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Literatura feminina é só pra mulher?

  Longe de mim desmerecer os autores, são todos ótimos, mas fiquei decepcionada ao ler hoje que apenas três mulheres estão entre os dez livros mais vendidos na Flip neste ano. Sem estar na programação do evento, a sul-coreana Han Kang entrou na lista, possivelmente, apenas porque foi a vencedora do Nobel de Literatura de 2024. Há mais de uma lista, com nomes diferentes, mas a proporção se mantém. A impressão que tenho é que o tempo passa e as mulheres continuam sendo menos lidas. Dizem que homens normalmente não leem mulheres, o que desequilibra a corrida. Tenho lido bastante literatura, obras de autores de todos os gêneros, e não consigo achar que um é melhor do que o outro. Nos ambientes literários, como em lançamentos, clubes de leitura ou na pós-graduação em escrita criativa que frequento, as mulheres são sempre maioria, mas isso não se reflete no quanto são lidas. Quando aparecem comentários sobre isso, costumo ouvir que há uma literatura feminina, com temas que só interessam às mulheres, sendo a masculina, ao contrário, universal. Será? Pensei isso hoje lendo o delicioso livro de poesia “do vago conforto de estar viva”, da querida Julia Caiuby, companheira no curso do Vera Cruz. Sim, um jeito feminino de ver o mundo, pelo menos culturalmente feminino. Mas não uma leitura para mulheres, a beleza de seus versos fala a qualquer um. Enfim, é apenas mais um desabafo feminino, cheio de mimimi. E fica aqui um cheirinho do livro da Julia: A VIDA   disse um dia um amigo poeta que a vida não pode ser só isso   digo mais a vida não pode ser só, é isso.

A Fera na Selva

  John Marcher achava que algo grandioso, mas muito grandioso mesmo, aconteceria com ele a qualquer momento. Uma coisa tão impactante como o aparecimento de uma fera na frente de uma pessoa andando pela selva. Tinha tanta convicção disso que atravessou a vida aguardando esse acontecimento. A força dessa espera deixou tudo o mais tão desimportante, que John Marcher praticamente passou pelo mundo sem nenhuma experiência significativa. Sobretudo, não amou – ou não soube identificar o amor. Dividiu esse segredo (sobre a convicção da chegada do acontecimento) ainda muito jovem com May Bartram, a amiga que o acompanhou durante toda a jornada. John Marcher era um dândi, bem-educado, boa gente, rico; o protagonista da novela A Fera na Selva, do estadunidense naturalizado britânico Henry James. Não precisou lutar pela sobrevivência, mas viajou, teve amigos, mas nada construiu. Vivia narcisisticamente se considerando tão importante que o destino só poderia ter grandes planos para ele. Foi incapaz sequer de enxergar o amor e a fidelidade de May ao longo dos muitos anos em que conviveram. Este livro marcante foi a primeira indicação da Beth para o Círculo Feminino de Leitura e nos instigou a não esperar pela fera, mas procurar por ela diariamente, reconhecê-la, enfrentá-la e – como nos instou Contardo Caliggaris, em O Sentido da Vida, lido recentemente no CFL – lutar com ela para tornar nossa vida interessante: para nós, para o mundo e para a pessoas que amamos. Melhor ainda, resolvemos soltar nossas feras para não ficarmos presas em nossas próprias expectativas irreais. Foi o que fizemos no nosso encontro: soltamos nossas feras, caímos na gandaia, entramos na festa do Dancin’ Days com as Frenéticas e dançamos sem parar.

