Minhas leituras: Rebecca

Uma narradora pouco confiável, que mistura acontecimentos que presenciou com outros apenas imaginados, fizeram de Rebecca, de Daphne du Maurier, um livro instigante e um prato cheio para uma reunião do Círculo Feminino de Leitura (CFL). Pouco se sabe sobre a nova senhora de Manderley, a substituta que não revela nem o próprio nome ao contar sua história e tem dificuldade em se autodenominar sr. Winter, título que acredita soberano à esposa falecida. Um convite da anfitriã do mês, Neise, para um Baile a Fantasia na Mansão Manderley, nos levou, uma semana atrás, diretamente para o universo cercado de mistério do livro. A mensagem no envelope pedia para que fosse aberto apenas no capítulo 17, para não estragar a surpresa da realização do “famoso baile” na história. Além disso, mensagens foram enviadas para cada uma de nós solicitando que preparássemos um perfil psicológico de um dos personagens. Os encontros na casa da Neise são sempre aguardados por conta da dedicação e capricho na recepção e dessa vez não foi diferente. Um grande painel reproduzia a fachada de uma grande propriedade inglesa e toda a decoração nos fazia quase acreditar estarmos dentro da própria Manderley, no litoral inglês, no final dos anos 1930. Da prataria ao aparelho de chá, aos sanduíches de agrião, tudo remetia a detalhes do livro. Até o banheiro e o quarto eram os aposentos de Rebecca. Nas fantasias, tivemos duas senhoras de Winter (qual seria Rebecca?), uma sr. Danvers, damas antigas, uma indiana e euzinha, de Carmen Miranda, um traje possível de ser pensado na época em que se passa a história. A gente capricha! A discussão foi tão acalorada que não sobrou tempo nem para nossas atualizações e fofocas mensais. Foram horas tentando entender se Rebecca era uma vilã ou somente uma mulher à frente de seu tempo, se a sra. Danvers era apenas fiel à antiga patroa ou apaixonada por ela, se Maxim foi uma vítima de Rebecca ou um assassino frio e cínico, que escolheu uma nova esposa fraca propositalmente para não ter mais que ser confrontado. Será que ele se arrependeu de seu crime ou premeditou tudo? Por fim, a sra. Winter narradora era mesmo tão ingênua quanto faz parecer ou queria apenas que acreditássemos nisso? Quero destacar, ainda, a edição da Darkside, com ilustrações belíssimas e o destaque para o clima gótico do livro, além de uma introdução de Nilsen Silva que não se abstém de tocar no tema do suposto plágio da autora do livro A Sucessora, da brasileira Carolina Nabuco. Assisti à novela de 1978 baseada da obra de Carolina e, olha, difícil acreditar em coincidências…
Minhas leituras: Quarto de Despejo

Ficamos felizes pela Edna ter indicado Quarto de Despejo – Diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus, para o Círculo Feminino de Leitura (CFL). Algumas de nós, apesar de vontade, tinham receito da leitura deste livro, por seu tema sensível e indigesto. Eis que a indicação nos obrigou a ter coragem de encarar a miséria e a desigualdade social brasileiras de frente. A rotina descrita sem pudor por Carolina não é novidade para ninguém que viva no Brasil e o fato de não ser um livro anacrônico, apesar de escrito nos anos 1950, nos envergonha como cidadãos. Impossível imaginar a sensação de não ter o que comer ou ver seus filhos passando fome. Mas Quarto de Despejo é mais do que isso, é a escrita de uma mulher consciente de sua situação social e que soube aproveitar cada pedacinho da pouca educação a que teve acesso e desenvolver um senso estético único, tornando-a uma artista poderosa. “É preciso conhecer a fome para saber descrevê-la”. Carolina conheceu e soube. E a fome é amarela. E tão dolorida, que não sobrou espaço para diversão durante nossas discussões sobre o livro. Nos abrimos para mostrar trechos de nossos próprios diários, antigos ou escritos para a ocasião. Neles, a emoção de expor o cotidiano, começos e finais, e a constatação de nossos privilégios. Cercadas por frases marcantes do livro, lidas ou espalhadas na decoração do ambiente, tentamos nos aproximar das Carolinas e Marias que enfrentam racismo, miséria, discriminação de todo o tipo. “A favela é o quarto de despejo da cidade. Somos o lixo que eles jogam fora”. Mesmo que, felizmente, a extrema pobreza no Brasil esteja no menor nível da série história com IBGE (iniciada em 2012), ela ainda representa mais de 7 milhões de Carolinas lutando diariamente para ter o mínimo para sobreviver. Encerramos nosso encontro ao som do samba-enredo da Unidos da Tijuca desde ano, que homenageou a autora: “Os olhos da fome eram os meus Justiça dos homens, não é maior que a de Deus Meu quarto foi despejo de agonia A palavra é arma contra a tirania” No livro Temos Fome, Somos Loucas – como um clube do livro transformou a vida de um grupo de mulheres, conto a história do Círculo Feminino de Leitura: as participantes e a amizade que nos une, os livros que lemos, as dinâmicas que tornam nossas reuniões únicas. Se quiser conhecer, está à venda no site da Editora Pitanga.
