Ler um livro costuma ser um ato solitário, individual. Mas quando se tem a oportunidade de expandir essa experiência de modo compartilhado, aumentamos seu poder de entendimento e transformação. No caso da literatura, a expectativa da troca já torna a leitura especial. Essa é a essência dos encontros mensais do Círculo Feminino de Leitura (CFL). Sabemos que nossas impressões sobre a obra do mês serão aprofundadas, modificadas e vivenciadas em discussões e atividades surpreendentes.
Em nosso último encontro, o protagonista da noite foi “A árvore mais sozinha do mundo”, da Mariana Salomão Carrara, no qual a autora dá vida a uma árvore, um espelho, um carro e uma roupa de proteção para nos contar, de pontos de vista diferentes, o cotidiano de uma família de pequenos produtores de fumo no Rio Grande do Sul.

Apesar da identificação com o tema central do livro, focado na crueldade da indústria fumageira e suas consequências em todos os aspectos das vidas dos personagens humanos da história, tive um pouco de dificuldade de me entregar à narração dos observadores humanizados. Ouvir as opiniões de minhas amigas, que entraram completamente na proposta da autora, me ajudou a rever algumas de minhas ideias iniciais e, principalmente, a me conhecer melhor.
Para tanto, a leitura de trechos escolhidos com antecedência por cada uma, a pedido de nossa anfitriã Claudia, foi tão importante quando a produção feita por ela de um cenário com objetos, cores e sabores das personagens – o pêssego em calda foi quase uma abdução para aquela casa pobre, rodeada de tabaco e veneno, mas também entendida de amor (como constata a árvore solitária) e em busca de doçura, travestida em compotas de pêssego que complementavam a renda familiar.
Colaboraram, ainda, a Neise e a Kátia vestidas de árvores e a Nivia enfeitada de espelho, além de trocarmos ideias com um espelho, e tentarmos nos imaginar como seres inanimados ou não humanos observando o mundo. Tivemos também a bela pesquisa da Claudia sobre a cultura de tabaco no Brasil (somos o segundo maior produtor e o maior exportador dessa cultura que só serve pra piorar a saúde de quem produz e quem usa), a análise literária da Dóris, as memórias de família da Marli no interior de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, as tiradas bem-humoradas da Wal, da Edna e da Laura: estávamos inspiradas. Acho que essa é a mágica que a literatura conjugada à amizade faz.
