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Pra quem o presidente quer ser popular?

Outro dia escutei a conversa de duas senhoras na piscina. Diziam que tinha sido bom “ele” ganhar a eleição, pois agora sua popularidade já estava caindo e nunca mais iria se eleger. “Ele”, logo descobri, era o presidente Lula. Segundo as duas mulheres, os maiores absurdos cometidos por ele eram não ter se pronunciado sobre a Nicaragua e não se manifestar contra o aborto. Depois dessa aula involuntária de política, me afastei e não sei o restante do papo. Acho que não preciso ser genial, porém, para concluir que essas senhoras nunca votaram e nunca vão votar “nele”. Mas, apesar de não ter dito nada sobre a Nicaragua – não faço a menor ideia do que o presidente deveria ter falado sobre o assunto – nem sobre o aborto, às vezes tenho a impressão de que “ele” governa sempre buscando agradar a essas senhoras, como se fosse um amor inatingível. Ao contrário do ex-presidente que certamente elas votaram e que em nenhum minuto de sua gestão deixou seus apoiadores na mão ou não cumpriu (infelizmente) suas promessas de campanha, Lula parece não se preocupar com seus eleitores fiéis. Em relação ao aborto, por exemplo, mesmo que não se pronuncie, nunca fez nem um movimentozinho sequer para corrigir este atraso no país, que criminaliza mulheres por decidirem o que fazer com seus corpos. Lula, contudo, quer aumentar sua popularidade e, para tanto, ao invés de focar nas pautas que o levaram ao poder, quer namorar e casar com o centrão. Ah! Precisa do Congresso para governar etc. etc. Mas tudo tem limites. Há questões que deveriam ser pétreas, como a proteção da Amazônia e dos brasileiros contra as mudanças climáticas, causas amplamente defendidas pelo presidente na campanha e no seu show de convidados na posse, ao subir a rampa para seu terceiro mandato.  De que adianta ter Marina Silva no Ministério do Meio Ambiente e Rodrigo Agostinho no Ibama, se seus posicionamentos técnicos não são levados em consideração? Dá a impressão de que o presidente espera se fazer de bonito na COP30, mas quem ele quer agradar, na prática, são os negacionistas apaixonados por petróleo a qualquer custo. A um custo imenso. Ao custo do futuro do país.  Aqui, derretendo de calor e à espera da próxima tempestade extrema que paralisará a cidade, tenho a sensação desagradável de ser mulher de malandro: ver seu eleito agradando às amantes o tempo todo e, quando precisar de votos, chegar novamente com o papinho de ser a melhor solução diante do resto que está aí, dizendo que, da próxima vez, vai ser diferente. Será que não teria jeitos melhores de aumentar a popularidade?  Foto: José Bezerra.

Há uma conspiração contra todos nós

Quem estiver interessado em saber por que Jeff Bezos, Mark Zuckerberg e companhia estão todos faceiros lambendo as botas de Donald Trump assista ao documentário Conspiração Consumista, de Nic Stacey, na Netflix. O título original em inglês, ainda traz um complemento mais explicativo: Buy Now! (compre agora), retirado na versão em português. O filme mostra como as grandes corporações contam com a tecnologia/redes sociais para fazer com que as pessoas consumam cada vez mais, sem nem pensar no assunto. Para isso, usam estratégias sofisticadas para esconder informações e mentir descaradamente para que as pessoas ajam contra seus próprios interesses e ainda achem que as empresas se preocupam com seu bem-estar. O diferencial deste documentário é trazer depoimentos de pessoas com altos cargos dentro dessas corporações, como Amazon e Adidas, que colaboraram para a criação destas estratégias e hoje lutam contra elas, por perceberem o quão insustentáveis são. Ver imagens de produtos devolvidos ou encalhados sendo destruídos e descartados para que ninguém possa usar, incluindo roupas, bolsas, eletrônicos e comida, dá um misto de nojo e agonia. Entender como foi criada e como é aplicada a obsolescência programada dos produtos, revolta qualquer um. Qualquer um talvez seja forte demais. Viciados que gostam de ficar na fila para comprar os primeiros Iphones lançados a cada ano, se esmagam para serem os primeiros a entrar em lojas com promoções como black Friday ou o dedo já está gasto de clicar em “promoções imperdíveis” na internet, possivelmente não se incomodem de ver as montanhas de lixo que lotam oceanos e praias e aterros em países pobres da Ásia ou da África ou o deserto do Atacama. Possivelmente, os negacionistas climáticos que apoiam a extrema-direita mundo afora acreditem que é tudo balela e que esse lixo todo vai se autodestruir ou ser enviado para Marte, em um foguete do Elon Musk. (continua nos comentários; artigo completo em paulistanasp, link na bio) Para os que têm um mínimo de bom-senso e não precisam nem ver as imagens chocantes desse volume todo de descarte para entender que estamos em uma enrascada, o melhor é procurar representações melhores nos governos, cada vez mais difícil com o crescimento desse controle midiático das big tecs, e bancar o Dom Quixote em sua vida particular, rezando – para quem acredita – que vai dar tempo de consertar tudo isso. Comece eliminando o máximo de plástico da sua vida. É uma missão quase impossível, mas não aceitar sacolas plásticas e carregar uma garrafa de água de casa são um bom começo. Enviar o lixo para reciclagem é fundamental, mas o filme nos mostra que essa é a mentira master das indústrias: grande parte do que achamos que é reciclável não é. A maior parte das embalagens que separamos cuidadosamente, vai acabar mesmo no mar, em aterros ou queimada, aumentando o efeito estufa. Comprar roupas, sapatos e bolsas também vai deixar de ter tanto encanto se você assistir ao documentário. Trocar o computador ou o celular só para mostrar aos amigos e ficar com mais medo de ladrão também dará menos prazer. Muito preferem não encarar questões como esta. Quem está disposto?

