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PaulistanaSP

Ursula K. Le Guin pensa mundos onde o anarquismo e o gênero neutro deram certo

  As mulheres ainda são tão minoritárias na ficção científica, que apenas este fato seria suficiente para se ler Ursula K. Le Guin. Minha razão para recomendá-la, porém, é outra. Li dois livros da autora, Os Despossuídos e A Mão Esquerda da Escuridão, e me chamou a atenção nenhum deles trazer um futuro terrível ou ameaçador para a humanidade, espalhada em diferentes planetas universo afora. Em uma época na qual olho pela janela e o céu esfumaçado me faz sentir estar em Blade Runner (Ridley Scott, 1982) e ver o noticiário me transporta para o pavor de Inteligência Artificial (Steven Spielberg, 2001) ou O Exterminador do Futuro (James Cameron, 1991), é bom ler, para variar, algo do gênero que não seja distopia dizendo pra mim “Hasta la vista, baby!”. Nesses dois livros de Le Guin, escritos há mais de 50 anos, os personagens vivem em condições climáticas extremas, mas são adaptados e mantêm uma relação de respeito pela natureza que, mesmo hostil, os permite sobreviver. Em Os Despossuídos, a história se passa em dois planetas que orbitam juntos uma mesma estrela. O maior é Urras, onde as condições naturais são ótimas, mas os países estão sempre em guerra e as desigualdades sociais e sexuais correm soltas. Um grupo de anarquistas faz um acordo para não ser preso e é enviado para o planeta menor (ou satélite), onde as condições naturais são adversas (falta água, há tempestades de vento etc.), mas conseguem criar uma sociedade igualitária e sem autoridades. Anarres não é uma sociedade perfeita, mas como o cientista Shevek vai confirmar ao viajar para Urras, mais justo e melhor para se viver. Estes planetas fazem parte de uma espécie de ONU planetária, chamada Ekumen, da qual a Terra faz parte como mais um entre os membros. Sua função é compartilhar conhecimento entre os planetas, não há um governo central nem tentativas de dominação. No segundo livro, A Mão Esquerda da Escuridão, um terráqueo é enviado como uma espécie de diplomata a um planeta longínquo para convidar seus habitantes a participar do Ekumen. O planeta é conhecido no Universo como Inverno pelas condições extremas de temperaturas geladas, no limite para a existência de vida humana. Mais uma vez, seus habitantes (que não sabiam da existência de vida em outros planetas) são muito bem adaptados tecnologicamente às condições climáticas. Esse livro ficou mais conhecido, porém, em razão de seus humanos serem andróginos, sem sexo definido, e todos poderem escolher ser do gênero masculino ou feminino nas relações sexuais, assim como engravidar e ter filhos. Mais uma vez, não são seres perfeitos e suas sociedades são variadas e com vários problemas, embora não conheçam o conceito de guerra. Os livros de Ursula K. Le Guin, embora tenham algumas incongruências – como o fato, reconhecido mais tarde pela autora, de seus personagens andróginos serem tratados no masculino –, têm o mérito de pensar sociedades diferentes, sem os princípios da dominação a qualquer custo ou da exploração dos recursos naturais até a exaustão. Posso estar enganada, mas essas crenças, presentes em praticamente todas as obras de ficção científica e no nosso imaginário civilizatório, me parecem uma visão masculina do mundo que tem nos levado a uma distopia da vida real. Seria muito bom termos mais ficcionistas, cientistas, idealistas e – por que não? – políticos pensando em soluções e mundos diferentes. Fotos: Céu cinza no inverno quente de São Paulo. Capas dos livros.

