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PaulistanaSP

Metrô ao lado de casa é sonho de paulistana ingênua

Fui surpreendida, no início deste ano, com equipamentos e equipes do Metrô circulando aqui por perto de casa, na Vila Madalena. Achei estranho, pois já temos metrô por aqui, a Estação Vila Madalena, da linha Verde, a menos de um quilômetro de distância, pouco para os padrões paulistanos. Mas eis que o burburinho no bairro começou e recebi um abaixo assinado contra a construção de uma Estação Girassol, da futura Linha 20-Rosa, planejada para conectar a Lapa (Zona Oeste) ao ABC Paulista (Santo André/São Bernardo), com cerca de 32,6 km e 24 estações. A dita Estação Girassol ficaria a um quarteirão do meu prédio e possível de ser vista da janela (está na foto). Minha primeira reação foi achar que abaixo assinado contra metrô é coisa de “gente diferenciada”, como já vimos acontecer em Higienópolis, por exemplo. Em um mundo ideal, seria maravilhoso ter uma estação de metrô tão pertinho. Apesar de próxima, preciso enfrentar ladeiras e um escadão para chegar à Estação Vila Madalena. Não é o melhor dos mundos. Apesar de não concordar com todos os argumentos dos proponentes do movimento – a Vila Madalena já é gentrificada e não é mais o bairro residencial para o qual me mudei há quase 30 anos –, há razões para os moradores nos preocuparmos com o projeto. Entre os argumentos do abaixo assinado, estão a especulação imobiliária e a construção de prédios altíssimos, como prevê o Plano Diretor para um raio de 700 metros a partir das estações de metrô. No final da rua Harmonia, onde moro, por exemplo, não existe mais casas ou sol, foi tudo ocupado por apartamentos de preços exorbitantes, parte deles enormes e destinados a milionários e parte minúsculos, os quais acredito serem destinados a aluguéis temporários (precisa ser muito trouxa para pagar quase R$ 1 milhão para viver em menos de 30 metros quadrados). Apenas o interesse privado em expandir esse raio construtivo para a parte central do bairro justifica o atual traçado. Segundo o abaixo assinado (e as matérias mais antigas sobre esse projeto), as estações eram programadas para locais com avenidas mais largas, como a Pedroso de Moraes e a São Gualter, onde, aliás, a especulação imobiliária já chegou com tudo e mais um pouco. Apesar dessa luta inglória contra a especulação e a descaracterização de São Paulo ser uma causa que me mobiliza (vou voltar a este assunto brevemente), obras do metrô me fazem tremer também por outro motivo: a obra em si. Segundo informações do Metrô, a Linha Rosa tem previsão de início de obras em 2028 e começo de operações em 2035. Como é tradição neste tipo de projeto, esta última data é conto da carochinha. Quem mora nas redondezas da construção da Linha 6-Laranja, em Higienópolis, Perdizes e Pompeia, que o diga. As obras próximas ao Estádio do Pacaembu começaram há dez anos e fico imaginando a tristeza dos donos das casas ao redor. A tradição na cidade é anunciar e inaugurar obras umas mil vezes, de preferência em ano eleitoral, até que as estações sejam efetivamente postas em operação, bem aos pouquinhos, estação por estação, em incontáveis eleições. Não sei como funciona este zoneamento de exceção perto de estações de metrô, mas se o início das obras já liberar geral, pra que mesmo precisa de pressa na construção da linha? Quem sabe meus futuros netinhos se beneficiem da nova estação.