A memória é o grande tema do livro Ainda Estou Aqui

O sucesso do filme Ainda Estou Aqui, com seus múltiplos prêmios e indicações ao Oscar, comprovam a escolha certeira do diretor Walter Salles na abordagem escolhida na adaptação do livro. Quase tudo já foi dito sobre sua atualidade, qualidade e importância para o resgate da história brasileira. Ao ler o texto de Marcelo Rubens Paiva, no qual foi baseado, porém, fiquei encantada com a quantidade de camadas do livro. Outros filmes, igualmente bons, poderiam ser inspirados nele. Para alguém como eu, que convive há quase 20 anos com uma mãe perdendo lentamente a memória e a personalidade, sabendo como a demência rouba seu ente querido aos poucos, em uma marcha inexorável sem prazo para acabar, o relato de Marcelo emociona a cada detalhe de suas indagações, pesquisas e constatações sobre o Alzheimer. O resgate amoroso da história de uma mulher inteligente e forte, pelo filho que nada pode fazer para impedir que ela vá se tornando frágil e incapaz de gerenciar a própria vida é um retrato da situação vivida por tanta gente hoje em dia. Um drama que, mesmo sem os vilões sádicos da ditadura militar, corrói famílias impotentes diante da situação. A demência de minha mãe é consequência da retirada de um tumor cerebral há muitos anos, embora os sintomas sejam muito semelhantes ao Alzheimer. Mesmo que hoje ela reconheça cada vez menos pessoas e fale quase nada com sentido – na maior parte do tempo repete nomes de cores: verde, verde, verde, azul, azul, azul -, de repente, olha para televisão e faz uma observação coerente, “este homem é mal”, para um vilão de novela, ou “coitadinhos”, para vítimas de enchentes no telejornal. E sentimos a mesma angústia de Marcelo em relação à Eunice Paiva. Ambas as mães (e tantas outras) ali, em seus mundos particulares, ao qual ninguém tem acesso, a dizer “ainda estou aqui”. Está mesmo? Está onde? É possível resgatá-la? Aos 90 anos, também meu pai começa a apresentar os sintomas de senilidade, a memória recente já é quase nula e não consegue gerenciar mais suas coisas. Nunca imaginei passar por um drama desses com pai e mãe ao mesmo tempo. A capacidade de Marcelo Rubens Paiva de trazer duas questões tão prementes relacionadas à importância da memória, a coletiva e a individual, para a sociedade contemporânea, talvez seja o maior mérito do livro. Vermos um mundo, há apenas 80 anos saído da mais cruel das guerras, voltar a se encaminhar para pensamentos e, possivelmente, regimes fascistas, é tão cruel quando vermos nossos velhos sobrevivendo sem entender o que estão fazendo aqui. 

