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PaulistanaSP

O apocalipse, agora, é quântico

A primeira conta em banco que abri, no início dos anos 1980, foi no Banerj. Não por algum amor especial pelo Rio de Janeiro, mas porque era a agência mais próxima da minha casa – e mesmo assim demandava uma pernada. Recebia mensalmente meu módico salário e levava o cheque para depositar. Na agência, o caixa verificava o cheque, pegava minha ficha em um fichário e preenchia à mão o meu saldo, que seria depois confirmado, quando o cheque fosse descontado. Normalmente, se houvesse saldo, eu também sacava algum dinheiro, pois era com ele que se pagava quase tudo. Pode parecer um perrengue, mas suponho que era quase assim desde que existe banco e todo mundo sobrevivia bem. Desde então, as coisas foram se complicando, ou facilitando, conforme o ponto de vista. Os saques passaram a ser feitos em máquinas, as contas a ser pagas online, o cheque e o dinheiro substituídos pelo cartão ou celular, e cada um se adaptou como pode. Meu pai, por exemplo, nunca se adaptou totalmente. Nesse processo de mudança, o primeiro susto coletivo veio com o “bug do milênio”, um problema previsto para ocorrer na virada de 1999 para 2000, devido à forma como as datas eram armazenadas nos sistemas computacionais. Para economizar memória, muitos sistemas representavam os anos com apenas dois dígitos (por exemplo, “99” para 1999). Dizia-se que, ao chegar ao ano 2000, os sistemas interpretariam “00” como 1900, colapsando o sistema, e todo o dinheiro que tínhamos no banco desapareceria enquanto estourássemos a champanhe no réveillon. Seja porque as empresas corrigiram o problema, seja porque os computadores não fossem tão burros, nada aconteceu. Desde então, as agências bancárias praticamente desapareceram, surgiu o pix, e seguimos com novos pavores, como roubarem nosso celular com todos os nossos dados, rouparem nossos dados simplesmente, cairmos em algum dos zilhares de golpes que nos cercam diariamente, a inteligência artificial decidir que não vai mais nos empregar ou pagar. E vamos nos equilibrando para não cair nesse mar de perigos. Mas eis que me chega um novo alerta: o “apocalipse quântico”. Qualquer termo que comece com apocalipse vem para gelar nossas espinhas. Ele se refere ao potencial impacto devastador que a computação quântica avançada pode ter na segurança da informação global. Poderosos computadores quânticos, em um futuro próximo, poderiam quebrar os sistemas de criptografia que protegem nossos dados sigilosos. E não apenas nossas informações bancárias, mas também registros médicos, segredos de Estado e propriedade intelectual poderão ir para o saco. Pensando bem, não vejo tanta novidade assim nesse apocalipse quântico. Agradeço o alerta, mas os apocalipses climático e nuclear me parecem mais palpáveis, prefiro desperdiçar meu sono em questões mais complicadas de solucionar. Vem ni mim, apocalipse quântico, que um fichário (ou o colchão da minha cama) pode me salvar.