Zaratustra falou, mas não entendi

Li ‘Assim Falou Zaratustra’ inteiro e entendi quase nada, embora tenha adorado a poesia de Nietzsche. Certos trechos são muito lindos, mas incompreensíveis para uma reles mortal como eu. Em seu mundo, mulheres praticamente não existem, a não ser em menções misóginas, do tipo “coisas de mulherzinhas” para se referir a algo que considera fraco, dissimulado ou pouco inteligente. “Que o homem tema a mulher quando ela ama: pois então ela faz qualquer sacrifício, e todas as outras coisas são-lhe sem valor. Que o homem tema a mulher quando ela odeia: pois o homem é apenas mau no fundo da alma, a mulher, porém, é ruim. A quem odeia mais a mulher? – Assim falou o ferro ao ímã: ‘Odeio-te mais que tudo porque atrais, sem seres forte o suficiente para me reter’.” O melô da misoginia. Ele também despreza os homens em geral e procura por um super-homem, ou homem mais elevado, cuja definição é impossível decifrar. Dá a impressão que nem o próprio Zaratustra sabe, pois está sempre irritado com aqueles que aparecem e são reconhecidos como tal. Ele destila tanto ódio e preconceito ao longo do caminho, que acredito ter sido, como muitos afirmam, uma inspiração para o nazismo. Somar “super-homem” a “vontade de poder” dificilmente pode dar um resultado muito diferente disso. Mas há ideias interessantes, as quais ele se contradiz em alguns momentos. A mais clara opinião de Zaratustra, é contra a religião. Para ele, deus está morto e seus seguidores são os maiores responsáveis pela decadência do homem ocidental. Talvez essa seja a parte da qual concordo com ele. Para o profeta de Nietzsche, os sacerdotes “são prisioneiros e homens marcados. Aquele a quem chamam de libertador os pôs em cadeias: – Em cadeias de falsos valores e palavras ilusórias! Ah, pudera alguém libertá-los de seu libertador! (…) Falsos valores e palavras ilusórias: eis os piores monstros para os mortais, – por longo tempo dorme e aguarda neles a fatalidade.” O problema é a dificuldade de encontrar uma alternativa viável a tudo isso. Em ‘Assim Falou Zaratustra’, Nietzsche parece condenar o niilismo, mas terminamos mais pessimistas e céticos ao seu final.  

Kindle é bom só para variar

Em uma conversa com minhas amigas, quando cada uma foi instada a dizer qual era sua maior qualidade, pensei em mim como uma pessoa fiel: à família, ao meu marido, aos meus amigos, aos meus princípios. Mas ultimamente andava pulando a cerca e me sentindo bem feliz: ganhei um Kindle faz um tempinho e me recusava a usar por fidelidade aos livros de papel, seu toque, peso, cheiro. Mas a satisfação imediata da vontade de ler um título e bastar dois clicks para tê-lo em mãos e, porque não dizer, também a economia, me fizeram ceder à tentação. Achei sem-gracinha, mais chato de voltar as páginas, não tem orelha, não dá pra usar marcador – e isso é mesmo muito chato -, nem escrever nas margens. Pensava, porém, na quantidade absurda de livros que estou tentando catalogar para dar um jeito em nossa biblioteca e no espaço que não se multiplica como eu gostaria, e nas árvores que serão economizadas, e em como eu quero ser moderna. Já estava me acostumando. Até que ganhei de amigos queridos um vale presente da Livraria da Vila e resolvi dar uma passadinha para descolar um livrinho. E descubro, quando vou ver o valor, que era um presentão. E peguei uma lista enorme de títulos da minha lista para saber o que tinha lá. Fiquei no bate-papo com a vendedora e folheei um monte de livros, e contei quantos tinha lido em cada fileira exposta (adoro fazer isso). Saí com a sacola cheia e a alma lavada. Lembrei por quem meu coração realmente bate. Chega de aventuras.