Minhas Leituras: Ressuscitar Mamutes

Tempo de eras geológicas. Tempo de uma vida. Tempo do agora. Tempo do Futuro. Ressuscitar Mamutes, de Silvana Tavano (Autêntica Contemporânea), nos faz viajar por várias dimensões da temporalidade, enquanto toca em uma das relações mais fortes e delicadas, a de mãe e filha. Da mamutezinha que se separou da mãe e acabou fossilizada por milênios até ser encontrada recentemente, quase intacta, a um futuro imaginado para a mãe falecida e os descendentes da narradora deste romance cativante, Tavano mexe com nossas próprias memórias e expectativas. Misturando jornalismo, ensaio, memória e ficção em um texto que prende o leitor do início ao fim, o livro discute também o acaso dos acontecimentos e a tecnologia e a imaginação que inventam a posteridade de nossas próprias vidas e do planeta que nos dá sustentação. Li Ressuscitar Mamutes há quase dois anos, assim que foi lançado, e me marcou a capacidade da autora em se aprofundar em tantos temas em um romance curto (120 páginas), o qual devorei quase de uma vez só. Reli o livro neste início de ano quando foi o escolhido do mês do Círculo Feminino de Leitura (CFL) e já era vencedor do prêmio Oceanos, finalista do prêmio São Paulo e semifinalista do Jabuti, todos em 2025. Esta segunda leitura teve um gostinho ainda mais especial porque Silvana aceitou nosso convite para participar de nosso encontro, no qual a importância da relação mãe e filhas tomou conta das discussões e emoções à flor da pele. Ressuscitar Mamutes ganhará, antes do meio do ano, edição em espanhol pela editora argentina Hibrida. Quem ainda não leu, agora é a hora para não ficar atrás dos argentinos.
Temos Fome, Somos Loucas na Feira do Livro de Porto Alegre

A Feira do Livro de Porto Alegre é uma das mais antigas do Brasil. Sua primeira edição foi em 1955, idealizada pelo jornalista Say Marques, diretor-secretário do Diário de Notícias. Acompanho esse evento há mais de 40 anos, quando comecei a frequentar Porto Alegre, uma cidade da qual sou apaixonada e, desde que me casei, em 1986, carrego no nome: Maura Campanili Porto Alegre. Por isso, poder participar de uma mesa de bate-papo e ter uma sessão de autógrafos do meu livro Temos Fome, Somos Loucas no evento deste ano é motivo de alegria e bastante expectativa. Quero conversar sobre o Círculo Feminino de Leitura, o CFL, clube do livro do qual faço parte com outras mulheres há mais de 17 anos e me inspirou a contar nossa história de amizades, encontros, leituras e muitos brindes nesta obra publicada pela Editora Pitanga. Clubes do livro têm se espalhado no país como uma forma de incentivo à leitura e aos encontros, sejam eles presenciais ou virtuais. Nosso CFL é uma verdadeira festa mensal dos livros, na qual discutimos o título do mês e nos inspiramos nele para nos vestir, realizar atividades, preparar o cardápio e até decorar a casa. É uma verdadeira imersão mensal em mundos diferentes que, ao longo do tempo, influenciou a vida de mais de uma dezena de mulheres, hoje na tão propalada fase dos 50+. A 71ª Feira do Livro de Porto Alegre acontece de 31 de outubro a 16 de novembro, das 10 às 20 horas, na Praça da Alfândega, no Centro Histórico de Porto Alegre. Minha participação será na quarta-feira, 5 de novembro, a partir das 14h30, no Clube do Comércio (rua dos Andradas, 1085, 2º andar, em frente da praça principal do evento). Para completar, a patrona desta edição é a escritora portalegrense Martha Medeiros, autora da qual já lemos mais de um livro no nosso grupo. Abaixo, um trecho do capítulo Doidas e Santas (2010), de Temos Fome, Somos Loucas, na qual Medeiros é a protagonista: “Obras como Divã e Doidas e Santas, de Martha Medeiros, com suas crônicas conectadas com as experiências de mulheres da nossa geração, estavam entre as leituras com as quais nos identificávamos. Suas histórias e divagações sobre viagens, filhos, amores e trabalho pareciam escritas especialmente para nós. Todas tínhamos casos inspirados nos livros para contar e, muitas vezes, pouca disposição para ouvir. Era divertido, mas caótico.”
