Parque Buenos Aires, em Higienópolis: cada bairro deveria ter o seu

Trabalhei por ano em Higienópolis, frequento o bairro, mas nunca tinha entrado no Parque Buenos Aires. Aliás, ainda pensava nele como uma praça. Para quem só conhecia o local de passar por fora, é menorzinho do que imaginava e mais bonito. Fiquei encantada com as esculturas – uma delas, Emigrantes, do Lasar Segall, já vale a visita. Durante a semana, é um paraíso das babás do bairro, passeando com carrinhos de bebês ou com crianças pequenas no parquinho. E tem espaço para cachorros. Para quem gosta de caminhadas, é um pouco pequeno, está mais para um convite para descanso e contemplação. Daquelas áreas verdes que cada paulistano deveria ter perto de casa para ir a pé, mas permanece como privilégio de bairros ricos.
Notícias sobre mudança do clima continuam péssimas

Fazia bastante tempo desde que estive em um evento sobre mudanças climáticas. Como imaginava, as notícias continuam as mesmas – só que piores. O fato de o ano passado ter sido o mais quente da história dos humanos no planeta – e 2024 se candidatar para bater o recorde – elimina possibilidades de otimismo. As enchentes no Sul, o fogo no Pantanal, as secas na Amazônia e no Nordeste são a cereja do bolo. Como disse Márcio Astrini, do Observatório do Clima, na mesa sobre o tema, no Seminário USP Pensa Brasil, nesta semana, as pesquisas indicarem que 95% da população brasileira saber o que são mudanças climáticas e boa parte se importar com elas não significa, na prática, ser uma prioridade para a sociedade. Principalmente, porque os brasileiros, principalmente os pobres, têm coisas mais urgentes para se preocupar, como ter uma casa, um emprego e saúde e escola para seus filhos. Entender que já ultrapassamos o aumento de 1,5º C na temperatura média do planeta e que a situação deve piorar muito quando chegar a algo como 3,7º C e 4,3º C, como informou Paulo Artaxo, um dos nossos maiores especialistas na área, é obrigação de quem faz política pública, ou seja, dos políticos. Isso é grave, no nosso caso, pois o Congresso Nacional tem se esforçado muito para piorar a situação. Ver os dois especialistas e também o Eduardo Costa Taveira, secretário estadual de Meio Ambiente do Amazonas, repetindo as mesmas verdades indigestas (mais uma vez, citando Artaxo), me fez lembrar porque tenho procurado outros assuntos para me ocupar. A mensagem é: se tudo der certo (os países ricos abrirem o bolso, a transição energética acontecer e papai Noel chegar no Natal, mesmo esbaforido de calor) a desgraça pode diminuir um pouco em relação a se tudo der errado, como está acontecendo neste exato momento. Talvez eu esteja exagerando no desalento dos três barbados da mesa, instigados pela incansável jornalista Giovana Girardi, mas foi como me senti, mesmo entendendo e não duvidando deles. Até que apareceu a Tainá de Paula, a única da mesa que eu não conhecia. Vereadora (PT/RJ) e ex-secretária de Meio Ambiente da cidade do Rio de Janeiro, chegou atrasada e de sorrisão na cara. Uma mulher negra, arquiteta e vinda da favela. Começou a falar de coisas que estão sendo feitas, de outras que precisam acontecer, como os demais, mas de um ponto de vista de ações práticas, a partir das cidades. Disse que muito calor no Rio hoje é calorão Taylor Swift, por conta daquele fatídico show que matou uma menina (ela era secretária de Meio Ambiente na época), contou que está sendo processada pelos fabricantes de miojo, porque diz que os jovens hoje só podem comer essa porcaria (concordo com ela). Não trouxe nada de extraordinário, a não ser a postura, um ar de vamos em frente, que a gente chega lá. É muito. Fotos: Norberto de Assis.
