São Paulo e as livrarias

Livrarias em São Paulo tornaram-se locais de encontros e eventos. Praticamente todas elas contam com um café charmoso e são palco de lançamentos de todos os tipos, alguns apenas com autógrafos, outros com coquetéis ou mesas de conversas com autores e convidados. São oportunidades únicas de encontrar artistas e intelectuais que admiramos, ouvi-los e, por que não, tietar essas pessoas gratuitamente. É um privilégio paulistano não precisar esperar por bienais e feitas do livro para ter este contato. Sem contar os clubes do livro presentes em várias livrarias, nos quais é possível maximizar a experiência literária e fazer ótimas amizades. Algumas vezes, como no Dia Mundial do Livro, comemorado no dia 23 de abril, as livrarias se juntam e fazem eventos múltiplos. Neste ano, eu e minhas amigas fizemos uma peregrinação na nossa região (Tarde, Travessa e Bibla) e acompanhamos palestras, declamações e apresentações musicais, além de aproveitar o passeio entre elas para curtir o bairro. De quebra, aumentamos nossas pilhas de livros a serem lidos, porque ninguém é de ferro. Mas é um programa que também poderia ser feito sem nenhum gasto e ainda usufruindo de coquetéis, como havia na Livraria da Travessa. Buscar eventos literários em São Paulo podem nos levar, por exemplo, a locais não triviais, como o centro da cidade e um edifício nacionalmente icônico como o Copan, onde fica a livraria Megafauna, atualmente com uma filial no também emblemático Teatro Cultura Artística, com seu maravilhoso painel do Di Cavalcanti na fachada. Nesta terça-feira (28/4), estive na do Copan para o lançamento do livro Ser Escritor – Liberdade e Consciência na Criação Literária (Companhia das Letras), do escritor Roberto Taddei. Quem estava lá pôde acompanhar uma conversa sobre o fazer literário com Taddei e a também romancista Isabela Noronha, ambos professores do curso de pós-graduação de Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz, que inspirou o escritor neste novo livro. Visitar livrarias é uma experiência tão paulistana que existe um mapa das Livrarias de Rua de São Paulo (https://livrariasderuasp.com.br/img/pdf/mapa-livrarias-sp-completo.pdf) para amantes dos livros ou novatos se apaixonarem. O mapa é tão bonito que meu filho e minha nora fizeram um quadro para a casa deles. Está aí mais uma ótima ideia para leitores e passeadores paulistanos.
Almoço com o estádio aos pés

Assisti a inúmeros shows e vários jogos de futebol no Allianz Parque, mas confesso que não sou fã de naming rights, gostava mais de Estádio do Palmeiras ou Palestra Itália, até porque agora dizem que o patrocinador vai mudar e o nome também. Mais uma bizarrice do capitalismo. Mas não era sobre isso que queria falar. Hoje aproveitamos que queríamos comprar ingressos para um show e almoçamos em um dos dois restaurantes do estádio, o Nagairô Sushi, e achei muito bacana ver o campo de futebol vazio, sem evento nenhum. Parece que ficar maior, grandioso, dá para olhar e imaginar o preparo físico que jogadoras e jogadores precisam ter para correr em uma arena daquele tamanho por mais de uma hora e meia. Para quem gosta de visitar estádios quando viaja, é um ótimo programa, mesmo se morar em São Paulo. Na saída, ainda demos sorte, estavam limpando os camarotes e as moças nos deixaram entrar para conhecer alguns, de vários tamanhos. Soube que os dois restaurantes (o outro se chama Braza Gastronomia e é bem chique) abrem nos jogos de futebol. Dá para assistir às partidas enquanto se janta ou, se preferir, os restaurantes possuem cadeiras reservadas do lado de fora, como nos camarotes. Mas é bem caro.