Clubes de leitura ganham atenção na mídia

Escrever sobre o Círculo Feminino de Leitura (CFL), experiência compartilhada com um grupo de amigas há 17 anos, foi minha maneira de inspirar mais pessoas a se juntar em nome dos livros, do prazer de viver e, principalmente, da amizade. Desde então, tenho tido retornos mais do que maravilhosos, como esta matéria do Viva, um canal dedicado ao público 50+ que traz assuntos aprofundados para este público, do qual também faço parte. Abaixo, um trecho da reportagem Clubes de leitura se ramificam e ganham força com benefícios para saúde, na qual sou uma das entrevistadas: “A proliferação dos clubes do livro e de leitura pelo país ganharam fôlego desde a pandemia, em 2020, quando as pessoas se viram restritas ao lar e os meios de comunicação e formas de trabalho se reconfiguraram. É sabido que a leitura estimula o cérebro a se adaptar e criar novas conexões. Já os clubes, por conceito, são locais onde se realizam reuniões de caráter recreativo, cultural, artístico, social, entre outros. (…) A experiência de entrar para um grupo de leitura, iniciada há mais de 15 anos, foi tão marcante e trouxe tantos benefícios para a jornalista Maura Campanili que precisou ser contada em livro. Em ‘Temos fome, somos loucas’, publicado pela Editora Pitanga em agosto, a jornalista e escritora revela como o Círculo Feminino de Leitura (CFL), integrado por 11 mulheres 50+, se transformou em uma excelente receita para o bem-estar. Segundo ela, aos poucos os encontros literários foram se transformando em rituais de amizade, escuta e liberdade. “Na época, os clubes de livro não eram comuns e tivemos que ir inventando nosso próprio jeito de nos reunir. Achávamos que o interesse poderia se perder com o tempo, mas aconteceu exatamente o contrário. Os encontros foram ganhando mais importância e profundidade”, explica. A experiência também revelou para a jornalista que ler em conjunto é muito mais do que trocar impressões sobre livros: é criar laços de confiança, resiliência e companheirismo. Ao longo do livro, Campanili relata como as leituras de A Menina da Montanha, de Tara Westover, ou Os Delírios de Consumo de Becky Bloom, de Sophie Kinsella, provocaram debates sobre identidade, extremismo e consumismo, assim como temas sociais e políticos que marcaram a vida brasileira nos últimos anos. De brinde, a autora ainda reúne uma lista com mais de 180 obras lidas pelo grupo e um guia prático para quem deseja criar seu próprio clube de leitura. Campanili afirma que ter esse grupo de amigas é libertador. “E, pelos livros, conseguimos também espaço para intimidade e reflexão. O resultado só pode ser bom”, conclui.”