O sobrenome e o patriarcado

Um dos maiores símbolos do patriarcado, que me deixa muito irritada, é a transmissão do sobrenome. Considero um desaforo para as mulheres. Mesmo homens, e são muitos, que simplesmente desaparecem da vida de seus filhos, deixando a mãe se virar sozinha, transmitem seus nomes como herança, caso eles constem na certidão de nascimento. Colocar em uma criança também o sobrenome da mãe – como fizemos eu e meu marido com nossos filhos – é uma atitude bacaninha, mas ele vai sumir na próxima geração. Aliás, na prática, pouquíssimas pessoas usam o nome materno, o costume é sermos conhecidos apenas pelo último nome. Meus pais nem se deram a esse trabalho, só tenho o sobrenome do meu pai. No meu caso, nem nome duplo deram, como no caso dos meus irmãos, por considerarem que, ao me casar, ficaria com um nome muito grande. Euzinha, porém, tenho uma sugestão para resolver essa injustiça: meninas seguiriam a linhagem materna e meninos a paterna. Sei que é uma proposta controversa e adianto que não tenho solução para casos diferentes, como, por exemplo, de pessoas não cisgêneros ou das que não sabem quem é o pai. Para os primeiros e outros casos do tipo, poderia haver a opção de mudar o sobrenome mais tarde e, para os últimos, poderia continuar vigorando o sobrenome da mãe, como é hoje. Com isso, acredito que as linhagens femininas tenderiam a predominar, mas isso é um problema dos homens. Quem manda fugir à responsabilidade? Não sei se alguém já teve essa ideia, mas é fácil de operacionalizar e deve haver pessoas mais qualificadas do que eu para resolver os casos mais complicados. Jogo para o universo! Sei que não é politicamente correto falar desse assunto às vésperas do Dia dos Pais, mas se hoje as mulheres têm os mesmos direitos civis dos homens, por que não podem também transmitir seu sobrenome? Caso essa regra estivesse valendo quando nasci, até onde sei, meu nome seria Maura Garcia. Mas este também é apenas um remendo, pois é o sobrenome do avô materno de minha mãe, a última informação que tenho. Muitas mulheres apenas tiravam seus sobrenomes de solteira ao se casar e fica praticamente impossível refazer o caminho do lado materno. Felizmente, esta prática parece estar em desuso. Veja que estou sendo bastante democrática ao dividir as linhagens em feminina e masculina, pois contempla pais e mães. Era só inverter os sobrenomes conforme o gênero do bebê. No mínimo, os chás revelação, essa ideia de jerico meio constrangedora que inventaram agora, ficariam certamente mais interessantes. Que tal?
Clubes de leitura: revoluções individuais a partir dos livros

Quem me conhece sabe da importância que participar de um clube de leitura tem na minha vida. Especial para mim e para as demais membras, o Círculo Feminino de Leitura-CFL, ao invés de se tornar rotina, foi ganhando maior espaço em nossas vidas ao longo do tempo e transfomou nossa maneira de ver o mundo. Por isso, ao receber da Nivia, uma de minhas companheiras de CFL, uma foto do livro Clubes de Leitura – Uma aposta nas pequenas revoluções (Solisluna Editora), de Janine Durand e Luciana Gerbovic, fiquei com coceira nos olhos e fui correndo comprar. As autoras escrevem a partir de suas experiências de mediadoras de clubes de leitura e abordam o potencial da literatura como caminho para libertação pessoal. Advocam que a literatura é um Direito Humano, mas pouco respeitado no Brasil. As duas são articuladoras do Programa Remição em Rede, que fomenta clubes de leitura em unidades prisionais para remição da pena por meio da leitura. Trazem depoimentos tocantes de pessoas transformadas pelos livros em presídios, escolas, comunidades. A obra é, ainda, quase um curso sobre a mediação de clubes de leitura, defendida com entusiasmo pelas autoras, o que me surpreendeu. O círculo do qual faço parte há anos não tem mediação. Participo eventualmente de um outro grupo com uma mediadora e gosto bastante, embora seja uma experiência bem diferente, quase uma aula sobre o livro discutido. Lendo Janine e Luciana, porém, percebi que temos, no CFL, uma mediação compartilhada entre as membras, construída ao longo do tempo de convivência. Acredito que nosso modelo é mais uma alternativa para multiplicar tanto a criação de clubes de leitura quanto para proporcionar a perenidade e a diversidade dos círculos.