O paradoxo das motos em São Paulo

motos

Se existe um tema sem solução fácil é a proliferação de motos em São Paulo. O novo capítulo sobre o imbróglio é a implantação pelos aplicativos de transporte de mototáxis à revelia da proibição municipal. A modalidade foi disponibilizada, com enorme sucesso entre os usuários, nas áreas fora do centro expandido, ou seja, nas áreas periféricas, onde o sistema de transporte é mais precário. Desde que ouvi a notícia fiquei me perguntando o que poderia dizer para uma pessoa que leva horas para ir e vir de qualquer lugar, em um trânsito caótico, dentro de ônibus, metrô e trem lotados e caros, que a convença de que a opção de ganhar um tempo precioso a um custo mais barato é uma má escolha. Sob o ponto de vista de segurança, será que caminhar o equivalente a dois a três pontos de ônibus à noite na volta do trabalho é mais seguro do que na garupa de uma moto? E pegar um ônibus, que pode demorar bastante pelo mesmo preço da moto, é vantajoso? O tema é difícil para o cidadão, ainda mais que seu bem-estar não está em discussão entre as partes dessa briga de foice. Os aplicativos querem lucrar e o prefeito (não se iludam) está preocupado com a concorrência para os ônibus, não com a segurança da população. Caso contrário, Ricardo Nunes não esperaria quatro anos à frente da prefeitura para se dar conta que as motos são um perigo fora de controle.  Os acidentes e mortes de motoqueiros só fazem crescer nos últimos anos e seus condutores parecem ter sido liberados totalmente de seguir normas mínimas de trânsito: parar em semáforos vermelhos, não entrar na contramão ou fazer conversões proibidas, não ultrapassar pela direita, dar prioridade aos pedestres e toda a lista de regras do Detran. Sob a desculpa de que motoboys precisam trabalhar e que a cidade pararia sem os entregadores, autoridades se abstêm de fiscalizar e a população já entregou pra deus. Por que tanto escândalo por causa dos mototáxis? Quer dizer que sou a favor deste tipo de transporte? Absolutamente não. Individualmente, pode ser interessante para o usuário, desde que assuma os riscos de um veículo cujo para-choque é seu próprio corpo. O problema é que a implantação de mototáxis tende a aumentar o número de motos na cidade, sem diminuir o número de automóveis, o que significa que deve crescer, sim, a quantidade de acidentes.  Com isso, há vários impactos coletivos a serem considerados – a sobrecarga do sistema de saúde é o mais óbvio. Cada acidente de moto, porém, provoca congestionamento, prejudicando todo mundo que está circulando em ônibus e automóveis, diminuindo a qualidade de vida de seus usuários. E a poluição já excessiva da cidade. Ou seja, mototáxis não melhoram o trânsito e aumentam as emissões na cidade, com consequências para a saúde e para as mudanças climáticas. Mais uma vez, o interesse privado das empresas e dos usuários, mesmo que justificado neste último caso, é colocado em primeiro lugar em detrimento da coletividade. Ao invés de brigar com os aplicativos de transporte, o prefeito poderia investir esforços em criar alternativas reais para as motos: sistema de transporte barato, quiçá gratuito, além de seguro e sustentável. E fiscalizar se as motos cumprem as leis de trânsito mais do que se carregam alguém na garupa.

Férias com Hercule Poirot

Quando estou de férias, gosto de tirar alguns dias para não pensar. Então deixo Hercule Poirot pensar por mim. Levar Agatha Christie na bagagem é diversão certa se deixo de lado meu anacronismo em relação a questões como feminismo, racismo, colonialismo etc., essas coisas que pouca gente presta atenção, mas sou boba o suficiente para ficar reparando e fazendo malabarismos para não estragar o prazer de quase tudo o que leio. Não nas férias! Costumo me tornar uma pessoa normal nessa época. Neste ano, levei comigo Morte no Nilo, mas poderia ser qualquer um: Assassinato no Expresso Oriente, Cai o Pano, Morte na Mesopotâmia, o Natal de Poirot. Quando quero uma protagonista mulher, opto por um dos títulos onde a heroína é a detetive amadora Miss Marple, como Um Corpo na Biblioteca ou Crime no Hotel Bertram. Não tenho a mínima ideia de onde a escritora britânica tirava tanta imaginação e como conseguiu escrever tantos livros.  O importante, se quiser embarcar na aventura, é saber, desde o início, que não adianta queimar neurônios para seguir as pistas dos crimes (sempre envolvendo assassinatos), pois a lógica dos acontecimentos só estará acessível aos detetives de Christie. Relaxe, aproveite as intrigas e as reviravoltas mirabolantes para se divertir entre um mergulho e outro no mar, um gole de água de coco ou caipirinha, um cochilo e outro na rede, ou seja lá o que estiver fazendo. Neste Morte no Nilo, um grupo de ricaços e picaretas de várias estirpes fazem um cruzeiro pelo rio egípcio quando a jovem milionária Linnet Doyle, em lua de mel, é assassinada. Nem preciso dizer que todo mundo naquele barco tinha motivos para querer vê-la morta e, para minha sorte e azar do assassino, Hercule Poirot estava a bordo. Felizmente, ainda pra mim, minhas férias foram bem mais tranquilas do que as do esnobe detetive belga.

