixar uma mensagem de esperança sem pieguismo, o que anda difícil ultimamente. Giane inicia seu relato narrando como tudo começou e como nos metemos nessa enrascada, contando como nós, os humanos, ocupamos e transformamos a Terra, sobretudo nos últimos 200 anos, a ponto de comprometermos nossa própria sobrevivência. Nos mostra como a maneira como comemos e consumimos é insustentável e vem provocando as três grandes crises do planeta: mudanças climáticas, perda de biodiversidade e poluição. Além de dividir sua própria jornada para uma vida mais sustentável, Giane traz uma dimensão espiritual sobre o tema, abordagem incomum, mas necessária, numa época em que tudo é medido por dinheiro. “Meu desejo é mostrar, neste livro, como a contribuição de cada um é fundamental. Devemos assumir nosso papel de agentes transformadores. Não subestime sua capacidade de agir e acredite que dá para fazer diferente”, convida a autora. Às vésperas de um ano eleitoral, pensar em considerar estas questões antes de depositar nossos votos também é uma ótima pedida.

Livro de Lúcio Flavio Pinto será lançado em Belém durante a COP 30

Mesmo há algum tempo afastado do jornalismo, Lúcio Flavio Pinto continua a ser um dos maiores conhecedores da Amazônia, sobretudo de suas questões políticas e econômicas. Trabalhei com ele durante alguns anos na Agência Estado, no início dos anos 2000, onde ele publicava semanalmente artigos produzidos também para o seu Jornal Pessoal. Lúcio era perseguido judicialmente e recebia ameaças de morte o tempo todo, sobretudo de políticos e grileiros incomodados com sua audácia de expor fatos e análises certeiras sobre a região. Se apresentava como um amazônida, um cidadão da Amazônia. No próximo dia 18 de novembro, ainda durante a COP 30, será lançada a reedição de seu livro Memória de Santarém (904 páginas – Editora Letra Selvagem), que reúne crônicas e artigos publicados durante 25 anos no jornal o Estado do Tapajós (já extinto) e no portal www.oestadonet.com.br. Ambientado a partir de Santarém, o livro é uma fonte autêntica e segura de informações sobre acontecimentos que marcaram a região do Baixo Amazonas paraense durante dois séculos e que extrapolam essa região, revelando um conjunto impressionante de fatos e personagens. Por exemplo, o desmatamento e o extrativismo mineral, que produz riquezas sem melhoria expressiva das condições de vida das populações nativas. É uma publicação para quem quer conhecer a Amazônia a fundo e para colecionadores de grandes obras. Editado pelo jornalista Miguel Oliveira, um dos organizadores da reedição, juntamente com Nicodemos Sena, diretor da editora Letra Selvagem, o livro transita entre o jornalismo e a sociologia, e explica as razões da secular estagnação econômica, social e política da Amazônia, sempre a reboque dos interesses dos governos centrais, desde a Colônia até os dias de hoje. O lançamento será às 18 horas, no auditório do Ministério Público Federal (MPF), em Belém. O livro estará à venda na Amazon.