O estado islâmico e o Congresso Nacional
Tenho baixa resistência à crueldade. Quando se trata de mulheres e crianças, é quase fobia. Por isso essa discussão sobre o hediondo projeto de supercriminalização do abordo me deixou paralisada, assim como foi difícil engrenar na leitura de A Tatuagem de Pássaro, romance da iraquiana Dunya Mikhail. O livro é uma espécie de O Conto da Aia (de Margaret Atwood), mas real e atual. Começa com a invasão de partes do Iraque e da Síria pelo Estado Islâmico, em 2014, e a escravização das mulheres não muçulmanas – não que a vida destas últimas tenha ficado boa. Acompanhamos a história a partir de Helin, da minoria de origem curda iazidi, cuja religião traz elementos do islamismo, do cristianismo e do zoroastrismo, sequestrada em Mossul pelo Daich (nome pelo qual o estado islâmico ficou conhecido no mundo árabe), mas chamado de “quadrilha” no livro. Helin e as demais mulheres, aí incluídas as meninas a partir de 9 anos, se tornaram mercadoria vendida pela internet, que pode ser trocada ou devolvida quantas vezes o comprador quiser. Enquanto posse/prisioneira, ela pode ser espancada e estuprada ao bel prazer do “fiel”, que alega a estar salvando do inferno. Baseada em relatos de sobreviventes colhidos por Dunya (hoje morando nos Estados Unidos), principalmente a partir de um apicultor que montou uma rede para libertar essas mulheres, a autora já avisa antes de começar o texto: “Qualquer semelhança com a realidade de quem hoje vive entre nós não é mera coincidência.” Em nome de deus, esses homens escravizam e assassinam, determinam o que as pessoas devem vestir, comer e fazer em cada minuto de suas vidas. Tenho dificuldade de acreditar, mas o livro dá a entender que pelo menos parte da quadrilha acredita mesmo estar a serviço de um bem maior. Os filhos de Helin, levados compulsoriamente para treinamento militar, quase foram convencidos disso, só voltaram a si ao assistir a um vídeo em que seu próprio pai é degolado. O festival de horrores só diminui quando a autora muda o foco dos algozes para os que, do lado de fora ou infiltrados, tentam ajudar a salvar os prisioneiros. O alívio pelos que conseguem escapar é pouco quando pensamos em tantos que continuam nessa situação e em como o extremismo não é uma realidade tão distante assim. Assistindo na semana passada à imagem bizarra de uma mulher encenando um feto sendo abortado para marmanjos entre hipócritas e constrangidos, em pleno Senado Federal, senti asco, mas também medo, porque quem é capaz de se prestar a isso não tem limite algum. Ver a mobilização nas redes e, muito melhor, nas ruas contra esse show de misoginia que temos assistido no Congresso Nacional, travestido de um moralismo que sabemos que essas pessoas não têm, é um alento. Lembro da minha tristeza ao participar das passeatas do #elenão e escutar, de gente que supunha consciente, que a mobilização das mulheres teria sido culpada pelo crescimento do bolsonarismo. Ao contrário, acredito que a falta de apoio irrestrito à causa das mulheres funciona como um aval para a não liberação do aborto no país até hoje e suas consequências cruéis para as mulheres pobres e vulneráveis. Esse projeto de lei – assim como saber como é o estado islâmico e outros lugares no mundo odiadores de mulheres por dentro – só está aí para nos lembrar que sempre pode piorar. (No vídeo, passeata conta o projeto de lei, em São Paulo)
O ponto máximo da evolução