Livrai-nos do Mal

  Houve uma movimentação no grupo de WhatsApp do prédio da Neise na última quinta-feira para saber por que o apartamento dela estava interditado. Caso chegassem mais perto da porta, os vizinhos veriam que, no meio das fitas de isolamento de área, havia uma plaquinha indicando Hotel Towneley Arms. Se tivessem aberto a porta, teriam se deparado com uma cabeça de homem sobre a mesa, cercada por sete mulheres – ali representadas por bonecas – suspeitas do assassinato. A arma do crime, um machado ensanguentado, estava ao lado da parte do corpo exposta. Na parede da sala, um esquema daqueles de filmes policiais trazia Jamie Spellman no centro, com as informações sobre a vítima e as possíveis assassinas ao redor. Essa mistura de cena de crime com delegacia de polícia foi planejada pela Neise para nossa reunião do Círculo Feminino de Leitura – CFL sobre o livro Livrai-nos do Mal, da inglesa Rose Wilding. Pela primeira vez em nosso grupo, à exceção de nossa anfitriã/inspetora de polícia, ninguém tinha lido os capítulos finais do livro. Neste romance policial, sete mulheres que tiveram suas vidas destruídas pelo bonitão sem escrúpulos Jamie se reúnem para decidir o que fazer com ele, pensando em como reunir provas para denunciá-lo à polícia. De repente, porém, se deparam com sua cabeça decepada no esconderijo do hotel em que se encontravam e passam a ser investigadas pela inspetora Nova como suspeitas do crime. Assim como a polícial, vamos descobrindo o que Jamie fez a cada uma e é impossível não nos solidarizarmos com elas. As maldades do sujeito vão de abandono, traição e roubo de projeto até estupro e assassinato. A Neise pediu para não lermos o final e cada um escolher uma das personagens para contar como achávamos que ela cometeu o assassinato. Descontamos nossa raiva de todos os homens abusadores em nossas descrições detalhadas de como a cabeça e o corpo de Jamie foram separados. Nossos assassinatos imaginários foram hilários e com requintes de crueldade. Várias de nós (inclusive eu!) acertamos a autora do crime.

O lindo Jardim Botânico de São Paulo

  Um dos parques mais antigos de São Paulo, o Jardim Botânico é também um dos mais bonitos. Fundado em 1928, a partir da implantação de um projeto de botânica para a cidade, pelo naturalista Frederico Carlos Hoehne, o local tem um paisagismo maravilho, trilhas bem-sinalizadas e um orquidário daqueles de gastar o dedo tirando fotos. Abriga, ainda, o Instituto de Botânica e o Museu Botânico de São Paulo, onde se encontram amostras de plantas da flora brasileira e informações sobre diversos ecossistemas do Estado de São Paulo. Fica dentro do Parque Estadual Fontes do Ipiranga, que engloba também o Zoológico de São Paulo, e é o maior fragmento de Mata Atlântica em área urbana da Região Metropolitana de São Paulo. Estive lá algumas vezes para entrevistas no Instituto de Botânica, mas fazia bastante tempo que não visitava, principalmente porque a Água Funda, na Zona Sul, fica um pouco longe de onde moro. Talvez seja por isso que não soubesse que o Jardim Botânico (junto com o Zoológico e o Zoo Safari) tenha sido privatizado em 2021. Não tenho opinião fechada sobre privatização em si (o Parque do Ibirapuera também foi), mas pagar entrada em área verde numa cidade onde faltam opções de lazer e áreas verdes disponíveis para a população me deixa chateada. Não lembro se já era cobrado antes, mas com entradas a quase R$ 25, mesmo com muitos pagando meia, fica caro para a maior parte das pessoas ir com a família. A cidade de São Paulo tem até mais áreas verdes do que imaginamos à primeira vista, mais de metade do território do município, segundo dados da Prefeitura. Só que a maior parte está em suas extremidades à noroeste (Serra da Cantareira) e ao sul (Serra do Mar), nosso cinturão verde, que representa o pouco de garantia que ainda temos de proteção de nossas águas. Mas isso não garante aos moradores da metrópole o acesso que deveriam ter ao verde como espaço de lazer e benefícios à saúde física e mental. Nas áreas urbanas, onde vive a maior parte da população de 12 milhões de pessoas, a quantidade é menos de quatro vezes do que deveria. Enquanto a Organização Mundial de Saúde preconiza que uma cidade deveria ter um mínimo de 12 metros quadrados de área verde por habitante, cada paulistano conta, em média, com apenas 2,6 metros quadrados de área verde pública de lazer – praças e parques – por pessoa, segundo a Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente. Essas áreas, além de tudo, são pessimamente distribuídas. Bairros nobres das zonas Sul e Oeste são os mais privilegiados, enquanto, na região central e nas periferias, o reinado é do cinza. Para a maior parte da população, chegar a um parque significa ter que percorrer muitos quilômetros e pegar vários transportes coletivos. É preciso ter disposição e tempo, o que só é possível, para a maior parte, no final de semana. Se, ainda por cima, tiver que pagar para entrar, fica ainda mais difícil.

