Indígenas: imigrantes na própria terra

Inicio nesta semana minha colaboração para o Sler. Publicarei todas as segundas-feiras.Neste primeiro artigo, reflito sobre nossa percepção sobre os povos indígenas. Em Paraty durante a Flip, enquanto intelectuais desfilavam, adultos e crianças indígenas tocavam, cantavam, dançavam e comercializavam do lado de fora, como imigrantes pobres em sua própria terra. No entanto, são eles que podem nos ajudar a enfrentar os desafios das mudanças climáticas e do Antropoceno. Leia o artigo em Indígenas: imigrantes na própria terra – Maura Campanili
Deixei a Flip me levar. E aproveitei!

Um lema para mim e meu marido é ir à Flip de “sangue doce”, ou seja, deixar que as coisas cheguem até nós sem nos preocuparmos em bater recordes de eventos ou celebridades vistas. Isso nos deixa fora dos tititis em filas (como o conflito no evento superlotado com Carmen Lúcia e Conceição Evaristo no Canal Amado Mundo) e da quase gamificação de quem conseguiu ir ou ser convidado para o quê. Acredito que a maior parte das pessoas que estavam lá tem o mesmo princípio e, assim, se diverte e ainda sai renovada de tanta coisa boa que encontrou. Nesta edição, pela primeira vez, compramos algumas mesas da programação oficial. Mesmo que não tenhamos conseguido nenhuma das que havíamos previamente selecionado, acabamos conhecendo novos autores e aumentando nossa pilha de livros “imprescindíveis”. Os poetas Edimilson de Almeida Pereira e José Tolentino de Mendonça, este último cardeal português que foi responsável pela Biblioteca do Vaticano, estão nessa lista. Acostumada a uma relação de estranheza com a poesia, Mendonça me ganhou ao dizer que a poesia serve para profanar o silêncio e libertar a palavra do utilitarismo. Muito erudito, defendeu o espanto de estar vivo e que estar triste é colaborar com o final. Falando a partir de experiências com populações afrodescendentes, Pereira é menos otimista em seu trabalho, pois fala de sofrimentos ainda não resolvidos. Na mesa cujo tema era território, vimos o mesmo dilema. Enquanto o arquiteto paraguaio Solano Benitez esbanjou simpatia e falou da importância de se buscar uma vida extraordinária, o escritor e crítico brasileiro José Godoy, lembrou da dificuldade dessa busca em um país mestiço e com o mundo ficando pior. Nos dois casos, tendo a concordar com os brasileiros, embora um pouco de otimismo não faça mal a ninguém. De qualquer maneira, a beleza da literatura é nos fazer viver os dois tipos de experiências. Godoy contou sobre suas motivações e aventuras para escrever A ilha do silêncio: terror e genocídio na terra do fogo, que aborda a história da ilha Dawson, no Chile, palco de confinamentos de indígenas e presos políticos em diferentes momentos. Os escritores ucranianos Maria Reva, que vive no Canadá, e Andrei Kurkov relataram suas experiências com a guerra iniciada em 2022 e como ela influencia suas vidas e escritas. Quando a realidade é mais surreal do que a ficção, ela precisa ser incorporada à narrativa, mostraram os dois. Voltando à poesia, o resgate da poetisa Orides Fontela foi mais um ponto alto nesta edição. Passamos tempo lendo a autora lá mesmo. Assim como a participação de destaque da angolana Ana Paula Tavares, a “menina teimosa”, como dizia sua família para não reconhecer seu ativismo ao se recusar a deixar Angola antes da independência de Portugal como o restante dos parentes. As dores coloniais, sobretudo das mulheres, emocionam na obra da ganhadora do Prêmio Camões. Mas as andanças na Flip são feitas também de sorte e filas. A sorte foi conseguirmos ver Angela Davis, sábado, no Sesc. Os 700 ingressos gratuitos foram disponibilizados às 11 horas de sexta-feira em uma plataforma (e acho que todo mundo tentou entrar): ficamos entre os felizardos que conseguiram. Entrevistada pela jornalista Flávia Oliveira, da Globonews, a filósofa e ativista estadunidense mostrou conhecimento e amor pelo Brasil e os brasileiros. Celebrou a partir do roteiro da entrevistadora o legado de pensadores e ativistas brasileiros, como Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Milton Santos e Marielle Franco; defendeu jornadas menores na era dos trilionários; denunciou a gentrificação e o racismo ambiental que afetam terras ancestrais e comunidades pobres em Paraty, as quais visitou; alertou sobre o avanço autoritário global; e reforçou a necessidade de se pensar em soluções para substituir o capitalismo. Me emocionei. Ficamos mais de uma hora na fila para acompanhar Jamil Chade e Marcelo Freixo defenderem a democracia. Para ver Drauzio Varella na Casa Folha, nos levantamos mais cedo para conseguir senha e ficamos uma hora e meia na fila para assisti-lo falar sobre sua carreira como médico e escritor, e defender o SUS com unhas e dentes. Não dá para não se apaixonar por este doutor!
Campeão de vendas