Mata Doce

Mata Doce é um lugar no coração do Brasil, provavelmente nascido de um quilombo, onde em um tempo indefinido os donos da terra estão constantemente ameaçados pelo primeiro coronel branco que chegar. Onde a justiça oficial é tão improvável, que ninguém nem pensa em buscar. A alternativa é procurar um jeito de viver cada um com suas dores e, quem sabe, contar com o justiçamento de deus. Neste lugar presenteado pela escritora Luciany Aparecida, cachorros podem ser imortais, rosas brancas inundam o ambiente com seu perfume, mulheres podem ser um casal sem ser incomodadas, mesmo uma delas sendo uma travesti. Lá, uma noiva, cujo casamento não se concretizou por conta de um assassinato injustificável, pode ter três mães. E mesmo cercada de toda essa quantidade de amor materno, passar uma vida inteira de falta. Em Mata Doce, uma noiva banhada em sangue, escolhe passar o resto de sua existência nesta condição. Maria Teresa transforma-se em filinha mata-boi para aplacar sua raiva todos os sábados no matadouro de seu algoz, impondo a ele sua presença. Mas a noiva também é a datilógrafa que imortaliza em cartas histórias e sentimentos não ditos de personagens esquecidos do Brasil. Foi neste mundo ao mesmo tempo belo, amoroso, violento e triste que imergimos em nossa última reunião do Círculo Feminino de Leitura (CFL), algumas vestidas de noiva, outras de vaqueira, todas Maria Teresa/Filinha Mata Boi. Em um ambiente cercado de religiosidade e rosas, entramos na intimidade de cada morador de Mata Doce, sofremos suas dores, o iminente fim de sua comunidade, e escrevemos cartas: uma amiga datilografava enquanto outra ditava algo destinado a uma terceira de nós. Ao contrário das cartas do livro, repartimos nossos afetos lendo as mensagens no final.
A Boba da Corte

Mesmo vivendo há quase 30 anos na Zona Oeste de São Paulo, só fui descobrir que mangostão, longana e rambutã não são nomes de remédios, mas frutas exóticas, ao ler A Boba da Corte, da Tati Bernardi. Indicar o livro para o Círculo Feminino de Leitura (CFL) também fez com que eu fosse pela primeira vez ao Santa Luzia (um dos mercados chiques da elite paulistana), o lugar mais próximo onde poderia ser que encontrasse algumas delas. Só achei o rambutã, pois as demais, segundo me informou a funcionária atenciosa, não estão na época. Mas comprei outras frutas tão exóticas quanto (pelo menos para mim), para montar a mesa do nosso encontro do mês em minha casa. Escolhi o livro da autora paulistana porque me identifiquei com seu sentimento de inadequação entre seu bairro suburbano de origem e a rica e descolada Zona Oeste, onde passou a viver. Assim como Tati foi criada no Tatuapé, na Zona Leste, cresci em Santana, na Zona Norte, sonhando em atravessar a ponte e morar na região entre rios (Tietê e Pinheiros) onde acreditava viver pessoas mais parecidas comigo, o que fiz assim que tive oportunidade. Depois, por muito tempo, não conseguia traduzir o desconforto próprio de quem não se sente verdadeiramente pertencente ao lugar em que mora, mas nunca cheguei na tradução certeira da elite paulistana feita pela Boba da Corte de Bernardi. Achei que a conversa seria boa em nossa reunião, pois das dez mulheres do grupo atual, somente duas são naturais desta região que chamamos de “bolha”, termo que aprendi com meus filhos, já nascidos na Vila Madalena. Quase todas as demais, assim como eu, atravessaram a ponte. No caso delas, vindas da mesma Zona Leste de Tati Bernardi. Somente a Kátia sempre viveu no Tatuapé (e nunca cogitou sair de lá) e a Marli, passada a pandemia, resolveu voltar para sua Mooca natal e ficar perto da família. Tivemos discussões acaloradas como há tempos não tínhamos. Incrível como um livrinho de menos de 100 páginas e aparentemente despretensioso pode causar polêmica. Fico imaginando o que pensam as pessoas citadas no livro. Identificamos algumas, inclusive próximas. Admiro o despudor e coragem da autora, de quem sou fã há bastante tempo. Bernardi começa seu livro contando sobre uma festa que deu em seu apartamento na rua Maranhã, no bairro “diferenciado” de Higienópolis, e uma amiga vinda do Rio de Janeiro digitou errado o endereço no Uber e foi parar na Praça Maranhão, na Zona Leste. A amiga ligou desesperada, achando que corria risco