Calorão no inverno parece bom, mas não é

Lembro de acordar e sentir cheiro de orvalho, encontrar o chão do quintal e as calçadas molhadas de manhãzinha. Era assim todos os dias em São Paulo. E lembro de como odiava os dias garoentos do outono e o frio no meu aniversário, no final de julho. E de reclamar durante agosto inteiro de me levantar cedo para ir para a escola. Detestava ter que me agasalhar demais, às vezes com toca e luvas, e ainda me sentir gelada. Mas tudo isso foi há muito tempo, quando eu era criança. Já na faculdade de Geografia, aprendi com a professora Magda Lombardo o que eram as ilhas de calor e como a urbanização levou embora o orvalho e a garoa da cidade, aumentando sua temperatura. Nada que se compare, porém, com este inverno atípico que assistimos agora, sem saber se ele é apenas excepcional ou o novo normal. A questão é que, para a maior parte das pessoas, que gostam de sol e calor, este tem sido um inverno bom, e estou entre elas. É delicioso não precisar usar casacões, poder dormir, no máximo, com uma manta levinha, ver as sorveterias lotadas nos finais de semana. Acordar cedo para fazer exercício é quase um prazer. Nosso dilema, como defende meu amigo Alexandre Mansur, é como lidar com a dissonância cognitiva do aquecimento global em nossas vidas. Costumamos nos encontrar, de vez em quando, para falar de literatura e desses temas nada amenos relacionados ao meio ambiente. Nosso último papo, no meio da última onda de frio na cidade, foi justamente sobre o não inverno que vivemos e o desafio de aproveitar algumas das benesses das mudanças climáticas, como o clima ameno fora de época, sem ilusões, assunto recente de sua coluna no jornal O Globo. Na sua última coluna, no fim de semana passado, ele volta ao tema a partir de uma chateação: por conta do calor, os “bichinhos da luz” chegaram prematuramente para nos irritar. Sabemos que esse é um incômodo pequeno, fácil de suportar, mas serve de alerta sobre outras mazelas que estão aí e nem percebemos, como os problemas de saúde causados pela secura do ar ou a poluição já tradicional desta época do ano, agora potencializada pela fumaça dos incêndios amazônicos, que chegam pelos rios voadores. Ou a possibilidade de voltarmos a conviver com uma seca como a de 2015, que quase levou a cidade ao colapso, caso a redução das chuvas permaneça. Longe de mim ser mensageira do apocalipse – as pessoas costumam detestar ambientalistas, cientistas e jornalistas por isso, e quero ser gostada -, mas não custa nada a gente pensar um pouco sobre isso neste fim de semana, quando um friozinho promete nos deixar mais encolhidos em casa. Um dos trabalhos de que participei, enquanto estava presa em casa por conta da pandemia de covid, em 2020, foi a edição do Plano de Ação Climática da cidade de São Paulo(PanClima), que consiste em uma série de ações para reduzir as emissões de gases do efeito estufa no município até 2030 e de zerá-las até 2050. É um plano bem completo, que poderia, ainda, deixar a cidade bem mais agradável de se viver. Não faço ideia se alguma coisa do que está ali foi posta em prática ou está em vias de ser, desconfio de que quase nada. Como estamos perto de eleições municipais, é um bom momento para questionar candidatos a prefeita(o) e vereador(a) como como e se pretendem encarar esse assunto. Fica a dica.