Transição

A imagem estática no espelho mostrava uma mulher sem idade. Os cabelos crespos, um tanto grisalhos, modulavam o rosto sério, mas sereno, levemente assimétrico. Prestando bastante atenção, dava para ver o tremor fugidio no olho direito. O contorno da face começava a perder a forma, e a falta de tônus, principalmente ao redor da boca, era mais aparente do que as rugas, quase inexistentes na ausência de movimentos. Os olhos, o nariz e a boca eram pequenos, mas não destoavam do tamanho da cabeça. Ainda se reconhecia naquela moldura à sua frente. Sorriu. Ao fazer isso, algo se quebrou. O espasmo discreto se estendeu do olho para toda a face direita, repuxando a boca e deixando a pálpebra cair. A expressão tornou-se irônica, e preferiu fechar os olhos e apenas sentir os movimentos involuntários, agora parte de quem era. Repetiu seu mantra matutino — o importante é ter saúde, envelhecer faz parte da vida — sem muita convicção. Faltavam exatamente seis meses para completar 60 anos. Se deu conta de que as projeções feitas ao longo da vida nunca haviam chegado a esse ponto. Quando criança, havia as conversas sobre o final do mundo no ano 2000, conforme profetizara Nostradamus. Lembrava-se das discussões noturnas na cama de casal que dividia com as primas, quando dormiam na casa da avó nos fins de semana, ou após a escola com os amigos, no escadão que ligava sua rua a uma outra abaixo, o qual não deveriam frequentar por ser inóspito, mas por isso mesmo ideal para conversas sérias. Contava nos dedos para ter certeza e, ao se certificar que teria 36 anos na mudança de século, ficava aliviada. Vou ser uma velha até lá, dane-se o fim do mundo. Depois fez planos para se formar, ter uma profissão e não ser dona de casa como as mulheres adultas do seu entorno. Queria ser linda, ter sucesso, encontrar alguém para dividir a vida e criar uma família. Em algum momento, acreditou que ajudava a salvar o mundo com seu trabalho e ativismo em organizações socioambientais, e a militância tomou grande parte de seu tempo, deixando um pouco de lado as pretensões de sucesso e independência. Encontrou o amor, educou os filhos. Olhando para trás, alguns dos projetos se realizaram, outros não. Perdeu a ilusão quanto à sua influência fora de seu espaço íntimo, o mundo se vira sozinho, mas o que fazer com este terço de vida pendente? Finalmente, era livre como nunca foi, mas se sentia paralisada, sem saber o que desejar. A resposta não estava no espelho. Se vestiu e foi ao parque caminhar em pleno meio da manhã. Estava mais quente do que esperava, a luz chapada do verão atravessando as árvores tornava o caminho um tanto dramático, é o sol ou sou eu? Pensou nos filhos crescidos e já fora de casa, no trabalho para o qual dedicou 40 anos, mas que não a satisfazia mais, nas novas atividades começadas sem objetivos claros. Será necessário propósito? Seu estado melancólico, tinha consciência, vinha dos braços doloridos pelas duas vacinas tomadas no dia anterior e do regime alimentar iniciado há duas semanas para perder peso. Eram parte do combo de mudanças que vinha se instalando lentamente em seu corpo: um metabolismo falho, insônia, cansaços súbitos e falta de concentração. O déficit de proteínas detectado nos exames e o tratamento dos espasmos faciais a levavam a se confrontar com antigos preconceitos e se render a soluções antes impensadas: suplementos alimentares, ansiolíticos, aplicações periódicas de botox no rosto. A vida já não era a mesma, mas, afinal, quem disse que será pior?, pensou. Aos poucos, seu estado de espírito se acalmou. Voltou do parque cantando, almoçou sua refeição de calorias controladas, vestiu uma das calças que estavam apertadas e voltaram a ficar bem. Nenhum compromisso era obrigatório ou tinha prazo. Foi ao shopping. Viu vitrines e, contrariando a sensatez habitual, comprou três vestidos de uma vez. Sem óculos, na luminosidade precária do provador, achou que estava ótima. *Texto publicado na Antologia 2024, da Pós-graduação Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz.

