O que podemos fazer sozinhos em uma ilha

Uma peça de teatro aonde você vai sem saber quem será o ator que interpretará o texto. Essa é a proposta de “Coro dos solitários, ou Sonhamos ser Robinson Crusoé”, da Cia de Teatro Acidental. No espetáculo, duas atrizes e dois atores começam em cena, mas, tal qual o Robison Crusoé de Daniel Dafoe, sofrem um naufrágio e apenas um sobreviverá e chegará à ilha deserta. Para saber qual deles será, é realizado um sorteio ao vivo. À medida que seus números vão saindo, os demais se retiram de cena deixando o último no palco. Sozinho. Nesta condição, o náufrago da vez começa sua conversa com o público e consigo mesmo sobre sua solidão, e a de todos nós. A solidão de estar sozinho e a de estar em multidão. Aquela que reconhecemos e a que fingimos não reparar. Saímos do espetáculo nos sentindo um pouco Robinson Crusoé. Essa percepção é forte a ponto de minha filha e eu passamos todo o caminho de volta do teatro conversando sobre o que assistimos: desejamos companhia, mas não temos paciência para entender o outro; tememos o outro, mas precisamos dele; ficamos seguros e em paz conosco mesmo, mas somente por pouco tempo. O texto do espetáculo é do ator e dramaturgo Artur Kon, meu amigo de pós-graduação no Vera Cruz. Por isso, eu já havia lido uma versão dele na nossa oficina. Infelizmente, Artur não foi o sorteado da vez para interpretá-lo, mas a experiência com outro ator foi tão boa quanto. O espetáculo ainda estará em cartaz neste final de semana, de quinta a sábado, às 19h e às 20h30, e domingo, às 18h e às 19h30, no TUSP Butantã, na USP. E é gratuito. Recomendo muito. P.S. – Acabei de ler o artigo “O que esperamos do amor?”, da coletânea Felicidade Ordinária, da Vera Iaconelli, que dialoga com o tema da peça ao abordar a projeção que colocamos no outro como responsável por nossa felicidade e capaz de apaziguar nosso vazio: “Acreditar que nossa solidão estrutural pode ser aplacada pela presença do amante é outra fantasia que o amor insiste em contrariar. Em nossa época, o amor teria a vocação de ser apenas a contingente e fugaz trégua na incontornável solidão humana. A mim, soa suficientemente bom”. E, se a solidão é inexorável, saibamos ser sós.
Em grupo, a leitura é mais transformadora

Ler um livro costuma ser um ato solitário, individual. Mas quando se tem a oportunidade de expandir essa experiência de modo compartilhado, aumentamos seu poder de entendimento e transformação. No caso da literatura, a expectativa da troca já torna a leitura especial. Essa é a essência dos encontros mensais do Círculo Feminino de Leitura (CFL). Sabemos que nossas impressões sobre a obra do mês serão aprofundadas, modificadas e vivenciadas em discussões e atividades surpreendentes. Em nosso último encontro, o protagonista da noite foi “A árvore mais sozinha do mundo”, da Mariana Salomão Carrara, no qual a autora dá vida a uma árvore, um espelho, um carro e uma roupa de proteção para nos contar, de pontos de vista diferentes, o cotidiano de uma família de pequenos produtores de fumo no Rio Grande do Sul. Apesar da identificação com o tema central do livro, focado na crueldade da indústria fumageira e suas consequências em todos os aspectos das vidas dos personagens humanos da história, tive um pouco de dificuldade de me entregar à narração dos observadores humanizados. Ouvir as opiniões de minhas amigas, que entraram completamente na proposta da autora, me ajudou a rever algumas de minhas ideias iniciais e, principalmente, a me conhecer melhor. Para tanto, a leitura de trechos escolhidos com antecedência por cada uma, a pedido de nossa anfitriã Claudia, foi tão importante quando a produção feita por ela de um cenário com objetos, cores e sabores das personagens – o pêssego em calda foi quase uma abdução para aquela casa pobre, rodeada de tabaco e veneno, mas também entendida de amor (como constata a árvore solitária) e em busca de doçura, travestida em compotas de pêssego que complementavam a renda familiar. Colaboraram, ainda, a Neise e a Kátia vestidas de árvores e a Nivia enfeitada de espelho, além de trocarmos ideias com um espelho, e tentarmos nos imaginar como seres inanimados ou não humanos observando o mundo. Tivemos também a bela pesquisa da Claudia sobre a cultura de tabaco no Brasil (somos o segundo maior produtor e o maior exportador dessa cultura que só serve pra piorar a saúde de quem produz e quem usa), a análise literária da Dóris, as memórias de família da Marli no interior de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, as tiradas bem-humoradas da Wal, da Edna e da Laura: estávamos inspiradas. Acho que essa é a mágica que a literatura conjugada à amizade faz.
