Uma narradora pouco confiável, que mistura acontecimentos que presenciou com outros apenas imaginados, fizeram de Rebecca, de Daphne du Maurier, um livro instigante e um prato cheio para uma reunião do Círculo Feminino de Leitura (CFL). Pouco se sabe sobre a nova senhora de Manderley, a substituta que não revela nem o próprio nome ao contar sua história e tem dificuldade em se autodenominar sr. Winter, título que acredita soberano à esposa falecida.
Um convite da anfitriã do mês, Neise, para um Baile a Fantasia na Mansão Manderley, nos levou, uma semana atrás, diretamente para o universo cercado de mistério do livro. A mensagem no envelope pedia para que fosse aberto apenas no capítulo 17, para não estragar a surpresa da realização do “famoso baile” na história. Além disso, mensagens foram enviadas para cada uma de nós solicitando que preparássemos um perfil psicológico de um dos personagens.

Os encontros na casa da Neise são sempre aguardados por conta da dedicação e capricho na recepção e dessa vez não foi diferente. Um grande painel reproduzia a fachada de uma grande propriedade inglesa e toda a decoração nos fazia quase acreditar estarmos dentro da própria Manderley, no litoral inglês, no final dos anos 1930. Da prataria ao aparelho de chá, aos sanduíches de agrião, tudo remetia a detalhes do livro. Até o banheiro e o quarto eram os aposentos de Rebecca.
Nas fantasias, tivemos duas senhoras de Winter (qual seria Rebecca?), uma sr. Danvers, damas antigas, uma indiana e euzinha, de Carmen Miranda, um traje possível de ser pensado na época em que se passa a história. A gente capricha!
A discussão foi tão acalorada que não sobrou tempo nem para nossas atualizações e fofocas mensais. Foram horas tentando entender se Rebecca era uma vilã ou somente uma mulher à frente de seu tempo, se a sra. Danvers era apenas fiel à antiga patroa ou apaixonada por ela, se Maxim foi uma vítima de Rebecca ou um assassino frio e cínico, que escolheu uma nova esposa fraca propositalmente para não ter mais que ser confrontado. Será que ele se arrependeu de seu crime ou premeditou tudo? Por fim, a sra. Winter narradora era mesmo tão ingênua quanto faz parecer ou queria apenas que acreditássemos nisso?
Quero destacar, ainda, a edição da Darkside, com ilustrações belíssimas e o destaque para o clima gótico do livro, além de uma introdução de Nilsen Silva que não se abstém de tocar no tema do suposto plágio da autora do livro A Sucessora, da brasileira Carolina Nabuco. Assisti à novela de 1978 baseada da obra de Carolina e, olha, difícil acreditar em coincidências…