Sobre os barulhos que causamos e sofremos com nossas reformas

Acabei de fazer uma reforma em meu apartamento em que uma parede foi derrubada. Foi a terceira nas quase três décadas em que moro aqui. Em todas elas, tive o cuidado de prevenir minha vizinha de porta e pedir desculpas, sem fazer mais nada. Não passou pela minha cabeça fazer o mesmo com os vizinhos de cima e de baixo. Viajei ou fui para a chácara durante os períodos críticos. Entendo que prevenir os demais afetados não iria fazer a menor diferença na experiência que intuía ser ruim, mas pelo menos seria um agrado, como dizer eu me importo com o desconforto que vou te causar. Fica aqui um mea-culpa tardio de alguém que está para enlouquecer com a reforma do apartamento acima do meu. Eu sabia que meus vizinhos fariam esta grande reforma, pois no prédio se comentava que havia sido adiada por conta de um acidente sofrido por um dos moradores do apartamento. Vi a mudança deles sair, pois precisam ficar fora para as obras e sei que têm todo o direito de mexer em seu imóvel, tanto quanto eu tenho no meu. Nada disso minimiza a sensação de permanecer oito horas por dia com pessoas martelando na minha cabeça. Esta é daquelas situações da qual ninguém tem culpa, consequência do nosso jeito de viver empilhado uns sobre os outros, em uma cidade já barulhenta o suficiente. Além dos carros, motos e ônibus na rua, aqui ainda temos música e conversas durante a noite, afinal moro em um bairro boêmio. E uma marmoraria ao lado, a qual me acostumei a abstrair, assim como a diversidade de obras no edifício. Com quase 30 anos de construção, as reformas são necessárias. Vários dos moradores que se mudaram quando o prédio ficou pronto e criou filhos por aqui, como eu e meu vizinho de cima, estamos readaptando nossas casas para a nova situação de ninho vazio. O resultado, porém, é que minha rotina nesta semana, e sabe-se lá até quando, é lidar com britadeira, marteladas e outros barulhos indecifráveis, que parecem dobrar o tamanho da minha cabeça e reverberar por cada centímetro do meu corpo, que algumas vezes, inconscientemente, se encolhe a espera de que algo caia sobre ele. Enquanto minha capacidade de me concentrar no trabalho e meu estoque de dipirona desaparecem, penso em resiliência e leveza, sem muito sucesso. Imagino o número de paulistanos que convivem com grandes obras ao lado de casa, nesse frenesi imobiliário da cidade, e me arrepio. Contem com minha solidariedade.

Imagem que gruda na mente

Vários dias se passaram e não sai da minha cabeça as cenas da reportagem sobre o estupro de uma mulher em Paranaguá, na qual uma câmera mostra a vítima tentando se segurar em uma parede até ser arrastada pelo agressor a um banheiro de um posto de gasolina desativado. Segundo a matéria, a câmera a registrou dizendo NÃO pelo menos onze vezes, mesmo só capturando som quando está de frente para a cena. Assistir ao estuprador dizendo cinicamente para a delegada que a mulher dizia NÃO para fazer charme é de embrulhar o estômago de qualquer pessoa normal. O aflitivo, no entanto, é ser cada vez mais difícil saber o que é normal, em um mundo em que, mesmo quando o estupro é praticamente filmado, um juiz negue duas vezes a prisão do agressor. Ele só foi detido após a apelação do Ministério Público. Desnecessário dizer que, caso não houvesse gravação, o mais provável é que as autoridades não acreditassem na versão da mulher e tudo ficaria por isso mesmo. O caso do jogador de futebol Daniel Alves, cuja condenação de estupro foi anulada na Espanha, é prova de que não é um problema apenas do Brasil. Já é difícil entender o que move homens a estuprarem mulheres. Pior: muitas vezes suas próprias esposas, namoradas, filhas. O descrédito que a palavra feminina tem como depoente, porém, é o maior incentivo para os criminosos. Dói ser mulher e pensar que o que aconteceu com as mulheres em Paranaguá e na Espanha está ocorrendo neste exato momento em vai saber quantos lugares no mundo, e poderia ser uma de minhas filhas naquela situação. Contra essa indignidade, nós mulheres precisamos não somente ocupar mais espaços de voz e poder, mas contar com posicionamentos mais incisivos dos homens que não compactuam com isso. As estatísticas e as imagens mostram que não têm sido feito o suficiente.