Feira Radar expõe arte em palacete tombado

São Paulo é uma cidade às vezes hostil, mas oferece chances únicas que, aproveitadas, fazem valer a pena os perrengues enfrentados no dia a dia. Normalmente, essas oportunidades vêm na forma de um passeio muito bacana, difícil de encontrar em outros locais, principalmente sem pagar nada. Nesta semana, estive na Feira Radar de Arte Contemporânea, que acontece até o próximo sábado (7/3), no Palacete Sthal, um casarão centenário tombado pelo CONDEPHAAT, na rua Piauí, 874, em Higienópolis. Conhecer a construção de 1.700 m2 de estilo eclético com influências francesas (Luís XVI) e um jardim de influência japonesa, já valeria a visita. Mas passar por todos os seus cômodos, incluindo os jardins e até os banheiros, inundados de obras de 60 artistas, é espetacular. E todas as obras expostas estão à venda, com trabalhos a partir de R$ 400,00. Mesmo para quem não é entendido nem colecionador de arte, como é o meu caso, ter contato com as obras é um prazer estético. Não sei se foi por conta de ter ido na abertura, mas também tive a oportunidade de conhecer diversos dos artistas e conversar sobre seus trabalhos. Dá ainda para imaginar como era viver em um palacete como aquele. Construído para o cônsul sueco, comendador Gustav Stahl, no início dos anos 1920, foi propriedade do Japão de 1940 a 2007, abrigando o consulado e sendo local de um sequestro diplomático em 1970 (informação da internet). Esta é a quinta edição da Radar, idealizada pelas artistas Daniela Schiller, Flavia Renault e Mariana Porto (que faleceu no ano passado) para incentivar o mercado de arte contemporânea. A entrada é gratuita e está aberta entre 11 e 20h30.

Terra Dentro no parque

Algumas vidas são destinadas à tragédia. É esse o caso dos irmãos Rita, Mirna e Mosquito, de Terra Dentro, de Vanessa Vascouto, livro do mês do Círculo Feminino de Leitura (CFL). Nesse pequeno romance (com menos de 100 páginas), feito para ser lido de um fôlego só, a autora dá voz aos três irmãos, que narram, cada um à sua maneira, a vida da família num pedaço de chão que não era deles e com a fatalidade como destino. Para conversar sobre a obra, ao mesmo tempo triste e bela, nos reunimos no Parque da Água Branca em uma tarde ensolarada, para um piquenique, no qual reverenciamos a rica linguagem presenteada por Vascouto, sempre poética, mas respeitosa das versões e personalidades de seus narradores, cada um se dirigindo a um interlocutor diferente. Na obra, acompanhamos como os acontecimentos impactam cada um dos irmãos de maneiras diferentes, suas reações e sentimentos. Impossível não ter empatia por cada um deles. É a história da Rita que amava o Maridinho, do Mosquito que amava a Rosa e da Mirna que escolheu não amar ninguém. História de amor e luto, inclusive por si mesmo e por quem não conta porque não veio. Luto vivido por Rita por meio dos cata-ventos que fazia: “Melhor cata-vento no lugar das flores que não morrem e são mais lindos. Da última vez, uma mulher veio falar comigo no cemitério, perguntar porque eu levava os cata-ventos e não as flores. Eu disse que era pra soprarem a alma do meu Maridinho mais pra longe pra ele não remorrer de desgosto naquele lugar”. A leveza dos cata-ventos também embalou nossas conversas no parque, um espaço coletivo feito para fruição, mas atualmente ameaçado pela sanha privatista dominante. Dóris, nossa membra vizinha do Água Branca e árdua defensora desta tradicional área verde paulistana, trouxe para a ocasião uma toalha-manifesto confeccionada para o grupo @amoraperdizes para lembrar a importância do lugar. Nós, que amamos os livros e a natureza, saímos revigoradas de lá.

