Um lema para mim e meu marido é ir à Flip de “sangue doce”, ou seja, deixar que as coisas cheguem até nós sem nos preocuparmos em bater recordes de eventos ou celebridades vistas. Isso nos deixa fora dos tititis em filas (como o conflito no evento superlotado com Carmen Lúcia e Conceição Evaristo no Canal Amado Mundo) e da quase gamificação de quem conseguiu ir ou ser convidado para o quê. Acredito que a maior parte das pessoas que estavam lá tem o mesmo princípio e, assim, se diverte e ainda sai renovada de tanta coisa boa que encontrou.
Nesta edição, pela primeira vez, compramos algumas mesas da programação oficial. Mesmo que não tenhamos conseguido nenhuma das que havíamos previamente selecionado, acabamos conhecendo novos autores e aumentando nossa pilha de livros “imprescindíveis”. Os poetas Edimilson de Almeida Pereira e José Tolentino de Mendonça, este último cardeal português que foi responsável pela Biblioteca do Vaticano, estão nessa lista.

Acostumada a uma relação de estranheza com a poesia, Mendonça me ganhou ao dizer que a poesia serve para profanar o silêncio e libertar a palavra do utilitarismo. Muito erudito, defendeu o espanto de estar vivo e que estar triste é colaborar com o final. Falando a partir de experiências com populações afrodescendentes, Pereira é menos otimista em seu trabalho, pois fala de sofrimentos ainda não resolvidos.
Na mesa cujo tema era território, vimos o mesmo dilema. Enquanto o arquiteto paraguaio Solano Benitez esbanjou simpatia e falou da importância de se buscar uma vida extraordinária, o escritor e crítico brasileiro José Godoy, lembrou da dificuldade dessa busca em um país mestiço e com o mundo ficando pior. Nos dois casos, tendo a concordar com os brasileiros, embora um pouco de otimismo não faça mal a ninguém. De qualquer maneira, a beleza da literatura é nos fazer viver os dois tipos de experiências. Godoy contou sobre suas motivações e aventuras para escrever A ilha do silêncio: terror e genocídio na terra do fogo, que aborda a história da ilha Dawson, no Chile, palco de confinamentos de indígenas e presos políticos em diferentes momentos.
Os escritores ucranianos Maria Reva, que vive no Canadá, e Andrei Kurkov relataram suas experiências com a guerra iniciada em 2022 e como ela influencia suas vidas e escritas. Quando a realidade é mais surreal do que a ficção, ela precisa ser incorporada à narrativa, mostraram os dois.
Voltando à poesia, o resgate da poetisa Orides Fontela foi mais um ponto alto nesta edição. Passamos tempo lendo a autora lá mesmo. Assim como a participação de destaque da angolana Ana Paula Tavares, a “menina teimosa”, como dizia sua família para não reconhecer seu ativismo ao se recusar a deixar Angola antes da independência de Portugal como o restante dos parentes. As dores coloniais, sobretudo das mulheres, emocionam na obra da ganhadora do Prêmio Camões.

Mas as andanças na Flip são feitas também de sorte e filas. A sorte foi conseguirmos ver Angela Davis, sábado, no Sesc. Os 700 ingressos gratuitos foram disponibilizados às 11 horas de sexta-feira em uma plataforma (e acho que todo mundo tentou entrar): ficamos entre os felizardos que conseguiram. Entrevistada pela jornalista Flávia Oliveira, da Globonews, a filósofa e ativista estadunidense mostrou conhecimento e amor pelo Brasil e os brasileiros. Celebrou a partir do roteiro da entrevistadora o legado de pensadores e ativistas brasileiros, como Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Milton Santos e Marielle Franco; defendeu jornadas menores na era dos trilionários; denunciou a gentrificação e o racismo ambiental que afetam terras ancestrais e comunidades pobres em Paraty, as quais visitou; alertou sobre o avanço autoritário global; e reforçou a necessidade de se pensar em soluções para substituir o capitalismo. Me emocionei.

Ficamos mais de uma hora na fila para acompanhar Jamil Chade e Marcelo Freixo defenderem a democracia. Para ver Drauzio Varella na Casa Folha, nos levantamos mais cedo para conseguir senha e ficamos uma hora e meia na fila para assisti-lo falar sobre sua carreira como médico e escritor, e defender o SUS com unhas e dentes. Não dá para não se apaixonar por este doutor!