Livro mostra como o Brasil já controlou o desmatamento da Amazônia – e que pode repetir a dose

Sob o céu poluído e esfumaçado de São Paulo, o jornalista Claudio Ângelo lançou ontem (10/9), na livraria Megafauna, o livro O Silêncio da Motosserra – Quando o Brasil decidiu salvar a Amazônia (Companhia das Letras), realizado com a colaboração do engenheiro florestal Tasso Azevedo, coordenador da iniciativa MapBiomas e um dos personagens dessa história da vida real – tão real que afeta a vida de todos nós. Não fosse esse “presente de grego” da fumaça das queimadas vindas dos nossos “quintais” paulistas, mas também da Amazônia, até poderíamos achar que o livro traz notícias reconfortantes. Em O Silêncio da Motosserra, Ângelo e Azevedo contam como o desmatamento da Amazônia começou a ser uma questão para o Brasil no final dos anos 1980, quando começou a ser monitorado. E, principalmente, como foi domado entre 2005, quando o sistema de monitoramento por satélite em tempo real foi instaurado, até 2012 (governos Lula e início de Dilma), período em que o desmatamento foi reduzido continuamente, até voltar a aumentar e sair do controle no governo Bolsonaro. A boa notícia, disse Claudio Ângelo, durante papo com público no lançamento, é que, se olharmos além da fumaça, veremos que o desmatamento voltou a cair desde que a nova equipe (parte dela, a começar pela ministra do Meio Ambiente, Maria Silva, a mesma que reduziu as taxas de desmate da primeira vez) tomou posse no terceiro mandato do presidente Lula. Isso significa que conter a devastação da Amazônia não é uma missão impossível e o desmatamento deve estar novamente sob controle brevemente. O problema – do qual a fumaça é um alerta – é que, com as mudanças climáticas, os desafios são maiores. Claudio e Tasso, mesmo querendo ser otimistas, lembraram que o desmatamento zero sozinho, hoje, não evita o ponto de inflexão, ou seja, aquele em que a floresta não mais se recompõe. Com secas cada vez mais severas e recorrentes, e incêndios criminosos encontrando campo fértil para se espalhar, outras medidas precisam ser rapidamente tomadas para garantir a conservação da floresta. Mesmo que não se saiba ainda exatamente o que precisamos fazer, com certeza, exploração de petróleo, garimpo ilegal, grilagem de terra e queimadas estão entre as coisas que só vão piorar a situação.

Passeio com as amigas

Flanar por São Paulo com as amigas é um dos meus programas prediletos e a cidade sempre apresenta ótimas oportunidades para vermos algo novo, que esteja de passagem ou passou desapercebido. Desta vez, aproveitamos a oportunidade do Aberto3, uma plataforma de exposições itinerantes, realizadas em espaços inusitados, para conhecer duas casas incríveis: a casa-ateliê de Tomie Ohtake e a da arquiteta Chu Ming, que criou o orelhão, marca das cidades brasileiras durante décadas. São dois projetos de casas naquele estilo de concreto conhecido como Brutalismo Paulista, que assustam em um primeiro momento, mas encantam pela luminosidade e beleza, e parecem feitos para destacar obras de arte, como as que faziam parte da exposição. No entanto, em meio a obras da própria Tomie, da Adrian Varejão, do Tunga e muitos outros artistas contemporâneos, eram as próprias casas, com suas excentricidades, o que mais chamava a atenção. Na de Tomie, projetada por seu filho Rui Ohtake, é impossível não se divertir com o tamanho minúsculo dos quartos, que nem janelas têm, pensados para que os espaços coletivos fossem usados. No projeto de Chu, escadas pra todo lado criam ambientes lúdicos, cantinhos inesperados também para o convívio. Como diz o texto de apresentação das exposições, são “dois projetos gestados em família, de alma feminina e oriental”. Que venham outros achados como este.