Paz e sustentabilidade por meio da espiritualidade

Mais uma vez no Brasil, desta vez para participar da COP30, em Belém, a líder espiritual indiana Jayanti Kirpalani fará uma palestra no Sesc Santana, em São Paulo, no dia 27 de novembro, com o tema “Fazendo escolhas que cuidam de nós mesmos e do planeta”. Na ocasião, ela será entrevistada pela jornalista Darlene Menconi, produtora de conteúdo sobre resiliência climática e pesquisadora em cidades inteligentes e sustentáveis. Diretora administrativa adjunta da Brahma Kumaris (BK), maior organização espiritual do mundo liderada por mulheres, Sister Jayanti, como é conhecida, esteve no país em 2019, quando a entrevistei para o blog Mulheres Ativistas, do portal Conexão Planeta. Líder espiritual e professora há mais de 50 anos, é pioneira na defesa do cuidado com a terra a partir de uma base espiritual. Para ela, o materialismo e o consumismo afastaram o ser humano da natureza, que passou de lugar sagrado em todas as culturas, para algo a ser explorado. O resultado mais visível atualmente são as mudanças climáticas causadas por esse estilo de vida. Representante da Brahma Kumaris na Organização das Nações Unidas (ONU) desde 1982 e nas conferências anuais do clima desde 2009, a indiana procura inserir princípios espirituais nas mesas de discussão de políticos, economistas, líderes empresariais e cientistas. Veja a entrevista em https://conexaoplaneta.com.br/blog/jayanti-kirpalani-paz-e-sustentabilidade-por-meio-da-espiritualidade/ ou abaixo. A palestra no Sesc Santana começa às 19 horas de sexta-feira. A entrada franca, mas é necessário retirar ingresso pelo link https://www.sescsp.org.br/programacao/fazendo-escolhas-que-cuidam-de-nos-mesmos-e-do-planeta/ ou no dia do evento no local, a partir das 18 horas. – Como foi o seu despertar para a espiritualidade? Embora não tenha perdido meu contato com a Índia, onde ia com a família para passar férias desde nossa mudança para a Inglaterra, aos 19 anos, em 1968, resolvi passar mais tempo no país, conhecer mais sobre nossa cultura. Minha mãe já tinha contato com a Brahma Kumaris e procurei um dos seus centros de meditação atrás de algo que me ajudasse a tomar melhores decisões na vida. Passei seis meses estudando e buscando meu desenvolvimento pessoal. Lá, encontrei o fundador da organização, Brahma Baba, que me perguntou o que eu queria dizer ao mundo. Naquele momento, soube que minha vontade era ser uma professora espiritual e inspirar pessoas. E essa foi minha jornada. Em janeiro de 1969, Baba faleceu e foi um momento de virada para a organização, quando duas mulheres passaram a ser as dirigentes. Isso foi possível porque, desde que a Brahma Kumaris foi criada, em 1937, existia a visão clara que, se quiséssemos um mundo de paz, precisávamos de igualdade entre os gêneros. Por isso, sempre houve treinamento de mulheres, como os que participei, para ser líderes. Essa postura era revolucionária na época na Índia e no mundo todo. – Você foi a primeira pessoa a levar a Brahma Kumaris para fora da Índia? Sim. Em 1969, voltei para Londres pensando em iniciar as atividades da organização para a Europa. Passei dois anos fazendo contatos com várias organizações até que, em 1971, uma delegação da Brahma Kumaris foi até lá para apresentar sua filosofia para a comunidade ocidental e fundamos o primeiro Centro de Meditação fora da Índia. Em 1981, estávamos em 30 países com nossa filosofia de paz individual e mundial. Em 1986, quando coordenávamos atividades do Ano Internacional da Paz, da ONU, criamos em Londres o primeiro escritório internacional, do qual sou dirigente, para agilizar a comunicação entre os países. Hoje, estamos em todos os continentes. – Qual a afinidade entre a Brahma Kumaris e a ONU? Somos filiados à ONU como uma organização não-governamental. Nosso propósito é a paz, o que também é a meta das Nações Unidas, por isso estamos conectados. Um ano antes do Ano Internacional da Paz, em 1985, houve o Festival Live Aid, para arredar recursos para a combater a fome na África. Vimos que as pessoas queriam doar mais do que dinheiro. Queríamos pedir algo mais valioso e as convidamos a doar tempo, minutos para orar, meditar ou ter pensamentos puros pela paz. Uma escola que decidisse dedicar três minutos de uma assembleia com mil alunos para isso, representaria três mil minutos de pensamento pela paz. O Projeto Mensageiro da Paz surgiu daí. Era uma técnica simples para tornar as pessoas perceptivas de que podem fazer algo pela paz no mundo. A meta era que começassem a ter pensamentos pacíficos para experimentar a paz que existe em cada ser humano e iniciassem uma jornada em direção à paz. Chegamos a bilhões de minutos pela causa, em 60 países diferentes. Com esse projeto ganhamos vários reconhecimentos da ONU e fomos considerados a entidade sem fins lucrativos que mais atuou pela causa naquele ano. A partir dali, passamos a desenvolver vários programas junto à ONU para mulheres, idosos, saúde, desenvolvimento sustentável. Nos últimos anos, estamos conectados com o tema de mudanças climáticas. – A campanha pela paz teve continuidade? A ONU se interessou pelo nosso trabalho e pediu que continuássemos com ele, o que resultou no Projeto de Cooperação Global por um Mundo Melhor, que durou de 1988 a 1991 e chegou a reunir 128 países. Nele, perguntávamos para as pessoas: qual a sua visão para um mundo melhor? Como vê os relacionamentos nesse mundo? Como se vê nele? Quais os passos práticos que você pode dar para tornar esse mundo melhor uma realidade? Cada um podia fazer o que quisesse. Por exemplo, uma família na Grécia tomou a decisão de pegar um cômodo da casa para ser uma zona livre de queixas. Engraxates mirins do Brasil, que brigavam muito entre eles, resolveram que iriam cooperar, emprestando seus equipamentos, como escovas, uns aos outros. – Por que a Brahma Kumaris se envolveu tão fortemente com as mudanças climáticas? Trabalhamos junto à ONU com o propósito de mostrar que existe uma dimensão espiritual em todas as pessoas. Mas a consciência humana criou uma forma materialista de viver. Nos tornamos uma sociedade consumista. Materialismo e consumismo nos distanciam da natureza. A espiritualidade nos lembra que a natureza é algo sagrado, por isso é