de vida, sem saber que estava exatamente no lugar onde a anfitriã passou toda a infância e adolescência. A partir desse mote, Tati Bernardi mostra de forma irônica e divertida o comportamento às vezes ingênuo e mais vezes hipócrita dessa elite, sobretudo a progressista e culta, a qual passa a frequentar, querendo furar a bolha para pertencer a ela, mas também rejeitando muitos dos seus códigos. Um mundo feito de “qual o seu sobrenome”, “de quem você é parente”, “o que faz e onde trabalha” e “onde você estudou”. Um mundo feito de oriundos do Santa Cruz, Vera Cruz, Bandeirantes, Rio Branco, entre outros, hoje com filhos no Avenues e similares. Para alguém que se alfabetizou e cursou o fundamental entre as escolas Expedicionário Brasileiro e República da Bolívia, como eu, nunca é uma situação confortável… Difícil não pensar: como vim parar aqui? Como no livro, algumas de nós consideraram a personagem/autora um tanto vulgar e exagerada. Também não é fácil se ver como pertencente a uma bolha, tendo nascido nela ou não, mesmo sabendo que isso não tem a ver obrigatoriamente com possuir dinheiro, estudo e cultura. No final, por mais que generalizações possam ser engraçadas, cada experiência é única e a capacidade de rir se si mesma, uma bênção. Para nossa reunião de dois mundos, trouxe frutas exóticas e comidinhas personalizadas, mas também estrogonofe de camarão, balas sete belo e brigadeiros, como uma boa festa suburbana deve ter. Nossa presidenta Neise se vestiu de Boba da Corte e estava maravilhosa, mostrando que o diferente também pode ser chique. Desde que sejamos nós mesmas. Tivemos direito, ainda, há uma coleção de fotos dos lugares citados pela autora na Zona Leste, presente da Kátia, que conhecia tudinho.
Um teto todo delas: clubes do livro e pequenas revoluções

Ler em grupo pode ser muito mais do que dividir opiniões sobre leituras. Em um clube do livro, compartilham-se também experiências, afetos e transformações. No dia 3 de setembro, às 19h, as autoras Maura Campanili e Luciana Gerbovic estarão na Livraria da Vila da Rua Fradique Coutinho para uma conversa sobre essa atividade que, cada vez mais, vira tendência – principalmente entre mulheres que buscam um espaço de trocas intelectuais e afetivas reais. Será um bate-papo descontraído sobre suas vivências com clubes de leitura, os dois livros que nasceram dessas experiências e a força política e subjetiva da leitura coletiva. A conversa terá a mediação da crítica literária Patricia Ditolvo. Após as falas, as autoras farão breve sessão de autógrafos. Maura é escritora, jornalista e geógrafa, com mais de 30 anos de atuação em comunicação socioambiental. Trabalhou em organizações como a SOS Mata Atlântica e o Instituto Socioambiental, além de colaborar com diversas ONGs por meio do Núcleo de Conteúdos Ambientais (NUCA). É autora de Temos fome, somos loucas – como um clube do livro transformou a vida de um grupo de mulheres (Pitanga, 2025), que narra a trajetória de um grupo de leitoras que transformou dor em vínculo, e leitura em liberdade. Luciana é graduada em Comunicação Social e Direito. Advogada, mestre em Direito Civil e mediadora de clubes de leitura há mais 15 anos, em diversos espaços públicos e privados. Professora de leitura e escrita literárias e formadora de mediadores de clubes de leitura desde 2019. Coarticuladora do “Remição em Rede”, programa que implementa clubes de leitura e forma mediadores em penitenciárias, com fins de formação de leitores e remição de pena pela leitura. É sócia-diretora da Escrevedeira Centro Cultural Literário. Coautora do livro “Clubes de leitura: uma aposta nas pequenas revoluções” (Solisluna/Selo Emília, 2024) e autora do romance “A maior mentira do mundo” (Quelônio, 2024). Patricia é formada em Letras e mestra em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, é mediadora de conversas e clubes de leitura, e criadora do projeto Críticas Instantâneas Não Especializadas (@criticasinstantaneas). A conversa é gratuita e aberta ao público, com sessão de autógrafos ao final. Venham!!! 📍 SERVIÇO O quê: Bate-papo com Maura Campanili e Luciana Gerbovic, com mediação de Patricia DitolvoTema: Um teto todo delas: clubes do livro e pequenas revoluçõesQuando: Quarta-feira, 3 de setembro de 2025, às 19hOnde: Livraria da Vila da FradiqueRua Fradique Coutinho, 915 – Pinheiros, São Paulo – SPQuanto: Evento gratuitoLivros à venda no local, com sessão de autógrafos após a conversa