Ursula K. Le Guin pensa mundos onde o anarquismo e o gênero neutro deram certo

  As mulheres ainda são tão minoritárias na ficção científica, que apenas este fato seria suficiente para se ler Ursula K. Le Guin. Minha razão para recomendá-la, porém, é outra. Li dois livros da autora, Os Despossuídos e A Mão Esquerda da Escuridão, e me chamou a atenção nenhum deles trazer um futuro terrível ou ameaçador para a humanidade, espalhada em diferentes planetas universo afora. Em uma época na qual olho pela janela e o céu esfumaçado me faz sentir estar em Blade Runner (Ridley Scott, 1982) e ver o noticiário me transporta para o pavor de Inteligência Artificial (Steven Spielberg, 2001) ou O Exterminador do Futuro (James Cameron, 1991), é bom ler, para variar, algo do gênero que não seja distopia dizendo pra mim “Hasta la vista, baby!”. Nesses dois livros de Le Guin, escritos há mais de 50 anos, os personagens vivem em condições climáticas extremas, mas são adaptados e mantêm uma relação de respeito pela natureza que, mesmo hostil, os permite sobreviver. Em Os Despossuídos, a história se passa em dois planetas que orbitam juntos uma mesma estrela. O maior é Urras, onde as condições naturais são ótimas, mas os países estão sempre em guerra e as desigualdades sociais e sexuais correm soltas. Um grupo de anarquistas faz um acordo para não ser preso e é enviado para o planeta menor (ou satélite), onde as condições naturais são adversas (falta água, há tempestades de vento etc.), mas conseguem criar uma sociedade igualitária e sem autoridades. Anarres não é uma sociedade perfeita, mas como o cientista Shevek vai confirmar ao viajar para Urras, mais justo e melhor para se viver. Estes planetas fazem parte de uma espécie de ONU planetária, chamada Ekumen, da qual a Terra faz parte como mais um entre os membros. Sua função é compartilhar conhecimento entre os planetas, não há um governo central nem tentativas de dominação. No segundo livro, A Mão Esquerda da Escuridão, um terráqueo é enviado como uma espécie de diplomata a um planeta longínquo para convidar seus habitantes a participar do Ekumen. O planeta é conhecido no Universo como Inverno pelas condições extremas de temperaturas geladas, no limite para a existência de vida humana. Mais uma vez, seus habitantes (que não sabiam da existência de vida em outros planetas) são muito bem adaptados tecnologicamente às condições climáticas. Esse livro ficou mais conhecido, porém, em razão de seus humanos serem andróginos, sem sexo definido, e todos poderem escolher ser do gênero masculino ou feminino nas relações sexuais, assim como engravidar e ter filhos. Mais uma vez, não são seres perfeitos e suas sociedades são variadas e com vários problemas, embora não conheçam o conceito de guerra. Os livros de Ursula K. Le Guin, embora tenham algumas incongruências – como o fato, reconhecido mais tarde pela autora, de seus personagens andróginos serem tratados no masculino –, têm o mérito de pensar sociedades diferentes, sem os princípios da dominação a qualquer custo ou da exploração dos recursos naturais até a exaustão. Posso estar enganada, mas essas crenças, presentes em praticamente todas as obras de ficção científica e no nosso imaginário civilizatório, me parecem uma visão masculina do mundo que tem nos levado a uma distopia da vida real. Seria muito bom termos mais ficcionistas, cientistas, idealistas e – por que não? – políticos pensando em soluções e mundos diferentes. Fotos: Céu cinza no inverno quente de São Paulo. Capas dos livros.