Cadê a cura pra ultramacho?

Disse o novo (de novo) presidente do Estados Unidos que, naquele país, a partir de agora, só existem dois sexos. Na minha humilde opinião, ele esqueceu de um, que não é exclusividade dos EUA, é mundialmente disseminado, mas infelizmente pouco combatido: o ultramacho. O fato de ser tão persistente na sociedade, mesmo nas mais evoluídas, indica que talvez tenha algum componente genético, embora o gatilho cultural (todas as religiões monoteístas costumam valorizá-lo bastante) seja fundamental. Prevalecem nos grupos de direita, são quase a totalidade nos de extrema-direita, onde desde criancinha são doutrinados ou recebem algum remedinho em suas mamadeirinhas de piroquxnhas, não sei. Mas aparecem também entre ditos esquerdistas, onde são conhecidos como esquerdomachos. Estes, ao contrário dos demais, não se reconhecem na comunidade, ficam no armário a maior parte do tempo, mas não enganam ninguém.   A maior característica dos humanos desta tipificação sexual, além da preferência por piadas infames, armas, guerras e similares, é a incapacidade de amar e até de enxergar mulheres, de qualquer gênero, como da mesma espécie. Eles até gostam delas, como os demais gostam de pizza, por exemplo. Gostam do cheiro, da aparência, do sabor. Gostam de se gabar de quem come a melhor pizza, às vezes a compartilham pra provar seu ponto ou generosidade. Quando esfria um pouquinho, jogam fora. Eles também gostam de conversar e dar palpites sobre as pizzas uns dos outros, sobre a preparação e formas de descarte.  O problema é que querem dominar o mundo. Querem aliciar SEU FILHO para que seja um deles. Desejam que todos os humanos que nasçam com uma protuberância e duas bolinhas entre as perninhas sejam doutrinados desde bebês para ser como eles. Os poucos que se incomodam com esse impulso, sobretudo os que vivem em ambientes majoritariamente intolerantes a eles, atualmente costumam se conter, alguns se afirmam publicamente curados. Até o momento, porém, não existe tratamento comprovado pra ultramacho. Não conheço pastores, padres, psicólogos ou coaches tentando o intento. Quem salvará nossos meninos?

Que 2025 seja fresco!

Dois mil de vinte e cinco era para ser um ano tranquilinho. Não temos eleição, copa do mundo, olimpíadas. Há bastantes feriados e o carnaval é no começo de março, ampliando o verão. Mas é por aí começam os problemas, pois não foi só o verão, mas tudo ficou mais quente. Quente de verdade, e não apenas pelo fogo que queima a Califórnia e que, no ano passado, queimou o Cerrado, o Pantanal, a Amazônia e a Mata Atlântica por aqui. Com mais de 1,5º C de temperatura média no planeta, o índice que esperávamos evitar, o fogo deve seguir firme e forte dando as caras neste ano. Assim como as chuvas, que costumavam fechar o verão em março, mas, agora, quem sabe quando e onde vão aparecer. Ou se recusar a aparecer.  Passei as últimas duas semanas em um paraíso à beira mar – a Praia de Pipa, no Rio Grande do Norte -, onde o tempo ainda é previsível e perfeito para o lazer, entre 25 e 30 graus, e a chuva, quando cai, é pouca e suave nesta época do ano. As praias são limpas, (quase) sem plásticos, (quase) sem caixas de som, bênçãos as quais estava desacostumada. Mas não existe mais refúgio isolado no mundo. A especulação imobiliária já corre solta, à força de gringos que trazem recursos, baratos pra eles e bem-vindos para a população local. As criações de camarão comem o mangue, também na mesma pegada de progresso que destrói a proteção do que lá tem de melhor e mais garantido. Embora nada mais seja garantido de verdade. Moradores e, principalmente, os que dependem o turismo, veem o nível do mar aumentando e a faixa de areia aproveitável abaixo das maravilhosas falésias cada vez menor. É preciso consultar a tabua de marés para escolher o intervalo de tempo, mais curto a cada ano, para caminhar entre as praias, uma das melhores atrações locais.  Nada que tenha me impedido de relaxar e abstrair que o Trump vai assumir na segunda-feira com promessas hitlerianas para o mundo, que as big techs perderam de vez o pouco pudor que fingiam ter e as fake news sobre o PIX escancararam o que vem pela frente. Para quem gosta de viver e deste planeta como eu, aconselho muita meditação, calma e uma disposição otimista para a luta. Sejamos serenos e bem-humorados, sem usar óculos cor-de-rosa, por favor, porque excesso de tolerância com a insanidade e falta de realismo não vão nos tirar do buraco. Sei que estou um pouco atrasada, mas Feliz Ano Novo, que seja fresco pra todo mundo! 