Só sei dizer sobre nós mesmos, não tenho informação sobre outros povos, mas o brasileiro é muito autorreferente. Adoramos saber a opinião de estrangeiros, principalmente os ilustres, sobre nós. Ficamos indignados quando vemos alguém trocar nossa capital ou confundir nossos ritmos musicais. Quer ver meu marido furioso, é um artista ou político de outro país falar mal do Brasil em alguma entrevista. Parece que a pessoa falou sobre e para ele. Da minha parte, não tenho inclinações patrióticas. Nos vejo como muito ignorantes sobre outros povos e países e, assim, por que esperar que os demais saibam sobre nós? Mas é curioso nos ver refletidos na visão alheia, mesmo na ficção. Lendo o romance Plataforma, do francês Michel Houellebecq, me deparei com uma descrição da minha cidade, São Paulo, bastante peculiar. O livro é uma grande crítica ao capitalismo global e sobra pra todo mundo. Ao longo o texto, Michel Renault, um funcionário público francês de meia-idade, cínico e frustrado, ataca o modo de vida e a hipocrisia europeus, o turismo internacional, o trabalho, as relações interpessoais, o islamismo e muito mais. O parágrafo sobre São Paulo me chamou a atenção por sua gratuidade no texto, não tinha nada a ver com a história. Um dos personagens – um executivo da área de turismo -, do nada, enquanto dirige, traz uma reminiscência, que mais parece uma interferência do autor: “Uma vez estive em São Paulo: foi lá que a evolução chegou ao seu ponto máximo. Aquilo não é mais uma cidade, é um território urbano que se estende a perder de vista, com favelas, gigantescos edifícios de escritórios e residências de luxo cercadas de guardas armados até os dentes. São mais de vinte milhões de habitantes, muitos dos quais nascem, vivem e morrem sem nunca sair dos limites do seu território. As ruas são muito perigosas, mesmo de carro a gente corre o risco de ser assaltado no sinal vermelho ou perseguido por uma quadrilha motorizada: as mais bem equipadas têm até metralhadoras e lança-foguetes. Para se deslocar, os homens de negócios e as pessoas ricas utilizam quase exclusivamente helicópteros; há locais de pouso por toda parte, no topo dos prédios de bancos e dos imóveis residenciais. No nível do solo, a rua é território dos pobres – e dos bandidos.” E continua dirigindo, acrescentando apenas: “Ando cheio de dúvidas. Cheio de dúvidas, cada vez mais frequentes, sobre o meu interesse pelo mundo que estamos construindo.” É sem dúvida uma descrição crua. Vejo alguns exageros de uma pessoa que conheceu a cidade pela perspectiva dos muito ricos. Por que ele acha que os paulistanos nascem, vivem e morrem sem deixar os limites da cidade? São Paulo parece mesmo uma metrópole de filme distópico, mas não estamos presos como nas séries Divergente ou The Last Of Us. Não conheço nenhum rico que só se locomova de helicóptero, mas vários com carros blindados cujos filhos nunca andaram pelas ruas da cidade e só conhecem parques e transportes públicos no exterior. Sei que São Paulo não é o lugar mais seguro do mundo e há locais realmente assustadores. Não me aventuraria sozinha pela Cracolândia, mas não me sinto insegura ao circular pelas ruas, tanto a pé como de carro, com os cuidados que tomaria em qualquer metrópole do mundo, não pegaria meu celular, por exemplo. Acho bizarro mostrar meus documentos e tirar fotos para entrar em edifícios comerciais ou mostrar minhas digitais quando chego ao clube. Passar por dois portões para visitar alguém ou, pior, entrar em minha própria casa, é terrível. Falar com um porteiro perdido em um call center em algum local remoto do país ou, mais recente, fazer com antecedência reconhecimento facial e digital para entrar no prédio de uma amiga, me faz ter certeza de vivermos mesmo em uma distopia, em boa parte, na minha opinião, fabricada pela indústria do medo. Deve ter gente ganhando muito dinheiro com o pavor alheio. Como o personagem de Houellebecq, ando cheia de dúvidas, cada vez mais frequentes, sobre o meu interesse pelo mundo que estamos construindo.