O que podemos fazer sozinhos em uma ilha

Uma peça de teatro aonde você vai sem saber quem será o ator que interpretará o texto. Essa é a proposta de “Coro dos solitários, ou Sonhamos ser Robinson Crusoé”, da Cia de Teatro Acidental. No espetáculo, duas atrizes e dois atores começam em cena, mas, tal qual o Robison Crusoé de Daniel Dafoe, sofrem um naufrágio e apenas um sobreviverá e chegará à ilha deserta. Para saber qual deles será, é realizado um sorteio ao vivo. À medida que seus números vão saindo, os demais se retiram de cena deixando o último no palco. Sozinho. Nesta condição, o náufrago da vez começa sua conversa com o público e consigo mesmo sobre sua solidão, e a de todos nós. A solidão de estar sozinho e a de estar em multidão. Aquela que reconhecemos e a que fingimos não reparar. Saímos do espetáculo nos sentindo um pouco Robinson Crusoé. Essa percepção é forte a ponto de minha filha e eu passamos todo o caminho de volta do teatro conversando sobre o que assistimos: desejamos companhia, mas não temos paciência para entender o outro; tememos o outro, mas precisamos dele; ficamos seguros e em paz conosco mesmo, mas somente por pouco tempo. O texto do espetáculo é do ator e dramaturgo Artur Kon, meu amigo de pós-graduação no Vera Cruz. Por isso, eu já havia lido uma versão dele na nossa oficina. Infelizmente, Artur não foi o sorteado da vez para interpretá-lo, mas a experiência com outro ator foi tão boa quanto. O espetáculo ainda estará em cartaz neste final de semana, de quinta a sábado, às 19h e às 20h30, e domingo, às 18h e às 19h30, no TUSP Butantã, na USP. E é gratuito. Recomendo muito. P.S. – Acabei de ler o artigo “O que esperamos do amor?”, da coletânea Felicidade Ordinária, da Vera Iaconelli, que dialoga com o tema da peça ao abordar a projeção que colocamos no outro como responsável por nossa felicidade e capaz de apaziguar nosso vazio: “Acreditar que nossa solidão estrutural pode ser aplacada pela presença do amante é outra fantasia que o amor insiste em contrariar. Em nossa época, o amor teria a vocação de ser apenas a contingente e fugaz trégua na incontornável solidão humana. A mim, soa suficientemente bom”. E, se a solidão é inexorável, saibamos ser sós.

Em grupo, a leitura é mais transformadora

Ler um livro costuma ser um ato solitário, individual. Mas quando se tem a oportunidade de expandir essa experiência de modo compartilhado, aumentamos seu poder de entendimento e transformação. No caso da literatura, a expectativa da troca já torna a leitura especial. Essa é a essência dos encontros mensais do Círculo Feminino de Leitura (CFL). Sabemos que nossas impressões sobre a obra do mês serão aprofundadas, modificadas e vivenciadas em discussões e atividades surpreendentes. Em nosso último encontro, o protagonista da noite foi “A árvore mais sozinha do mundo”, da Mariana Salomão Carrara, no qual a autora dá vida a uma árvore, um espelho, um carro e uma roupa de proteção para nos contar, de pontos de vista diferentes, o cotidiano de uma família de pequenos produtores de fumo no Rio Grande do Sul. Apesar da identificação com o tema central do livro, focado na crueldade da indústria fumageira e suas consequências em todos os aspectos das vidas dos personagens humanos da história, tive um pouco de dificuldade de me entregar à narração dos observadores humanizados. Ouvir as opiniões de minhas amigas, que entraram completamente na proposta da autora, me ajudou a rever algumas de minhas ideias iniciais e, principalmente, a me conhecer melhor. Para tanto, a leitura de trechos escolhidos com antecedência por cada uma, a pedido de nossa anfitriã Claudia, foi tão importante quando a produção feita por ela de um cenário com objetos, cores e sabores das personagens – o pêssego em calda foi quase uma abdução para aquela casa pobre, rodeada de tabaco e veneno, mas também entendida de amor (como constata a árvore solitária) e em busca de doçura, travestida em compotas de pêssego que complementavam a renda familiar. Colaboraram, ainda, a Neise e a Kátia vestidas de árvores e a Nivia enfeitada de espelho, além de trocarmos ideias com um espelho, e tentarmos nos imaginar como seres inanimados ou não humanos observando o mundo. Tivemos também a bela pesquisa da Claudia sobre a cultura de tabaco no Brasil (somos o segundo maior produtor e o maior exportador dessa cultura que só serve pra piorar a saúde de quem produz e quem usa), a análise literária da Dóris, as memórias de família da Marli no interior de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, as tiradas bem-humoradas da Wal, da Edna e da Laura: estávamos inspiradas. Acho que essa é a mágica que a literatura conjugada à amizade faz.

