O fim de semana no Festival Piauí de Jornalismo, nos dias 6 e 7 de setembro foi uma experiência radical. Com o tema “A Contra-História, repórteres que bagunçam os mitos nacionais”, passaram pela Cinemateca jornalistas de vários cantos do mundo contando suas experiências e o funcionamento da vida real, aquela que até está disponível nos meios de comunicação, mas não temos tempo ou estômago para nos aprofundar. Entre os convidados, israelenses e estadunidenses que compartilham com a parte pensante da população a indignação pelos “patriotas” brasileiros adoradores de bandeiras de Israel e dos Estados Unidos em pleno dia da pátria.

Assistir ao vivo o podcast mais querido de quem espera continuar se informando e mantendo a sanidade ao mesmo tempo foi a cereja do bolo. Uma fila se formou na entrada para pegar os melhores lugares para ouvir a música tema do Foro de Teresina e Fernando de Barros e Silva dar início, sem delongas, aos comentários de Ana Clara Costa e Celso Rocha de Barros sobre os principais assuntos políticos da semana no país.
A jornalista etíope Selam Gebrekidan abriu o evento contando como foi realizada a reportagem do New York Times que desvendou a quantidade exorbitante que o Haiti teve que pagar à França como indenização por ter ganho a guerra contra o colonizador. Isso mesmo: é aparentemente o único caso no mundo em que o ganhador precisou reembolsar o perdedor – colonizador e escravagista – pelos prejuízos financeiros de não ter mais a colônia e os escravos. Essa aberração só foi possível porque os demais países escravocratas (Inglaterra, Estados Unidos, Portugal/Brasil etc.) não queriam que o exemplo haitiano se espalhasse. Com isso, a cada dois dólares produzidos no Haiti, a França ficava com um e meio. Isso diz muito sobre a pobreza do Haiti e a riqueza da França até os dias atuais, e só não enoja quem já perdeu (ou nunca teve) nenhuma dignidade.
A repórter investigativa do NYTimes ainda contou como foi proibida de voltar ao seu país natal, a Etiópia, depois de narrar em suas matérias acordos suspeitos entre a Boeing e a companhia aérea Ethiopian Airlines após a queda dois aviões, matando mais de 150 pessoas.
O jornalista russo Miklail Zygar cobriu várias guerras até tornar-se, em 2010, o primeiro editor-chefe do Dozhd, único canal de TV independente da Rússia e que cobria protestos contra Vladimir Putin. Hoje vivendo nos Estados Unidos, contou que teve que deixar a Rússia para não ser preso, pois foi condenado por espalhar fake news no país. As fake news, segundo o governo de Putin, referem-se a chamar a invasão da Ucrania de guerra, o que é proibido na Rússia.
O depoimento mais tocante do evento talvez tenha sido o da nigeriana Kiki Mordi, que esteve à frente do documentário da BBC Sex for Grades (https://www.youtube.com/watch?v=we-F0Gi0Lqs) sobre assédio sexual nas universidades da Nigéria e de Gana. Mordi chorou (e nós também) ao contar como ela mesma foi obrigada a desistir do curso de medicina por não ceder ao assédio de um professor e decidiu ser jornalista para denunciar esse tipo de violência. No documentário, ela e mais duas jornalistas entraram como alunas infiltradas nas universidades e mostraram como a cultura de assédio funcionava. Em uma cena do documentário exibida no evento, um professor quer obrigar uma aluna/repórter a beijá-lo, apaga a luz e tranca a porta da sala. É terrível.
Após o documentário, os professores envolvidos foram demitidos e as universidades nos dois países criaram regras para evitar o assédio. No entanto, Kiki Mordi foi perseguida, está sendo processada e teve que deixar o país.
Proprietário do jornal Haaretz, de oposição a Benjamin Netanyahu, Amos Schocken não conseguiu sair de Israel para vir a São Paulo e participou do evento remotamente. Não consegui conter as lágrimas ao vê-lo contar, mesmo que já saibamos, as atrocidades cometidas pelo governo de seu país contra a população palestina, vivendo em um campo de concentração bombardeado constantemente e sem acesso à ajuda internacional. A matança de jornalistas impingida nesta guerra por Israel já fez mais vítimas do que a primeira e a segunda guerra mundiais juntas. E todos eles palestinos, pois jornalistas internacionais, inclusive israelenses, são proibidos do cobrir o massacre.
Sobre a Turquia de Recep Tayyip Erdoğan, Pakrat Estukyan nos contou que jornalistas são perseguidos e presos. O pequeno jornal Agos, do qual é editor, porém, é tolerado justamente, acredita ele, por ser pequeno, por ser o único veículo bilingue de Istanbul, escrito em turco e em armênio, e por seu fundador ter sido assassinado por um garoto nacionalista turco. Pakrat contou como a comunidade armênia, cujo genocídio a Turquia se nega a aceitar, vive no país sob preconceito e luta para manter viva sua cultura.
Pela primeira vez, ouvi a história de que a criação da polícia de Nova York estava diretamente relacionada à captura de negros alforriados por policiais, que depois os vendiam no Sul dos Estados Unidos para voltarem à escravidão. O jornalista Chenjerai Kumanyikad narra esse fato no podcast Empire City, no qual mostra como o racismo estrutural está na base da polícia da sua cidade. Em sua entrevista, se emocionou ao saber dos mais de 6.000 mortos por ano, a maior parte homens negros jovens, pela polícia brasileira.
A jornalista Ruth Marcus, atualmente na The New Yorker, narrou com detalhes como acabou pedindo demissão do jornal Whashington Post, um dos mais combativos dos Estados Unidos e onde trabalhou por mais de 40 anos, após ser censurada por escrever contra as regras do jornal de não falar mal de Donald Trump em editoriais e colunas de opinião.
A jornalista contou sobre a mudança editorial no jornal após o novo dono, o poderoso dono Amazon, Jeffrey Bezos, se alinhar ao presidente ultradireitista, e comparou os empresários das bigtechs norte-americanas aos oligarcas russos.
Ruth Marcus, especialista em Direito, abordou como Trump tem intimidado todo o sistema judiciário daquele país, incluindo os grandes escritórios de advocacia, assim como as demais instituições democráticas. Ambos os jornalistas estadunidenses se mostraram desolados com o que acontece nos Estados Unidos, ao qual não reconhecem mais como uma democracia.