Gostaria de entender o ódio masculino às mulheres

Assim como a maior parte das pessoas que já assistiram, não consigo parar de pensar na série Adolescência, da Netflix. Li tudo que apareceu na minha frente, conversei com quem tive oportunidade. O que tem me perturbado, mais do que o papel dos pais, instituições e redes sociais no comportamento atual dos meninos é o ódio às mulheres em si. Em que momento da história, os homens decidiram que as mulheres eram seres de outra espécie, inferiores, existentes para satisfazer seus desejos? O que diria Darwin sobre a utilidade dessa excrecência evolutiva? Um dos trechos que mais me chamou a atenção quando li “Sapiens, uma breve história da humanidade” é quando Yuval Harari questiona por que as sociedades humanas são majoritariamente patriarcais, pelo menos desde a invenção da agricultura. É o único capítulo no qual o autor se diz incapaz de formular uma teoria, reconhecendo não ver lógica científica para isso: não há diferença cognitiva entre os sexos e a diferença de tamanho é muito pequena e relativa para ser uma explicação, afinal há muitas mulheres maiores do que homens. Nesta semana, uma matéria em O Globo traz uma pesquisa, publicada em janeiro na revista cientifica Biology Letters, mostrando que a altura média masculina aumentou duas vezes mais rápido do que a feminina nos últimos anos, o que, especulo, pode significar que esta diferença está aumentando. Além da genética, o estudo atribui o fato às meninas entrarem na puberdade mais cedo, o que interrompe o crescimento, e à “seleção sexual” – mulheres tendem a preferir homens mais altos. Tem lógica, mas ainda acho as afirmações frágeis, afinal, as meninas também entram na puberdade antes dos meninos e homens transmitem seus genes para filhos e filhas. Quem sabe se a vida mais reprimida tem influência maior? Mas não sou cientista. Já ouvi dizer que ser mãe e ter que cuidar da cria fragiliza a mulher, mas acho difícil acreditar nisso. Ter muitos filhos é coisa recente. E cuidar da cria poderia muito bem ser uma tarefa dividida. Algumas famílias modernas provam isso. Ao contrário, penso que deve ser difícil para os homens aceitarem nossa capacidade de gerar, um superpoder que nunca terão. E a capacidade de perder litros de sangue e continuar vivendo como se nada (ou quase nada) estivesse acontecendo. Ou de parir uma criança e imediatamente se colocar de pé para cuidar dela, muitas vezes, após uma cirurgia complicada que é uma cesariana. O que interessa aqui, e parece mexer com as pessoas que assistem à série, porém, é o que faz um pirralho de treze anos achar que pode matar uma menina porque ela não deu bola pra ele e ir dormir tranquilamente. Isso em um país desenvolvido da Europa. E como os homens conseguiram por tanto tempo convencer as mulheres de que o mundo é assim mesmo, enfiando por nossas gargantas religiões que nos diminuem e reprimem. Em que momento, aquilo que muitos acham “brincadeira” ou, no extremo, “brincadeira de mau gosto” se torna explicitude de ódio e perigo à integridade feminina? Para o senador Plínio Valério (PSDB-AM), dizer que ficar com a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, por algumas horas sem ter vontade de enforcá-la é um milagre. E uma brincadeira, da qual não se arrepende. Tenho muitas perguntas, uma indignação infinita e não vejo solução fácil. Os retrocessos civilizatórios que temos visto reforçam essas sensações. Só sei que não podemos nos descuidar. Os incels não parecem esmorecer.