Tremores e temores
Tremores e temores Ao fazer um discurso em homenagem a seu pai na universidade onde ele lecionou, dois anos após sua morte, a escritora estadunidense Siri Hustvedt teve uma tremedeira por todo o corpo, do pescoço para baixo. Ficou desconsertada e preocupada. O que seria aquilo? Acostumada a dar palestras e entrevistas, não encontrava motivos para o acontecido. Vítima de fortes enxaquecas desde a juventude, após sofrer mais um episódio de tremores ao falar em público, passou a pesquisar as causas. O resultado é o livro A Mulher Trêmula ou Uma História dos Meus Nervos, no qual retrata sua jornada em busca do que acontecia com seu corpo e se embrenha no mundo da psicanálise e da neurologia em busca de respostas. Hustvedt – agora viúva do recém-falecido escritor Paul Auster – não era uma neófita sobre doenças psíquicas e mentais. Há anos participava de grupos de estudo sobre o tema e dava aulas de escrita criativa para pacientes de um hospital psiquiátrico. Misto de biografia e ensaio, a obra me encantou por minha identificação com as questões da autora sobre o que é biológico, o que é mental ou psicológico nas manifestações do nosso cérebro. O que faz uma pessoa ser mais sentimental, ter um pensamento mais lógico, ter enxaquecas ou tremer? Como estas manifestações moldam ou são moldadas pela personalidade? Há pouco mais de três anos passei também a ser uma mulher trêmula. No meu caso, o que treme é o lado direito do rosto, e, para além do evidente problema estético, às vezes me atrapalha na leitura e até na fala. Costumo chamar o fenômeno de “presente da pandemia”, pois começou a aparecer durante o longo isolamento e depressão do período da covid. Para os neurologistas, porém, o que tenho são espasmos hemifaciais, uma manifestação neurológica que aparece sem explicações causando movimentos progressivos, involuntários e irregulares dos músculos inervados pelo nervo facial. Segundo uma das neurologistas que consultei, é como se alguns fios tivessem se desencapado e ficassem roçando uns nos outros na minha cabeça. Até o momento, a única solução – parcial e temporária – que me deram são aplicações de botox. Assim como Siri Hustvedt, gostaria de entender o que, exatamente, acontece com meus nervos. Não me parece lógico um sinal físico dessa natureza aparecer assim, do nada, e não ter relação alguma com o momento de fragilidade emocional no qual me encontrava. Por outro lado, esta mesma fragilidade emocional também me intriga. Por que me desestruturei tanto naquele momento? Milhares de pessoas passavam por tragédias imensas e não ficaram como eu. Estava segura, em nossa chácara, com toda minha família, nenhum deles internado com covid, trabalhávamos e ganhávamos normalmente. Tive algo químico ou sou apenas uma pessoa emocionalmente fraca? Perguntas como estas são instigantes, porém, não respondem ao essencial: é possível alterar essa condição, seja ela física ou psíquica? Hustvedt não conseguiu solucionar suas questões neucientíficas nem seu problema específico. Resolveu aceitar as ambiguidades do cérebro e o fato de ser uma mulher trêmula. Talvez eu deva fazer o mesmo.
CFL: Em Agosto nos Vemos
Pela primeira vez em uma reunião do Círculo Feminino de Leitura (CFL) nos ativemos mais ao Prefácio e ao posfácio, intitulado Nota da Edição Original, do que à discussão do enredo do livro. Os textos estão inseridos na obra Em Agosto nos Vemos, do Gabriel García Márquez, publicado postumamente por iniciativa dos filhos do escritor. Nossa conclusão foi unânime: se você não quiser que algo seu seja publicado (ou visto ou qualquer outra coisa) após a sua morte, destrua antes, pois caso o que você deixou valha algum dinheiro será usado à sua revelia. Foi exatamente isso que fizeram filhos e editores de Gabo ao publicar um livro claramente menor e inacabado do grande escritor. O ganhador do Nobel, ícone da literatura latino-americana e autor da obra-prima Cem Anos de Solidão não precisava ter esse livro em sua biografia. Por mais gostosinho de ler que ele seja. Caso Nos Vemos em Agosto fosse a obra de estreia de qualquer aspirante a escritor estaria super ok, pois tem um tema interessante e podemos abstrair as várias pequenas contradições e a superficialidade da história. Mas um gênio perfeccionista como García Márquez não deixaria nada passar. O Prefácio informa que o que apresenta é a junção de duas versões da novela na qual o escritor trabalhava, em meio a outras versões ainda, nenhuma considerada boa pelo autor. O argumento de que é um presente aos fãs de Gabo não convence. Seria melhor reler qualquer um de seus outros livros. Mas dindim é dindim, fazer o que. Claro que nada disso nos impediu de viajar na barca com Ana Magdalena para aquela ilha no Caribe e acompanhá-la ao túmulo de sua mãe e às suas aventuras extraconjugais. Com nossos trajes caribenhos, um cardápio de milho como base (de doer de bom), incluindo pastéis, polenta com cordeiro e curau preparados pelo simpático chef-vizinho da Edna, apoiamos as escapadas de nossa protagonista, mesmo sem entender seu propósito ou ficar claro (uma das contradições do livro) se seu marido é um predador inveterado ou um companheiro fiel que deu uma vacilada apenas uma vez. Tanto faz. Como a bruxa estava solta e imprevistos em série fizeram a maior parte das integrantes faltarem à reunião, em nosso encontro mensal do CFL – com apenas cinco de nós – ainda sentimos falta de saber mais sobre a mãe de Maria Magdalena e da relação das duas – ficou aquele gostinho de quero mais, de que havia mais a ser dito caso García Márquez o tivesse terminado.