Passando pela Livraria das Marés durante a Flip, fiquei feliz em ver meu livro Paraty & Ilha Grande – Cultura e Biodiversidade (com Andrey Rosenthal Schlee e Andrey de Aspiazu Schlee, Quereres Edições) em destaque. Resolvi tirar uma foto e a vendedora Carina, ao saber que eu era uma das autoras, me abraçou e disse que o livro era o campeão de vendas na livraria. Contou que tinham encomendado o dobro do normal para a Flip, mas só restavam os dois na estante. Passei por lá no dia seguinte, e já havia terminado. Participei deste projeto a convite do organizador Luiz Prado e escrevi sobre a biodiversidade e as populações da região, que engloba principalmente Paraty e Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, mas inclui porções de Ubatuba, Cunha, São José do Barreiro e Areais, em São Paulo. O livro, que traz fotos maravilhosas, todas de fotógrafos locais, mostra o reconhecimento de Paraty e Ilha Grande como o primeiro sítio misto da América do Sul e do Caribe a ser reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco. Isso significa que estão incluídas, além da arquitetura da cidade histórica de Paraty, as populações tradicionais de diferentes etnias e a área natural de Mata Atlântica preservada com sua rica biodiversidade. Isto é muito e é único. Viajar para Paraty significa imergir aos poucos neste lugar especial formado pela natureza e pela presença humana. Para chegar, temos que passar por parques que invadem a estrada, formando túneis arbóreos que nos recebem como um portal. Durante a Flip, em especial, um portal para um mundo mágico, feito de literatura, encontros, debates e artes.
A Flip é um acontecimento

Estar na Festa Literária de Paraty, que será aberta nesta quarta-feira (22/7) e vai até domingo (26/7) é um privilégio não apenas para quem ama livros e literatura, quanto para quem gosta de agito, colecionar autógrafos e saber mais sobre o que está acontecendo no Brasil e no mundo. Autoridades, no bom sentido do termo, de todas as áreas estarão por aqui em uma multiplicidade de eventos de deixar qualquer um maluco na hora de escolher qual priorizar. Se começar a citar minha lista aqui, não termino mais. Claro que é preciso encarar horas de fila, mas costuma valer a pena. O único jeito de evitá-las é comprar com antecedência as mesas do evento principal, porém, além de caras, quando abrem para venda, os principais convidados já estão esgotados. Quem tem acesso a moradores de Paraty, que podem comprar antes, já adquiriram tudo. Cada um que lute com suas armas. Há sempre a possibilidade de assistir de graça no telão da praça, o que também é bacana e confortável, ou pelo Youtube, mas aí nem precisa ir a Paraty. O restante da programação acontece nas muitas casas parceiras, com entrada gratuita. Mesmo quem não gosta de pegar filas, pode encontrar eventos e discussões incríveis apenas passeando e entrando quando vir algo acontecendo. Sem falar na possibilidade de encontrar e conhecer pessoas interessantes em qualquer lugar. Durante a Flip, a hospedagem é cara, os restaurantes estão sempre lotados e estacionar o carro é uma aventura. Às vezes, até caminhar fica difícil, não apenas pelas pedras do calçamento, mas pela quantidade de gente. Para mim, tudo isso faz parte da festa. Que venha a maratona literária.