Encontro com o CFL Júnior

Quando resolvi escrever um livro sobre o Círculo Feminino de Leitura (CFL), um dos motivos era dividir uma experiência coletiva tão bacana e, quem sabe, inspirar outras pessoas a tentar fazer algo parecido. Antes mesmo do livro ser publicado, eu e mais duas mulheres do CFL tivemos a alegria de ver nossas filhas, tão amigas quanto nós, criar o CFL-Júnior, com suas próprias amigas. Depois do lançamento, mais uma boa surpresa: as meninas escolheram Temos Fome, Somos Loucas como livro do mês e nos convidaram a participar da reunião sobre o livro. Conversar com elas sobre o livro, encontros e amizade foi um momento único. O mais bonito foi ouvir que, mesmo próximas da história que conto – nossas filhas inclusive aparecem na narrativa em alguns momentos, as amigas ouvem sobre nosso grupo há anos -, ler o livro as fez nos ver de outra maneira. Deixamos de ser “as mães” para nos tornarmos mulheres, que têm vida própria, discutem entre si, se emocionam com as amigas e, ao mesmo tempo, continuamos meninas, como elas mesma se veem. Disseram ter compreendido que não existe o tal amadurecer que a tudo responde. E o peso de se tornar adulta diminuiu. Foi divertido repartirmos uma reunião cheia de cuidados na preparação, com direito às comidinhas feitas por cada uma, brindes, atividades e lembrancinhas. Apenas no figurino eu a Claudia demos demonstração de sermos veteranas: nos vestimos de lilás, como a capa do livro. Todas elas perceberam o detalhe ao chegar e comentaram que deveriam ter pensado nisso. Mais do que tudo, foi muito gratificante saber que conseguimos mostrar às nossas eternas meninas que é possível encontrar propósito e prazer em todos os aspectos da existência.
A palavra que resta

O livro de Stênio Gardel, a Palavra que Resta, é daquelas obras misteriosas: contam uma história triste, mas o encanto é tanto, que a alma termina leve. Talvez tenha sido esse encantamento que inundou nossa reunião do Círculo Feminino de Leitura (CFL) sobre o livro. Mesmo que algumas de nós passassem por momentos difíceis de saúde em suas famílias, conseguimos ter um encontro alegre e profundo, no qual a compaixão pelo sofrimento de Raimundo e sua dúvida de uma vida inteira sobre as palavras escritas por Cícero, que não conseguiu ler, se misturou com nossas próprias palavras não ditas. Em seu primeiro romance, o cearense Gardel conta a história de amor de dois rapazes que se separam após a descoberta do romance pelas famílias. Na falta de uma despedida, Cícero manda entregar uma carta a Raimundo, que a guarda ao longo dos anos sem conhecer seu conteúdo, porque não sabe ler e não quer dividir aquelas palavras com ninguém. Somente aos 71 anos, ele decide se alfabetizar para poder finalmente abrir a carta. Em uma mistura de narradores e tempos nem sempre identificáveis, acompanhamos Raimundo em seus muitos anos de ajudante de caminhoneiro, escondendo sua sexualidade, até o encontro como a travesti Suzzanný, que mudaria sua trajetória para uma vida de aceitação e realização como costureiro. Com A Palavra que Resta, o autor e a tradutora Bruna Dantas Lobato venceram o National Book, um dos principais prêmios literários dos Estados Unidos, na categoria melhor livro de literatura traduzido. Foram os primeiros brasileiros e os primeiros nomes em língua portuguesa a ganhar o prêmio. Na reunião preparada pela Wal, anfitriã do mês do CFL, trouxemos cartas seladas com palavras que conseguimos dizer em nossas vidas. A maior parte de nós as queimou, deixando-as ir, enquanto algumas preferiam guardá-las e, quem sabe, enviar algum dia ao destinatário… Trouxemos, ainda, objetos amuletos que, como a carta de Raimundo, levamos conosco ao longo dos anos. Achei emblemático apenas uma de nós levar cartas recebidas de amores antigos, enquanto as demais carregamos lembranças de familiares queridos, sobretudo mães e avós. Desenrolando um novelo de lã, dissemos umas às outras as palavras importantes que nos mantêm unidas por tanto tempo em uma rede de afeto e amizade. Palavras sempre disponíveis, para que nunca reste nada por dizer entre nós.