Quando a turma da kombi se encontra
Éramos (bem) jovens. Tínhamos muitos sonhos, esperança e determinação – e alegria de sobra. Queríamos salvar o mundo de nós mesmos e para nós, mas também para todo o resto de vida que há no planeta. A Mata Atlântica foi o primeiro alvo, estava mais perto da sanha destruidora, era preciso correr contra o tempo. No início, costumávamos dizer que cabíamos em uma kombi. Depois, várias redes foram criadas, novos parceiros com os mesmos objetivos foram descobertos, e a luta se expandiu em todas as direções e biomas do Brasil. Sem essa Kombi, no entanto, possivelmente muito pouco da Mata Atlântica restante estaria de pé. Não haveria uma Lei da Mata Atlântica (a única a proteger um bioma específico no país) nem o Dia da Mata Atlântica, comemorado em 27 de maio. Nessa data, anualmente, a turma da kombi tem um encontro marcado. Nem todos conseguem vir, pois estão espalhados pelo Brasil: produzindo mudas e plantando árvores, fazendo ciência e lutando por políticas públicas para minimizar as mudanças climáticas e salvar a biodiversidade, tentando barrar o desmatamento e evitar as consequências de eventos extremos que, infelizmente, chegaram para ficar. Mas quem está em São Paulo ou tem um tempinho pra vir, aparece no Viva a Mata, a grande festa promovida pela SOS Mata Atlântica. É onde amigos e parceiros de tantos anos se reencontram, reabastecem energias e celebram o fato da kombi ter ficado pequena para tantos que vêm se juntando à frota. Comemoramos mesmo sabendo que ainda tem muito espaço nessa turma para ser ocupado e o tempo está cada vez mais curto para o tanto que é necessário fazer. Ontem tivemos mais um desses encontros. Foi lindo. Dormi feliz.
A air fryer e a ilusão capitalista
Fui apresentada à air fryer durante a pandemia. Não pessoalmente, pois me encontrava em isolamento em uma chácara, digamos, isolada, mas através das reuniões de Zoom. Era só termos uma pausa hidráulica ou nos aproximarmos da hora do almoço e alguém soltava: “chegou minha air fryer!” Dali pra frente, mesmo que estivéssemos discutindo o destino da Amazônia ou do Cerrado, de florestas, a índios, a gado, a rios, enfim, qualquer coisa mundana trivial, tudo era esquecido. As maravilhas que eram possíveis de fazer rapidamente, sem óleo, sem trabalho, apenas jogando o que quer que fosse naquela que entendi ser uma panela elétrica, tornavam-se o centro das atenções. Os rostos apáticos nas telas ganhavam vivacidade e a troca de dicas e receitas e declarações de amor ao mais importante utensílio doméstico criado desde a invenção do fogão à lenha tomavam toda a atenção. Frango à passarinho ou batata frita, legumes e arroz em minutos, forrar com papel alumínio para facilitar a limpeza, pão de queijo ou coxinha rapidinhos para o lanche: aprendi que tudo fica bom e mais saudável na air fryer. Trancafiada em um lugar onde precisava rotear o 4G do celular para o computador para poder trabalhar e aonde não chegava correio, proibida de sair de casa pela filharada, que ia apenas uma vez por semana à cidade para comprar o que tivesse no supermercado local, eu me fazia de samambaia para não ser notada e ninguém ver minha cara de inveja. Nesses momentos, ir até à horta um pouco antes do almoço colher o que tinha de fresco para a próxima refeição deixava de ser um antigo sonho e se tornava um enorme fardo sem nenhuma tecnologia. Passada a fase hard do isolamento, ainda antes das vacinas ou de luz no fim do túnel da pandemia, os filhos resolveram que, se era para morrer, não seria naquele fim de mundo, e começaram a passar temporadas em São Paulo, mesmo que fechados no apartamento. Quando nossa fiel escudeira Érika ficou sabendo disso, me ligou e disse que