Parque Buenos Aires, em Higienópolis: cada bairro deveria ter o seu

  Trabalhei por ano em Higienópolis, frequento o bairro, mas nunca tinha entrado no Parque Buenos Aires. Aliás, ainda pensava nele como uma praça. Para quem só conhecia o local de passar por fora, é menorzinho do que imaginava e mais bonito. Fiquei encantada com as esculturas – uma delas, Emigrantes, do Lasar Segall, já vale a visita. Durante a semana, é um paraíso das babás do bairro, passeando com carrinhos de bebês ou com crianças pequenas no parquinho. E tem espaço para cachorros. Para quem gosta de caminhadas, é um pouco pequeno, está mais para um convite para descanso e contemplação. Daquelas áreas verdes que cada paulistano deveria ter perto de casa para ir a pé, mas permanece como privilégio de bairros ricos.

Notícias sobre mudança do clima continuam péssimas

  Fazia bastante tempo desde que estive em um evento sobre mudanças climáticas. Como imaginava, as notícias continuam as mesmas – só que piores. O fato de o ano passado ter sido o mais quente da história dos humanos no planeta – e 2024 se candidatar para bater o recorde – elimina possibilidades de otimismo. As enchentes no Sul, o fogo no Pantanal, as secas na Amazônia e no Nordeste são a cereja do bolo. Como disse Márcio Astrini, do Observatório do Clima, na mesa sobre o tema, no Seminário USP Pensa Brasil, nesta semana, as pesquisas indicarem que 95% da população brasileira saber o que são mudanças climáticas e boa parte se importar com elas não significa, na prática, ser uma prioridade para a sociedade. Principalmente, porque os brasileiros, principalmente os pobres, têm coisas mais urgentes para se preocupar, como ter uma casa, um emprego e saúde e escola para seus filhos. Entender que já ultrapassamos o aumento de 1,5º C na temperatura média do planeta e que a situação deve piorar muito quando chegar a algo como 3,7º C e 4,3º C, como informou Paulo Artaxo, um dos nossos maiores especialistas na área, é obrigação de quem faz política pública, ou seja, dos políticos. Isso é grave, no nosso caso, pois o Congresso Nacional tem se esforçado muito para piorar a situação. Ver os dois especialistas e também o Eduardo Costa Taveira, secretário estadual de Meio Ambiente do Amazonas, repetindo as mesmas verdades indigestas (mais uma vez, citando Artaxo), me fez lembrar porque tenho procurado outros assuntos para me ocupar. A mensagem é: se tudo der certo (os países ricos abrirem o bolso, a transição energética acontecer e papai Noel chegar no Natal, mesmo esbaforido de calor) a desgraça pode diminuir um pouco em relação a se tudo der errado, como está acontecendo neste exato momento. Talvez eu esteja exagerando no desalento dos três barbados da mesa, instigados pela incansável jornalista Giovana Girardi, mas foi como me senti, mesmo entendendo e não duvidando deles. Até que apareceu a Tainá de Paula, a única da mesa que eu não conhecia. Vereadora (PT/RJ) e ex-secretária de Meio Ambiente da cidade do Rio de Janeiro, chegou atrasada e de sorrisão na cara. Uma mulher negra, arquiteta e vinda da favela. Começou a falar de coisas que estão sendo feitas, de outras que precisam acontecer, como os demais, mas de um ponto de vista de ações práticas, a partir das cidades. Disse que muito calor no Rio hoje é calorão Taylor Swift, por conta daquele fatídico show que matou uma menina (ela era secretária de Meio Ambiente na época), contou que está sendo processada pelos fabricantes de miojo, porque diz que os jovens hoje só podem comer essa porcaria (concordo com ela). Não trouxe nada de extraordinário, a não ser a postura, um ar de vamos em frente, que a gente chega lá. É muito. Fotos: Norberto de Assis.