Nostalgia no Conjunto Nacional

Estava curiosa para conhecer a Galeria Magalu no Conjunto Nacional. Não pela loja, mas por sua localização, no lugar onde ficava a Livraria Cultura. Fazia tempo que não entrava lá. Durante a curta ressureição da Cultura, o espaço ficou meio caído e não animava a visita. Mas são muitas as boas lembranças da primeira megalivraria de São Paulo, seu café sempre lotado, a enorme fila do caixa, até a dificuldade de achar um vendedor para ajudar a procurar um livro me dá saudade. E os lançamentos de livros, alguns dobrando quarteirão. Lancei mais de um por lá, inclusive o Almanaque Brasil Socioambiental, do ISA, com uma superfesta, e o Século da Escassez, com a Maru Whately. Quando entrei na Galeria Magalu, até achei bonitinha, a presença dos eletrônicos me lembrou vagamente a Fnac (a outra megalivraria por onde passava quase todos os finais de semana). Mas tem ainda eletrodomésticos, cosméticos, sapatos e até livros, em uma pequena parte destinada à Estante Virtual. A proposta até é boa, imagina se o espaço tivesse se tornado supermercado, como a outra parte da Cultura, do outro lado do corredor. Mas topar com o icônico dragão, mantido da loja original, atrás de um Superman mexeu comigo. Lembro de ficar maravilhada ao visitar a Cultura pela primeira vez após a grande reforma, quando a livraria incorporou o cinema e ficou realmente grandiosa. Pelo menos mantiveram o teatro, agora com naming rights (direitos de nome) do Youtube. Tiveram o bom-gosto de deixar o antigo nome, Eva Herz, na porta.
Dia da Água deveria ser feriado

Se tem uma data que deveria ser feriado é o Dia Mundial da Água (23 de março). Não estou sugerindo a criação de mais um feriado nacional – embora não tenha nada contra… -, apenas gostaria que se desse a devida importância ao tema. Vivo em uma cidade onde perdemos quase totalmente o vínculo com ela, nossos rios estão poluídos, cercados de carros ou enterrados, na maior parte, para os mesmos carros passarem. Nossa água vem encanada e privatizada, ou seja, serve ao lucro de poucos, que podem decidir quem recebe e quando. E no país que concentra mais de 12% das águas doces superficiais do planeta, com rios sensacionais como o Amazonas, Tocantins, São Francisco e Paraná, entre milhares de outros, é desalentador pensar que 6,6 milhões de domicílios não recebem água regularmente, que 32 milhões de brasileiros (mais de 15% da população) não têm acesso a água tratada e 91,3 milhões não têm esgotamento sanitário. Ou seja, os dejetos vão direto para os rios e o oceano. Pensar que comecei minha caminhada de ativista ambiental nos anos 1980 pedindo a despoluição do rio Tietê, que continua cortando São Paulo emporcalhado, é bem triste. Sempre faltam recursos para o saneamento ambiental por aqui. Tudo avança lentamente, enquanto a poluição e as mudanças climáticas estão gritando que não há mais tempo para firula, é preciso agir. E, quando opino contra a privatização da água, sempre há dados a me deixar mais indignada. Vi um levantamento da Agência Pública de que 50 empresas tem o direito de utilizar 5,2 trilhões de litros de água anualmente, quantidade suficiente para abastecer quase 50% da população brasileira no mesmo período. São empresas do agronegócio, sulcroalcooleiras, de papel e celulose, principalmente, que usam a água sem pagar. Ou seja, ela é privatizada só para a população. A situação é grave, mas há soluções. O Instituto Água e Saneamento (IAS) acaba de completar a série de publicações que abordam os desafios e apresentam soluções para o saneamento básico a partir da crise climática. São quatro volumes, dos quais participei da produção de três: Adapação e Saneamento, Chuvas e Águas Urbanas, Água de Beber e Água, Esgoto e Higiene (WASH). Os conteúdos incluem temas como drenagem urbana, manejo das águas pluviais, garantia de água potável, além das relações entre saneamento, dignidade humana e saúde pública. Estão disponíveis para download no site do IAS.