Nostalgia de uma cidade que não conheci

Descobrir algum dos poucos vestígios do que foi a região que hoje é esta floresta de prédios, em constante adensamento, dá uma espécie de nostalgia do que nunca vivi, mesmo que São Paulo tenha mais que dobrado de tamanho nestes meus pouco mais de meio século de vida. Um desses locais fica a dez minutos da minha casa e, até a semana passada, eu nunca tinha ouvido falar de sua existência. Achei a Casa do Bandeirante em uma dessas listas de lugares para conhecer na cidade, às quais sempre me surpreendem, ainda mais quando não é algo novo. Para os tão ignorantes quanto eu, é um museu e fica no Butantã, a poucos metros da Marginal Pinheiros, no centro de uma pracinha bucólica chamada Monteiro Lobato, cercada de árvores e casas no estilo Cia. City, características de áreas nobres como Jardins, Alto de Pinheiros, Alto da Lapa e o próprio Butantã. Quando fui visitar, estacionei em frente e, durante todo o tempo que permaneci por lá, apenas funcionários circulavam pelo parque bem cuidado, com banheiros, playground para crianças, árvores enormes e tranquilas alamedas, que terminam em uma casa com paredes feitas de taipa de pilão construída possivelmente no início do século 17. Lá dentro, chamam a atenção a grossura das paredes, o pé-direito alto e as grandes janelas, que deixam a casa bastante fresca, mesmo com o calorão lá fora. Há exposições sobre espécies botânicas da região e fotos antigas dos rios Pinheiros e Tietê. O nome remete ao primeiro proprietário conhecido da propriedade, o bandeirante português Afonso Sardinha, que guerreou com os índios para poder garimpar ouro no Pico do Jaraguá. Pelo visto, os indígenas devem ter sido mais resistentes que ele, pois permanecem no local até hoje. Agora quem cobiça suas terras são as construtoras. Na época de Sardinha, aquelas paragens eram conhecidas por Uvatantan e a propriedade como Ubatatá, termo tupi que significa “terra dura”. Os bens do bandeirante foram doados aos jesuítas e, após sua expulsão do país, em 1759, a área foi leiloada e teve vários proprietários até ser comprada por Eugênio Vieira Medeiros, em 1875. A Cia. City de São Paulo comprou o imóvel em 1912 e o doou ao município, em 1944. A casa, então, era conhecida como “Casa Velha do Butantã”, e já tinha chamado a atenção de personalidades como Mario de Andrade e o arquiteto Luis Saia, que conduziu seu restauro quando foi transformada em museu, na época do IV Centenário de São Paulo. Consta que a casa ficava às margens do Pinheiros, hoje retificado e reduzido a um canal fedorento de concreto entre as pistas da marginal. Em que pese a virulência dos bandeirantes de então, dá para sentir nostalgia dessa São Paulo desconhecida, não?
Comportamentos mudam e têm consequências

Quando eu era criança, nesta mesma cidade de São Paulo, o ritmo era outro. Havia menos opções de tudo, mas não percebíamos, pois era o que conhecíamos. Por falta do que fazer, as pessoas se visitavam e, como poucos tinham telefone, o normal era somente ir. Isso significa que a possibilidade da chegada de alguém era normal e constante. Acho que o ditado “colocar mais água no feijão” deve ter algo a ver com isso. Se a campainha tocasse e já estivéssemos de pijamas, o que acontecia após o banho no final da tarde, alguém olhava de soslaio quem era e saíamos em disparada para nos trocar, e o visitante aguardava calmamente na porta, pois sabia o que estava acontecendo. Por conta disso, na maior parte das casas, sempre havia um licor, um café para ser passado, um bolo, um docinho, uma cervejinha para oferecer às visitas. Não existia pedir alguma coisa e entregarem. Quando era muita gente de uma vez, a alternativa era ir à padaria da esquina e trazer uma pizza ou pães e frios para um lanche, reforçar o estoque de refrigerante e cerveja. Pelo menos era assim na minha casa e nas dos amigos, vizinhos e familiares que eu frequentava. Hoje, a cidade é outra. Somos todos outros. Para ir à casa de alguém, é preciso ser convidado, de preferência com antecedência. O anfitrião necessita de tempo para se preparar. Poucas vezes isso significa ir para a cozinha e preparar algo. A maior parte dos convites é para comer uma pizza, que será pedida após a chegada dos visitantes. Nas reuniões dos mais jovens, pelo que acompanho dos meus filhos, ninguém serve nada, cada um leva a sua própria bebida. Ou levava. Agora a prática é cada um pedir sua cerveja ou vinho depois de chegar. O verbo utilizado importa: não é encomendar, é pedir, pois precisa ser