Pedestres, se virem!

Dirigia meu carro hoje pela manhã quando uma senhorinha de bengala apareceu vindo em minha direção subindo a ladeira pelo meio da rua. Meu primeiro pensamento foi se a mulher estava querendo que alguém fizesse um strike nela. Mas parei o carro, aguardei a passagem do veículo que subia na mão contrária e passei ao lado dela. Logo depois, olhei pelo retrovisor e a vi chegar ao ponto de ônibus e se sentar no banquinho. Automaticamente, desviei o olhar para a calçada ao lado e me deparei com uma trilha estreita, formada por degraus irregulares e tortos, esburacada, com postes e árvores com raízes aparentes no caminho. Se aquela ladeira seria desanimadora para mim, imagine para alguém que depende de uma bengala. Carrinho de bebê ou cadeira de rodas, então, não teriam a mínima viabilidade. Mirei a rua asfaltada onde trafegava e, por pior que seja o asfalto paulistano, era uma via regular, recém-recapeada (para as eleições do ano passado), sem obstáculos que não fossem as lombadas feitas para que os automóveis, construídos para andar a até mais de 200 km/h, não se empolguem demais. Apesar de estreitas para a passagem de ônibus e caminhões, as ruas do meu bairro permitem estacionamento nos dois lados, o que só não acontece em entradas de garagem (mais uma vez para os carros) e para a privatização das ruas pelos restaurantes, que aumentam sua área para além da calçada, dificultando ainda mais a vida do pedestre, que ainda precisa desviar de garçons, pessoas esperando lugar e, às vezes, mesas e cadeiras. É comum ver pedestres andando pelo meio da rua para além dos puxadinhos dos bares. Pensei, então, nas ciclovias, que pegam parte de algumas ruas da redondeza e, aí sim, o estacionamento é proibido. Sou muito a favor das ciclovias, mas muitas delas são usadas por pedestres – pelos mesmos motivos da senhora de bengala – também expostos ao perigo. Mais do que as ladeiras, acredito que a preferência para usar o carro até para micropercursos, como ir à padaria na esquina, para quem pode, é a falta de calçadas minimamente decentes. Fico imaginando em que momento nos perdemos da civilidade para achar que pedestres não importam? Será que um dia isso vai mudar?