A luta contra os dinossauros do Antropoceno

Aprendi na série Os Dinossauros, na Netflix, que as árvores ficaram cada vez mais altas no período Jurássico para poderem sobreviver à fome dos dinossauros, cujos pescoços aumentavam quase na mesma proporção. Imagino que, se não fosse esse quase, teriam acabado as árvores e os dinossauros sem precisar de asteroide. Em São Paulo, os prédios sofrem o mesmo fenômeno: crescem aos céus no ritmo da fome das incorporadoras que dominam território. Meu medo é chegarmos ao ponto de dependermos de um cometa descontrolado para salvar a cidade. Fico imaginando os documentários das espécies que nos sucederão, contando a história de uma megalópole que começou com pequenas ocas indígenas ao redor de seus rios. As ocas, presentes há milênios, não sobreviveram à competição com as novas edificações, que começaram em taipa de pilão e foram “evoluindo” até os poderosos concreto armado, aço e vidro. As condições favoráveis, feitas a partir de armas, violência e capitalismo selvagem, fizeram a cidade crescer inicialmente na horizontal. Quando se achava que o crescimento populacional avassalador pelo qual passou no século XX arrefecia e a urbanização finalmente traria beleza e qualidade de vida aos moradores, eis que a especulação imobiliária reagiu. Tal qual um Tyrannosaurus rex, o ser mais temido do Jurássico, a especulação imobiliária do Antropoceno decidiu que tudo o que havia sido construído até então seria substituído, não tinha valor. Passou a comer tudo o que via pela frente e a transformar o que já era uma paisagem hostil em apocalipse, sem sol, sem respiro, sem história. Na selva de pedra, porém, nem sempre são os mais fortes que vencem. Ainda na série sobre os dinos, vi que os esses seres majestosos surgiram como inofensivos animaizinhos, parecidos com uma galinha bem pequena. No entanto, na briga com os poderosos répteis gigantes, se mostraram mais adaptados aos desafios que a Terra de então colocava aos seus habitantes, e depois puderam evoluir e dominá-la. Ainda não sei o final do documentário do futuro, apenas torço para ser menos catastrófico.
Metrô ao lado de casa é sonho de paulistana ingênua

Fui surpreendida, no início deste ano, com equipamentos e equipes do Metrô circulando aqui por perto de casa, na Vila Madalena. Achei estranho, pois já temos metrô por aqui, a Estação Vila Madalena, da linha Verde, a menos de um quilômetro de distância, pouco para os padrões paulistanos. Mas eis que o burburinho no bairro começou e recebi um abaixo assinado contra a construção de uma Estação Girassol, da futura Linha 20-Rosa, planejada para conectar a Lapa (Zona Oeste) ao ABC Paulista (Santo André/São Bernardo), com cerca de 32,6 km e 24 estações. A dita Estação Girassol ficaria a um quarteirão do meu prédio e possível de ser vista da janela (está na foto). Minha primeira reação foi achar que abaixo assinado contra metrô é coisa de “gente diferenciada”, como já vimos acontecer em Higienópolis, por exemplo. Em um mundo ideal, seria maravilhoso ter uma estação de metrô tão pertinho. Apesar de próxima, preciso enfrentar ladeiras e um escadão para chegar à Estação Vila Madalena. Não é o melhor dos mundos. Apesar de não concordar com todos os argumentos dos proponentes do movimento – a Vila Madalena já é gentrificada e não é mais o bairro residencial para o qual me mudei há quase 30 anos –, há razões para os moradores nos preocuparmos com o projeto. Entre os argumentos do abaixo assinado, estão a especulação imobiliária e a construção de prédios altíssimos, como prevê o Plano Diretor para um raio de 700 metros a partir das estações de metrô. No final da rua Harmonia, onde moro, por exemplo, não existe mais casas ou sol, foi tudo ocupado por apartamentos de preços exorbitantes, parte deles enormes e destinados a milionários e parte minúsculos, os quais acredito serem destinados a aluguéis temporários (precisa ser muito trouxa para pagar quase R$ 1 milhão para viver em menos de 30 metros quadrados). Apenas o interesse privado em expandir esse raio construtivo para a parte central do bairro justifica o atual traçado. Segundo o abaixo assinado (e as matérias mais antigas sobre esse projeto), as estações eram programadas para locais com avenidas mais largas, como a Pedroso de Moraes e a São Gualter, onde, aliás, a especulação imobiliária já chegou com tudo e mais um pouco. Apesar dessa luta inglória contra a especulação e a descaracterização de São Paulo ser uma causa que me mobiliza (vou voltar a este assunto brevemente), obras do metrô me fazem tremer também por outro motivo: a obra em si. Segundo informações do Metrô, a Linha Rosa tem previsão de início de obras em 2028 e começo de operações em 2035. Como é tradição neste tipo de projeto, esta última data é conto da carochinha. Quem mora nas redondezas da construção da Linha 6-Laranja, em Higienópolis, Perdizes e Pompeia, que o diga. As obras próximas ao Estádio do Pacaembu começaram há dez anos e fico imaginando a tristeza dos donos das casas ao redor. A tradição na cidade é anunciar e inaugurar obras umas mil vezes, de preferência em ano eleitoral, até que as estações sejam efetivamente postas em operação, bem aos pouquinhos, estação por estação, em incontáveis eleições. Não sei como funciona este zoneamento de exceção perto de estações de metrô, mas se o início das obras já liberar geral, pra que mesmo precisa de pressa na construção da linha? Quem sabe meus futuros netinhos se beneficiem da nova estação.