Gostaria de entender o ódio masculino às mulheres

Assim como a maior parte das pessoas que já assistiram, não consigo parar de pensar na série Adolescência, da Netflix. Li tudo que apareceu na minha frente, conversei com quem tive oportunidade. O que tem me perturbado, mais do que o papel dos pais, instituições e redes sociais no comportamento atual dos meninos é o ódio às mulheres em si. Em que momento da história, os homens decidiram que as mulheres eram seres de outra espécie, inferiores, existentes para satisfazer seus desejos? O que diria Darwin sobre a utilidade dessa excrecência evolutiva? Um dos trechos que mais me chamou a atenção quando li “Sapiens, uma breve história da humanidade” é quando Yuval Harari questiona por que as sociedades humanas são majoritariamente patriarcais, pelo menos desde a invenção da agricultura. É o único capítulo no qual o autor se diz incapaz de formular uma teoria, reconhecendo não ver lógica científica para isso: não há diferença cognitiva entre os sexos e a diferença de tamanho é muito pequena e relativa para ser uma explicação, afinal há muitas mulheres maiores do que homens. Nesta semana, uma matéria em O Globo traz uma pesquisa, publicada em janeiro na revista cientifica Biology Letters, mostrando que a altura média masculina aumentou duas vezes mais rápido do que a feminina nos últimos anos, o que, especulo, pode significar que esta diferença está aumentando. Além da genética, o estudo atribui o fato às meninas entrarem na puberdade mais cedo, o que interrompe o crescimento, e à “seleção sexual” – mulheres tendem a preferir homens mais altos. Tem lógica, mas ainda acho as afirmações frágeis, afinal, as meninas também entram na puberdade antes dos meninos e homens transmitem seus genes para filhos e filhas. Quem sabe se a vida mais reprimida tem influência maior? Mas não sou cientista. Já ouvi dizer que ser mãe e ter que cuidar da cria fragiliza a mulher, mas acho difícil acreditar nisso. Ter muitos filhos é coisa recente. E cuidar da cria poderia muito bem ser uma tarefa dividida. Algumas famílias modernas provam isso. Ao contrário, penso que deve ser difícil para os homens aceitarem nossa capacidade de gerar, um superpoder que nunca terão. E a capacidade de perder litros de sangue e continuar vivendo como se nada (ou quase nada) estivesse acontecendo. Ou de parir uma criança e imediatamente se colocar de pé para cuidar dela, muitas vezes, após uma cirurgia complicada que é uma cesariana. O que interessa aqui, e parece mexer com as pessoas que assistem à série, porém, é o que faz um pirralho de treze anos achar que pode matar uma menina porque ela não deu bola pra ele e ir dormir tranquilamente. Isso em um país desenvolvido da Europa. E como os homens conseguiram por tanto tempo convencer as mulheres de que o mundo é assim mesmo, enfiando por nossas gargantas religiões que nos diminuem e reprimem. Em que momento, aquilo que muitos acham “brincadeira” ou, no extremo, “brincadeira de mau gosto” se torna explicitude de ódio e perigo à integridade feminina? Para o senador Plínio Valério (PSDB-AM), dizer que ficar com a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, por algumas horas sem ter vontade de enforcá-la é um milagre. E uma brincadeira, da qual não se arrepende. Tenho muitas perguntas, uma indignação infinita e não vejo solução fácil. Os retrocessos civilizatórios que temos visto reforçam essas sensações. Só sei que não podemos nos descuidar. Os incels não parecem esmorecer.