rápido, imediato. Não há aqui saudosismo do tipo “naquela época era melhor”, só era diferente mesmo. E essa prática de “pedir” comida, bebida, remédios, cigarros se generalizou, principalmente, quando não há visitante algum. Para uma pessoa jovem, possivelmente a antiga máxima “foi comprar cigarro e não voltou” não tenha sentido algum. Como toda mudança, porém, há consequências. Esse novo costume, que se intensifica a cada ano, produziu em São Paulo uma massa de entregadores alucinados pela cidade. Mal pagos e pressionados a fazer entregas em tempo recorde, não respeitam nenhuma lei de trânsito, arriscam a própria vida e as alheias como se nada fossem. Misturados aos ladrões de celulares, motoqueiros e, em menor proporção, ciclistas, são o terror de pedestres e motoristas paulistanos. Nós os tememos, reclamamos deles o tempo todo, mas não vivemos sem eles. Será que precisa ser assim? O que me fez recordar de épocas antigas foi uma postagem da minha colega de faculdade e vereadora Renata Falzoni, na qual ela pergunta: Pra que tanta pressa? Ela relaciona o aumento de acidentes e mortes no trânsito na cidade aos aplicativos de entrega, que prometem recebimento no mesmo dia e, em alguns casos, em 10 ou 15 minutos (incluindo o preparo do prado!). Disse que irá pedir uma CPI para discutir o tema na Câmara Municipal. É claro que maior policiamento e fiscalização de trânsito minimizariam o problema e são muito necessários. Mas não adianta defendermos isso e continuarmos a querer receber de tudo em casa em tempo recorde. Se sua pizzaria preferida fica a 10 quilômetros da sua casa e você quer comer a pizza quentinha e rápido, não tem como ela se materializar na sua frente, pelo menos por enquanto. Alguém terá que sair feito louco pelas ruas para trazê-la, não tem milagre. Renata ainda brinca que poderia haver um item “pode vir com calma” na hora de fazer o pedido. Claro que é uma discussão sistêmica, não apenas de atitude individual, mas ter no radar que comportamentos podem mudar é essencial. Não dá para fingir que ninguém tem nada a ver com isso.
A memória como resgate histórico e de afeto

Acaba de ser publicado na revista Cadernos de Pesquisa da Escola da Cidade (edição 17) um artigo da minha filha Adriana. Resumo do TCC em Arquitetura, é resultado de sua pesquisa sobre a vida do avô arquiteto, que ela não conheceu – só esteve com ele uma vez, aos seis meses de idade. Em “A trajetória de um arquiteto comum: dimensões da prática de Alfredo Porto Alegre (1939-1999)”, ela busca abarcar o campo profissional de sua atuação na arquitetura e urbanismo entre meados dos anos 1960 e 1999, quando faleceu. Em que pese meu orgulho de ver um artigo da minha filha aceito em uma revista acadêmica, acredito que preservar memórias, sejam pessoais, familiares, de uma profissão, de um povo ou país é uma atividade pouco usual na nossa cultura. Essa falta parece ajudar a distorcer fatos, trazer de volta posicionamentos controversos, vestidos com roupas trocadas. Além disso, costumamos valorizar apenas as histórias daqueles que foram incomuns, que ficaram famosos, dificultando a compreensão de como nossa sociedade foi realmente construída. Por isso sua pesquisa é importante. Nessa investigação, apesar da narrativa trazer as realizações profissionais do meu sogro, a discussão não diz respeito unicamente ao resgate de sua história, “mas sim a uma tentativa de preencher lacunas historiográficas dos arquitetos ‘comuns’ que não pertencem aos cânones da arquitetura moderna do século XX”. No final das contas, como Adriana mostra, nenhuma trajetória é comum. No artigo, ela apresenta a pluralidade profissional do avô, passando pela sua atuação como arquiteto assalariado, a especialização em arquiteturahospitalar, o trabalho no funcionalismo público e, em paralelo, seu engajamentoem instituições de representação profissional, como o Conselho Regionalde Engenharia e Agronomia (Crea), do qual foi o mais jovem presidente no Rio Grande do Sul; o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) e o Sindicato dos Arquitetos do Rio Grande do Sul, do qual foi um dos fundadores, em plena ditadura militar. Em sua pesquisa, que envolveu visitas a diversos órgãos e arquivos, além de entrevistas com pessoas da vida familiar e profissional do avô, ela ajuda a contar um pouco da história da arquitetura brasileira e constrói um vínculo pessoal com alguém que teria uma profunda afinidade se a finitude precoce não tivesse interrompido essa possibilidade.
Como seria reescrever a própria vida?