O sobrenome e o patriarcado

Um dos maiores símbolos do patriarcado, que me deixa muito irritada, é a transmissão do sobrenome. Considero um desaforo para as mulheres. Mesmo homens, e são muitos, que simplesmente desaparecem da vida de seus filhos, deixando a mãe se virar sozinha, transmitem seus nomes como herança, caso eles constem na certidão de nascimento. Colocar em uma criança também o sobrenome da mãe – como fizemos eu e meu marido com nossos filhos – é uma atitude bacaninha, mas ele vai sumir na próxima geração. Aliás, na prática, pouquíssimas pessoas usam o nome materno, o costume é sermos conhecidos apenas pelo último nome. Meus pais nem se deram a esse trabalho, só tenho o sobrenome do meu pai. No meu caso, nem nome duplo deram, como no caso dos meus irmãos, por considerarem que, ao me casar, ficaria com um nome muito grande. Euzinha, porém, tenho uma sugestão para resolver essa injustiça: meninas seguiriam a linhagem materna e meninos a paterna. Sei que é uma proposta controversa e adianto que não tenho solução para casos diferentes, como, por exemplo, de pessoas não cisgêneros ou das que não sabem quem é o pai. Para os primeiros e outros casos do tipo, poderia haver a opção de mudar o sobrenome mais tarde e, para os últimos, poderia continuar vigorando o sobrenome da mãe, como é hoje. Com isso, acredito que as linhagens femininas tenderiam a predominar, mas isso é um problema dos homens. Quem manda fugir à responsabilidade? Não sei se alguém já teve essa ideia, mas é fácil de operacionalizar e deve haver pessoas mais qualificadas do que eu para resolver os casos mais complicados. Jogo para o universo! Sei que não é politicamente correto falar desse assunto às vésperas do Dia dos Pais, mas se hoje as mulheres têm os mesmos direitos civis dos homens, por que não podem também transmitir seu sobrenome? Caso essa regra estivesse valendo quando nasci, até onde sei, meu nome seria Maura Garcia. Mas este também é apenas um remendo, pois é o sobrenome do avô materno de minha mãe, a última informação que tenho. Muitas mulheres apenas tiravam seus sobrenomes de solteira ao se casar e fica praticamente impossível refazer o caminho do lado materno. Felizmente, esta prática parece estar em desuso. Veja que estou sendo bastante democrática ao dividir as linhagens em feminina e masculina, pois contempla pais e mães. Era só inverter os sobrenomes conforme o gênero do bebê. No mínimo, os chás revelação, essa ideia de jerico meio constrangedora que inventaram agora, ficariam certamente mais interessantes. Que tal?  

Clubes de leitura: revoluções individuais a partir dos livros

Quem me conhece sabe da importância que participar de um clube de leitura tem na minha vida. Especial para mim e para as demais membras, o Círculo Feminino de Leitura-CFL, ao invés de se tornar rotina, foi ganhando maior espaço em nossas vidas ao longo do tempo e transfomou nossa maneira de ver o mundo. Por isso, ao receber da Nivia, uma de minhas companheiras de CFL, uma foto do livro Clubes de Leitura – Uma aposta nas pequenas revoluções (Solisluna Editora), de Janine Durand e Luciana Gerbovic, fiquei com coceira nos olhos e fui correndo comprar. As autoras escrevem a partir de suas experiências de mediadoras de clubes de leitura e abordam o potencial da literatura como caminho para libertação pessoal. Advocam que a literatura é um Direito Humano, mas pouco respeitado no Brasil. As duas são articuladoras do Programa Remição em Rede, que fomenta clubes de leitura em unidades prisionais para remição da pena por meio da leitura. Trazem depoimentos tocantes de pessoas transformadas pelos livros em presídios, escolas, comunidades. A obra é, ainda, quase um curso sobre a mediação de clubes de leitura, defendida com entusiasmo pelas autoras, o que me surpreendeu. O círculo do qual faço parte há anos não tem mediação. Participo eventualmente de um outro grupo com uma mediadora e gosto bastante, embora seja uma experiência bem diferente, quase uma aula sobre o livro discutido. Lendo Janine e Luciana, porém, percebi que temos, no CFL, uma mediação compartilhada entre as membras, construída ao longo do tempo de convivência. Acredito que nosso modelo é mais uma alternativa para multiplicar tanto a criação de clubes de leitura quanto para proporcionar a perenidade e a diversidade dos círculos.   

