Prefiro falar com gente de verdade

Gostaria de ser atendida por humanos inteligentes e não por inteligência artificial, sobretudo quando quero marcar um exame. Podem me dizer que a tecnologia vai se aperfeiçoar, espero que sim, mas, por enquanto, nada como um ser biológico pensante como interlocutor, para o qual possa explicar o que preciso. Marcar meu checkup anual costumava ser algo bem simples. Ligava para um laboratório, apertava o número para falar com o atendente, ditava os exames que precisava e ele agendava todos, normalmente no mesmo dia e na mesma unidade. Atualmente, a tarefa se tornou um ato de paciência sem garantia de sucesso. Na verdade, esqueça o telefone. Você vai ter que ouvir uma infinidade de perguntas, digitar um número idem de respostas e digitar seus dados. Quando chegar a hora de falar com alguém de carne e osso, passará a ouvir a famosa musiquinha até cair a ligação. Será obrigado a agendar via site. No site, será instruído a fotografar seus exames e terá que preencher novamente seus dados (CPF, plano de saúde), às vezes os nomes dos exames, quando a máquina não conseguir ler. Em alguns laboratórios, essa fase já foi tão complicada, com muitas voltas e mal-entendidos, que você já desistiu. Em outros, vão te encaminhar para um Whatsapp para “completar” o atendimento. Isso significa começar tudo de novo, com uma atendente (sempre com nome de mulher) digital. “Ela” vai te pedir tudo novamente: dados, fotos dos exames, todos os dados do seu plano de saúde E a foto da carteirinha do plano de saúde, que já tem todos os dados solicitados. Depois disso, a “atendente” vai pedir para você escolher uma unidade do laboratório e marcar alguns dos exames que você pediu, aqueles que ela entendeu o que é ou os que têm na unidade que você solicitou. Se você tiver alguma dúvida e perguntar algo fora do protocolo, vai começar tudo novamente. Depois dos exames marcados, você recebe por e-mail a confirmação – se tiver sorte (a depender do laboratório) vem a relação de exames efetivamente agendados – e as instruções para o preparo. Alguns pedem para você confirmar o agendamento via e-mail e/ou whatsapp. Quando você, finalmente, chega ao laboratório no dia marcado, pega uma senha para ser atendido. Nesse momento, normalmente, também pedem seus dados, que serão novamente solicitados quando chegar sua vez no guichê. Lá chegando (talvez seja apenas azar meu, mas acontece sempre), descobre que alguns dos exames não foram agendados, porque não estavam escritos exatamente como a atendente virtual entende. Na última vez que passei por isso, ainda descobri que o pedido da mamografia precisava ter um código de diagnóstico médico para ser aceito por meu plano de saúde. Já é um absurdo a necessidade de explicações para um exame que se deve ser feito anualmente como rotina – se eu for falar dos planos de saúde, melhor escrever um livro. Mas, se enviei os pedidos médicos mais de uma vez para o laboratório, um humaninho possivelmente teria me alertado disso e eu não teria que ficar mais uma hora no laboratório aguardando minha médica poder me reenviar o pedido médico. E olhe que ela conseguiu. Estou rabugenta? Estou. Muito. E poderia ficar aqui reclamando um dia inteiro. Sei que a promessa é que a IA vai ficar mais inteligente, mas prefiro pensar que logo, logo, as empresas vão fazer propaganda dizendo “venha para cá e fale com gente de verdade”. Eu vou correndo.
O apocalipse, agora, é quântico

A primeira conta em banco que abri, no início dos anos 1980, foi no Banerj. Não por algum amor especial pelo Rio de Janeiro, mas porque era a agência mais próxima da minha casa – e mesmo assim demandava uma pernada. Recebia mensalmente meu módico salário e levava o cheque para depositar. Na agência, o caixa verificava o cheque, pegava minha ficha em um fichário e preenchia à mão o meu saldo, que seria depois confirmado, quando o cheque fosse descontado. Normalmente, se houvesse saldo, eu também sacava algum dinheiro, pois era com ele que se pagava quase tudo. Pode parecer um perrengue, mas suponho que era quase assim desde que existe banco e todo mundo sobrevivia bem. Desde então, as coisas foram se complicando, ou facilitando, conforme o ponto de vista. Os saques passaram a ser feitos em máquinas, as contas a ser pagas online, o cheque e o dinheiro substituídos pelo cartão ou celular, e cada um se adaptou como pode. Meu pai, por exemplo, nunca se adaptou totalmente. Nesse processo de mudança, o primeiro susto coletivo veio com o “bug do milênio”, um problema previsto para ocorrer na virada de 1999 para 2000, devido à forma como as datas eram armazenadas nos sistemas computacionais. Para economizar memória, muitos sistemas representavam os anos com apenas dois dígitos (por exemplo, “99” para 1999). Dizia-se que, ao chegar ao ano 2000, os sistemas interpretariam “00” como 1900, colapsando o sistema, e todo o dinheiro que tínhamos no banco desapareceria enquanto estourássemos a champanhe no réveillon. Seja porque as empresas corrigiram o problema, seja porque os computadores não fossem tão burros, nada aconteceu. Desde então, as agências bancárias praticamente desapareceram, surgiu o pix, e seguimos com novos pavores, como roubarem nosso celular com todos os nossos dados, rouparem nossos dados simplesmente, cairmos em algum dos zilhares de golpes que nos cercam diariamente, a inteligência artificial decidir que não vai mais nos empregar ou pagar. E vamos nos equilibrando para não cair nesse mar de perigos. Mas eis que me chega um novo alerta: o “apocalipse quântico”. Qualquer termo que comece com apocalipse vem para gelar nossas espinhas. Ele se refere ao potencial impacto devastador que a computação quântica avançada pode ter na segurança da informação global. Poderosos computadores quânticos, em um futuro próximo, poderiam quebrar os sistemas de criptografia que protegem nossos dados sigilosos. E não apenas nossas informações bancárias, mas também registros médicos, segredos de Estado e propriedade intelectual poderão ir para o saco. Pensando bem, não vejo tanta novidade assim nesse apocalipse quântico. Agradeço o alerta, mas os apocalipses climático e nuclear me parecem mais palpáveis, prefiro desperdiçar meu sono em questões mais complicadas de solucionar. Vem ni mim, apocalipse quântico, que um fichário (ou o colchão da minha cama) pode me salvar.