O que você faria se pudesse voltar atrás nas diversas decisões que tomou ao longo da vida, vivenciar seu presente a partir dessa mudança e escolher entre a vida que tem hoje ou uma das alternativas possíveis? Essa é a premissa de A Biblioteca da Meia-noite, de Matt Haig, livro do mês do Círculo Feminino de Leitura (CFL). Na narrativa, a protagonista Nora tenta o suicídio e permanece em uma espécie de purgatório, ou multiverso, no qual experimenta várias das vidas possíveis que poderia ter tido. Mesmo sendo um tanto previsível e ter um quê de autoajuda disfarçada, é um texto gostoso de ler, como uma minissérie de televisão. Aliás, parece que logo o enredo se transformará nisso mesmo. Para quem não quer esperar e prefere uma leitura leve, apesar da temática pesada, o livro inspira a pensarmos em nossas próprias escolhas e as consequências imaginadas e imprevistas de diferentes decisões. O mais interessante, na minha opinião, é que somos muito bons em fantasiar o futuro brilhante que teríamos em caso de opções alternativas em nosso passado, mas dificilmente incluímos na conta o que aconteceria com o resto do mundo, sobretudo as pessoas próximas, por causa disso. Aquele tal “efeito borboleta”. Por exemplo, se tivéssemos terminado o namoro antes de nos casarmos, qual seria o futuro do nosso/a parceiro/a ou como seria o mundo sem os nossos filhos, pois, mesmo que tivéssemos filhos, não seriam “esses” filhos. Ou se tivéssemos aceitado aquele trabalho do outro lado do mundo ao invés de ficar para cuidar da nossa mãe velhinha. O que teria acontecido com ela? Esses foram dilemas que a personagem de Haig enfrentou e sobre os quais nos dedicamos a especular no CFL, na maior parte das vezes confirmando que gostamos de nossas escolhas, mesmo que às vezes as questionemos em alguns momentos. A vida vivida é sempre um presente construído pelo acaso, pelas nossas opções e pelas oportunidades dadas. Imaginar que podemos direcioná-la exatamente como queremos é, no mínimo, ingenuidade.
O mundo chama pela sabedoria das avós

“A Ciranda das Mulheres Sábias – Ser jovem enquanto velha, velha enquanto jovem” é da mesma autora de “Mulheres que Correm com Lobos”, um clássico sobre os arquétipos femininos. Neste outro livro, Clarissa Pinkola Estés se debruça no poder da mulher madura, onde “instala-se uma força subterrânea e invisível que se manifesta por meio de comportamentos inesperados, arroubos de energia, intuições perspicazes, ímpetos apaixonados”. É um convite às mulheres maduras, as avós de todos, para que compartilhem seus conhecimentos com as mais novas e usem sua sabedoria para fortalecer o mundo, para que sejam “as pedras de toque, as notas fundamentais, os paradigmas necessários”. Chegando neste momento da vida, me senti chamada a procurar por esse poder, do qual, segundo a autora, “não sabemos dizer com muita precisão onde e como tudo isso ocorre. A poesia faz-se necessária para explicar a força vital de uma mulher: a dança, a pintura, a escultura, os ofícios do tear e da terra, o teatro, os adornos pessoais, as invenções, escritos apaixonados, estudo em livros e nossos sonhos, conversas com outras que sejam sábias, o atento intuir, refletir sentir e pressentir…”.