Bienal é um privilégio paulistano

Não perca a 36a Bienal de São Paulo. Mesmo que não entenda de arte, como eu, vale muito a pena. É um privilégio ter um evento desse porte na cidade, por tanto tempo e de graça. Uma mostra que acontece a cada dois anos desde 1951 e tem um prédio próprio especialmente projetado para ela por arquitetos como Oscar Niemeyer dentro do Parque Ibirapuera. Tudo isso já é motivo suficiente para programar correndo a visita, mas a Bienal de São Paulo ainda é considerada um dos três principais eventos do circuito artístico internacional, junto à Bienal de Veneza e à Documenta de Kassel (realizada na Alemanha a cada cinco anos). E nem precisa tanta pressa, já que a Bienal vai até 11 de janeiro de 2026, abrindo de terça a domingo, das 10 às 18 horas (aos sábados, vai até às 19 horas). Com o tema “Nem todo viandante anda estradas. Da humanidade como prática”, esta edição traz uma presença feminina muito forte e uma maior parte de artistas brasileiros e do sul global. As instalações predominam e contam uma história da presença humana e sua interação com os demais seres e com o planeta. Os temas são mostrados em seis capítulos e são autoexplicativos, as sensações vão dando conta do que se está querendo transmitir. Fazer uma visita guiada ajuda a entender, mas não é essencial. O importante é se deixar levar pela curiosidade, como em um passeio, sem compromisso, apenas sentindo. Dá para passar pelo menos duas horas por lá, percorrendo paisagens sonoras, olfativas, táteis e visuais. Entrar e já percorrer uma mata de cerrado com plantas nativas do bioma criada especialmente para a exposição pela artista e poeta britânica Precious Okoyomon. Se maravilhar dentro da instalação totalmente instagramável da chinesa Song Dong, com espelhos, lustres e abajures, todos emprestados de casas reais, ouvir o som vindo das entranhas do pavilhão a bienal via dutos de encanamento ou a sinfonia criada por ar e lâmpadas em contato com a água. É impossível passar por obras de pura beleza, como o caracol de panos pintados com flores, de Maria Magdalena Campo Pons, e não sair encantado desta viagem pela “intratável beleza do mundo”, nome da última parte da exposição.