não achava “justo” estarmos os cinco trabalhando (eu, meu marido e os três filhos) e ela “sem fazer nada em casa”. Se ofereceu para preparar marmitas e deixar na portaria do prédio para que quem estivesse por lá trouxesse para a chácara cardápios completos para a semana. Fizemos uma reunião de família e chegamos à conclusão, com a consciência de classe tranquila, que não tínhamos argumentos para rebater a oferta. Não aguentávamos mais o cardápio limitado e as eternas discussões sobre o excesso de louça na pia entre reuniões, lives e aulas on-line. Ela tinha um cartão de crédito funcional para os gastos e, felizmente, um carro para poder fazer a entrega sem grandes riscos. A vida ficou tão mais fácil que até a depressão geral familiar diminuiu. Me sentia tão aliviada que continuei a me fazer de desentendida nos momentos air fryer entre colegas por vergonha de contar meu privilégio e estragar o entusiasmo geral. Com a redução da pandemia, após as vacinas, a vida foi, aos poucos, voltando ao normal. Retornamos de vez ao nosso apartamento em São Paulo e, pouco depois, à mordomia de ter a comida da Érika feita diariamente em casa. Esqueci da existência da air fryer ao mesmo tempo que ela deixou de ser o centro das atenções do home office forçado. Até que, não sei se por terem sido obrigados a ficar trancados com os pais tanto tempo ou porque já estava na hora mesmo, meus filhos, em um curto período, saíram todos de casa. E, de repente, nos jantares em que nos reunimos, quem voltou a ser assunto? Ela mesma, a air fryer. As expressões maravilhadas que via na tela durante a pandemia, passei a encarar na minha própria mesa, com conselhos “de filhos pra mãe” de que preciso ter uma. Foi nesse momento que meu banco entrou na história. Por meu banco, entenda o banco em que tenho conta, naturalmente, pois se tivesse um banco, não me preocuparia com panelas elétricas ou de qualquer outra natureza. Enfim, meu banco passou a enviar mensagens diárias por e-mail, às vezes mais de uma por dia, de ofertas em sua loja on-line. Insatisfeito de apenas guardar e emprestar dinheiro, resolveu também vender produtos e me avisava que eu tinha muitos pontos, ganhos por gastar dinheiro via cartão de crédito, para resgatar em produtos diversos. Mas que esses pontos venceriam se não os utilizasse e, nas entrelinhas, que eu era uma trouxa por não aproveitar a oportunidade. Tive, então, a grande ideia de resolver duas questões de uma vez: gastar meus pontos e, finalmente, adquirir uma air fryer. Escolhi a mais cara que meus pontos podiam comprar. Fiquei tão feliz que saí pela casa contando pra todo mundo: meu marido, a filha que veio para o almoço e a Érika. Fizemos planos para novos cardápios crocantes e menos calóricos. Voltaria a comer batatinha frita! A alegria só durou até voltar à minha escrivaninha e ler um e-mail do banco avisando que a compra não foi efetivada por problemas técnicos. A frustração foi enorme, mas deixei para tentar novamente em outra hora, pois havia outras coisas quase tão urgentes para fazer. Me esqueci do caso por alguns dias até me deparar com a conta do cartão de crédito e ver que os quase 400 reais da air fryer foram cobrados na fatura. Desde então, meu sonho de consumo e minha confiança no banco se liquefizeram. Passado mais de um mês, várias trocas de e-mails e ligações com o gerente do banco, uma visita à agência, duas calls com o gerente e a equipe do cartão de crédito, tudo o que consegui foi uma promessa remota de que “estão avaliando o caso” e que, “se tudo der certo”, podem me estornar o valor em até dois meses. Balanço até o momento: continuo com meus pontos, estou quase 400 reais mais pobre e sem uma air fryer para chamar de minha.