Quando eu era criança, nesta mesma cidade de São Paulo, o ritmo era outro. Havia menos opções de tudo, mas não percebíamos, pois era o que conhecíamos. Por falta do que fazer, as pessoas se visitavam e, como poucos tinham telefone, o normal era somente ir. Isso significa que a possibilidade da chegada de alguém era normal e constante. Acho que o ditado “colocar mais água no feijão” deve ter algo a ver com isso.

Se a campainha tocasse e já estivéssemos de pijamas, o que acontecia após o banho no final da tarde, alguém olhava de soslaio quem era e saíamos em disparada para nos trocar, e o visitante aguardava calmamente na porta, pois sabia o que estava acontecendo.
Por conta disso, na maior parte das casas, sempre havia um licor, um café para ser passado, um bolo, um docinho, uma cervejinha para oferecer às visitas. Não existia pedir alguma coisa e entregarem. Quando era muita gente de uma vez, a alternativa era ir à padaria da esquina e trazer uma pizza ou pães e frios para um lanche, reforçar o estoque de refrigerante e cerveja. Pelo menos era assim na minha casa e nas dos amigos, vizinhos e familiares que eu frequentava.
Hoje, a cidade é outra. Somos todos outros. Para ir à casa de alguém, é preciso ser convidado, de preferência com antecedência. O anfitrião necessita de tempo para se preparar. Poucas vezes isso significa ir para a cozinha e preparar algo. A maior parte dos convites é para comer uma pizza, que será pedida após a chegada dos visitantes. Nas reuniões dos mais jovens, pelo que acompanho dos meus filhos, ninguém serve nada, cada um leva a sua própria bebida. Ou levava. Agora a prática é cada um pedir sua cerveja ou vinho depois de chegar. O verbo utilizado importa: não é encomendar, é pedir, pois precisa ser rápido, imediato.
Não há aqui saudosismo do tipo “naquela época era melhor”, só era diferente mesmo. E essa prática de “pedir” comida, bebida, remédios, cigarros se generalizou, principalmente, quando não há visitante algum. Para uma pessoa jovem, possivelmente a antiga máxima “foi comprar cigarro e não voltou” não tenha sentido algum. Como toda mudança, porém, há consequências.
Esse novo costume, que se intensifica a cada ano, produziu em São Paulo uma massa de entregadores alucinados pela cidade. Mal pagos e pressionados a fazer entregas em tempo recorde, não respeitam nenhuma lei de trânsito, arriscam a própria vida e as alheias como se nada fossem. Misturados aos ladrões de celulares, motoqueiros e, em menor proporção, ciclistas, são o terror de pedestres e motoristas paulistanos. Nós os tememos, reclamamos deles o tempo todo, mas não vivemos sem eles. Será que precisa ser assim?
O que me fez recordar de épocas antigas foi uma postagem da minha colega de faculdade e vereadora Renata Falzoni, na qual ela pergunta: Pra que tanta pressa? Ela relaciona o aumento de acidentes e mortes no trânsito na cidade aos aplicativos de entrega, que prometem recebimento no mesmo dia e, em alguns casos, em 10 ou 15 minutos (incluindo o preparo do prado!). Disse que irá pedir uma CPI para discutir o tema na Câmara Municipal.
É claro que maior policiamento e fiscalização de trânsito minimizariam o problema e são muito necessários. Mas não adianta defendermos isso e continuarmos a querer receber de tudo em casa em tempo recorde. Se sua pizzaria preferida fica a 10 quilômetros da sua casa e você quer comer a pizza quentinha e rápido, não tem como ela se materializar na sua frente, pelo menos por enquanto. Alguém terá que sair feito louco pelas ruas para trazê-la, não tem milagre. Renata ainda brinca que poderia haver um item “pode vir com calma” na hora de fazer o pedido.
Claro que é uma discussão sistêmica, não apenas de atitude individual, mas ter no radar que comportamentos podem mudar é essencial. Não dá para fingir que ninguém tem nada a ver com isso.