Nostalgia de uma cidade que não conheci

Descobrir algum dos poucos vestígios do que foi a região que hoje é esta floresta de prédios, em constante adensamento, dá uma espécie de nostalgia do que nunca vivi, mesmo que São Paulo tenha mais que dobrado de tamanho nestes meus pouco mais de meio século de vida. Um desses locais fica a dez minutos da minha casa e, até a semana passada, eu nunca tinha ouvido falar de sua existência. Achei a Casa do Bandeirante em uma dessas listas de lugares para conhecer na cidade, às quais sempre me surpreendem, ainda mais quando não é algo novo. Para os tão ignorantes quanto eu, é um museu e fica no Butantã, a poucos metros da Marginal Pinheiros, no centro de uma pracinha bucólica chamada Monteiro Lobato, cercada de árvores e casas no estilo Cia. City, características de áreas nobres como Jardins, Alto de Pinheiros, Alto da Lapa e o próprio Butantã. Quando fui visitar, estacionei em frente e, durante todo o tempo que permaneci por lá, apenas funcionários circulavam pelo parque bem cuidado, com banheiros, playground para crianças, árvores enormes e tranquilas alamedas, que terminam em uma casa com paredes feitas de taipa de pilão construída possivelmente no início do século 17. Lá dentro, chamam a atenção a grossura das paredes, o pé-direito alto e as grandes janelas, que deixam a casa bastante fresca, mesmo com o calorão lá fora. Há exposições sobre espécies botânicas da região e fotos antigas dos rios Pinheiros e Tietê. O nome remete ao primeiro proprietário conhecido da propriedade, o bandeirante português Afonso Sardinha, que guerreou com os índios para poder garimpar ouro no Pico do Jaraguá. Pelo visto, os indígenas devem ter sido mais resistentes que ele, pois permanecem no local até hoje. Agora quem cobiça suas terras são as construtoras. Na época de Sardinha, aquelas paragens eram conhecidas por Uvatantan e a propriedade como Ubatatá, termo tupi que significa “terra dura”. Os bens do bandeirante foram doados aos jesuítas e, após sua expulsão do país, em 1759, a área foi leiloada e teve vários proprietários até ser comprada por Eugênio Vieira Medeiros, em 1875. A Cia. City de São Paulo comprou o imóvel em 1912 e o doou ao município, em 1944. A casa, então, era conhecida como “Casa Velha do Butantã”, e já tinha chamado a atenção de personalidades como Mario de Andrade e o arquiteto Luis Saia, que conduziu seu restauro quando foi transformada em museu, na época do IV Centenário de São Paulo. Consta que a casa ficava às margens do Pinheiros, hoje retificado e reduzido a um canal fedorento de concreto entre as pistas da marginal. Em que pese a virulência dos bandeirantes de então, dá para sentir nostalgia dessa São Paulo desconhecida, não?

Comportamentos mudam e têm consequências

Quando eu era criança, nesta mesma cidade de São Paulo, o ritmo era outro. Havia menos opções de tudo, mas não percebíamos, pois era o que conhecíamos. Por falta do que fazer, as pessoas se visitavam e, como poucos tinham telefone, o normal era somente ir. Isso significa que a possibilidade da chegada de alguém era normal e constante. Acho que o ditado “colocar mais água no feijão” deve ter algo a ver com isso. Se a campainha tocasse e já estivéssemos de pijamas, o que acontecia após o banho no final da tarde, alguém olhava de soslaio quem era e saíamos em disparada para nos trocar, e o visitante aguardava calmamente na porta, pois sabia o que estava acontecendo. Por conta disso, na maior parte das casas, sempre havia um licor, um café para ser passado, um bolo, um docinho, uma cervejinha para oferecer às visitas. Não existia pedir alguma coisa e entregarem. Quando era muita gente de uma vez, a alternativa era ir à padaria da esquina e trazer uma pizza ou pães e frios para um lanche, reforçar o estoque de refrigerante e cerveja. Pelo menos era assim na minha casa e nas dos amigos, vizinhos e familiares que eu frequentava. Hoje, a cidade é outra. Somos todos outros. Para ir à casa de alguém, é preciso ser convidado, de preferência com antecedência. O anfitrião necessita de tempo para se preparar. Poucas vezes isso significa ir para a cozinha e preparar algo. A maior parte dos convites é para comer uma pizza, que será pedida após a chegada dos visitantes. Nas reuniões dos mais jovens, pelo que acompanho dos meus filhos, ninguém serve nada, cada um leva a sua própria bebida. Ou levava. Agora a prática é cada um pedir sua cerveja ou vinho depois de chegar. O verbo utilizado importa: não é encomendar, é pedir, pois precisa ser rápido, imediato. Não há aqui saudosismo do tipo “naquela época era melhor”, só era diferente mesmo. E essa prática de “pedir” comida, bebida, remédios, cigarros se generalizou, principalmente, quando não há visitante algum. Para uma pessoa jovem, possivelmente a antiga máxima “foi comprar cigarro e não voltou” não tenha sentido algum. Como toda mudança, porém, há consequências. Esse novo costume, que se intensifica a cada ano, produziu em São Paulo uma massa de entregadores alucinados pela cidade. Mal pagos e pressionados a fazer entregas em tempo recorde, não respeitam nenhuma lei de trânsito, arriscam a própria vida e as alheias como se nada fossem. Misturados aos ladrões de celulares, motoqueiros e, em menor proporção, ciclistas, são o terror de pedestres e motoristas paulistanos. Nós os tememos, reclamamos deles o tempo todo, mas não vivemos sem eles. Será que precisa ser assim? O que me fez recordar de épocas antigas foi uma postagem da minha colega de faculdade e vereadora Renata Falzoni, na qual ela pergunta: Pra que tanta pressa? Ela relaciona o aumento de acidentes e mortes no trânsito na cidade aos aplicativos de entrega, que prometem recebimento no mesmo dia e, em alguns casos, em 10 ou 15 minutos (incluindo o preparo do prado!). Disse que irá pedir uma CPI para discutir o tema na Câmara Municipal. É claro que maior policiamento e fiscalização de trânsito minimizariam o problema e são muito necessários. Mas não adianta defendermos isso e continuarmos a querer receber de tudo em casa em tempo recorde. Se sua pizzaria preferida fica a 10 quilômetros da sua casa e você quer comer a pizza quentinha e rápido, não tem como ela se materializar na sua frente, pelo menos por enquanto. Alguém terá que sair feito louco pelas ruas para trazê-la, não tem milagre. Renata ainda brinca que poderia haver um item “pode vir com calma” na hora de fazer o pedido. Claro que é uma discussão sistêmica, não apenas de atitude individual, mas ter no radar que comportamentos podem mudar é essencial. Não dá para fingir que ninguém tem nada a ver com isso.