Jornalistas contra o sistema

O fim de semana no Festival Piauí de Jornalismo, nos dias 6 e 7 de setembro foi uma experiência radical. Com o tema “A Contra-História, repórteres que bagunçam os mitos nacionais”, passaram pela Cinemateca jornalistas de vários cantos do mundo contando suas experiências e o funcionamento da vida real, aquela que até está disponível nos meios de comunicação, mas não temos tempo ou estômago para nos aprofundar. Entre os convidados, israelenses e estadunidenses que compartilham com a parte pensante da população a indignação pelos “patriotas” brasileiros adoradores de bandeiras de Israel e dos Estados Unidos em pleno dia da pátria. Assistir ao vivo o podcast mais querido de quem espera continuar se informando e mantendo a sanidade ao mesmo tempo foi a cereja do bolo. Uma fila se formou na entrada para pegar os melhores lugares para ouvir a música tema do Foro de Teresina e Fernando de Barros e Silva dar início, sem delongas, aos comentários de Ana Clara Costa e Celso Rocha de Barros sobre os principais assuntos políticos da semana no país. A jornalista etíope Selam Gebrekidan abriu o evento contando como foi realizada a reportagem do New York Times que desvendou a quantidade exorbitante que o Haiti teve que pagar à França como indenização por ter ganho a guerra contra o colonizador. Isso mesmo: é aparentemente o único caso no mundo em que o ganhador precisou reembolsar o perdedor – colonizador e escravagista – pelos prejuízos financeiros de não ter mais a colônia e os escravos. Essa aberração só foi possível porque os demais países escravocratas (Inglaterra, Estados Unidos, Portugal/Brasil etc.) não queriam que o exemplo haitiano se espalhasse. Com isso, a cada dois dólares produzidos no Haiti, a França ficava com um e meio. Isso diz muito sobre a pobreza do Haiti e a riqueza da França até os dias atuais, e só não enoja quem já perdeu (ou nunca teve) nenhuma dignidade. A repórter investigativa do NYTimes ainda contou como foi proibida de voltar ao seu país natal, a Etiópia, depois de narrar em suas matérias acordos suspeitos entre a Boeing e a companhia aérea Ethiopian Airlines após a queda dois aviões, matando mais de 150 pessoas. O jornalista russo Miklail Zygar cobriu várias guerras até tornar-se, em 2010, o primeiro editor-chefe do Dozhd, único canal de TV independente da Rússia e que cobria protestos contra Vladimir Putin. Hoje vivendo nos Estados Unidos, contou que teve que deixar a Rússia para não ser preso, pois foi condenado por espalhar fake news no país. As fake news, segundo o governo de Putin, referem-se a chamar a invasão da Ucrania de guerra, o que é proibido na Rússia. O depoimento mais tocante do evento talvez tenha sido o da nigeriana Kiki Mordi, que esteve à frente do documentário da BBC Sex for Grades (https://www.youtube.com/watch?v=we-F0Gi0Lqs) sobre assédio sexual nas universidades da Nigéria e de Gana. Mordi chorou (e nós também) ao contar como ela mesma foi obrigada a desistir do curso de medicina por não ceder ao assédio de um professor e decidiu ser jornalista para denunciar esse tipo de violência. No documentário, ela e mais duas jornalistas entraram como alunas infiltradas nas universidades e mostraram como a cultura de assédio funcionava. Em uma cena do documentário exibida no evento, um professor quer obrigar uma aluna/repórter a beijá-lo, apaga a luz e tranca a porta da sala. É terrível. Após o documentário, os professores envolvidos foram demitidos e as universidades nos dois países criaram regras para evitar o assédio. No entanto, Kiki Mordi foi perseguida, está sendo processada e teve que deixar o país. Proprietário do jornal Haaretz, de oposição a Benjamin Netanyahu, Amos Schocken não conseguiu sair de Israel para vir a São Paulo e participou do evento remotamente. Não consegui conter as lágrimas ao vê-lo contar, mesmo que já saibamos, as atrocidades cometidas pelo governo de seu país contra a população palestina, vivendo em um campo de concentração bombardeado constantemente e sem acesso à ajuda internacional. A matança de jornalistas impingida nesta guerra por Israel já fez mais vítimas do que a primeira e a segunda guerra mundiais juntas. E todos eles palestinos, pois jornalistas internacionais, inclusive israelenses, são proibidos do cobrir o massacre. Sobre a Turquia de Recep Tayyip Erdoğan, Pakrat Estukyan nos contou que jornalistas são perseguidos e presos. O pequeno jornal Agos, do qual é editor, porém, é tolerado justamente, acredita ele, por ser pequeno, por ser o único veículo bilingue de Istanbul, escrito em turco e em armênio, e por seu fundador ter sido assassinado por um garoto nacionalista turco. Pakrat contou como a comunidade armênia, cujo genocídio a Turquia se nega a aceitar, vive no país sob preconceito e luta para manter viva sua cultura. Pela primeira vez, ouvi a história de que a criação da polícia de Nova York estava diretamente relacionada à captura de negros alforriados por policiais, que depois os vendiam no Sul dos Estados Unidos para voltarem à escravidão. O jornalista Chenjerai Kumanyikad narra esse fato no podcast Empire City, no qual mostra como o racismo estrutural está na base da polícia da sua cidade. Em sua entrevista, se emocionou ao saber dos mais de 6.000 mortos por ano, a maior parte homens negros jovens, pela polícia brasileira.    A jornalista Ruth Marcus, atualmente na The New Yorker, narrou com detalhes como acabou pedindo demissão do jornal Whashington Post, um dos mais combativos dos Estados Unidos e onde trabalhou por mais de 40 anos, após ser censurada por escrever contra as regras do jornal de não falar mal de Donald Trump em editoriais e colunas de opinião. A jornalista contou sobre a mudança editorial no jornal após o novo dono, o poderoso dono Amazon, Jeffrey Bezos, se alinhar ao presidente ultradireitista, e comparou os empresários das bigtechs norte-americanas aos oligarcas russos. Ruth Marcus, especialista em Direito, abordou como Trump tem intimidado todo o sistema judiciário daquele país, incluindo os grandes escritórios de advocacia, assim como as demais instituições democráticas. Ambos os jornalistas estadunidenses se mostraram