Saneamento adaptado às mudanças do clima é chave para bem viver

Pensar em adaptação do saneamento básico às mudanças climáticas, em uma semana de sol em São Paulo às vésperas do Carnaval, parece uma péssima ideia. Ninguém quer se lembrar de problemas relacionados a chuvas ou falta de chuvas, que, no caso da cidade, remete a inverno. Mas, talvez, justamente por estarmos fora da emergência, seja o melhor momento. Ainda mais porque a maior parte das adaptações necessárias também pode minimizar esse calor em ondas cada vez mais fortes. Em “Adaptação e Saneamento – Por um setor resiliente às mudanças climáticas”, publicação recém-lançada pelo Instituto Água e Saneamento (IAS), da qual participei, mostramos por que a adaptação dessa área é fundamental para garantir o bem viver nas cidades. Sem uma drenagem pensada para a nova realidade, ficaremos sem mobilidade – a parte mais visível da equação -, mas também sem abastecimento de água, sem tratamento adequado de esgotos, sem habitações de qualidade e com sérios problemas de saúde pública. Na pesquisa realizada para a publicação, ficou claro que um conjunto e medidas precisa ser tomado urgentemente, envolvendo de legislação e políticas públicas a meios de financiamento. Obras como sistemas de coleta e tratamento de esgotos eficientes e resilientes são urgentíssimas, já que temos uma defasagem a ser superada, além de outras infraestruturas cinzas, como piscinões, por exemplo. O que ficou evidente, porém, é a necessidade de soluções baseadas na natureza, chamadas pela nova sigla do momento SbN ou de infraestruturas verdes. Isso significa, em uma cidade como São Paulo, na qual as chuvas provocam tragédias e a falta d’água está sempre pairando, pensar em como era este espaço antes da metrópole se instalar: uma região com três grandes rios de várzeas (Tietê, Pinheiros e Tamanduateí) serpenteando uma planície para onde afluíam cerca de dois mil córregos, a maior parte deles atualmente canalizados. Mesmo com chuvas normais, as águas querem seu espaço original, imagine com os eventos extremos que vêm pela frente. (continua nos comentários ou em paulistanasp, link na bio) Conheço as respostas obvias. Os rios foram retificados, sem as marginais o trânsito não anda, tudo já foi ocupado. O pior é que o processo de impermeabilização do solo não cessa nunca, a cada dia mais e mais prédios gigantescos são construídos sem que se pense na drenagem urbana. Na chuva fatídica de 24 de janeiro, minha rua, que sempre enche na parte baixa, perto do Beco do Batman, conseguiu ter apartamentos inundados na parte alta, com o lençol freático subindo pelos ralos. As mudanças não são fáceis, mas têm que ser feitas. Há várias cidades sendo adaptadas pelo mundo. Nova York tem investido em aumentar suas áreas verdes e as cidades-esponja criadas na China tem aberto espaço para as águas escorrerem e armazenarem naturalmente. Na publicação do IAS, trazemos exemplos de medidas grandes e pequenas que podem ajudar, e disponibilizamos o endereço de várias plataformas com experiências em andamento. Ficar lamentando a época das chuvas e, alguns meses depois, a de seca não vai ajudar a melhorar a situação.
Eventos Extremos, o show

Enquanto São Paulo passava por mais um dia de caos por conta das chuvas na terça-feira (18/2), uma turma animada se reunia na Casa das Caldeiras no final de mais um dia de trabalho de avaliação justamente sobre as mudanças climáticas. Esse pessoal faz parte do Observatório do Clima, uma rede de organizações de todo o Brasil que atua para reduzir as emissões de carbono, minimizar seus efeitos deletérios, divulgar a enrascada em que nos metemos ao não levar a ciência a sério e tentar mudar o rumo dos acontecimentos enquanto é tempo. Quando cheguei lá, no final da tarde, para encontrar alguns desses meus amigos-heróis, ainda não sabíamos que mais uma pessoa (desta vez uma motorista de aplicativo) tinha perdido a vida em uma enchente, nem de todos os estragos na Zona Norte da capital paulista. Aliás, na Zona Oeste, a chuva nem tinha dados as caras ainda. Com todos os motivos para entrar em desespero, essa turma, como eu disse, é muito animada, e otimista. Acreditam que vamos acordar e agir. Gosto de estar com eles porque conseguem me contagiar. Naquele dia, descobri que alguns deles, entre os quais Claudio Ângelo, Gustavo Faleiros e Ricardo Baitelo, ainda conseguem tempo para tocar em uma banda – e não uma banda qualquer. É a Eventos Extremos, nome para não deixar dúvidas sobre a que veio. Com um repertório, na maior parte de versões satíricas de músicas conhecidas, a banda animava os fãs com letras sugestivas como: “Chora, IPCC/Ninguém te deu razão/Queimamos o carvão/E deu ruim/Chora, IPCC/Não tem planeta B/Ninguém ouviu você/E deu ruim/Ah, chupa essa, IPCC/O lobby fóssil ganhou/Nós vamos ferver/Você bem que avisou”. No momento que nos acabávamos na pista dançando ao som de: “Ontem choveu em casa/meu carro afundou/tô sem luz/ e a torneira secou/Mas tá tudo ok/sou negacionista, sem rancor/no meu coração, durmo bem”, os celulares começaram a apitar com mensagens da Defesa Civil sobre a tempestade chegando à região. Alguém da organização avisou para que ninguém saísse, porque as ruas ao redor estavam todas inundadas. Não nos restou nada a fazer, a não ser continuar a festa, com a certeza de tempos de muito sucesso para a Eventos Extremos.