PaulistanaSP

Cada encontro do Círculo Feminino de Leitura (CFL) tem uma característica especial que fica gravada em nossa memória coletiva. Neste “Fique Comigo”, de Ayòbámi Adébáyò, será a culinária nigeriana e sua indiscutível relação com os sabores que a África presenteou ao Brasil que ficará conosco por mais tempo.

A partir das pesquisas da Neise, nossa anfitriã do mês, sobre os ingredientes e pratos citados na obra, mergulhamos em bolinhos de feijão que por aqui viraram o acarajé; usos múltiplos do inhame, tubérculo tão importante para os povos iorubá, etnia dos principais personagens do livro, quando a mandioca é para  nós; e descobrimos que o quindim e o pavê de amendoim não têm origem em Portugal, mas na África.

Esse mergulho gastronômico foi o pano de fundo da discussão de uma trama folhetinesca regada a tradições ancestrais ainda fortemente presentes na cultura de vários países africanos: a poligamia, o poder das hierarquias familiares sobre as vidas individuais, a necessidade imprescindível de deixar descendência e o julgamento moral sobre a mulher que não cumpre essa função.

Todo esse peso cai sobre as cabeças do casal Yejide e Akin. Eles se conhecem e apaixonam na faculdade e logo se casam, com o compromisso de não se render aos costumes, sobretudo à poligamia, uma exigência de Yejide para embarcar na relação. Todas as promessas desmoronam quando os anos passam e ela não engravida, levando a família a impor uma nova esposa a Akin.

A partir desse acontecimento arrebatador, a vida da empresária e cabelereira Yejide se torna uma montanha-russa de tragédias e reviravoltas, que incluem uma interminável gravidez psicológica. A turbulência familiar de Yejide e Akin acontece em meio à desordem política e social da própria Nigéria dos anos 1980, acontecimentos que se misturam na história, potencializando o enredo.

Em “Fique Comigo”, a autora nos faz deparar com a subjugação da mulher por costumes que anulam (ou quase) as possibilidades de sororidade. Mesmo a heroína Yejide transfere a maior parte de sua revolta às outras mulheres e não aos homens que se “beneficiam” dessas tradições. O que não quer dizer que a vida dos homens seja mais fácil ou feliz. O que sobressai, porém, são as traições revestidas de amor, a capacidade de se reerguer a partir das decepções e do luto, e de enfrentar sentimentos universais de amor e perdão.

0 0 votos
Classificação do artigo
Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários
0
Adoraria saber sua opinião, comente.x