A Boba da Corte

Mesmo vivendo há quase 30 anos na Zona Oeste de São Paulo, só fui descobrir que mangostão, longana e rambutã não são nomes de remédios, mas frutas exóticas, ao ler A Boba da Corte, da Tati Bernardi. Indicar o livro para o Círculo Feminino de Leitura (CFL) também fez com que eu fosse pela primeira vez ao Santa Luzia (um dos mercados chiques da elite paulistana), o lugar mais próximo onde poderia ser que encontrasse algumas delas. Só achei o rambutã, pois as demais, segundo me informou a funcionária atenciosa, não estão na época. Mas comprei outras frutas tão exóticas quanto (pelo menos para mim), para montar a mesa do nosso encontro do mês em minha casa. Escolhi o livro da autora paulistana porque me identifiquei com seu sentimento de inadequação entre seu bairro suburbano de origem e a rica e descolada Zona Oeste, onde passou a viver. Assim como Tati foi criada no Tatuapé, na Zona Leste, cresci em Santana, na Zona Norte, sonhando em atravessar a ponte e morar na região entre rios (Tietê e Pinheiros) onde acreditava viver pessoas mais parecidas comigo, o que fiz assim que tive oportunidade. Depois, por muito tempo, não conseguia traduzir o desconforto próprio de quem não se sente verdadeiramente pertencente ao lugar em que mora, mas nunca cheguei na tradução certeira da elite paulistana feita pela Boba da Corte de Bernardi. Achei que a conversa seria boa em nossa reunião, pois das dez mulheres do grupo atual, somente duas são naturais desta região que chamamos de “bolha”, termo que aprendi com meus filhos, já nascidos na Vila Madalena. Quase todas as demais, assim como eu, atravessaram a ponte. No caso delas, vindas da mesma Zona Leste de Tati Bernardi. Somente a Kátia sempre viveu no Tatuapé (e nunca cogitou sair de lá) e a Marli, passada a pandemia, resolveu voltar para sua Mooca natal e ficar perto da família. Tivemos discussões acaloradas como há tempos não tínhamos. Incrível como um livrinho de menos de 100 páginas e aparentemente despretensioso pode causar polêmica. Fico imaginando o que pensam as pessoas citadas no livro. Identificamos algumas, inclusive próximas. Admiro o despudor e coragem da autora, de quem sou fã há bastante tempo. Bernardi começa seu livro contando sobre uma festa que deu em seu apartamento na rua Maranhã, no bairro “diferenciado” de Higienópolis, e uma amiga vinda do Rio de Janeiro digitou errado o endereço no Uber e foi parar na Praça Maranhão, na Zona Leste. A amiga ligou desesperada, achando que corria risco de vida, sem saber que estava exatamente no lugar onde a anfitriã passou toda a infância e adolescência. A partir desse mote, Tati Bernardi mostra de forma irônica e divertida o comportamento às vezes ingênuo e mais vezes hipócrita dessa elite, sobretudo a progressista e culta, a qual passa a frequentar, querendo furar a bolha para pertencer a ela, mas também rejeitando muitos dos seus códigos. Um mundo feito de “qual o seu sobrenome”, “de quem você é parente”, “o que faz e onde trabalha” e “onde você estudou”. Um mundo feito de oriundos do Santa Cruz, Vera Cruz, Bandeirantes, Rio Branco, entre outros, hoje com filhos no Avenues e similares. Para alguém que se alfabetizou e cursou o fundamental entre as escolas Expedicionário Brasileiro e República da Bolívia, como eu, nunca é uma situação confortável… Difícil não pensar: como vim parar aqui? Como no livro, algumas de nós consideraram a personagem/autora um tanto vulgar e exagerada. Também não é fácil se ver como pertencente a uma bolha, tendo nascido nela ou não, mesmo sabendo que isso não tem a ver obrigatoriamente com possuir dinheiro, estudo e cultura. No final, por mais que generalizações possam ser engraçadas, cada experiência é única e a capacidade de rir se si mesma, uma bênção. Para nossa reunião de dois mundos, trouxe frutas exóticas e comidinhas personalizadas, mas também estrogonofe de camarão, balas sete belo e brigadeiros, como uma boa festa suburbana deve ter. Nossa presidenta Neise se vestiu de Boba da Corte e estava maravilhosa, mostrando que o diferente também pode ser chique. Desde que sejamos nós mesmas. Tivemos direito, ainda, há uma coleção de fotos dos lugares citados pela autora na Zona Leste, presente da Kátia, que conhecia tudinho.