Livrai-nos do Mal

  Houve uma movimentação no grupo de WhatsApp do prédio da Neise na última quinta-feira para saber por que o apartamento dela estava interditado. Caso chegassem mais perto da porta, os vizinhos veriam que, no meio das fitas de isolamento de área, havia uma plaquinha indicando Hotel Towneley Arms. Se tivessem aberto a porta, teriam se deparado com uma cabeça de homem sobre a mesa, cercada por sete mulheres – ali representadas por bonecas – suspeitas do assassinato. A arma do crime, um machado ensanguentado, estava ao lado da parte do corpo exposta. Na parede da sala, um esquema daqueles de filmes policiais trazia Jamie Spellman no centro, com as informações sobre a vítima e as possíveis assassinas ao redor. Essa mistura de cena de crime com delegacia de polícia foi planejada pela Neise para nossa reunião do Círculo Feminino de Leitura – CFL sobre o livro Livrai-nos do Mal, da inglesa Rose Wilding. Pela primeira vez em nosso grupo, à exceção de nossa anfitriã/inspetora de polícia, ninguém tinha lido os capítulos finais do livro. Neste romance policial, sete mulheres que tiveram suas vidas destruídas pelo bonitão sem escrúpulos Jamie se reúnem para decidir o que fazer com ele, pensando em como reunir provas para denunciá-lo à polícia. De repente, porém, se deparam com sua cabeça decepada no esconderijo do hotel em que se encontravam e passam a ser investigadas pela inspetora Nova como suspeitas do crime. Assim como a polícial, vamos descobrindo o que Jamie fez a cada uma e é impossível não nos solidarizarmos com elas. As maldades do sujeito vão de abandono, traição e roubo de projeto até estupro e assassinato. A Neise pediu para não lermos o final e cada um escolher uma das personagens para contar como achávamos que ela cometeu o assassinato. Descontamos nossa raiva de todos os homens abusadores em nossas descrições detalhadas de como a cabeça e o corpo de Jamie foram separados. Nossos assassinatos imaginários foram hilários e com requintes de crueldade. Várias de nós (inclusive eu!) acertamos a autora do crime.

O lindo Jardim Botânico de São Paulo

  Um dos parques mais antigos de São Paulo, o Jardim Botânico é também um dos mais bonitos. Fundado em 1928, a partir da implantação de um projeto de botânica para a cidade, pelo naturalista Frederico Carlos Hoehne, o local tem um paisagismo maravilho, trilhas bem-sinalizadas e um orquidário daqueles de gastar o dedo tirando fotos. Abriga, ainda, o Instituto de Botânica e o Museu Botânico de São Paulo, onde se encontram amostras de plantas da flora brasileira e informações sobre diversos ecossistemas do Estado de São Paulo. Fica dentro do Parque Estadual Fontes do Ipiranga, que engloba também o Zoológico de São Paulo, e é o maior fragmento de Mata Atlântica em área urbana da Região Metropolitana de São Paulo. Estive lá algumas vezes para entrevistas no Instituto de Botânica, mas fazia bastante tempo que não visitava, principalmente porque a Água Funda, na Zona Sul, fica um pouco longe de onde moro. Talvez seja por isso que não soubesse que o Jardim Botânico (junto com o Zoológico e o Zoo Safari) tenha sido privatizado em 2021. Não tenho opinião fechada sobre privatização em si (o Parque do Ibirapuera também foi), mas pagar entrada em área verde numa cidade onde faltam opções de lazer e áreas verdes disponíveis para a população me deixa chateada. Não lembro se já era cobrado antes, mas com entradas a quase R$ 25, mesmo com muitos pagando meia, fica caro para a maior parte das pessoas ir com a família. A cidade de São Paulo tem até mais áreas verdes do que imaginamos à primeira vista, mais de metade do território do município, segundo dados da Prefeitura. Só que a maior parte está em suas extremidades à noroeste (Serra da Cantareira) e ao sul (Serra do Mar), nosso cinturão verde, que representa o pouco de garantia que ainda temos de proteção de nossas águas. Mas isso não garante aos moradores da metrópole o acesso que deveriam ter ao verde como espaço de lazer e benefícios à saúde física e mental. Nas áreas urbanas, onde vive a maior parte da população de 12 milhões de pessoas, a quantidade é menos de quatro vezes do que deveria. Enquanto a Organização Mundial de Saúde preconiza que uma cidade deveria ter um mínimo de 12 metros quadrados de área verde por habitante, cada paulistano conta, em média, com apenas 2,6 metros quadrados de área verde pública de lazer – praças e parques – por pessoa, segundo a Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente. Essas áreas, além de tudo, são pessimamente distribuídas. Bairros nobres das zonas Sul e Oeste são os mais privilegiados, enquanto, na região central e nas periferias, o reinado é do cinza. Para a maior parte da população, chegar a um parque significa ter que percorrer muitos quilômetros e pegar vários transportes coletivos. É preciso ter disposição e tempo, o que só é possível, para a maior parte, no final de semana. Se, ainda por cima, tiver que pagar para entrar, fica ainda mais difícil.

