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PaulistanaSP

Em Oração para Desaparecer, de Socorro Acioli, uma mulher é desenterrada viva em Portugal, usando apenas um colar de búzios. A única coisa que sabemos sobre ela é que fala português com sotaque brasileiro. Batizada de Cida nessa nova vida, a personagem busca reconstruir sua trajetória a partir da nova realidade. O romance foi o livro do mês do Círculo Feminino de Leitura (CFL), no final de agosto.

Indicação da anfitriã, Marli, foi sob medida para voltarmos ao tema recomeços, que tem mobilizado nosso grupo, a partir de mudanças de casa, recuperação da saúde, desapegos, amadurecimento. Somos uma geração sempre em reconstrução. Nascemos em um mundo no qual ter uma TV em preto e branco em casa ainda era luxo e as mulheres começavam a desbravar a universidade e o mercado de trabalho por opção. Vivemos ondas de mudanças tecnológicas e de comportamentos para chegarmos inteiras na fase das redes sociais e da Inteligência Artificial. Para nós, falar de ancestralidade e identidade, com ou sem realismo mágico, é sempre pertinente.

Mais do que discutir um livro, procuramos no CFL, vivenciar a experiência da leitura. Assim, Marli nos provocou a imaginar estarmos no lugar de Cida e pensarmos em único objeto que, como o colar de conchas, poderia nos identificar e fazer-nos lembrar de quem somos. A ideia era trazer ou usar a peça e conversarmos sobre como ela nos conecta às nossas raízes. Levei uma caneta decorada com cristais que ganhei há anos dos meus filhos no Dia da Mães e está sempre comigo. Acredito que o amor pelos meus filhos e pela escrita me representa bem.

Este foi o segundo livro da Socorro Acioli que lemos no grupo, e o que mais gostei. A autora mantém o mundo mágico de A Cabeça do Santo e uma trama bem amarrada que nos faz viajar por três continentes e por tempos distintos, mantendo vínculos com acontecimentos reais no Nordeste brasileiro e fictícios de outras obras.

Na história, Jorge, marido da protagonista, vai a Angola procurar o icônico personagem Félix Ventura, do escritor José Eduardo Agualusa, no livro O Vendedor de Passados, para encomendar a ele um passado inventado e coerente para Cida. Afinal, passado a gente lembra, descobre, cria e recria a todo momento.

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