Feira Radar expõe arte em palacete tombado

São Paulo é uma cidade às vezes hostil, mas oferece chances únicas que, aproveitadas, fazem valer a pena os perrengues enfrentados no dia a dia. Normalmente, essas oportunidades vêm na forma de um passeio muito bacana, difícil de encontrar em outros locais, principalmente sem pagar nada. Nesta semana, estive na Feira Radar de Arte Contemporânea, que acontece até o próximo sábado (7/3), no Palacete Sthal, um casarão centenário tombado pelo CONDEPHAAT, na rua Piauí, 874, em Higienópolis. Conhecer a construção de 1.700 m2 de estilo eclético com influências francesas (Luís XVI) e um jardim de influência japonesa, já valeria a visita. Mas passar por todos os seus cômodos, incluindo os jardins e até os banheiros, inundados de obras de 60 artistas, é espetacular. E todas as obras expostas estão à venda, com trabalhos a partir de R$ 400,00. Mesmo para quem não é entendido nem colecionador de arte, como é o meu caso, ter contato com as obras é um prazer estético. Não sei se foi por conta de ter ido na abertura, mas também tive a oportunidade de conhecer diversos dos artistas e conversar sobre seus trabalhos. Dá ainda para imaginar como era viver em um palacete como aquele. Construído para o cônsul sueco, comendador Gustav Stahl, no início dos anos 1920, foi propriedade do Japão de 1940 a 2007, abrigando o consulado e sendo local de um sequestro diplomático em 1970 (informação da internet). Esta é a quinta edição da Radar, idealizada pelas artistas Daniela Schiller, Flavia Renault e Mariana Porto (que faleceu no ano passado) para incentivar o mercado de arte contemporânea. A entrada é gratuita e está aberta entre 11 e 20h30.
Terra Dentro no parque

Algumas vidas são destinadas à tragédia. É esse o caso dos irmãos Rita, Mirna e Mosquito, de Terra Dentro, de Vanessa Vascouto, livro do mês do Círculo Feminino de Leitura (CFL). Nesse pequeno romance (com menos de 100 páginas), feito para ser lido de um fôlego só, a autora dá voz aos três irmãos, que narram, cada um à sua maneira, a vida da família num pedaço de chão que não era deles e com a fatalidade como destino. Para conversar sobre a obra, ao mesmo tempo triste e bela, nos reunimos no Parque da Água Branca em uma tarde ensolarada, para um piquenique, no qual reverenciamos a rica linguagem presenteada por Vascouto, sempre poética, mas respeitosa das versões e personalidades de seus narradores, cada um se dirigindo a um interlocutor diferente. Na obra, acompanhamos como os acontecimentos impactam cada um dos irmãos de maneiras diferentes, suas reações e sentimentos. Impossível não ter empatia por cada um deles. É a história da Rita que amava o Maridinho, do Mosquito que amava a Rosa e da Mirna que escolheu não amar ninguém. História de amor e luto, inclusive por si mesmo e por quem não conta porque não veio. Luto vivido por Rita por meio dos cata-ventos que fazia: “Melhor cata-vento no lugar das flores que não morrem e são mais lindos. Da última vez, uma mulher veio falar comigo no cemitério, perguntar porque eu levava os cata-ventos e não as flores. Eu disse que era pra soprarem a alma do meu Maridinho mais pra longe pra ele não remorrer de desgosto naquele lugar”. A leveza dos cata-ventos também embalou nossas conversas no parque, um espaço coletivo feito para fruição, mas atualmente ameaçado pela sanha privatista dominante. Dóris, nossa membra vizinha do Água Branca e árdua defensora desta tradicional área verde paulistana, trouxe para a ocasião uma toalha-manifesto confeccionada para o grupo @amoraperdizes para lembrar a importância do lugar. Nós, que amamos os livros e a natureza, saímos revigoradas de lá.