Publicação traz propostas para COP 30

A COP 30, que é a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, está chegando, é no Brasil, a maior nação poluidora do mundo não apenas não vai participar, como seu inominável líder é o maior negacionista do clima do planeta. E o assunto corrente é se haverá lugar para o povo se hospedar em Belém do Pará. Claro que este é um tema importante, sem os negociadores presentes, não há decisões na conferência, mas o foco mesmo da coisa parece perder relevância na boca do povo. O documento Propostas para uma Transição Climática Global para o Setor do Uso da Terra, da Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura, que ajudei a editar, lançado na Climate Week, em Nova York na semana passada, traz algumas pistas da responsabilidade e das oportunidades do Brasil como organizador do evento. Responsabilidade, porque mais de três quartos das emissões brasileiras estão vinculadas diretamente à terra e ao setor agropecuário – sendo 46,2% de mudanças no uso da terra e florestas e 27,5% da agropecuária. Esses números evidenciam que nenhuma estratégia climática será bem-sucedida sem uma abordagem consistente para agricultura, florestas e outros usos do solo no Brasil. É também uma oportunidade, porque a conferência será realizada no coração da Amazônia, oferecendo ao Brasil a chance de apresentar ao mundo não apenas compromissos, mas soluções concretas de implementação que conciliam produção, conservação e inclusão social. É uma chance que ganha ainda mais relevância quando se observam as incertezas geopolíticas do cenário internacional – marcado pela retração do multilateralismo e por conflitos armados – e a intensificação de eventos climáticos extremos – como secas, enchentes, ondas de calor e incêndios florestais -, que ameaçam a produção agrícola, agravam a crise hídrica e expõem populações vulneráveis à insegurança alimentar. Para a Coalizão, o êxito da COP 30 deverá ser medido não apenas por resoluções diplomáticas, mas pela capacidade de transformar compromissos presentes em conferências anteriores em implementações tangíveis. Entre os avanços concretos esperados de sucesso estão: a mobilização de novos fluxos financeiros internacionais, em escala compatível com a emergência climática; avanços concretos na transição energética; e a aprovação do Marco Global da Adaptação. Em relação específica ao uso da terra, espera-se a criação de mecanismos internacionais melhores que os atuais e que remunerem de forma efetiva a conservação e a restauração de florestas e outros ecossistemas tropicais; o estabelecimento de compromissos claros para redirecionar subsídios a combustíveis fósseis para Soluções Baseadas na Natureza, que promovam conservação, produção de alimentos e bioenergia; e o desenvolvimento de iniciativas globais de recuperação de solos agrícolas. A publicação e um sumário executivo estão disponíveis no site da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura.

Obra de ficção

Atenção: este é um diálogo hipotético. Uma obra de ficção. – Boa tarde! O senhor é o administrador do Parque Villa-Lobos? – Sim, no que posso ajudá-lo? – Eu gostaria de usar o parque para fazer algumas coisinhas e queria saber o que é possível. – Meu amigo, não trabalhamos com limites, mas com os trocadinhos que pingam. Dependendo do valor, pode fazer o que quiser. – Posso instalar máquinas, totens e equipamentos? Vender qualquer coisa? – Pode. – Ah! Muito bom. Posso cercar qualquer área do parque e fazer as obras que precisar? – Com certeza. – Mesmo obras permanentes e sublocadas? – Mesmo estas. – E tem alguma regra sobre como seriam os equipamentos, destinação de locais, datas possíveis, padronização, paisagismo? – Nada, apenas é desejável que escreva alguma placa que contenha palavras como “verde”, “sustentável”, “sustentabilidade”, “natureza”, “bem-estar”, qualquer coisa dessas. Mas não é obrigatório. – E os frequentadores do parque não acham ruim, não protestam? Tenho acompanhado o que está acontecendo no Parque da Água Branca e fico um pouco receoso. – Não se preocupe, o pessoal aqui não é tão radical e esquerdopata como os de lá. – Ufa! Mas alguma parte do pagamento vai para os equipamentos do próprio parque, como manter os espelhos d’água da biblioteca, reabrir o Circuito das Árvores ou restaurar e colocar em funcionamento o orquidário? Isso pode encarecer o projeto. – Imagina, o povo que frequenta este parque nem percebe que esses equipamentos existem. Aqui podemos fazer tudo o que quisermos. Dá para reservar parte do estacionamento, cobrar entrada de tudo, circular com caminhões dentro do parque na hora que precisar. Nossos eleitores nos autorizam e não estão nem aí para essas bobagens de paisagismo, arborização e sossego, que é coisa de vagabundo, não de patriota. – Que maravilha! Vai ser um prazer fazer negócio com gestores tão responsáveis e visionários. Circuito das Árvores: fechado!

