Dzi Croquettes ainda podem soar revolucionários

Conheci o Dzi Croquettes no cinema, quando assisti ao documentário de Tatiana Issa e Raphael Alvarez (2009, inexplicavelmente fora do streaming). Fiquei encantada com aquele grupo de teatro e dança que fez gato e sapato da moral dominante no país nos anos 1970, em plena ditadura militar. A única referência que tinha deles era que meu sogro os viu no teatro, em São Paulo ou Rio (não sabemos), e ficou tão impressionado que meu marido nunca se esqueceu do pai contando. Por isso fomos assistir. Eis que agora, 50 anos depois do sucesso da trupe, Ciro Barcelos, na época o caçula da turma, leva aos palcos Dzi Croquettes Sem Censura, onde conta em primeira pessoa a história de um dos grupos mais revolucionários do teatro brasileiro. Na peça, Ciro interpreta a si mesmo, nos dias atuais, e Lennie Dale, o famoso coreógrafo e dançarino norte-americano que se radicou no Brasil e foi um dos líderes do Dzi. O elenco traz atores, cantores, dançarinos que interpretam cada um dos participantes originais do Dzi Croquettes, mantendo a irreverência e a androginia originais do grupo. Vestidos quase sempre de mulher, com maquiagens exageradas, mas mantendo corpos masculinos à mostra, nos lembram o quanto as barreiras rígidas entre os gêneros são artificiais e caretas. O espetáculo original (e o atual, para alguns, suponho) só soa escandaloso por conta disso. Se fosse interpretado por mulheres, seria normal. Seria uma reunião do meu Círculo Feminino de Leitura, com mulheres fantasiadas se divertindo, como retrato no livro Temos Fome, Somos Loucas. É muito mais do que apenas ser gay, hétero ou o que achar melhor. É sobre não se deixar rotular. Os Dzi Croquettes foram corajosos nos anos 1970 e fizeram merecido sucesso, até, possivelmente, algum milico desavisado ficar sabendo e resolver implicar com eles. Foram perseguidos pelo regime militar e levados a se exilar. Sorte dos europeus, que também puderam curtir seus espetáculos. Tinham fãs no mundo inteiro, do porte de Liza Minelli e Mick Jagger. A peça está no Teatro Itália até 27 de julho e tem potencial para também se tornar clássica.