Paz e sustentabilidade por meio da espiritualidade

Mais uma vez no Brasil, desta vez para participar da COP30, em Belém, a líder espiritual indiana Jayanti Kirpalani fará uma palestra no Sesc Santana, em São Paulo, no dia 27 de novembro, com o tema “Fazendo escolhas que cuidam de nós mesmos e do planeta”. Na ocasião, ela será entrevistada pela jornalista Darlene Menconi, produtora de conteúdo sobre resiliência climática e pesquisadora em cidades inteligentes e sustentáveis. Diretora administrativa adjunta da Brahma Kumaris (BK), maior organização espiritual do mundo liderada por mulheres, Sister Jayanti, como é conhecida, esteve no país em 2019, quando a entrevistei para o blog Mulheres Ativistas, do portal Conexão Planeta. Líder espiritual e professora há mais de 50 anos, é pioneira na defesa do cuidado com a terra a partir de uma base espiritual. Para ela, o materialismo e o consumismo afastaram o ser humano da natureza, que passou de lugar sagrado em todas as culturas, para algo a ser explorado. O resultado mais visível atualmente são as mudanças climáticas causadas por esse estilo de vida. Representante da Brahma Kumaris na Organização das Nações Unidas (ONU) desde 1982 e nas conferências anuais do clima desde 2009, a indiana procura inserir princípios espirituais nas mesas de discussão de políticos, economistas, líderes empresariais e cientistas. Veja a entrevista em https://conexaoplaneta.com.br/blog/jayanti-kirpalani-paz-e-sustentabilidade-por-meio-da-espiritualidade/ ou abaixo. A palestra no Sesc Santana começa às 19 horas de sexta-feira. A entrada franca, mas é necessário retirar ingresso pelo link https://www.sescsp.org.br/programacao/fazendo-escolhas-que-cuidam-de-nos-mesmos-e-do-planeta/ ou no dia do evento no local, a partir das 18 horas. – Como foi o seu despertar para a espiritualidade? Embora não tenha perdido meu contato com a Índia, onde ia com a família para passar férias desde nossa mudança para a Inglaterra, aos 19 anos, em 1968, resolvi passar mais tempo no país, conhecer mais sobre nossa cultura. Minha mãe já tinha contato com a Brahma Kumaris e procurei um dos seus centros de meditação atrás de algo que me ajudasse a tomar melhores decisões na vida. Passei seis meses estudando e buscando meu desenvolvimento pessoal. Lá, encontrei o fundador da organização, Brahma Baba, que me perguntou o que eu queria dizer ao mundo. Naquele momento, soube que minha vontade era ser uma professora espiritual e inspirar pessoas. E essa foi minha jornada. Em janeiro de 1969, Baba faleceu e foi um momento de virada para a organização, quando duas mulheres passaram a ser as dirigentes. Isso foi possível porque, desde que a Brahma Kumaris foi criada, em 1937, existia a visão clara que, se quiséssemos um mundo de paz, precisávamos de igualdade entre os gêneros. Por isso, sempre houve treinamento de mulheres, como os que participei, para ser líderes. Essa postura era revolucionária na época na Índia e no mundo todo. – Você foi a primeira pessoa a levar a Brahma Kumaris para fora da Índia? Sim. Em 1969, voltei para Londres pensando em iniciar as atividades da organização para a Europa. Passei dois anos fazendo contatos com várias organizações até que, em 1971, uma delegação da Brahma Kumaris foi até lá para apresentar sua filosofia para a comunidade ocidental e fundamos o primeiro Centro de Meditação fora da Índia. Em 1981, estávamos em 30 países com nossa filosofia de paz individual e mundial. Em 1986, quando coordenávamos atividades do Ano Internacional da Paz, da ONU, criamos em Londres o primeiro escritório internacional, do qual sou dirigente, para agilizar a comunicação entre os países. Hoje, estamos em todos os continentes. – Qual a afinidade entre a Brahma Kumaris e a ONU? Somos filiados à ONU como uma organização não-governamental. Nosso propósito é a paz, o que também é a meta das Nações Unidas, por isso estamos conectados. Um ano antes do Ano Internacional da Paz, em 1985, houve o Festival Live Aid, para arredar recursos para a combater a fome na África. Vimos que as pessoas queriam doar mais do que dinheiro. Queríamos pedir algo mais valioso e as convidamos a doar tempo, minutos para orar, meditar ou ter pensamentos puros pela paz. Uma