O conto dos descarados

Era uma vez um reino muito grande e bonito. Sua diversidade de gentes, culturas e natureza era admirada no mundo todo. Mas há séculos esse reino era governado por um grupo de autodeclarados nobres, que de nobreza não entendiam nada. Eles desprezavam seus súditos e as riquezas daquelas terras, das quais se apropriavam desavergonhadamente achando que eram infinitas. Para manter o povo calado, mentiam. Diziam que destruir era desenvolver, que desregular era cuidar. Como se não bastasse, quando alguma voz se levantava para chamar a atenção para o que acontecia, esses detentores do poder se uniam para escorraçar a voz dissonante. Se essa voz fosse de uma mulher, tanto pior. A falta de compostura e escrúpulos era tanta que eram incapazes de medir as atitudes, até mesmo para disfarçar suas reais intenções. Embrenhados em representar seus asseclas e manter seus privilégios, perderam a noção do que é decoro, mas também do que é lógico. Diante de ameaças, que não eram pragas de bruxos ou falsos profetas, mas sabedoria empírica e científica, preferiram ignorar. Mais do que isso, sentiam-se tão poderosos que planejavam desarmar o reino para poderem abocanhar mais e mais dos recursos sem medir consequências. ** O fim desta história é incerto. Aguardamos a próxima temporada. Parte dos fãs está atônita e indignada. Espera que alguma heroína ou herói se apresente para acabar com a festa nefasta e salvar o reino. Outros fãs, afeitos a um pouco mais de realismo, gostariam de ver os súditos se mobilizarem para impedir a destruição do patrimônio que é de todos. Não sabem, porém, se querem apenas assistir ou participar dos episódios e se responsabilizar pelos resultados. Como em todas as sagas, há, ainda, os que torcem para que tudo continue como está e que o circo pegue fogo. Esquecem (ou fingem não ver), estes e os nobres dirigentes, que também estão sob a lona.

Limpeza urbana é bom para o turista e a cidade

Manaus tinha tudo para ser uma cidade incrível. Fica às margens de um dos rios mais lindos do mundo, o Negro, e é o local onde ele se encontra com o Solimões formando o rio Amazonas de um jeito único, correndo juntos uma grande distância sem que suas águas se misturem. Eu fiquei boquiaberta quando vi o fenômeno na primeira vez que cheguei de avião à cidade. Além disso, é cercada pela floresta amazônica, o que dispensa comentários, e cortada por uma infinidade de córregos ou igarapés. Tem um centro histórico com um bonito conjunto arquitetônico do tempo da Borracha, com o Teatro Amazonas como a joia da coroa. Pelo menos uma bela praia de rio, a Ponta Negra. Uma culinária original e saborosa. É a maior metrópole no Norte do país, com mais de 2 milhões de habitantes, por onde não se chega por estradas, apenas pela água ou pelo ar. Poderia ficar enumerando outras coisas extraordinárias sobre a cidade, mas é impossível visitar Manaus e abstrair o tanto de lixo que se espalha pelas ruas, praças e rios manauaras. Por mais que se tente não olhar, o volume de resíduos por todo o canto chama o olhar do turista e se torna tema de conversas entre as pessoas, pelo menos no grupo de todo o Brasil com o qual eu estava, nesta última estada na cidade. Não sei dizer o que pensam os estrangeiros que chegam ali. A falta de saneamento básico não é um privilégio manauara, é um flagelo brasileiro. Segundo o Ranking do Saneamento 2024, publicado pelo Instituto Trata Brasil, que avalia os serviços básicos das 100 maiores cidades do país, Manaus ocupa a 86ª posição, figurando entre os 20 municípios com os piores índices. Atualmente, mais de 1,5 milhão de manauaras não têm acesso à coleta de esgoto, e apenas 21,8% do esgoto gerado na cidade é tratado. Pouca gente associa, porém, os resíduos urbanos entre os quatro pilares do saneamento básico: água tratada, esgotamento sanitário, drenagem urbana e coleta e tratamento de resíduos sólidos. Considero os resíduos sólidos como a sala de visitas de uma cidade. Todo o saneamento é importante, mas o lixo espalhado é o mais visível e, me parece, o mais fácil de resolver. Quando um rato morto permanece todo um fim de semana na esquina mais turística de uma cidade (em frente ao teatro Amazonas em sua época de óperas e a um restaurante), há algo que precisa ser pensado. A cidade padece ainda de uma característica forte brasileira, que é reabilitar espaços fazendo grandes obras sem pensar em sua manutenção. Ano passado, Manaus inaugurou uma parte do que chama de programa de recuperação de seu centro histórico. O complexo conta com o mirante Lúcia Almeida, largo de São Vicente, casarão Thiago de Mello e Píer Turístico. O mirante é o principal atrativo do local e conta com piso transparente para dar a sensação de que estamos andando sobre o rio Negro. O problema é que ao olhar para baixo, há mais lixo boiando no rio do que água. Nada disso quer dizer que não gostei ou não recomendo a visita a Manaus. Apenas a considero um exemplo da falta de visão de oportunidades que vejo nas cidades brasileiras. Tanto em termos de potencial turístico e econômico quando em prevenção às mudanças climáticas. Imagina uma enchente em Manaus, como a de 2021, com aquele tanto de resíduos espalhados com a maior parte da população vivendo em palafitas. Desastres climáticos, como seca, estiagem e excesso de chuvas, causaram perdas de R$ 732,2 bilhões entre 2013 e 2024 às cidades brasileiras, segundo um levantamento da Confederação Nacional dos Municípios. Só no ano passado, as tragédias climáticas causaram um impacto negativo de R$ 92,6 bilhões. Em 12 anos, 95% dos municípios do país já foram atingidos ao menos uma vez por algum tipo de desastre. Nesse período, mais de 5 milhões de pessoas ficaram desalojadas, 1 milhão desabrigadas e quase 3 mil morreram. É por isso que falar sobre saneamento básico não é uma questão estética, para turista ver, mas essencial para a própria existência das cidades nos tempos que vêm por aí.