A memória como resgate histórico e de afeto

Acaba de ser publicado na revista Cadernos de Pesquisa da Escola da Cidade (edição 17) um artigo da minha filha Adriana. Resumo do TCC em Arquitetura, é resultado de sua pesquisa sobre a vida do avô arquiteto, que ela não conheceu – só esteve com ele uma vez, aos seis meses de idade. Em “A trajetória de um arquiteto comum: dimensões da prática de Alfredo Porto Alegre (1939-1999)”, ela busca abarcar o campo profissional de sua atuação na arquitetura e urbanismo entre meados dos anos 1960 e 1999, quando faleceu. Em que pese meu orgulho de ver um artigo da minha filha aceito em uma revista acadêmica, acredito que preservar memórias, sejam pessoais, familiares, de uma profissão, de um povo ou país é uma atividade pouco usual na nossa cultura. Essa falta parece ajudar a distorcer fatos, trazer de volta posicionamentos controversos, vestidos com roupas trocadas. Além disso, costumamos valorizar apenas as histórias daqueles que foram incomuns, que ficaram famosos, dificultando a compreensão de como nossa sociedade foi realmente construída. Por isso sua pesquisa é importante. Nessa investigação, apesar da narrativa trazer as realizações profissionais do meu sogro, a discussão não diz respeito unicamente ao resgate de sua história, “mas sim a uma tentativa de preencher lacunas historiográficas dos arquitetos ‘comuns’ que não pertencem aos cânones da arquitetura moderna do século XX”. No final das contas, como Adriana mostra, nenhuma trajetória é comum. No artigo, ela apresenta a pluralidade profissional do avô, passando pela sua atuação como arquiteto assalariado, a especialização em arquiteturahospitalar, o trabalho no funcionalismo público e, em paralelo, seu engajamentoem instituições de representação profissional, como o Conselho Regionalde Engenharia e Agronomia (Crea), do qual foi o mais jovem presidente no Rio Grande do Sul; o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) e o Sindicato dos Arquitetos do Rio Grande do Sul, do qual foi um dos fundadores, em plena ditadura militar. Em sua pesquisa, que envolveu visitas a diversos órgãos e arquivos, além de entrevistas com pessoas da vida familiar e profissional do avô, ela ajuda a contar um pouco da história da arquitetura brasileira e constrói um vínculo pessoal com alguém que teria uma profunda afinidade se a finitude precoce não tivesse interrompido essa possibilidade.