Um teto todo delas: clubes do livro e pequenas revoluções

Ler em grupo pode ser muito mais do que dividir opiniões sobre leituras. Em um clube do livro, compartilham-se também experiências, afetos e transformações. No dia 3 de setembro, às 19h, as autoras Maura Campanili e Luciana Gerbovic estarão na Livraria da Vila da Rua Fradique Coutinho para uma conversa sobre essa atividade que, cada vez mais, vira tendência – principalmente entre mulheres que buscam um espaço de trocas intelectuais e afetivas reais. Será um bate-papo descontraído sobre suas vivências com clubes de leitura, os dois livros que nasceram dessas experiências e a força política e subjetiva da leitura coletiva. A conversa terá a mediação da crítica literária Patricia Ditolvo. Após as falas, as autoras farão breve sessão de autógrafos. Maura é escritora, jornalista e geógrafa, com mais de 30 anos de atuação em comunicação socioambiental. Trabalhou em organizações como a SOS Mata Atlântica e o Instituto Socioambiental, além de colaborar com diversas ONGs por meio do Núcleo de Conteúdos Ambientais (NUCA). É autora de Temos fome, somos loucas – como um clube do livro transformou a vida de um grupo de mulheres (Pitanga, 2025), que narra a trajetória de um grupo de leitoras que transformou dor em vínculo, e leitura em liberdade. Luciana é graduada em Comunicação Social e Direito. Advogada, mestre em Direito Civil e mediadora de clubes de leitura há mais 15 anos, em diversos espaços públicos e privados. Professora de leitura e escrita literárias e formadora de mediadores de clubes de leitura desde 2019. Coarticuladora do “Remição em Rede”, programa que implementa clubes de leitura e forma mediadores em penitenciárias, com fins de formação de leitores e remição de pena pela leitura. É sócia-diretora da Escrevedeira Centro Cultural Literário. Coautora do livro “Clubes de leitura: uma aposta nas pequenas revoluções” (Solisluna/Selo Emília, 2024) e autora do romance “A maior mentira do mundo” (Quelônio, 2024). Patricia é formada em Letras e mestra em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, é mediadora de conversas e clubes de leitura, e criadora do projeto Críticas Instantâneas Não Especializadas (@criticasinstantaneas). A conversa é gratuita e aberta ao público, com sessão de autógrafos ao final. Venham!!! 📍 SERVIÇO O quê: Bate-papo com Maura Campanili e Luciana Gerbovic, com mediação de Patricia DitolvoTema: Um teto todo delas: clubes do livro e pequenas revoluçõesQuando: Quarta-feira, 3 de setembro de 2025, às 19hOnde: Livraria da Vila da FradiqueRua Fradique Coutinho, 915 – Pinheiros, São Paulo – SPQuanto: Evento gratuitoLivros à venda no local, com sessão de autógrafos após a conversa

Obra de ficção

Atenção: este é um diálogo hipotético. Uma obra de ficção. – Boa tarde! O senhor é o administrador do Parque Villa-Lobos? – Sim, no que posso ajudá-lo? – Eu gostaria de usar o parque para fazer algumas coisinhas e queria saber o que é possível. – Meu amigo, não trabalhamos com limites, mas com os trocadinhos que pingam. Dependendo do valor, pode fazer o que quiser. – Posso instalar máquinas, totens e equipamentos? Vender qualquer coisa? – Pode. – Ah! Muito bom. Posso cercar qualquer área do parque e fazer as obras que precisar? – Com certeza. – Mesmo obras permanentes e sublocadas? – Mesmo estas. – E tem alguma regra sobre como seriam os equipamentos, destinação de locais, datas possíveis, padronização, paisagismo? – Nada, apenas é desejável que escreva alguma placa que contenha palavras como “verde”, “sustentável”, “sustentabilidade”, “natureza”, “bem-estar”, qualquer coisa dessas. Mas não é obrigatório. – E os frequentadores do parque não acham ruim, não protestam? Tenho acompanhado o que está acontecendo no Parque da Água Branca e fico um pouco receoso. – Não se preocupe, o pessoal aqui não é tão radical e esquerdopata como os de lá. – Ufa! Mas alguma parte do pagamento vai para os equipamentos do próprio parque, como manter os espelhos d’água da biblioteca, reabrir o Circuito das Árvores ou restaurar e colocar em funcionamento o orquidário? Isso pode encarecer o projeto. – Imagina, o povo que frequenta este parque nem percebe que esses equipamentos existem. Aqui podemos fazer tudo o que quisermos. Dá para reservar parte do estacionamento, cobrar entrada de tudo, circular com caminhões dentro do parque na hora que precisar. Nossos eleitores nos autorizam e não estão nem aí para essas bobagens de paisagismo, arborização e sossego, que é coisa de vagabundo, não de patriota. – Que maravilha! Vai ser um prazer fazer negócio com gestores tão responsáveis e visionários. Circuito das Árvores: fechado!