O paradoxo das motos em São Paulo

motos

Se existe um tema sem solução fácil é a proliferação de motos em São Paulo. O novo capítulo sobre o imbróglio é a implantação pelos aplicativos de transporte de mototáxis à revelia da proibição municipal. A modalidade foi disponibilizada, com enorme sucesso entre os usuários, nas áreas fora do centro expandido, ou seja, nas áreas periféricas, onde o sistema de transporte é mais precário. Desde que ouvi a notícia fiquei me perguntando o que poderia dizer para uma pessoa que leva horas para ir e vir de qualquer lugar, em um trânsito caótico, dentro de ônibus, metrô e trem lotados e caros, que a convença de que a opção de ganhar um tempo precioso a um custo mais barato é uma má escolha. Sob o ponto de vista de segurança, será que caminhar o equivalente a dois a três pontos de ônibus à noite na volta do trabalho é mais seguro do que na garupa de uma moto? E pegar um ônibus, que pode demorar bastante pelo mesmo preço da moto, é vantajoso? O tema é difícil para o cidadão, ainda mais que seu bem-estar não está em discussão entre as partes dessa briga de foice. Os aplicativos querem lucrar e o prefeito (não se iludam) está preocupado com a concorrência para os ônibus, não com a segurança da população. Caso contrário, Ricardo Nunes não esperaria quatro anos à frente da prefeitura para se dar conta que as motos são um perigo fora de controle.  Os acidentes e mortes de motoqueiros só fazem crescer nos últimos anos e seus condutores parecem ter sido liberados totalmente de seguir normas mínimas de trânsito: parar em semáforos vermelhos, não entrar na contramão ou fazer conversões proibidas, não ultrapassar pela direita, dar prioridade aos pedestres e toda a lista de regras do Detran. Sob a desculpa de que motoboys precisam trabalhar e que a cidade pararia sem os entregadores, autoridades se abstêm de fiscalizar e a população já entregou pra deus. Por que tanto escândalo por causa dos mototáxis? Quer dizer que sou a favor deste tipo de transporte? Absolutamente não. Individualmente, pode ser interessante para o usuário, desde que assuma os riscos de um veículo cujo para-choque é seu próprio corpo. O problema é que a implantação de mototáxis tende a aumentar o número de motos na cidade, sem diminuir o número de automóveis, o que significa que deve crescer, sim, a quantidade de acidentes.  Com isso, há vários impactos coletivos a serem considerados – a sobrecarga do sistema de saúde é o mais óbvio. Cada acidente de moto, porém, provoca congestionamento, prejudicando todo mundo que está circulando em ônibus e automóveis, diminuindo a qualidade de vida de seus usuários. E a poluição já excessiva da cidade. Ou seja, mototáxis não melhoram o trânsito e aumentam as emissões na cidade, com consequências para a saúde e para as mudanças climáticas. Mais uma vez, o interesse privado das empresas e dos usuários, mesmo que justificado neste último caso, é colocado em primeiro lugar em detrimento da coletividade. Ao invés de brigar com os aplicativos de transporte, o prefeito poderia investir esforços em criar alternativas reais para as motos: sistema de transporte barato, quiçá gratuito, além de seguro e sustentável. E fiscalizar se as motos cumprem as leis de trânsito mais do que se carregam alguém na garupa.