Calorão no inverno parece bom, mas não é

Lembro de acordar e sentir cheiro de orvalho, encontrar o chão do quintal e as calçadas molhadas de manhãzinha. Era assim todos os dias em São Paulo. E lembro de como odiava os dias garoentos do outono e o frio no meu aniversário, no final de julho. E de reclamar durante agosto inteiro de me levantar cedo para ir para a escola. Detestava ter que me agasalhar demais, às vezes com toca e luvas, e ainda me sentir gelada. Mas tudo isso foi há muito tempo, quando eu era criança. Já na faculdade de Geografia, aprendi com a professora Magda Lombardo o que eram as ilhas de calor e como a urbanização levou embora o orvalho e a garoa da cidade, aumentando sua temperatura. Nada que se compare, porém, com este inverno atípico que assistimos agora, sem saber se ele é apenas excepcional ou o novo normal. A questão é que, para a maior parte das pessoas, que gostam de sol e calor, este tem sido um inverno bom, e estou entre elas. É delicioso não precisar usar casacões, poder dormir, no máximo, com uma manta levinha, ver as sorveterias lotadas nos finais de semana. Acordar cedo para fazer exercício é quase um prazer. Nosso dilema, como defende meu amigo Alexandre Mansur, é como lidar com a dissonância cognitiva do aquecimento global em nossas vidas. Costumamos nos encontrar, de vez em quando, para falar de literatura e desses temas nada amenos relacionados ao meio ambiente. Nosso último papo, no meio da última onda de frio na cidade, foi justamente sobre o não inverno que vivemos e o desafio de aproveitar algumas das benesses das mudanças climáticas, como o clima ameno fora de época, sem ilusões, assunto recente de sua coluna no jornal O Globo. Na sua última coluna, no fim de semana passado, ele volta ao tema a partir de uma chateação: por conta do calor, os “bichinhos da luz” chegaram prematuramente para nos irritar. Sabemos que esse é um incômodo pequeno, fácil de suportar, mas serve de alerta sobre outras mazelas que estão aí e nem percebemos, como os problemas de saúde causados pela secura do ar ou a poluição já tradicional desta época do ano, agora potencializada pela fumaça dos incêndios amazônicos, que chegam pelos rios voadores. Ou a possibilidade de voltarmos a conviver com uma seca como a de 2015, que quase levou a cidade ao colapso, caso a redução das chuvas permaneça. Longe de mim ser mensageira do apocalipse – as pessoas costumam detestar ambientalistas, cientistas e jornalistas por isso, e quero ser gostada -, mas não custa nada a gente pensar um pouco sobre isso neste fim de semana, quando um friozinho promete nos deixar mais encolhidos em casa. Um dos trabalhos de que participei, enquanto estava presa em casa por conta da pandemia de covid, em 2020, foi a edição do Plano de Ação Climática da cidade de São Paulo(PanClima), que consiste em uma série de ações para reduzir as emissões de gases do efeito estufa no município até 2030 e de zerá-las até 2050. É um plano bem completo, que poderia, ainda, deixar a cidade bem mais agradável de se viver. Não faço ideia se alguma coisa do que está ali foi posta em prática ou está em vias de ser, desconfio de que quase nada. Como estamos perto de eleições municipais, é um bom momento para questionar candidatos a prefeita(o) e vereador(a) como como e se pretendem encarar esse assunto. Fica a dica.