Mata Doce é um lugar no coração do Brasil, provavelmente nascido de um quilombo, onde em um tempo indefinido os donos da terra estão constantemente ameaçados pelo primeiro coronel branco que chegar. Onde a justiça oficial é tão improvável, que ninguém nem pensa em buscar. A alternativa é procurar um jeito de viver cada um com suas dores e, quem sabe, contar com o justiçamento de deus.
Neste lugar presenteado pela escritora Luciany Aparecida, cachorros podem ser imortais, rosas brancas inundam o ambiente com seu perfume, mulheres podem ser um casal sem ser incomodadas, mesmo uma delas sendo uma travesti. Lá, uma noiva, cujo casamento não se concretizou por conta de um assassinato injustificável, pode ter três mães. E mesmo cercada de toda essa quantidade de amor materno, passar uma vida inteira de falta.

Em Mata Doce, uma noiva banhada em sangue, escolhe passar o resto de sua existência nesta condição. Maria Teresa transforma-se em filinha mata-boi para aplacar sua raiva todos os sábados no matadouro de seu algoz, impondo a ele sua presença. Mas a noiva também é a datilógrafa que imortaliza em cartas histórias e sentimentos não ditos de personagens esquecidos do Brasil.
Foi neste mundo ao mesmo tempo belo, amoroso, violento e triste que imergimos em nossa última reunião do Círculo Feminino de Leitura (CFL), algumas vestidas de noiva, outras de vaqueira, todas Maria Teresa/Filinha Mata Boi. Em um ambiente cercado de religiosidade e rosas, entramos na intimidade de cada morador de Mata Doce, sofremos suas dores, o iminente fim de sua comunidade, e escrevemos cartas: uma amiga datilografava enquanto outra ditava algo destinado a uma terceira de nós. Ao contrário das cartas do livro, repartimos nossos afetos lendo as mensagens no final.
