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PaulistanaSP

Brincava sozinha no quarto que dividia com meu irmão, quando ele entrou afogueado e se deitou na cama, aparentemente disposto a dormir. Pressenti que havia acontecido algo, mas meu interesse por ele era bem limitado naquela época para perguntar.

Minutos depois, a campainha tocou e corri para atender. Me deparei com a mãe de um garoto que morava na rua de baixo, trazendo o filho com a boca ensanguentada pelo braço e cara de poucos amigos. Era uma mulher pequena, muito magra e enrugada, que não inspirava simpatia na criançada, mas alguns de seus muitos filhos apareciam, de vez em quando, para brincar na vila. Vinha cercada de um bando de meninos curiosos e barulhentos.

Foto: cotombo studio.

Quando minha mãe finalmente apareceu, a mulher apontou para a boca do filho, que tinha o lábio inchado e um dente da frente faltando um pedaço:

– Olha o que seu filho fez.

– Como você sabe que foi ele? – respondeu minha mãe, com a calma de quem espera desarmar uma bomba.

– Os meninos são todos testemunhas.

Minha mãe mandou, então, que eu chamasse o meliante dentro de casa. Luiz apareceu com cara de quem ia para a forca.

– Foi você quem fez isso?

– Foi – sussurrou meu irmão.

– Como aconteceu?

– Estávamos brincando de um derrubar o outro do muro e ele caiu quando eu empurrei.

– Quer dizer que todos os meninos estavam em cima do mundo, um empurrando o outro para que caísse?

– É – assentiu Luiz, acompanhado da concordância dos demais.

– Alguém mais caiu?

Vários meninos se manifestaram. Caíram, mas não perderam o dente.

Mamãe virou para a mulher, que claramente não sabia da história toda e começava de se sentir mais embaraçada do que raivosa:

– Não sei o que você espera que eu faça. Seu filho é bem maior que o meu, estavam todos na mesma situação, e poderia muito bem ter sido o meu que tivesse se machucado.

– É, mas vou ter que levar ele ao dentista.

– Infelizmente, vai. E, se não quer que aconteça de novo, fala pro seu filho não participar mais desse tipo de brincadeira – disse mamãe encerrando a conversa.

Ao entrarmos, ela chamou Luiz, deu uma olhada de cima a baixo e avisou, enquanto colocava os óculos:

– Vê se escolhe bem do que quer brincar. Se me aparecer sem dente porque ficou de empurra-empurra em cima de muro, vai ficar banguela.

E voltou para o livro que estava lendo.

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