Uma das melhores coisas de As Meninas, de Lygia Fagundes Telles, é a própria publicação do livro, em plena ditadura militar. A coragem da autora de enviar o livro para aprovação da censura demonstra sua segurança na preguiça e ignorância dos censores.
Lygia traz um título singelo, de romance de mulherzinha, mas com uma narrativa sofisticada, misturando vozes e obrigando uma leitura atenta, e um crescente de densidade na história, com cenas de tortura, consumo de drogas e overdose. Diz a lenta, muito plausível, que o censor leu apenas as primeiras páginas, não entendeu nada e liberou.

As Meninas foi tema de uma reunião do Círculos Feminino de Leitura (CFL) cheia de bossa, para usar um termo da época. A placa na porta dizia que chegávamos ao Pensionado Nossa Senhora de Fátima. A anfitriã, nossa querida Dóris, nos recebeu vestida de Madre Alix e, vestidas de jovens mulheres dos anos 1970, voltamos a ser as adolescentes que fomos, algumas mais no início, outras ao final daquela década.
Nossa anfitriã nos levou a buscar o que lembrávamos daquele tempo, como vivíamos e o que sabíamos da ditadura e, depois, da abertura que marcou o seu final e pegou a maior parte de nós na faculdade. Concluímos que fomos alienadas como Leninha, mesmo em nossas famílias de classe média, sem saber quase nada sobre as combativas Lias e acompanhando de longe o desbunde das Anas Claras.
Lygia constrói suas meninas com perfis diferentes, aos quais vamos reconhecendo por meio dos fluxos de pensamento sem identificação. São mulheres de seu tempo, mas também universais, nas dores, inseguranças, sonhos e amizade. No fundo, todas somos um pouco de cada uma delas e por isso esse é um livro atemporal.

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