escola que decidisse dedicar três minutos de uma assembleia com mil alunos para isso, representaria três mil minutos de pensamento pela paz. O Projeto Mensageiro da Paz surgiu daí. Era uma técnica simples para tornar as pessoas perceptivas de que podem fazer algo pela paz no mundo. A meta era que começassem a ter pensamentos pacíficos para experimentar a paz que existe em cada ser humano e iniciassem uma jornada em direção à paz. Chegamos a bilhões de minutos pela causa, em 60 países diferentes. Com esse projeto ganhamos vários reconhecimentos da ONU e fomos considerados a entidade sem fins lucrativos que mais atuou pela causa naquele ano. A partir dali, passamos a desenvolver vários programas junto à ONU para mulheres, idosos, saúde, desenvolvimento sustentável. Nos últimos anos, estamos conectados com o tema de mudanças climáticas. – A campanha pela paz teve continuidade? A ONU se interessou pelo nosso trabalho e pediu que continuássemos com ele, o que resultou no Projeto de Cooperação Global por um Mundo Melhor, que durou de 1988 a 1991 e chegou a reunir 128 países. Nele, perguntávamos para as pessoas: qual a sua visão para um mundo melhor? Como vê os relacionamentos nesse mundo? Como se vê nele? Quais os passos práticos que você pode dar para tornar esse mundo melhor uma realidade? Cada um podia fazer o que quisesse. Por exemplo, uma família na Grécia tomou a decisão de pegar um cômodo da casa para ser uma zona livre de queixas. Engraxates mirins do Brasil, que brigavam muito entre eles, resolveram que iriam cooperar, emprestando seus equipamentos, como escovas, uns aos outros. – Por que a Brahma Kumaris se envolveu tão fortemente com as mudanças climáticas? Trabalhamos junto à ONU com o propósito de mostrar que existe uma dimensão espiritual em todas as pessoas. Mas a consciência humana criou uma forma materialista de viver. Nos tornamos uma sociedade consumista. Materialismo e consumismo nos distanciam da natureza. A espiritualidade nos lembra que a natureza é algo sagrado, por isso é
Pedestres, se virem!

Dirigia meu carro hoje pela manhã quando uma senhorinha de bengala apareceu vindo em minha direção subindo a ladeira pelo meio da rua. Meu primeiro pensamento foi se a mulher estava querendo que alguém fizesse um strike nela. Mas parei o carro, aguardei a passagem do veículo que subia na mão contrária e passei ao lado dela. Logo depois, olhei pelo retrovisor e a vi chegar ao ponto de ônibus e se sentar no banquinho. Automaticamente, desviei o olhar para a calçada ao lado e me deparei com uma trilha estreita, formada por degraus irregulares e tortos, esburacada, com postes e árvores com raízes aparentes no caminho. Se aquela ladeira seria desanimadora para mim, imagine para alguém que depende de uma bengala. Carrinho de bebê ou cadeira de rodas, então, não teriam a mínima viabilidade. Mirei a rua asfaltada onde trafegava e, por pior que seja o asfalto paulistano, era uma via regular, recém-recapeada (para as eleições do ano passado), sem obstáculos que não fossem as lombadas feitas para que os automóveis, construídos para andar a até mais de 200 km/h, não se empolguem demais. Apesar de estreitas para a passagem de ônibus e caminhões, as ruas do meu bairro permitem estacionamento nos dois lados, o que só não acontece em entradas de garagem (mais uma vez para os carros) e para a privatização das ruas pelos restaurantes, que aumentam sua área para além da calçada, dificultando ainda mais a vida do pedestre, que ainda precisa desviar de garçons, pessoas esperando lugar e, às vezes, mesas e cadeiras. É comum ver pedestres andando pelo meio da rua para além dos puxadinhos dos bares. Pensei, então, nas ciclovias, que pegam parte de algumas ruas da redondeza e, aí sim, o estacionamento é proibido. Sou muito a favor das ciclovias, mas muitas delas são usadas por pedestres – pelos mesmos motivos da senhora de bengala – também expostos ao perigo. Mais do que as ladeiras, acredito que a preferência para usar o carro até para micropercursos, como ir à padaria na esquina, para quem pode, é a falta de calçadas minimamente decentes. Fico imaginando em que momento nos perdemos da civilidade para achar que pedestres não importam? Será que um dia isso vai mudar?