O estado islâmico e o Congresso Nacional

  Tenho baixa resistência à crueldade. Quando se trata de mulheres e crianças, é quase fobia. Por isso essa discussão sobre o hediondo projeto de supercriminalização do abordo me deixou paralisada, assim como foi difícil engrenar na leitura de A Tatuagem de Pássaro, romance da iraquiana Dunya Mikhail. O livro é uma espécie de O Conto da Aia (de Margaret Atwood), mas real e atual. Começa com a invasão de partes do Iraque e da Síria pelo Estado Islâmico, em 2014, e a escravização das mulheres não muçulmanas – não que a vida destas últimas tenha ficado boa. Acompanhamos a história a partir de Helin, da minoria de origem curda iazidi, cuja religião traz elementos do islamismo, do cristianismo e do zoroastrismo, sequestrada em Mossul pelo Daich (nome pelo qual o estado islâmico ficou conhecido no mundo árabe), mas chamado de “quadrilha” no livro. Helin e as demais mulheres, aí incluídas as meninas a partir de 9 anos, se tornaram mercadoria vendida pela internet, que pode ser trocada ou devolvida quantas vezes o comprador quiser. Enquanto posse/prisioneira, ela pode ser espancada e estuprada ao bel prazer do “fiel”, que alega a estar salvando do inferno. Baseada em relatos de sobreviventes colhidos por Dunya (hoje morando nos Estados Unidos), principalmente a partir de um apicultor que montou uma rede para libertar essas mulheres, a autora já avisa antes de começar o texto: “Qualquer semelhança com a realidade de quem hoje vive entre nós não é mera coincidência.” Em nome de deus, esses homens escravizam e assassinam, determinam o que as pessoas devem vestir, comer e fazer em cada minuto de suas vidas. Tenho dificuldade de acreditar, mas o livro dá a entender que pelo menos parte da quadrilha acredita mesmo estar a serviço de um bem maior. Os filhos de Helin, levados compulsoriamente para treinamento militar, quase foram convencidos disso, só voltaram a si ao assistir a um vídeo em que seu próprio pai é degolado. O festival de horrores só diminui quando a autora muda o foco dos algozes para os que, do lado de fora ou infiltrados, tentam ajudar a salvar os prisioneiros. O alívio pelos que conseguem escapar é pouco quando pensamos em tantos que continuam nessa situação e em como o extremismo não é uma realidade tão distante assim. Assistindo na semana passada à imagem bizarra de uma mulher encenando um feto sendo abortado para marmanjos entre hipócritas e constrangidos, em pleno Senado Federal, senti asco, mas também medo, porque quem é capaz de se prestar a isso não tem limite algum. Ver a mobilização nas redes e, muito melhor, nas ruas contra esse show de misoginia que temos assistido no Congresso Nacional, travestido de um moralismo que sabemos que essas pessoas não têm, é um alento. Lembro da minha tristeza ao participar das passeatas do #elenão e escutar, de gente que supunha consciente, que a mobilização das mulheres teria sido culpada pelo crescimento do bolsonarismo. Ao contrário, acredito que a falta de apoio irrestrito à causa das mulheres funciona como um aval para a não liberação do aborto no país até hoje e suas consequências cruéis para as mulheres pobres e vulneráveis. Esse projeto de lei – assim como saber como é o estado islâmico e outros lugares no mundo odiadores de mulheres por dentro – só está aí para nos lembrar que sempre pode piorar. (No vídeo, passeata conta o projeto de lei, em São Paulo)

