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O que pode deixar uma amante de literatura, que por acaso também é geógrafa e louca por mapas, alucinada? Eu conto: um mapa, construído ao longo de mais de 40 anos, das andanças de Riobaldo pelo grande sertão de Minas Gerais. Sim, esse mapa existe.

Conheci a façanha do engenheiro que desenvolveu esta façanha, Paulo Guimarães Salles, em uma apresentação no Espaço Mirabilis, espaço para amantes de artes & livros, de onde só pode sai coisa boa. Salles contou como refez a trajetória de Riobaldo em Grande Sertão: Veredas, a obra-prima de Guimarães Rosa que completa 70 neste ano, e produziu a cartografia do romance no livro Anatomia do Grande Sertão, que será lançado no próximo mês.

Nascido em Uberlândia, Salles passou a infância acompanhando o pai veterinário pelas entranhas de Minas Gerais e se apaixonou, na adolescência, pelo livro de Guimarães Rosa. Daí surgiu a ideia de, a partir das indicações do romance, refazer os caminhos percorridos por Riobaldo e Diadorim. Para tanto, anotou os 438 topônimos (nome próprio dado a um lugar ou acidente geográfico), citados ao todo 1.090 vezes pelo autor ao longo da obra e, a partir de mapas antigos, os localizou e desenhou as andanças dos jagunços pelos sertões mineiros, chegando a Bahia e Goiás.

O intento demorou a ser feito porque precisou descobrir onde ficavam rios, córregos, fazendas, lugarejos citados por Rosa, o que só conseguiu concluir in loco, depois de aposentado. Sim, o engenheiro percorreu todo o circuito de Grande Sertão, coisa que Guimarães Rosa não fez. “Com certeza, ele escreveu o romance com um mapa ao lado. Adoraria saber exatamente qual foi”, disse. Salles chegou a muitos dos locais seguindo as indicações geográficas e calculando as distâncias percorridas na história a partir dos dias percorridos. Dividiu as aventuras em oito trajetos, que supõe devem ter levado cerca de dez anos, entre a primeira segunda décadas do século 20, para serem percorridas por Riobaldo e demais jagunços. “Guimarães praticamente não dá dicas sobre quando a história se passa, mas é muito preciso sobre os trajetos percorridos”, avalia o engenheiro, cujo hobby deu um presentão aos muitos fãs de uma das obras mais geniais da literatura brasileira.

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