Novo centro cultural no Complexo Matarazzo é passeio completo

Aos que, como eu, gostam de se aventurar por São Paulo, o centro cultural Casa Bradesco, inaugurado no mês passado no Complexo Matarazzo, na rua Itapeva (perto da avenida Paulista), é mais uma opção imperdível. Faça como eu e minhas amigas: erre a entrada e passe por dentro do hotel Rosewood. Desde que era adolescente e me embasbacava ao descer as escadas rolantes do Maksoud Plaza (infelizmente agora fechado), não entrava em hotel tão bonito em São Paulo. Esqueça a ideia de hospedar-se lá, pois provavelmente não é para seu bico (nós perguntamos quanto era a diária!). Voltando ao centro cultural, foi aberto com uma exposição do artista plástico indo-britânico Anish Kapoor, um dos grandes nomes da arte contemporânea. Suas obras são imensas e impactantes, com muito vermelho vivo, daquelas que nos permitem de alguma maneira interagir com elas, ao nos vermos refletidas em seus relevos. As que mais gostamos, porém, são pintadas com uma tinta especial que absorve quase toda a luz e não reflete basicamente nada. A monitora nos contou que é um material desenvolvido para a indústria e patenteado por Kapoor para obras de arte. Como estou ficando boazinha, não vou dar spoiler do que se trata, mas vale à pena ver. Para visitar o novo espaço, é preciso agendar pelo APP, que é nada amigável, nem adianta chegar sem marcar. O ideal é ir de terça-feira, como nós fizemos, porque é de graça. Aliás, acho que o Bradesco não está precisando de mais dinheiro, poderia ser sempre gratuito como o CCBB ou o Itaú Cultural; bancos já são ricos o bastante e podem fazer esse favorzinho para a cidade. Além da exposição, tomamos ali um dos melhores cafés das nossas vidas. Se é sempre tão bom ou tivemos muita sorte, não sei dizer. Mas recomendo. A saída é pelo jardim do Complexo Matarazzo, também muito bonito. O trabalho de restauração e adaptação do lugar foi caprichado, assim como a da capela, pela qual é obrigatório dar uma passadinha.

80% da água doce da Terra está na Antártica

  De todos os locais que gostaria de conhecer, mas duvido que consiga, a Antártica está no topo da lista. É muito longe, é muito caro, é muito frio. Mas é fascinante. Estou aqui embevecida com o livro Expedições Antárticas, do fotógrafo e biólogo Cesar Rodrigo dos Santos, que teve o privilégio de estar 15 vezes por lá, entre 2002 e 2017, e registrar imagens de tirar o fôlego. O livro ainda tem com o plus dos textos serem da minha amiga Silvia Marcuzzo, que conta as aventuras de Cesar, e nos traz detalhes da infraestrutura e o trabalho desenvolvido pelo Brasil no continente gelado, da geografia e da biodiversidade locais, assim como os desafios do último lugar remoto do planeta. É uma região sobre a qual tudo o que sabemos, normalmente, se resume às suas paisagens de horizontes brancos infinitos e pinguins amontoados. Mas é um território a ser muito estudado, até porque as mudanças climáticas podem modificar rapidamente o que conhecemos até agora: “O continente antártico é repleto de superlativos, ostentando os títulos de mais seco, mais frio, mais desértico, mais ventoso, mais preservado, mais desconhecido. Com uma extensão de 14 milhões de quilômetros quadrados, equivalente à soma territorial de quase todos os países da América do Sul, a Antártica impressiona pela sua imensidão. Durante o inverno, o continente pode dobrar de tamanho devido ao congelamento do mar em seu entorno”. E, a cereja do bolo: “O continente detém 90% do gelo e 80% da água doce da Terra”. Dá pra imaginar? A Antártida conta com um tratado internacional assinado em 1959, que estabelece que o continente deve ser utilizado exclusivamente para fins pacíficos, proibindo qualquer atividade militar no continente. Além disso, o tratado incentiva a cooperação científica internacional e o intercâmbio de informações científicas entre os países signatários (12, atualmente), proíbe novas reivindicações territoriais e reconhece as reivindicações existentes, mas sem reconhecimento de soberania. Segundo o autor do livro, “enquanto persistir o tratado, essas belezas não podem ser exploradas comercialmente por nenhum país, pois o local influencia o clima de todo mundo”. Gostaria de acreditar que dá para confiar em tratados internacionais.