O ponto máximo da evolução

  Só sei dizer sobre nós mesmos, não tenho informação sobre outros povos, mas o brasileiro é muito autorreferente. Adoramos saber a opinião de estrangeiros, principalmente os ilustres, sobre nós. Ficamos indignados quando vemos alguém trocar nossa capital ou confundir nossos ritmos musicais. Quer ver meu marido furioso, é um artista ou político de outro país falar mal do Brasil em alguma entrevista. Parece que a pessoa falou sobre e para ele.  Da minha parte, não tenho inclinações patrióticas. Nos vejo como muito ignorantes sobre outros povos e países e, assim, por que esperar que os demais saibam sobre nós? Mas é curioso nos ver refletidos na visão alheia, mesmo na ficção. Lendo o romance Plataforma, do francês Michel Houellebecq, me deparei com uma descrição da minha cidade, São Paulo, bastante peculiar. O livro é uma grande crítica ao capitalismo global e sobra pra todo mundo. Ao longo o texto, Michel Renault, um funcionário público francês de meia-idade, cínico e frustrado, ataca o modo de vida e a hipocrisia europeus, o turismo internacional, o trabalho, as relações interpessoais, o islamismo e muito mais. O parágrafo sobre São Paulo me chamou a atenção por sua gratuidade no texto, não tinha nada a ver com a história. Um dos personagens – um executivo da área de turismo -, do nada, enquanto dirige, traz uma reminiscência, que mais parece uma interferência do autor: “Uma vez estive em São Paulo: foi lá que a evolução chegou ao seu ponto máximo. Aquilo não é mais uma cidade, é um território urbano que se estende a perder de vista, com favelas, gigantescos edifícios de escritórios e residências de luxo cercadas de guardas armados até os dentes. São mais de vinte milhões de habitantes, muitos dos quais nascem, vivem e morrem sem nunca sair dos limites do seu território. As ruas são muito perigosas, mesmo de carro a gente corre o risco de ser assaltado no sinal vermelho ou perseguido por uma quadrilha motorizada: as mais bem equipadas têm até metralhadoras e lança-foguetes. Para se deslocar, os homens de negócios e as pessoas ricas utilizam quase exclusivamente helicópteros; há locais de pouso por toda parte, no topo dos prédios de bancos e dos imóveis residenciais. No nível do solo, a rua é território dos pobres – e dos bandidos.” E continua dirigindo, acrescentando apenas: “Ando cheio de dúvidas. Cheio de dúvidas, cada vez mais frequentes, sobre o meu interesse pelo mundo que estamos construindo.” É sem dúvida uma descrição crua. Vejo alguns exageros de uma pessoa que conheceu a cidade pela perspectiva dos muito ricos. Por que ele acha que os paulistanos nascem, vivem e morrem sem deixar os limites da cidade? São Paulo parece mesmo uma metrópole de filme distópico, mas não estamos presos como nas séries Divergente ou The Last Of Us.  Não conheço nenhum rico que só se locomova de helicóptero, mas vários com carros blindados cujos filhos nunca andaram pelas ruas da cidade e só conhecem parques e transportes públicos no exterior. Sei que São Paulo não é o lugar mais seguro do mundo e há locais realmente assustadores. Não me aventuraria sozinha pela Cracolândia, mas não me sinto insegura ao circular pelas ruas, tanto a pé como de carro, com os cuidados que tomaria em qualquer metrópole do mundo, não pegaria meu celular, por exemplo. Acho bizarro mostrar meus documentos e tirar fotos para entrar em edifícios comerciais ou mostrar minhas digitais quando chego ao clube. Passar por dois portões para visitar alguém ou, pior, entrar em minha própria casa, é terrível. Falar com um porteiro perdido em um call center em algum local remoto do país ou, mais recente, fazer com antecedência reconhecimento facial e digital para entrar no prédio de uma amiga, me faz ter certeza de vivermos mesmo em uma distopia, em boa parte, na minha opinião, fabricada pela indústria do medo. Deve ter gente ganhando muito dinheiro com o pavor alheio. Como o personagem de Houellebecq, ando cheia de dúvidas, cada vez mais frequentes, sobre o meu interesse pelo mundo que estamos construindo.