PaulistanaSP

Mesmo vivendo há quase 30 anos na Zona Oeste de São Paulo, só fui descobrir que mangostão, longana e rambutã não são nomes de remédios, mas frutas exóticas, ao ler A Boba da Corte, da Tati Bernardi. Indicar o livro para o Círculo Feminino de Leitura (CFL) também fez com que eu fosse pela primeira vez ao Santa Luzia (um dos mercados chiques da elite paulistana), o lugar mais próximo onde poderia ser que encontrasse algumas delas. Só achei o rambutã, pois as demais, segundo me informou a funcionária atenciosa, não estão na época. Mas comprei outras frutas tão exóticas quanto (pelo menos para mim), para montar a mesa do nosso encontro do mês em minha casa.

Escolhi o livro da autora paulistana porque me identifiquei com seu sentimento de inadequação entre seu bairro suburbano de origem e a rica e descolada Zona Oeste, onde passou a viver. Assim como Tati foi criada no Tatuapé, na Zona Leste, cresci em Santana, na Zona Norte, sonhando em atravessar a ponte e morar na região entre rios (Tietê e Pinheiros) onde acreditava viver pessoas mais parecidas comigo, o que fiz assim que tive oportunidade. Depois, por muito tempo, não conseguia traduzir o desconforto próprio de quem não se sente verdadeiramente pertencente ao lugar em que mora, mas nunca cheguei na tradução certeira da elite paulistana feita pela Boba da Corte de Bernardi.

Achei que a conversa seria boa em nossa reunião, pois das dez mulheres do grupo atual, somente duas são naturais desta região que chamamos de “bolha”, termo que aprendi com meus filhos, já nascidos na Vila Madalena. Quase todas as demais, assim como eu, atravessaram a ponte. No caso delas, vindas da mesma Zona Leste de Tati Bernardi. Somente a Kátia sempre viveu no Tatuapé (e nunca cogitou sair de lá) e a Marli, passada a pandemia, resolveu voltar para sua Mooca natal e ficar perto da família.

Tivemos discussões acaloradas como há tempos não tínhamos. Incrível como um livrinho de menos de 100 páginas e aparentemente despretensioso pode causar polêmica. Fico imaginando o que pensam as pessoas citadas no livro. Identificamos algumas, inclusive próximas. Admiro o despudor e coragem da autora, de quem sou fã há bastante tempo.

Bernardi começa seu livro contando sobre uma festa que deu em seu apartamento na rua Maranhã, no bairro “diferenciado” de Higienópolis, e uma amiga vinda do Rio de Janeiro digitou errado o endereço no Uber e foi parar na Praça Maranhão, na Zona Leste. A amiga ligou desesperada, achando que corria risco de vida, sem saber que estava exatamente no lugar onde a anfitriã passou toda a infância e adolescência.

A partir desse mote, Tati Bernardi mostra de forma irônica e divertida o comportamento às vezes ingênuo e mais vezes hipócrita dessa elite, sobretudo a progressista e culta, a qual passa a frequentar, querendo furar a bolha para pertencer a ela, mas também rejeitando muitos dos seus códigos. Um mundo feito de “qual o seu sobrenome”, “de quem você é parente”, “o que faz e onde trabalha” e “onde você estudou”.

Um mundo feito de oriundos do Santa Cruz, Vera Cruz, Bandeirantes, Rio Branco, entre outros, hoje com filhos no Avenues e similares. Para alguém que se alfabetizou e cursou o fundamental entre as escolas Expedicionário Brasileiro e República da Bolívia, como eu, nunca é uma situação confortável… Difícil não pensar: como vim parar aqui?

Como no livro, algumas de nós consideraram a personagem/autora um tanto vulgar e exagerada. Também não é fácil se ver como pertencente a uma bolha, tendo nascido nela ou não, mesmo sabendo que isso não tem a ver obrigatoriamente com possuir dinheiro, estudo e cultura. No final, por mais que generalizações possam ser engraçadas, cada experiência é única e a capacidade de rir se si mesma, uma bênção.

Para nossa reunião de dois mundos, trouxe frutas exóticas e comidinhas personalizadas, mas também estrogonofe de camarão, balas sete belo e brigadeiros, como uma boa festa suburbana deve ter. Nossa presidenta Neise se vestiu de Boba da Corte e estava maravilhosa, mostrando que o diferente também pode ser chique. Desde que sejamos nós mesmas. Tivemos direito, ainda, há uma coleção de fotos dos lugares citados pela autora na Zona Leste, presente da Kátia, que conhecia tudinho.

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