Será que as árvores são as vilãs?

  Se você mora na cidade de São Paulo, tenho um pedido pra te fazer. Quando estiver na calçada, olha pra cima. Veja quantos postes você enxerga e a quantidade de fios amarrados neles. Dá uma olhada e tente contar as camadas e, mesmo considerando o número de empresas de telefonia e internet disponíveis no seu bairro (já que energia elétrica é monopólio), imagina se faz sentido a quantidade de fios que passa por ali. E, mais do que isso, perceba o volume de fios amarrados de qualquer jeito, enrolados, caídos pelos postes ou meio pendentes entre um poste e outro e dos quais é preciso se desviar ao andar pela rua. Se você não achar que está diante de um serviço muito malfeito, realizado com um descaso inimaginável, olha de novo, pois você não prestou atenção. Li um artigo muito comprido e bastante complexo do @ayubio, um especialista em tecnologia, e o assunto não é simples, mas há vários fatores responsáveis por tudo isso. Segue um resuminho do que entendi: Os cabos elétricos costumam ser acinzentados e ocupam o topo dos postes. A 1,5 metro para baixo, os cabos de cor preta com esse aspecto emaranhado são as fibras óticas, atendendo a internet fixa, a internet móvel (levando o sinal até as torres) e as bases terrestres da Starlink (que também dependem de fibra ótica). Para que outras empresas possam pendurar qualquer coisa nos postes, a distribuidora privada de energia (como a ENEL) precisa aprovar o projeto técnico e cobra pelo uso do poste. Como essa não é uma atividade lucrativa para a distribuidora, tratam os pedidos de autorização do setor de telecomunicações com desdém e demoram muito para aprovar. Com isso, as empresas cansam de esperar e vão pendurando tudo sem autorização mesmo, isso se solicitaram autorização. Como os cabos de fibra ótica não podem ser reaproveitados, caso depois não recebam autorização, as empresas deixam os fios por lá mesmo (acredito que se fazem uma reparação, também agem do mesmo jeito: colocam um fio novo e o antigo fica por lá). Só que tem um limite de peso que os postes aguentam e não tem ninguém calculando isso. Segundo o artigo, “esses projetos precisam ser meticulosos pois cada cabo pendurado no poste gera tração, aumentando a tendência de tombamento de postes”. Não precisa ser genial para inferir que, com isso, um vento mais forte ou um galho maiorzinho de árvore sobre os fios derruba os postes. Por que os fios não são enterrados? É simples: porque custa dinheiro. Em São Paulo, apenas 1% das ruas têm cabeamento subterrâneo. E quem poderia fiscalizar tudo isso e incentivar ou ter um plano para enterrar os fios? A prefeitura, é claro. Mas é muito mais fácil culpar as árvores. Agora, vamos olhar para cima novamente e ver como as árvores são tratadas. Como os fios passam por meio delas e como as podas são também malfeitas, colaborando para que fiquem fragilizadas e propensas a cair. E, podemos, ainda, pensar que, com a crise climática, mais ventos fortes e tempestades assolarão a cidade. Mas as árvores são fundamentais para ajudar as águas a escoarem e para minimizar a sensação térmica do aumento da temperatura. E os fios, não são também fundamentais? São, mas podem ser enterrados e ficar bonitinhos, protegidos de ventanias e chuva. Só mais uma olhadinha pra cima, e vamos imaginar juntos como nossas ruas ficariam bonitas sem esses fios horrorosos. Como sobraria espaço para mais árvores e mais sombra. Será que somos capazes de imaginar São Paulo assim? Me parece que não. É mais fácil pensar em coisas como privatizar e sucatear mais e mais serviços públicos e discutir com quem as pessoas querem transar ou se uma mulher pode fazer o que quer com seu próprio corpo. (Fotos feitas na frente da minha casa, que nem é dos piores locais, a maioria é bem mais terrível)